{"id":71683,"date":"2015-04-02T13:59:00","date_gmt":"2015-04-02T13:59:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2015\/04\/02\/igreja-cultura-faleceu-o-cineasta-manoel-de-oliveira\/"},"modified":"2015-04-02T13:59:00","modified_gmt":"2015-04-02T13:59:00","slug":"igreja-cultura-faleceu-o-cineasta-manoel-de-oliveira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-cultura-faleceu-o-cineasta-manoel-de-oliveira\/","title":{"rendered":"Igreja\/Cultura: Faleceu o cineasta Manoel de Oliveira"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA em 2007 abordou paix\u00e3o pelo \u00abcinema de artesanato\u00bb <!--more--> <\/p>\n<p> \tPorto, 02 abr 2015 (Ecclesia) &ndash; O realizador de cinema, Manoel de Oliveira, faleceu esta manh&atilde;, no Porto, com 106 anos.<br \/> \tA Ag&ecirc;ncia ECCLESIA publica de novo a entrevista que o cineasta concedeu em junho de 2007, quando foi anunciado como vencedor do Pr&eacute;mio de Cultura Padre Manuel Antunes, na altura com 98 anos de idade.<\/p>\n<p> \t<strong>Paix&atilde;o pelo cinema de artesanato<\/strong><\/p>\n<p> \t<em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &#8211; Quem &eacute; este Manoel de Oliveira que aos 98 anos ainda respira cinema?<br \/> \tManoel de Oliveira (MO) &#8211;<\/em> Sou eu.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Viveu e vive do cinema. Como &eacute; que com esta idade ainda consegue transportar a garra e a for&ccedil;a para a s&eacute;tima arte?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Eu vivo para o cinema n&atilde;o vivo dele. Pelo contr&aacute;rio, o meu cinema vive de mim e eu vivo da minha experi&ecirc;ncia e do meu conhecimento. Enfim, das minhas paix&otilde;es de que o cinema se apoderou.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Para si, o cinema &eacute; uma paix&atilde;o?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Pode-se dizer que &eacute; uma paix&atilde;o&#8230; Melhor, &eacute; uma voca&ccedil;&atilde;o. As pessoas est&atilde;o vocacionadas para determinadas coisas e n&atilde;o para outras. Poderia ser pintor, escultor &#8211; gosto muito de escultura &#8211; ou escritor. N&atilde;o fui doado para tal. Sou um mau escritor e um p&eacute;ssimo pintor.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Costuma pintar?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>N&atilde;o. Desenho apenas d&eacute;cors e alguns apontamentos para marcar as posi&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o t&ecirc;m qualidade art&iacute;stica.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; E a n&iacute;vel da escultura?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Da escultura ainda menos. Em mi&uacute;do fazia bolinhas com miolo de p&atilde;o.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Antes destas voca&ccedil;&otilde;es foi um desportista vencedor. Como passou do lado f&iacute;sico para o lado est&eacute;tico?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> N&atilde;o somos senhores de n&oacute;s pr&oacute;prios. Somos manipulados ou manejados por for&ccedil;as obscuras.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Ou ent&atilde;o iluminadoras?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Sim. N&oacute;s somos criaturas. A cria&ccedil;&atilde;o em si, incluindo os animais, est&aacute; submetida a essas leis e regras inalter&aacute;veis e permanentes. Agimos como criaturas.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Criaturas de Deus?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> A ideia de Deus ergue-se, justamente, face ao nosso mundo, ao cosmos. Ningu&eacute;m nasceu por vontade pr&oacute;pria. Fomos colocados c&aacute; por vontade do Criador, Aquele a quem chamamos Deus. Somos criaturas limitadas e, de certo modo, indefesas. S&oacute; sabemos que quando nascemos iremos morrer&#8230;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Com esta idade j&aacute; pensou na morte?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> A morte &eacute; algo que nos acompanha&#8230; A ideia, o receio, o pensamento, o medo, o mist&eacute;rio e o segredo da morte. Algu&eacute;m disse que: &laquo;Se Cristo n&atilde;o Ressuscitou, toda a nossa f&eacute; &eacute; v&atilde;&raquo;. &Eacute; o segredo da morte&#8230;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Com o passar dos anos, nota esta inquieta&ccedil;&atilde;o religiosa?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>A inquieta&ccedil;&atilde;o religiosa nasceu perante o universo e da nossa presen&ccedil;a no mundo. Desde os primeiros homens, esse impacto face ao universo e &agrave; cria&ccedil;&atilde;o que o rodeia coloca-nos o problema do Criador. A verdade &eacute; que a cria&ccedil;&atilde;o &eacute; um facto vis&iacute;vel.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Um dia afirmou: &laquo;Se pudesse j&aacute; tinha comprado um bilhete para o c&eacute;u&raquo;. Ainda pensa com frequ&ecirc;ncia na compra desse bilhete?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Sim. N&atilde;o se perde nada com isso. S&oacute; se pode ganhar. Se o c&eacute;u existe&#8230; &eacute; bom que se tenha o bilhete.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Apelo &agrave; sua mem&oacute;ria que nos recorde os seus tempos de inf&acirc;ncia<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Nos meus tempos de inf&acirc;ncia pensava que iria para engenharia. Era mau aluno e n&atilde;o fiz curso nenhum. Sou mais de intui&ccedil;&otilde;es. A minha aprendizagem fundamental nasceu da leitura &#8211; grande parte dela ligada &agrave;s coisas do cinema &#8211; mas tamb&eacute;m do conv&iacute;vio, desde muito jovem, com intelectuais. Forneciam-me conhecimentos muito ricos. Este tipo de conv&iacute;vio ainda mantenho, apesar de muitos deles j&aacute; terem morrido. Tal como desaparecerem os meus irm&atilde;os e os meus primos.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Um dos seus irm&atilde;os, o Casimiro, matriculou-se consigo na Escola de Cinema de Rino Lupo para aprenderem as primeiras t&eacute;cnicas cinematogr&aacute;ficas.<br \/> \tMO &#8211;<\/em> A escola de Rino Lupo era uma escola de actores. S&oacute; tivemos duas li&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o aprendi nada l&aacute;. Apenas diziam para fazer uma cara de terror ou, ent&atilde;o, para sorrir. Era apenas &acirc;nsia de conhecer.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Quando foi para essa escola, j&aacute; tinha tido uma experi&ecirc;ncia no filme &laquo;F&aacute;tima Milagrosa&raquo;?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Participei como figurante nesse filme realizado por Rino Lupo. Eu, o meu irm&atilde;o e outro amigo &eacute;ramos os pretendentes de uma menina rica que tocava piano. Como o cinema era mudo, sorr&iacute;amos apenas para a menina.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Os elementos das tert&uacute;lias (Jos&eacute; R&eacute;gio, Casais Monteiro, Leonardo Coimbra, Delfim Santos, Lopes Gra&ccedil;a e Gaspar Sim&otilde;es) foram importantes para a sua vis&atilde;o do mundo e transmitir esse mundo nas salas do cinema?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Devo-lhes muito da minha cultura. Toda essa gente j&aacute; l&aacute; vai mas vieram outros&#8230; Actualmente, tenho o Pe. Jo&atilde;o Marques que &eacute; um historiador. &Eacute; o meu conselheiro hist&oacute;rico. N&atilde;o fa&ccedil;o nada nesta &aacute;rea sem o consultar. H&aacute; um filme &#8211; &laquo;Non ou V&atilde; Gl&oacute;ria de Mandar&raquo; &#8211; onde ele e outro historiador fazem a &laquo;d&eacute;coupage&raquo; para que n&atilde;o existam erros hist&oacute;ricos.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; J&aacute; realizou dezenas de filmes. Qual deles &eacute; a obra-prima?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> &Eacute; o pr&oacute;ximo. Estou a acabar de filmar &laquo;Crist&oacute;v&atilde;o Colombo &#8211; o enigma&raquo;. &Eacute; baseado num livro de Manuel Luciano da Silva onde se chega &agrave; conclus&atilde;o que, afinal, Crist&oacute;v&atilde;o Colombo era portugu&ecirc;s. Achei interessante a ideia &#8211; n&atilde;o importa que seja portugu&ecirc;s, italiano ou espanhol &#8211; porque o que conta &eacute; o feito. A programa&ccedil;&atilde;o e cria&ccedil;&atilde;o do sistema dos descobrimentos. Fernando Pessoa disse: &laquo;Os descobrimentos, mesmo aqueles feitos pelos estrangeiros, ser&atilde;o sempre portugueses&raquo;. O sistema &eacute; portugu&ecirc;s.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Os portugueses foram os pais dos descobrimentos&#8230;<br \/> \tMO &#8211; <\/em>O infante D. Henrique &#8211; era aqui do Porto &#8211; determinou as coisas com muita intelig&ecirc;ncia. Instalou-se no Cabo de Sagres e foi a G&eacute;nova (It&aacute;lia) buscar os capit&atilde;es que conheciam melhor as navega&ccedil;&otilde;es &#8211; feitas, sobretudo, no Mediterr&acirc;neo &#8211; e trouxe-os para Sagres. Havia m&eacute;todo. N&atilde;o foi apenas uma aventura.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O seu cinema tamb&eacute;m &eacute; aventura. Est&aacute; para al&eacute;m do horizonte?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Tudo est&aacute; para al&eacute;m do horizonte porque n&atilde;o sabemos o que &eacute; o futuro. O futuro &eacute; sempre um devir&#8230; por vezes parado mas, sobretudo, inesperado. N&atilde;o advinhamos e n&atilde;o sabemos o passo que damos amanh&atilde;. Muitas vezes, enganamo-nos no caminho, esquecemo-nos. A nossa mem&oacute;ria come&ccedil;a a falhar com a idade porque somos limitados. Sem mem&oacute;ria n&atilde;o sabemos quem somos, onde estamos e o que fazemos.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; &Eacute; o &uacute;nico cineasta no mundo que ainda vem do tempo do cinema mudo. A t&eacute;cnica trouxe novas realidades e altera&ccedil;&otilde;es para a S&eacute;tima Arte?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Trouxe mas tamb&eacute;m prejudicou.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Aponte-nos alguns pontos positivos e negativos desta evolu&ccedil;&atilde;o.<br \/> \tMO &#8211;<\/em> A arte &eacute; express&atilde;o enquanto a t&eacute;cnica pertence ao campo da ci&ecirc;ncia. A t&eacute;cnica pode ajudar ou prejudicar na express&atilde;o. Actualmente, o cinema est&aacute; mais baseado nos efeitos t&eacute;cnicos do que na express&atilde;o art&iacute;stica. Eu opto mais pela simplicidade da express&atilde;o dos gregos (da Antiga Gr&eacute;cia) e do realismo da Renascen&ccedil;a do que pelos efeitos espampanantes que n&atilde;o dizem nada. Eles distraem o olhar e exploram, por vezes, o pr&oacute;prio sentimento. Esta explora&ccedil;&atilde;o do sentimento e sofrimento &eacute;, muitas vezes, perversa. &Eacute; masoquismo.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Nunca esteve tentado a realizar este cinema comercial?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>N&atilde;o estou contra isso nem a favor. O que &eacute; o cinema comercial? O comercial &eacute; uma ind&uacute;stria. Eu amo e estimo o cinema de artesanato.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Onde reside a diferen&ccedil;a?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>A ind&uacute;stria repete a mesma coisa milhares de vezes. O artesanato nunca repete. Existem sempre diferen&ccedil;as nas pe&ccedil;as de artesanato. O cinema &eacute; um pouco isso&#8230; N&atilde;o sei se h&aacute; uma deontologia cinematogr&aacute;fica mas muito poucos realizadores no mundo s&atilde;o capazes de distinguir nos seus filmes o que &eacute; privado e o que &eacute; p&uacute;blico. O privado n&atilde;o se mostra. Eu incluo-me nestes realizadores tal com o Hitchock, Bu&ntilde;uel, John Ford e Orson Wells. J&aacute; os gregos diziam: &laquo;Medeia mata os teus filhos mas n&atilde;o em cena&raquo;. &Eacute; bonito e significativo. N&atilde;o explora a viol&ecirc;ncia pela viol&ecirc;ncia, o sexo pelo sexo. O fundo do sexo &eacute; a multiplica&ccedil;&atilde;o da esp&eacute;cie e n&atilde;o o prazer em si.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Situa-se nessa escola que privilegia o p&uacute;blico?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>N&atilde;o &eacute; uma escola mas uma deontologia cinematogr&aacute;fica. Um respeito pela &eacute;tica.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; H&aacute; falta de &eacute;tica no cinema?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> &Eacute; um ponto delicado e complexo. A literatura &eacute; mais aberta a este aspecto. A literatura n&atilde;o &eacute; p&uacute;blica enquanto o cinema e o teatro s&atilde;o p&uacute;blicos. A literatura &eacute; &iacute;ntima. Quem tem um livro, mesmo de bolso, tem um companheiro e nunca est&aacute; s&oacute;. N&atilde;o &eacute; a mesma coisa que o espect&aacute;culo.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O seu cinema n&atilde;o &eacute; intimista?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>MO &#8211;<\/em> O &iacute;ntimo &eacute; imperscrut&aacute;vel. H&aacute; segredos profundos que n&atilde;o revelamos. O &iacute;ntimo pertence a cada um e deve ser respeitado por cada um.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Pertence a cada um e ao Criador?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Um escritor disse: &laquo;Tudo est&aacute; escrito&raquo;. Todo o mal que se pensou ou todo o bem que se praticou est&aacute; escrito.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; As imagens paradas, os longos planos, os di&aacute;logos teatrais e o peso da palavra s&atilde;o marcas dos seus filmes?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>As imagens paradas s&atilde;o fotografias. O cinema d&aacute; movimento &agrave; fotografia. H&aacute; uma diferen&ccedil;a da m&aacute;quina aos pulos e da m&aacute;quina fixa. Uma vez, Pasolini escreveu: &laquo;A m&aacute;quina em movimento &eacute; poesia e a m&aacute;quina fixa &eacute; prosa&raquo;. Na altura n&atilde;o compreendi bem esta distin&ccedil;&atilde;o mas suponho que ele &eacute; aderente &agrave; m&aacute;quina em movimento porque ele penetrava no &iacute;ntimo sem a mais pequena cerim&oacute;nia.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O seu cinema tem esse movimento po&eacute;tico?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>A poesia n&atilde;o precisa de ter movimento. A express&atilde;o &eacute; que pode ser po&eacute;tica ou n&atilde;o. Esta pode ser hist&oacute;rica ou descritiva. N&atilde;o &eacute; o movimento que d&aacute; poesia&#8230; &Eacute; a poesia que d&aacute; movimento ao pensamento e ao sentimento.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Estudou no Porto e na Galiza, num col&eacute;gio dos Jesu&iacute;tas. Os seguidores de S. In&aacute;cio de Loyola tiveram import&acirc;ncia na sua forma&ccedil;&atilde;o humana?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Os Jesu&iacute;tas eram excelentes educadores, eu &eacute; que era mau aluno. (Risos)<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Mas os livros do Pe. Ant&oacute;nio Vieira marcaram-no imenso. Fez mesmo um filme sobre este jesu&iacute;ta do s&eacute;culo XVII.<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Para realizar esse filme recorri aos conhecimentos do Pe. Jo&atilde;o Marques. N&atilde;o se podem cometer erros hist&oacute;ricos. Tanto nesse, como em &laquo;Non ou V&atilde; Gl&oacute;ria de Mandar&raquo;, os historiadores acompanharam-me. O que n&atilde;o sei pergunto a quem sabe.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Para tratar o Pe. Ant&oacute;nio Vieira na S&eacute;tima Arte &eacute; porque notou nele algo de inovador?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> O Pe. Vieira tem dois lados: temporal e intemporal. No primeiro tem um excelente sentido do processo hist&oacute;rico. O lado religioso tamb&eacute;m &eacute; formid&aacute;vel. Ele aconselhou o rei a entregar Pernambuco aos holandeses. Se se concretizasse essa doa&ccedil;&atilde;o, os portugueses teriam boas rela&ccedil;&otilde;es com a Holanda e poder-se-iam fazer bons neg&oacute;cios. Por outro lado, os judeus poderiam voltar para Portugal, visto que foram expulsos aquando a inquisi&ccedil;&atilde;o. Os judeus poderiam desenvolver Portugal e ajudar a renovar a armada que estava bastante destru&iacute;da.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Era um homem com vis&atilde;o?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Tinha uma vis&atilde;o pol&iacute;tica muito sagaz.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Mas foi tamb&eacute;m um grande humanista?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Era contra os abusos sobre os escravos. Participei numa confer&ecirc;ncia no Brasil onde se disse que o Pe. Ant&oacute;nio Vieira defendia mais os &iacute;ndios do que os negros. Os negros quando chegavam &agrave; Am&eacute;rica tinham perdido a identidade, n&atilde;o estavam no seu pa&iacute;s. Os &iacute;ndios estavam nas suas terras. &Eacute; a quest&atilde;o da identidade. Sem identidade n&atilde;o h&aacute; dignidade.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Em rela&ccedil;&atilde;o aos seus filmes, pode dizer-se que o estrangeiro os descobriu primeiro que Portugal?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Sim. A Fran&ccedil;a, It&aacute;lia, Alemanha e Inglaterra. A primeira venda de &laquo;Douro, Faina Fluvial&raquo; foi feita para a Inglaterra.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O &laquo;Douro, faina fluvial&raquo; causou-lhe alguns dissabores? Foi apupado e pateado na estreia.<br \/> \tMO &#8211;<\/em> De modo geral, os meus filmes s&atilde;o mal acolhidos em Portugal. Depois acabam por se impor. Ainda hoje, tanto esse como &laquo;Aniki-B&oacute;b&oacute;&raquo; ainda s&atilde;o muito requeridos. Dizem que os meus filmes n&atilde;o s&atilde;o comerciais mas as distribuidoras n&atilde;o os largam.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; A cr&iacute;tica foi agressiva tanto para o &laquo;Douro, Faina Fluvial&raquo; como para &laquo;Amor de Perdi&ccedil;&atilde;o&raquo; N&atilde;o fica magoado?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> N&atilde;o. Eu sabia que o filme estava correcto. Nas tert&uacute;lias da P&oacute;voa do Varzim aprofund&aacute;vamos muito estas quest&otilde;es. Aprofundei muito o Camilo Castelo Branco que &eacute; um grande escritor. Se fosse alem&atilde;o ou franc&ecirc;s estaria nos p&iacute;ncaros. Teve a infelicidade de nascer neste pa&iacute;s.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; No &laquo;Douro, Faina Fluvial&raquo; mostrou a realidade da Ribeira?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Hoje, essa realidade j&aacute; n&atilde;o existe. Tem uma qualidade hist&oacute;rica formid&aacute;vel. Tem o Douro daquela &eacute;poca (fins dos anos 20). As filmagens foram todas realizadas, em v&aacute;rios dias, depois das quatro da tarde. Tem um fim de tarde muito largo&#8230;. (risos.)<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Utiliza com frequ&ecirc;ncia a sua cidade como cen&aacute;rio dos seus filmes. Para al&eacute;m desse, recordo-me tamb&eacute;m do &laquo;Porto da minha inf&acirc;ncia&raquo;.<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Gostei muito de fazer esse filme. &Eacute; uma esp&eacute;cie de mem&oacute;ria&#8230; O Porto est&aacute; muito diferente. Desapareceu muita coisa. H&aacute; muita gente nova que nem sabe quem &eacute; Salazar. Eu tenho mem&oacute;rias que ningu&eacute;m tem e guardo-as.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Os seus filmes incomodaram o Estado Novo? Teve problemas com Salazar?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Eu n&atilde;o tive problemas com ele mas parece que ele teve problemas comigo. Meteu-me uma vez na cadeia. Os meus filmes n&atilde;o aderiam ao Estado Novo. Incomodavam-no porque eu n&atilde;o era propriamente comunista. O fascismo nasceu para contrariar o comunismo. Aos comunistas, eles n&atilde;o incomodavam muito. O facto de ser comunista era conveniente ao Estado, justificava a sua presen&ccedil;a. Como n&atilde;o era comunista, estava fora desse campo.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Foi preso?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Sim, mas por pouco tempo. Fiz um filme onde invoco essa passagem.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Ent&atilde;o recorda-se do caso de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes com Salazar?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Lembro-me, mas n&atilde;o lidei muito com D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes. Sei que fazia discursos muito demorados e entrava no campo pol&iacute;tico com frequ&ecirc;ncia. Para mim, a religi&atilde;o est&aacute; acima do campo pol&iacute;tico. Se &eacute; religioso n&atilde;o &eacute; partido pol&iacute;tico. Muitos confundem religi&atilde;o com os partidos pol&iacute;ticos. Era natural que a religi&atilde;o tivesse sido perseguida pelos regimes autorit&aacute;rios. Havia tamb&eacute;m a subtileza de ser agrad&aacute;vel &agrave; religi&atilde;o e os bispos tinham de ter a subtileza de se manterem, n&atilde;o arriscar tanto. Isso aconteceu com os Jesu&iacute;tas no tempo do Marqu&ecirc;s de Pombal. &Eacute; um jogo de equil&iacute;brio.<br \/> \tTivemos um grande Papa que foi Jo&atilde;o Paulo II &#8211; este tamb&eacute;m &eacute; &#8211; que uniu as religi&otilde;es e n&atilde;o lhes fez guerra. Temos de aceitar todas as religi&otilde;es porque s&atilde;o diferentes formas de adorar ao mesmo Deus. Isto &eacute; profundamente crist&atilde;o e profundamente humano. As religi&otilde;es quando se tornam pol&iacute;ticas guerreiam-se&#8230; Jo&atilde;o Paulo II foi extremamente s&aacute;bio.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Este ambiente laicista incomoda-o?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Esse lado n&atilde;o &eacute; democr&aacute;tico. Tirar os Cristos e colocar l&aacute; o retrato do presidente da Rep&uacute;blica &eacute;&#8230; Fala-se em toler&acirc;ncia e liberdade na democracia mas estes actos s&atilde;o contradit&oacute;rios. O laicismo torna-se intolerante na medida em que agride as outras posi&ccedil;&otilde;es visto que as outras posi&ccedil;&otilde;es n&atilde;o agridem os laicos. A toler&acirc;ncia &eacute; extraordin&aacute;ria.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Realizou muitos filmes, foi agraciado em muitos festivais internacionais e nacionais. O Pr&eacute;mio de Cultura Pe. Manuel Antunes &eacute; outro a juntar &agrave; colec&ccedil;&atilde;o?<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Tenho muitos pr&eacute;mios. De todo o mundo&#8230; Jap&atilde;o, Am&eacute;rica do Norte, Col&ocirc;mbia, Brasil, Argentina, Canad&aacute;, It&aacute;lia, Fran&ccedil;a, Alemanha, Rom&eacute;nia, Rep&uacute;blica Checa&#8230;<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Sem esquecer o pr&eacute;mio do Vaticano<br \/> \tMO &#8211; <\/em>Eu, como pobre pecador que sou, recebi um pr&eacute;mio do Vaticano. Foi o Mons. Foley quem o entregou. Deu-o a um grande pecador. Tamb&eacute;m recebi pr&eacute;mios dos protestantes e dos judeus.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; O seu cinema atravessa o ecumenismo e o di&aacute;logo inter-religioso?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Tive uma educa&ccedil;&atilde;o crist&atilde;. A identidade europeia &eacute; crist&atilde; e nasceu com a bandeira da Cruz de Cristo. Podemos gostar ou n&atilde;o gostar mas n&atilde;o podemos neg&aacute;-la. O Novo Testamento n&atilde;o nega em nada o Antigo Testamento.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Como reagiu &agrave; atribui&ccedil;&atilde;o do Pr&eacute;mio da Cultura Pe. Manuel Antunes?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Senti-me imerecedor. Os pr&eacute;mios atribu&iacute;dos aos pecadores n&atilde;o s&atilde;o justos (risos)<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Em rela&ccedil;&atilde;o aos outros pr&eacute;mios n&atilde;o invocou a condi&ccedil;&atilde;o de pecador?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Os outros pr&eacute;mios n&atilde;o t&ecirc;m o sentido religioso. Eu sou pecador, os meus filmes n&atilde;o.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; N&atilde;o h&aacute; pecados nos seus filmes?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> (risos). Penso que n&atilde;o.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Ainda h&aacute; for&ccedil;as para o pr&oacute;ximo projecto?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Sinto-me com for&ccedil;as. Incomoda-me mais a falta de meios. O Estado n&atilde;o se interessa pelas coisas art&iacute;sticas. Quando o filme &laquo;Amor de Perdi&ccedil;&atilde;o&raquo; passou em Fran&ccedil;a &#8211; todos os jornais falaram dele &#8211; foi publicado um livro sobre o Camilo Castelo Branco. Isto atraiu o conhecimento para o Fernando Pessoa.<\/p>\n<p> \t<em>AE &#8211; Onde se inspira para escrever os seus argumentos?<br \/> \tMO &#8211;<\/em> Acontece&#8230;<\/p>\n<p> \t<em>LFS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA em 2007 abordou paix\u00e3o pelo \u00abcinema de artesanato\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[122,174,187,192,225],"class_list":["post-71683","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-brasil","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-do-porto","tag-ecumenismo","tag-igreja-cultura"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71683","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71683"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71683\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71683"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71683"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71683"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}