{"id":6879,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/como-ler-a-biblia\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"como-ler-a-biblia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/como-ler-a-biblia\/","title":{"rendered":"Como ler a B\u00edblia?"},"content":{"rendered":"<p>A exegese b\u00edblica voltou a estar na ordem do dia quando o Pe. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, actual secret\u00e1rio da Comiss\u00e3o Episcopal da Cultura, apresentou a sua tese de doutoramento tendo por base uma aproxima\u00e7\u00e3o narratol\u00f3gica ao Evangelho de Lucas. A interpreta\u00e7\u00e3o dos textos b\u00edblicos continua a suscitar nos nossos dias um vivo interesse e muita discuss\u00e3o, sinal da import\u00e2ncia fundamental da B\u00edblia para a vida da Igreja. O termo exegese vem do grego \u201cek egnomai\u201d, pensar, interpretar, arrancar para fora do texto. A exegese Cat\u00f3lica foi marcada, durante s\u00e9culos, por apegar-se aos m\u00e9todos tradicionais: usava mais a tradi\u00e7\u00e3o do que a B\u00edblia. Mesmo no s\u00e9culo XIX, a tend\u00eancia era ainda conservar a apolog\u00e9tica, a defesa da f\u00e9.  Nessa altura, a B\u00edblia foi colocada em xeque pelo cientificismo, pela seculariza\u00e7\u00e3o, pelo liberalismo racionalista: a resposta da Igreja veio atrav\u00e9s de Le\u00e3o XIII, em 1893, com o Documento  &#8220;Providentissimus Deus&#8221;, uma defesa da B\u00edblia contra os ataques do racionalismo. Ainda persistia, contudo, a impress\u00e3o de que os exegetas cat\u00f3licos, eram impedidos de desempenhar um trabalho cient\u00edfico sem restri\u00e7\u00f5es, e que desta forma a exegese cat\u00f3lica, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 protestante, nunca poderia estar completamente ao n\u00edvel dos tempos. Cinquenta anos depois, em 1943, Pio XII publica um outro documento importante sobre a B\u00edblia, a enc\u00edclica &#8220;Divino Afflante Spiritu&#8221;. Desta vez, a Igreja defende a B\u00edblia contra aqueles que queriam negar uma contribui\u00e7\u00e3o das ci\u00eancias no estudo da B\u00edblia, pugnando por uma interpreta\u00e7\u00e3o apenas &#8220;espiritual&#8221; da B\u00edblia.  A B\u00edblia \u00e9 ao mesmo tempo &#8220;palavra humana&#8221;, e como tal est\u00e1 sob o dom\u00ednio da ci\u00eancia, e \u00e9 tamb\u00e9m &#8220;palavra divina&#8221;, e como tal expressa um sentido &#8220;espiritual&#8221;, n\u00e3o deduzido de interpreta\u00e7\u00e3o subjectiva, mas indicado pela condi\u00e7\u00e3o objectiva do texto. Este \u00e9 o tema do documento &#8220;A Interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia na Igreja&#8221;, de 1993, a cargo da Comiss\u00e3o Pontif\u00edcia B\u00edblica. H\u00e1 hoje em dia diferentes m\u00e9todos de interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia, muito variados nos seus processos e abordagens. Alguns preferem considerar o texto na sua dimens\u00e3o hist\u00f3rica, procurando explicar a sua origem e processo de forma\u00e7\u00e3o; nasce a tese, segundo a qual, \u00e9 preciso percorrer as etapas da g\u00e9nese e evolu\u00e7\u00e3o do texto, evitando qualquer subjectivismo interpretativo. Este m\u00e9todo tem o nome de hist\u00f3rico-cr\u00edtico e articula-se em quatro momentos fundamentais: a cr\u00edtica textual, que procura estabelecer um texto fidedigno, na base de uma compara\u00e7\u00e3o dos manuscritos antigos; a cr\u00edtica filol\u00f3gica; a cr\u00edtica liter\u00e1ria, que analisa a hist\u00f3ria das formas liter\u00e1rias, das tradi\u00e7\u00f5es e da redac\u00e7\u00e3o do texto; a cr\u00edtica hist\u00f3rica, que procura avaliar a credibilidade hist\u00f3rica do que se relata e encontrar o contexto hist\u00f3rico de origem de cada livro. Outra via de interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 a que tenta explicar o texto a partir da sua forma actual, em que o todo esclarece a sua rela\u00e7\u00e3o com as partes e vice-versa. A an\u00e1lise semi\u00f3tica \u00e9 recente e utilizado em conjunto com outros m\u00e9todos cr\u00edticos, atendo-se rigorosamente ao texto.  A aproxima\u00e7\u00e3o narrativa b\u00edblica, por seu lado, aplica ao texto as categorias da narratologia ou estudo da narra\u00e7\u00e3o. O Pe. Tolentino Mendon\u00e7a fala no \u201cregresso ao texto\u201d e trata-se, neste caso, de efectuar uma an\u00e1lise sincr\u00f3nica do mesmo, considerado na sua unidade e coer\u00eancia interna e, mais precisamente, segundo os elementos e as t\u00e9cnicas da narra\u00e7\u00e3o. A exegese can\u00f3nica \u00e9 um m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o recentemente que est\u00e1 particularmente atento \u00e0 forma final do texto b\u00edblico, sem descurar um exame hist\u00f3rico-cr\u00edtico do mesmo. Afirma-se que o sentido b\u00edblico dos textos \u00e9 o can\u00f3nico, o sentido que cada um revela no contexto do conjunto dos livros b\u00edblicos. H\u00e1 ainda quem tenha aplicado \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia a teoria marxista da sociedade. A exegese materialista tem um modo especial de entender as \u201csuperestruturas\u201d de ordem econ\u00f3mica e pol\u00edtica, com a inten\u00e7\u00e3o de valorizar a ideologia revolucion\u00e1ria capaz de mudar a sociedade. Igualmente difundida \u00e9 a exegese fundamentalista ou literal, sobretudo entre as seitas ou movimentos mais conservadores do cristianismo. Este tipo de leitura absolutiza e sacraliza a \u201cletra\u201d da B\u00edblia, rejeitando todas as formas de aproxima\u00e7\u00e3o cr\u00edtica, pressupondo que o texto inspirado tem autoridade e evid\u00eancia indiscut\u00edveis e \u00f3bvia por si mesmas. Ate praticamente ao Conc\u00edlio Vaticano II, de facto, a inspira\u00e7\u00e3o divina da B\u00edblia era entendida como uma ac\u00e7\u00e3o sobrenatural exercida pelo Esp\u00edrito Santo nas faculdades dos escritores b\u00edblicos, movendo-os directa e imediatamente como instrumentos seus, para conceberem rectamente com a intelig\u00eancia e quererem escrever fielmente com a vontade tudo o que o Esp\u00edrito Santo lhes mandasse.  Factores como a reflex\u00e3o b\u00edblico-teol\u00f3gica sobre as ra\u00edzes sociais da inspira\u00e7\u00e3o b\u00edblica, a descoberta de documentos escritos do antigo Pr\u00f3ximo Oriente pelas escava\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas e a aplica\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica hist\u00f3rica e liter\u00e1ria aos estudos b\u00edblicos foram permitindo uma mudan\u00e7a de perspectiva na forma de entender as linguagens da B\u00edblia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A exegese b\u00edblica voltou a estar na ordem do dia quando o Pe. 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