{"id":71903,"date":"2015-04-17T11:50:00","date_gmt":"2015-04-17T11:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2015\/04\/17\/desfocados\/"},"modified":"2015-04-17T11:50:00","modified_gmt":"2015-04-17T11:50:00","slug":"desfocados","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/desfocados\/","title":{"rendered":"Desfocados"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Aguiar Campos, Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais <!--more--> <\/p>\n<p> \tJulgo que a maioria dos que me l&ecirc;em ainda se recorda do &quot;velho&quot; m&eacute;todo de fotografar. Pode mesmo dar-se o caso de conservar a c&acirc;mara anal&oacute;gica, como forma de agradecer a eterniza&ccedil;&atilde;o de importantes momentos e manifesta&ccedil;&otilde;es de afecto. Lembra-se tamb&eacute;m, por certo, do cuidado posto em cada fotografia e do exigente crit&eacute;rio que antecedia cada flash: &ldquo;Vale a pena gastar rolo?&quot;; &quot;Ponham-se l&aacute; direitos, que eu vou contar at&eacute; tr&ecirc;s!&quot;; &quot;A Fernanda mexeu-se e l&aacute; est&aacute; estragada mais uma&#8230;&quot;.<\/p>\n<p> \tQuando se tratava de mudar o rolo, havia mil cuidados; na hora de passar pela revela&ccedil;&atilde;o, o suspense era mais que muito: quantas fotos teriam ficado realmente bem?.. O desgosto era mais que muito quando se recebia o relat&oacute;rio oral das tremidas, das desfocadas, das queimadas ou das escuras&hellip;A ponto de estarmos dispostos a pagar mais alguma coisa, se nos apresentavam a eventualidade de arriscar uma revela&ccedil;&atilde;o melhorada.<\/p>\n<p> \tVeio o digital e aliviou-nos. Mas tanto, que nos descuidou, permitindo banalizar o gesto de fotografar esquecendo a arte de escrever com luz.<\/p>\n<p> \tHoje aponta-se a c&acirc;mara ou o telem&oacute;vel a (quase) tudo o que mexe ou atrai a esquina do olhar. De facto, de imediato se pode apagar, repetir, corrigir. O cart&atilde;o de mem&oacute;ria facilmente se descarrega para uma pasta qualquer, onde a qualidade e o lixo esperam, iguais em dignidade!, o tempo de uma criteriosa selec&ccedil;&atilde;o &#8212; que at&eacute; pode nem ser feita, porque alguns apenas d&atilde;o &agrave; mania chinesa\/japonesa da multiplica&ccedil;&atilde;o. Fotografar parece ser at&eacute; uma forma de pregui&ccedil;a que nos deixa passar levianamente por s&iacute;tios ou pessoas, a rever no sof&aacute;, quando houver tempo. A democratiza&ccedil;&atilde;o da fotografia redundou, assim, na banaliza&ccedil;&atilde;o e descuido: fotografamos sem exig&ecirc;ncia nem foco!&#8230;<\/p>\n<p> \tImporta, entretanto, admitir que esta banalidade do olhar n&atilde;o est&aacute; simplesmente na facilidade da c&acirc;mara: entrou e mora em n&oacute;s.<\/p>\n<p> \tHoje estamos, importa admiti-lo, demasiadas vezes desfocados do essencial. Perseguidores de instantes, parecemos incapazes da arte de saborear, compreender e explicar. Instalamo-nos confortavelmente na facilidade do &ldquo;delete&rdquo;, que n&atilde;o implica custos nem deixa remorsos. &ldquo;Partimos para outra&rdquo;, como s&oacute;i dizer-se &ndash; vivendo constantemente mais &agrave; frente que o hoje!&#8230;<\/p>\n<p> \tNa pol&iacute;tica, por exemplo, os problemas adiam-se para as elei&ccedil;&otilde;es que se avizinham &#8212; ao mesmo tempo que estas se descuidam, de imediato, em nome das que h&atilde;o-de vir. As reuni&otilde;es improvisam-se e multiplicam-se, porque n&atilde;o assentam debates nem acentuam o que &eacute; determinante resolver, ocupando-se a abanar rama das coisas. Nas conversas da fam&iacute;lia, o sabor da presen&ccedil;a &eacute; silenciado pela incomunica&ccedil;&atilde;o, ou azedado pelas discord&acirc;ncias do que pode vir a ser. At&eacute; na Igreja, quando falta beber o sumo de um conc&iacute;lio de h&aacute; 50 anos, queremos j&aacute; outro&#8230;que outros deixar&atilde;o, porventura, incumprido.<\/p>\n<p> \tMas voltemos &agrave; fotografia, como met&aacute;fora: estamos, diariamente, a abusar da facilidade. O cora&ccedil;&atilde;o e o pensamento parecem alheios ao registo. Depois, espantamo-nos com as surpresas. Estamos superficiais e desfocados!&#8230;<\/p>\n<p> \tAtra&iacute;dos pelo desejo de consenso, descuramos o debate e parecemos ignorar que o acordo por omiss&atilde;o n&atilde;o &eacute; habilidade mas, na maioria das vezes, debilidade.<\/p>\n<p> \tEu creio profundamente na bondade e na miseric&oacute;rdia. Mas gosto de as ver servidas por uma voz que, na turma em desordem nas &uacute;ltimas filas, n&atilde;o se limite a um pedido discreto aos silenciosos alunos da frente: &laquo;V&aacute; l&aacute;, meninos, portem-se bem!&raquo;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Aguiar Campos, Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[140,182],"class_list":["post-71903","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-editorial","tag-comunicacoes-sociais","tag-diocese-de-viana-do-castelo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71903","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71903"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71903\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71903"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71903"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71903"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}