{"id":72343,"date":"2015-05-22T13:23:00","date_gmt":"2015-05-22T13:23:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2015\/05\/22\/universidade-fe-e-cultura\/"},"modified":"2015-05-22T13:23:00","modified_gmt":"2015-05-22T13:23:00","slug":"universidade-fe-e-cultura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/universidade-fe-e-cultura\/","title":{"rendered":"Universidade, F\u00e9 e Cultura"},"content":{"rendered":"<p>A Universidade \u00e9 o local ideal onde a f\u00e9 e a cultura devem procurar a Verdade. O servi\u00e7o Nacional da Pastoral do Ensino Superior quer ajudar a este di\u00e1logo, auxiliando as institui\u00e7\u00f5es a reposicionaram-se na sua fun\u00e7\u00e3o de levar os alunos a fazerem perguntas. No in\u00edcio das suas fun\u00e7\u00f5es enquanto assistente nacional deste servi\u00e7o o padre Eduardo Duque tra\u00e7a \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA os principais objetivos que gostaria de desenvolver, independentemente de quem, no futuro governo, venha a assumir a tutela. <!--more--> <\/p>\n<p> \t<em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia (AE) &#8211; Dias ap&oacute;s a divulga&ccedil;&atilde;o da sua nomea&ccedil;&atilde;o pela Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa, apresentou como objetivo a necessidade de que cada diocese tenha um respons&aacute;vel pela pastoral universit&aacute;ria. Que realidade l&ecirc; na pastoral do ensino superior para formular essa meta?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>Padre Eduardo Duque (ED) &#8211;<\/em> Todas as institui&ccedil;&otilde;es precisam de um motor: se esse motor andar bem, a institui&ccedil;&atilde;o anda bem. Se em cada diocese houver algu&eacute;m que seja o motor, ent&atilde;o a pastoral universit&aacute;ria ter&aacute; express&atilde;o, porque neste momento, n&atilde;o tem representatividade suficiente. Algumas dioceses n&atilde;o t&ecirc;m representa&ccedil;&atilde;o na pastoral nacional.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Que consequ&ecirc;ncias encontra dessa falta?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>ED &#8211;<\/em> O pa&iacute;s n&atilde;o est&aacute; bem representado: as realidades, as viv&ecirc;ncias religiosas. Encontramos uma pastoral nacional centrada em Lisboa, Porto, Braga, Coimbra, Aveiro, mas todas as outras zonas possivelmente n&atilde;o estar&atilde;o t&atilde;o bem representadas. Uma das minhas preocupa&ccedil;&otilde;es &eacute; que em cada diocese haja um motor, algu&eacute;m que puxe, algu&eacute;m que convoque e provoque este encontro entre a Universidade e a Igreja. Caso contr&aacute;rio, a nossa miss&atilde;o n&atilde;o faz sentido.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; At&eacute; para ajudar alguns respons&aacute;veis a trabalhar com os jovens nesse meio, porque muitos n&atilde;o saber&atilde;o como&hellip;<\/em><\/p>\n<p> \t<em>ED &#8211;<\/em> Um dos desafios que estou a sentir, que tenho vindo a sentir, e agora de uma forma mais expl&iacute;cita, &eacute; fazer o que n&atilde;o fizeram comigo. Comecei na pastoral universit&aacute;ria (em Braga, <em>ndr<\/em>) sem forma&ccedil;&atilde;o e a tentar fazer pastoral de forma caseira: tentando aproximar-me das pessoas, sugerindo alguns encontros, ver o que se fazia. Se tivermos uma pastoral universit&aacute;ria mais unificada e simultaneamente, em todas as dioceses, estar&iacute;amos a otimizar recursos e estrat&eacute;gias para quem est&aacute; a come&ccedil;ar.<\/p>\n<p> \tCreio que seria muito importante propor futuramente uma forma&ccedil;&atilde;o para que esse motor, antes de assumir fun&ccedil;&otilde;es, possa preparar-se para o in&iacute;cio do ano. No fundo possa fazer a experiencia e aprender o que &eacute; a pastoral universit&aacute;ria, que atividades se fazem, qual &eacute; a miss&atilde;o da Igreja na Universidade.<\/p>\n<p> \tSe assim for a pessoa desenvolver&aacute; fun&ccedil;&otilde;es com maior seguran&ccedil;a, bem alimentado para poder alimentar os estudantes, professores e funcion&aacute;rios.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Como &eacute; que se deve desenhar a presen&ccedil;a da Igreja no meio universit&aacute;rio?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>ED &#8211; <\/em>Uma das coisas que me &eacute; muito querida &eacute; o di&aacute;logo entre a f&eacute; e a cultura. Creio que existe uma falta de sintonia entre as duas e devemos ajudar a mostrar que n&atilde;o s&atilde;o duas dimens&otilde;es do ser humano mas que ambas coabitam no mesmo espa&ccedil;o, na nossa vida, na mesma pessoa.<\/p>\n<p> \tEstas duas dimens&otilde;es interagem. Do meu ponto de vista, se integradas e, de facto se caminhassem juntas, n&atilde;o saber&iacute;amos separ&aacute;-las: uma f&eacute; que caminha passo a passo na Universidade, uma f&eacute; que caminha pouco a pouco com a cultura da pessoa e, simultaneamente, a cultura que vai &agrave; procura de raz&otilde;es, de verdade.<\/p>\n<p> \tQuer a f&eacute; quer a cultura t&ecirc;m de procurar a verdade e o local ideal &eacute; a Universidade, porque a Universidade ensina a fazer perguntas, n&atilde;o d&aacute; respostas, ou d&aacute; poucas. Deveria levar a pessoa a fazer perguntas.<\/p>\n<p> \tO estudante vai procurar as respostas nos livros, nos apontamentos, online, etc. Mas acima de tudo o professor devia desafiar o aluno. &Eacute; a cultura que desafia o individuo que tem f&eacute;. A pessoa que tem f&eacute;, simultaneamente, est&aacute; a ser desafiada e est&aacute; a responder &agrave;quele ato. Os tempos que estamos a viver s&atilde;o prop&iacute;cios para esta caminhada.<\/p>\n<p> \tIsto leva-nos a pensar que durante muito tempo a Igreja viu a modernidade como um bicho pap&atilde;o e deu-se uma grande separa&ccedil;&atilde;o. Atualmente, est&aacute; a dar-se uma aproxima&ccedil;&atilde;o, a Igreja caminha e est&aacute; em todos os meios, caminha com as dificuldades e alegrias das pessoas. Se &eacute; esta Igreja que caminha, ent&atilde;o &eacute; altura para n&oacute;s potenciarmos e mostrarmos que h&aacute; um caminho a fazer, que &eacute; o caminho da pessoa &#8211; mostrar que a pessoa que tem esta dimens&atilde;o religiosa, uma dimens&atilde;o da procura, &eacute; tamb&eacute;m a pessoa que procura a sua realiza&ccedil;&atilde;o e, dentro de si, ser melhor pessoa. E isto acontece onde? Na pessoa. N&oacute;s somos um s&oacute;.<\/p>\n<p> \tFernando Savater, inspirado numa ideia aristot&eacute;lica, dizia que existe um problema quando n&oacute;s pensamos que somos um s&oacute;. N&oacute;s somos um s&oacute; em v&aacute;rias dimens&otilde;es, mas a pessoa torna-se mais rica quando ela pr&oacute;pria aprende a conviver com as suas v&aacute;rias realidades. Em si faz a pr&oacute;pria simbiose. Aquela pessoa que sente este chamamento de Jesus est&aacute; simultaneamente a cultivar-se.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Nesse encontro, poder&iacute;amos colocar a f&eacute; e a ci&ecirc;ncia, tantas vezes vistas como antagonistas?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>ED &#8211;<\/em> Eu n&atilde;o assumiria esta miss&atilde;o se pensasse de outra forma. A Universidade &eacute; o local ideal para se procurar a verdade. A verdade &eacute; o di&aacute;logo entre a f&eacute; e a ci&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> \tNa Antiguidade havia uma raz&atilde;o que dava sentido a tudo. Essa raz&atilde;o aproximava-se muito da cosmologia religiosa. A religi&atilde;o explicava tudo. Entretanto, esta raz&atilde;o explicadora foi-se diferenciando em v&aacute;rios saberes, v&aacute;rias ci&ecirc;ncias e encontramos uma raz&atilde;o diferenciada.<\/p>\n<p> \tMax Webber diz que &eacute; desta diferencia&ccedil;&atilde;o da raz&atilde;o que proliferam v&aacute;rias esferas de sentido, v&aacute;rias esferas de valor. &Eacute; aqui, nesta raz&atilde;o diferenciada, que acontece um encontro mais verdadeiro. Na express&atilde;o de Webber, como existem muitas esferas de sentido, a pessoa tem muitos caminhos para eleger e procurar.<\/p>\n<p> \tA grande quest&atilde;o &eacute;: nesta oferta com tanta diferencia&ccedil;&atilde;o da raz&atilde;o n&oacute;s procurarmos o nosso caminho e cada pessoa deve fazer esse caminho, a procura da verdade. Para quem &eacute; crente e crist&atilde;o, a sua verdade &eacute; o encontro com Cristo. Os tempos que vivemos s&atilde;o brilhantes para que cada ser humano encontre esta verdade.<\/p>\n<p> \tS&atilde;o Jo&atilde;o da Cruz tem uma frase interessante, porque diz que perder-se na estrada &eacute; encontrar o caminho. A raz&atilde;o diferenciada &eacute; a grande estrada e, &agrave;s vezes, perder-se nesta estrada &eacute; encontrar o caminho. No meio destes saberes, da pluralidade de tanta oferta t&atilde;o t&iacute;pica da p&oacute;s-modernidade, saber encontrar o seu caminho e a sua verdade &eacute; estupendo.<\/p>\n<p> \tCreio que d&aacute; simultaneamente uma frescura &agrave; vida, torna-a mais leve. Temos de tornar a nossa vida mais leve, n&atilde;o s&oacute; para nos sentirmos bem mas tamb&eacute;m para a transmitir aos outros. Em tempos t&atilde;o dif&iacute;ceis, &eacute; importante saber escolher. Para isso &eacute; preciso ter raz&otilde;es para escolher bem.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Recentemente o Secret&aacute;rio de Estado do Ensino Superior, Jos&eacute; Ferreira Gomes, afirmou a necessidade de, perante os desafios demogr&aacute;ficos, a Universidade se reinventar. Que contributo pode a Igreja dar a esta reinven&ccedil;&atilde;o do ensino superior?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>ED &#8211;<\/em> Creio que Portugal &#8211; n&atilde;o s&oacute; o nosso pa&iacute;s mas outros igualmente &#8211; vai ter de fazer uma s&eacute;ria reflex&atilde;o sobre o Ensino Superior, porque pode estar a enveredar por um caminho de racionaliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> \tPoderemos n&atilde;o vir a ter alunos para todas as Universidades, o que levar&aacute; a um redimensionamento das institui&ccedil;&otilde;es que, naturalmente, est&atilde;o muito preocupadas com n&uacute;meros, em cativar os alunos e menos em propor pensamento, em procurar a verdade de que falamos.<\/p>\n<p> \tClaro que &eacute; importante ter alunos, tal como &eacute; importante ajustar a oferta &agrave;s necessidades do mercado. Mas que a Universidade seja o local onde cada aluno possa encontrar a verdade; onde os professores n&atilde;o sejam simples funcion&aacute;rios, mas aqueles que professam a verdade. Ent&atilde;o o aluno &eacute; tocado por aquele docente perante o que lhe est&aacute; a ser ensinado.<\/p>\n<p> \tCreio que vale a pena repensar as Universidades em Portugal e neste sentido, se assim pudermos contribuir, aportando uma ou outra ideia, no sentido de lutarmos contra um pensamento muito neoliberal. Ajudarmos a que a Universidade seja o local da procura da verdade e n&atilde;o tanto a institui&ccedil;&atilde;o que anda no af&atilde; de encontrar alunos para a sua subsist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; A Igreja deseja ser condutora da procura da verdade, do bem e da beleza, tamb&eacute;m aqui na pastoral do ensino superior, como explicou, mas n&atilde;o podemos esquecer que a presen&ccedil;a da Igreja na Universidade &eacute; tamb&eacute;m um ponto de apoio social e econ&oacute;mico para muitos alunos&hellip;<\/em><\/p>\n<p> \t<em>ED &#8211;<\/em> Nos &uacute;ltimos anos a Pastoral do Ensino Superior fez uma reflex&atilde;o em torno dessa quest&atilde;o, que se poder&aacute; colocar novamente, porque haver&aacute; alunos que continuam a n&atilde;o ter as suas necessidades b&aacute;sicas satisfeitas para ingressar no ensino superior.<\/p>\n<p> \tEm Braga &ndash; e falo de Braga porque, neste aspeto, &eacute; a realidade que conhe&ccedil;o melhor &ndash; ajudamos imenso v&aacute;rios alunos, em especial vindos do PALOP. S&atilde;o alunos que chegam a Portugal &agrave; procura de um pa&iacute;s cor de rosa, onde possam estudar e simultaneamente encontrar trabalho para compensar o pagamento das propinas. Mas este Portugal, hoje, n&atilde;o existe.<\/p>\n<p> \t&Eacute; preciso pensar se muitos dos alunos que v&ecirc;m dos PALOP est&atilde;o de facto bem conscientes da nossa realidade econ&oacute;mica e social para que n&atilde;o venham enganados.<\/p>\n<p> \tTemos ajudado muitos alunos, &eacute; verdade, alguns portugueses tamb&eacute;m. Creio que valer&aacute; a pena fazer uma reflex&atilde;o conjunta e, talvez numa das pr&oacute;ximas reuni&otilde;es, pensar sobre a melhor forma e, no fundo, fazer um diagn&oacute;stico da procura e apoio por parte dos alunos.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Alguns para n&atilde;o desistirem dos seus cursos&#8230;<\/em><\/p>\n<p> \t<em>ED &#8211;<\/em> Vamos acompanhando algumas situa&ccedil;&otilde;es, todavia em conjunto, este ano n&atilde;o fizemos uma an&aacute;lise desta quest&atilde;o. Gostaria de a fazer em breve para repensar a nossa forma de ajuda e estar verdadeiramente junto dos estudantes porque &eacute; essa a nossa miss&atilde;o.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O Ensino Superior sofreu, com o &uacute;ltimo governo, uma &laquo;descategoriza&ccedil;&atilde;o&raquo;, estando sobe a al&ccedil;ada de uma secretaria de Estado. O ministro Nuno Crato est&aacute; a encerrar fun&ccedil;&otilde;es e o padre Eduardo Duque est&aacute; a inici&aacute;-las. Como gostaria que fosse a parceria estabelecida com o futuro governo nesta &aacute;rea, independentemente de se manter como secretaria de Estado ou como minist&eacute;rio?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>ED &ndash; <\/em>Independentemente de quem vai estar em fun&ccedil;&otilde;es, seja o professor Nuno Crato ou outro no lugar, o que me preocupa n&atilde;o &eacute; a pessoa em si mas o modelo de Universidade porque implica uma pessoa.<\/p>\n<p> \tO que queremos para a nossa sociedade? Que tipo de pessoa queremos? O nosso contributo pode ser mais nessa reflex&atilde;o. N&atilde;o s&oacute; mandatados pela Doutrina Social da Igreja, ajudando quem precisa, mas tamb&eacute;m no dom&iacute;nio da reflex&atilde;o.<\/p>\n<p> \tO que podemos fazer para contribuir para criar uma Universidade mais aut&ecirc;ntica, que ajude a formar melhor as pessoas, que cada pessoa ganhe autoconsci&ecirc;ncia?<\/p>\n<p> \tCreio que a nossa posi&ccedil;&atilde;o dever&aacute; ser neste caminho, independentemente de quem venha a ser respons&aacute;vel prelo setor. O mais importante seria resgatar a Universidade de um caminho t&atilde;o preocupado com n&uacute;meros &ndash; e a quest&atilde;o demogr&aacute;fica vai colocar-se indubitavelmente &ndash; mas retirar a Universidade destas preocupa&ccedil;&otilde;es e lev&aacute;-la para o seu local certo que, acreditamos, &eacute; ajudar a formar homens e mulheres.<\/p>\n<p> \t<em>LS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Universidade \u00e9 o local ideal onde a f\u00e9 e a cultura devem procurar a Verdade. 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