{"id":6883,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/ferias-ao-ritmo-das-tradicoes-religiosas\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"ferias-ao-ritmo-das-tradicoes-religiosas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ferias-ao-ritmo-das-tradicoes-religiosas\/","title":{"rendered":"F\u00e9rias ao ritmo das tradi\u00e7\u00f5es religiosas"},"content":{"rendered":"<p>F\u00e9rias e festas s\u00e3o bens do tempo comum.  Entre Pentecostes e Advento, o tempo perde alguma solenidade, mas ganha em popular criatividade. \u00c0s solenes festas do Senhor sucedem-se as festas dos santos. H\u00e1 como que um transcurso do universal culto para a particular devo\u00e7\u00e3o. Logo a seguir ao Domingo de P\u00e1scoa j\u00e1 se identificam sinais de Assun\u00e7\u00e3o Mariana, como se v\u00ea no caso de Nossa Senhora de M\u00e9rcoles (\u00e0 quarta-feira) que, em Castelo Branco se festeja na quarta-feira a seguir \u00e0 P\u00e1scoa, como que em pr\u00f3logo ao longo ciclo Mariano: ciclo da alegria. Se a festa universal do Corpus Christi (ou Corpo de Deus) de algum modo, pela mem\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, representa o maior mist\u00e9rio em pleno tempo comum, a solenidade de Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o vem a ser como que o eixo de todas as festas, marianas ou santorais, que se celebram por toda a parte sob milhentas invoca\u00e7\u00f5es, quer antes quer depois da Assun\u00e7\u00e3o. \u00c9 um per\u00edodo j\u00e1 estival, desde o diluir da Primavera  ao ascenso do Outono, per\u00edodo esse que poder\u00edamos, brincando, situar entre o come\u00e7o das cerejas e o fim das uvas.  S\u00e3o Martinho come\u00e7a a ficar um pouco longe, sobretudo porque as f\u00e9rias j\u00e1 foram e as levas de pessoal que vem de longe \u00e0 terra, j\u00e1 houveram de regressar.   A urbe tem menor sentido do entrosamento f\u00e9rias\/festas, porque acedeu a um grau de profanidade, derivada da insubsist\u00eancia da vida citadina fruto da dif\u00edcil tarefa de se constituir em comunidades festivas.  O mundo rural prevalece no uso e costume da sua religiosidade, em que profano e sagrado se entrosam, mediante uma recep\u00e7\u00e3o dos valores tradicionais e uma amplia\u00e7\u00e3o de factores modernos. O fen\u00f3meno da emigra\u00e7\u00e3o despovoou aldeias, par\u00f3quias e anexos. Em cada ano se institu\u00edam um ou dois casais no cargo de mordomos da festa, para que esta tivesse lugar no tempo e no momento assinalados.  A santa ou o santo como que se tornavam afilhados dos mordomos, por isso que estes, contraindo como que parentesco, passavam a tratar-se por comadres e compadres. Hoje, aldeias despovoadas, este v\u00ednculo de festiva frater-nidade comunial privil\u00e9gio, tornou-se dif\u00edcil, pelo que as mordomias s\u00e3o por via de regra substitu\u00eddas por Comiss\u00f5es de Festas das Par\u00f3quias, ou, em algumas anexas, j\u00e1 se realizam festas religiosas aos oragos locais ou \u00e0s imagens de capelas e de ermidas, organizadas por colectividades de cultura e recreio em sintonia cooperativa com a sede paroquial. Ao despovoamento responde a compensa\u00e7\u00e3o da visita dos filhos emigrados. V\u00eam de Fran\u00e7a, da Inglaterra, da Alemanha, mesmo (embora menos) da Am\u00e9rica, talvez mais nos A\u00e7ores. Enchem as aldeias. Crian\u00e7as bilingues brincam nas ruas, conhecem-se e identificam comunidade de ra\u00edzes. Falam umas com as outras, em l\u00ednguas estranhas e, com os residentes em portugu\u00eas. A par escutamos os sons do franc\u00eas de Paris e os arcaicos fonemas do portugu\u00eas trans-montano, beir\u00e3o ou alentejano.  Sem o regresso dos emigrantes, por tr\u00eas ou quatro semanas, a religiosidade popular seria coisa do passado, mas os emigrantes revigoram a tradi\u00e7\u00e3o. Querem a festa.  Para eles \u00e9 o prato sacral da viagem: o regresso \u00e0s ra\u00edzes, a partilha das aventuras, dos bens e dos males, o deleite dos reencontros e, ainda, o retomar o sabor das boas coisas da terra.  Alteram o ritmo do quotidiano, at\u00e9 na ordem econ\u00f3mica.  Por  via de regra abonados (porque a prud\u00eancia os induziu \u00e0 poupan\u00e7a) esgotam manh\u00e3, manh\u00e3zinha, os produtos tradicionais de comes e bebes nos mercados semanais da vila.  Compram, tanto para consumir na terra, como para levarem para os pa\u00edses onde trabalham. A economia rural beneficia.  A mulher dos queijos sabe que estrat\u00e9gia seguir para obter maior margem  e ter a venda garantida. E o mesmo se diz do homem dos enchidos e dos presuntos e do engarrafador de vinhos. Estes regressos t\u00eam a dupla val\u00eancia de turismo e de peregrina\u00e7\u00e3o. A loca sancta \u00e9 a terra natal.  A imagem divina \u00e9 a que o santo festejado transmite. Muitas pessoas que, em f\u00e9rias, d\u00e3o um \u00fatil apoio aos festeiros,  sobre tudo contribuindo com meios materiais, talvez n\u00e3o hajam recebido da Igreja mais  do que o Baptismo ou, no caso de gente casada, al\u00e9m do Baptismo, o Matrim\u00f3nio.  A festa ser\u00e1 a \u00fanica catequese por essa muit\u00edssima gente vista, ouvida e aprendida. Tudo em religioso sincretismo: o arraial, os foguetes, o bazar, a quermesse, os fest\u00f5es, as bandeiras, as flores pelas ruas, os tapetes de p\u00e9talas, a prociss\u00e3o, as colgaduras nas janelas e nas sacada.  As ruas varridas, por elas passar\u00e1 o Santo Lenho, nas m\u00e3os do senhor Prior, solene, sob o p\u00e1lio, a cujas varas pegam homens de honra, todos os da comunidade desejando esse privil\u00e9gio.  E a banda de m\u00fasica, e o andor ou os andores, os santinhos felizes, v\u00ea-se que sorridentes, nos floridos tronos em que os p\u00f5em para a viagem processional (triunfo, sa\u00edda em gl\u00f3ria) &#8211; os andores. A honra de pegar a uma perna do andor, ou em certas localidades, a honra de meter a imagem na capela, at\u00e9 para o ano que vem.  Finda a prociss\u00e3o, dada a b\u00ean\u00e7\u00e3o final, sa\u00eddos o Santo Lenho, o p\u00e1lio e o sacerdote, arrematam-se as pernas do andor.  Quem d\u00e1 mais? Promitentes ao desafio, mas tamb\u00e9m, mocidade e gente madura, em compita ao social, para ganhar o privil\u00e9gio de meter a imagem na ermida, dando a festa por finda. Outra come\u00e7a depois: a m\u00fasica e, tamb\u00e9m, esses barulhentos pum-puns dos conjuntos, pela noite fora, animando outro segmento de comunidade.  Onde vais? &#8211; \u00c0 festa.  De onde vens? &#8211; Da festa.  Pelo contraste do som de voz se entende o enigma do j\u00fabilo e do retorno ao quotidiano. A religiosidade popular \u00e9 um campo expectante. Precisa, n\u00e3o de interditos, mas de catequeses. N\u00e3o se pode proibir um povo de adornar uma imagem com notas de banco. Tem de se instruir, com paci\u00eancia, at\u00e9 ser ele, povo, a mudar o costume. Num campo expectante tudo \u00e9 poss\u00edvel: lavrar, plantar, semear, ou joio,  ou ciz\u00e2nia, ou p\u00e3o e trigo. Quando se minora o compromisso com a religiosidade popular, abrimos as portas ao \u00eaxito de grupos, de seitas e de ins\u00f3litas piedades religiosas. Se nada houver de excessivo nos costumes, se estes apenas forem express\u00e3o de alegria e de comunh\u00e3o, sigamos o povo.  Na prociss\u00e3o, o Pastor dos Pastores vem atr\u00e1s. O rebanho n\u00e3o se perde. E o tempo comum \u00e9 ainda tempo de Igreja.  J. Pinharanda Gomes <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>F\u00e9rias e festas s\u00e3o bens do tempo comum. Entre Pentecostes e Advento, o tempo perde alguma solenidade, mas ganha em popular criatividade. \u00c0s solenes festas do Senhor sucedem-se as festas dos santos. H\u00e1 como que um transcurso do universal culto para a particular devo\u00e7\u00e3o. Logo a seguir ao Domingo de P\u00e1scoa j\u00e1 se identificam sinais [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[100,104,127,154,191,211,261,267,275,292,320],"class_list":["post-6883","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-nacional","tag-advento","tag-america","tag-catequese","tag-crianca","tag-economia","tag-ferias","tag-missoes","tag-natal","tag-pascoa","tag-religiosidade-popular","tag-turismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6883","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6883"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6883\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6883"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6883"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6883"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}