{"id":71599,"date":"2015-03-27T11:43:00","date_gmt":"2015-03-27T11:43:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2015\/03\/27\/as-minhas-cruzes\/"},"modified":"2015-03-27T11:43:00","modified_gmt":"2015-03-27T11:43:00","slug":"as-minhas-cruzes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-minhas-cruzes\/","title":{"rendered":"As minhas cruzes"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Aguiar Campos, Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais <!--more--> <\/p>\n<p> \tA senhora tinha um ar dorido e as m&atilde;os enrolavam-se enquanto ouvia, naquela sala de espera do consult&oacute;rio m&eacute;dico, a paciente sentada a seu lado. Esta desfiava desventuras &ndash; dores de alma e dores do corpo &ndash; umas atr&aacute;s das outras, n&atilde;o se percebendo bem qual delas a tinha levado at&eacute; ali.<\/p>\n<p> \tA senhora do ar dorido intervinha na conversa apenas com monossil&aacute;bicas exclama&ccedil;&otilde;es, ao mesmo tempo que erguia os olhos para o rel&oacute;gio onde o tempo de espera avan&ccedil;ava na parede. Quando a interlocutora fez uma pausa maior, estendeu o seu coment&aacute;rio, sentenciando: &laquo;Olhe, minha senhora, a vida &eacute; mesmo assim&hellip; Todos temos as nossas cruzes!&rdquo;<\/p>\n<p> \tO coment&aacute;rio soou-me a ponto final. E o mesmo deve ter sentido a queixosa, pois ficou em sil&ecirc;ncio, abanando a cabe&ccedil;a e fechando os olhos, como se procurasse l&aacute; dentro o seu calv&aacute;rio privativo.<\/p>\n<p> \tInstintivamente fiz o mesmo, ouvindo, &iacute;ntima, a pergunta que me coloquei: quais s&atilde;o, Jo&atilde;o, as tuas cruzes?<\/p>\n<p> \tPensei nelas ent&atilde;o e repenso-as agora que as confesso. N&atilde;o as enumero todas, mas apenas as que mais me t&ecirc;m do&iacute;do&hellip;<\/p>\n<p> \tT&ecirc;m-me do&iacute;do a cruz da ren&uacute;ncia. D&oacute;i-me cada vez que n&atilde;o a vejo como oferta generosa e alegre daquilo ou daqueles que tenho de deixar. Sim; quando deixo sem dar, sofro o despojamento, a expropria&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o a alegria da prenda desprendida, amiga e amorosa.<\/p>\n<p> \tTem-me do&iacute;do a cruz da pr&oacute;pria dor. A dor esmaga-me cada vez que a vejo como limite e n&atilde;o a compreendo como sinal; cada vez que exclamo que est&aacute; a dar cabo de mim, sem a perceber como recome&ccedil;o, aviso, momento de alicerce, ocasi&atilde;o para relativizar e, paradoxalmente, valorizar a fugacidade dos instantes.<\/p>\n<p> \tTem-me do&iacute;do a cruz do orgulho. Sinto-a quando me dou por ofendido, ou quando n&atilde;o me perdoo nem me deixo perdoar. &Eacute;, ent&atilde;o, uma dor inventada, que nunca existiria se a n&atilde;o criasse na proveta da minha vaidade ou do meu amor-pr&oacute;prio.<\/p>\n<p> \tTem-me do&iacute;do a cruz da incompreens&atilde;o. E esta abarca tanto a m&aacute;goa de n&atilde;o ser compreendido como a incapacidade de compreender que h&aacute; obst&aacute;culos no caminho e dias em que o sol, mesmo nascendo, n&atilde;o se mostra.<\/p>\n<p> \tTem-me do&iacute;do a cruz da superficialidade. Nasce do vazio que fica no fim de cada pressa, de cada avareza que faz mesquinhos os gestos e pensa que &eacute; poss&iacute;vel ser santos de servi&ccedil;os m&iacute;nimos.<\/p>\n<p> \tTem-me do&iacute;do &ndash; coisa estranha? &ndash; a cruz dos dias em que nada me d&oacute;i. Porque descubro depois que fui eu a n&atilde;o querer ver, a n&atilde;o querer sentir, a n&atilde;o querer saber que h&aacute; choros na TV apagada, no r&aacute;dio desligado, ou na rua que escondi nas persianas corridas e silenciei nos vidros duplos.<\/p>\n<p> \tSim; tenho muitas outras dores que ainda hei-de reconhecer, para as ver remidas.<\/p>\n<p> \t<em>Jo&atilde;o Aguiar Campos<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Aguiar Campos, Secretariado Nacional das Comunica\u00e7\u00f5es Sociais<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[140],"class_list":["post-71599","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-editorial","tag-comunicacoes-sociais"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71599","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71599"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71599\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71599"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71599"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71599"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}