{"id":6863,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/nao-somos-actores-que-interpretam-uma-peca\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"nao-somos-actores-que-interpretam-uma-peca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nao-somos-actores-que-interpretam-uma-peca\/","title":{"rendered":"N\u00e3o somos actores que interpretam uma pe\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>D. Jorge Ortiga na homilia das ordena\u00e7\u00f5es sacerdotais <!--more--> S\u00e3o passados cinco anos sobre a minha tomada de posse como Arcebispo. Os anos passaram rapidamente e os \u201csonhos\u201d continuam inalter\u00e1veis. H\u00e1 estrada feita. Descortino, ainda, muitos horizontes para atingir. Celebrar um anivers\u00e1rio com ordena\u00e7\u00f5es sacerdotais torna-se sinal de esperan\u00e7a. Ter a oportunidade de apresentar um Programa Pastoral que motive e envolva toda a diocese num Ano Vocacional significa abrir o cora\u00e7\u00e3o para da\u00ed extrair uma inquieta\u00e7\u00e3o. Sei que tendo um Programa e uma Nota Pastoral, iremos iniciar um ano de alegrias para al\u00e9m dos resultados imediatos. Estes interessam-nos, mas o Esp\u00edrito pode colocar-nos na novidade de tempos novos com respostas novas e, particularmente, na certeza confiante que Deus n\u00e3o abandona o Seu povo. Sei que a Igreja n\u00e3o s\u00e3o os padres e que as voca\u00e7\u00f5es de especial consagra\u00e7\u00e3o n\u00e3o se limitam aos sacerdotes diocesanos. Penso, por\u00e9m, que, se entrarmos no \u00edntimo das consci\u00eancias, reconheceremos que o presente e o futuro da Igreja, em larga medida, est\u00e1 nas m\u00e3os dos sacerdotes. Somos povo mas, precisamente por isso, necessitamos de timoneiros e esta afirma\u00e7\u00e3o n\u00e3o se aplica apenas a alguns. Ou somos um presbit\u00e9rio unido e alegre no testemunho da vida ministerial ou deturparemos a Igreja na sua originalidade inconfund\u00edvel. Estando em Ordena\u00e7\u00f5es, gostaria de apontar quatro itiner\u00e1rios. Torna-se dif\u00edcil apresentar prioridades. Fa\u00e7o afirma\u00e7\u00f5es sem negar a import\u00e2ncia do contr\u00e1rio. Trata-se de op\u00e7\u00f5es que nada excluem. Manifestam inten\u00e7\u00f5es. Falo, directamente, para os sacerdotes. Agradecia que todos os leigos as aplicassem a si. Tamb\u00e9m para a Igreja a lei dos vasos comunicantes \u00e9 v\u00e1lida e a norma de S. Teresa tem plena actualidade. \u201cUma alma que se eleva, eleva o mundo\u201d. Necessitamos duma emula\u00e7\u00e3o rec\u00edproca. J\u00e1 S. Paulo a recomendava.  1. Ser crist\u00e3o antes de ser padre. Para muitos esta afirma\u00e7\u00e3o pode gerar esc\u00e2ndalo. Pessoalmente, vejo-a como essencial. Sem a coragem de ser disc\u00edpulo, identificando-se com o projecto de Cristo, assumindo um estatuto peculiar e original\u2026 o sacerd\u00f3cio de Cristo n\u00e3o passa e n\u00e3o funciona. Ser crist\u00e3o \u00e9 vida; ser padre pode resumir-se a um funcionalismo mais ou menos competente. Jesus, no Seu amor omnicompreensivo, recusou, o estilo de vida dos sacerdotes da \u00e9poca. Queria a vida de paix\u00e3o por Ele, na atitude de deixar tudo, para percorrermos os caminhos de salva\u00e7\u00e3o da humanidade. Ser crist\u00e3os ser\u00e1 sempre actual e nunca defraudar\u00e1 expectativas. Viver para ser padre pode resumir-se a um estatuto ultrapassado e desenquadrado do contexto. S\u00f3 Cristo \u00e9 de \u201contem, de hoje e de sempre\u201d. O ser crist\u00e3o conduz-nos \u00e0 problem\u00e1tica do minist\u00e9rio ou servi\u00e7o eclesial. Teremos de ser de Cristo antes de fazer as coisas de Cristo ou por Cristo. N\u00e3o somos actores que interpretam uma pe\u00e7a. Somos continuadores duma pessoa. Impressiona-nos os sacrif\u00edcios e trabalhos a que os artistas se sujeitam para interpretar uma determinada personalidade. E n\u00f3s? N\u00e3o precisaremos de percorrer os caminhos da interioridade e voltar a pensar o nosso minist\u00e9rio a partir da ora\u00e7\u00e3o e da contempla\u00e7\u00e3o? Paremos para interiorizar e permitir que os dinamismos \u2013 a for\u00e7a \u2013 de Cristo penetrem no que fazemos.  2. Viver a Palavra antes de anunci\u00e1-la Sabemos que a tarefa primordial da Igreja reside no \u201canunciar\u201d a todos os povos a Boa Nova trazida pelo Mestre. Ningu\u00e9m ignora que urge dar-lhe uma linguagem nova e adoptar todas as t\u00e9cnicas da modernidade. Reconhecemos que h\u00e1 are\u00f3pagos que ainda n\u00e3o pisamos. Penso, por\u00e9m, que todos aceitam a verdade de que hoje pode haver quem comunique melhor do que n\u00f3s e que apresente \u201cprodutos\u201d mais atraentes. O nosso \u201ctrunfo\u201d est\u00e1 na vida, no ser livro aberto daquilo que anunciamos e, por isso, recusamos a incoer\u00eancia como algo inadmiss\u00edvel. N\u00e3o vamos pelo caminho que mais nos conv\u00e9m. Aceitamos uma verdade total que \u00e9 vida e comunic\u00e1mo-la com o ser Sua transpar\u00eancia. Por vezes procuramos imagens para apresentar uma mensagem. \u00c9 imperioso que o fa\u00e7amos. Mas a pedra de choque est\u00e1 no que somos. A sociedade moderna n\u00e3o necessita de vendedores ambulantes que, por vezes, s\u00e3o charlat\u00e3es. Exige-se certifica\u00e7\u00e3o de qualidade que s\u00f3 se encontra naquilo que se transmite pela vida.  3. Viver a comunh\u00e3o antes de celebr\u00e1-la Acreditamos numa Igreja una e queremos que ela cres\u00e7a como casa e escola de comunh\u00e3o. Podemos, por\u00e9m, refugiar-nos no articulado tradicional duma comunh\u00e3o eucar\u00edstica, de efeitos moment\u00e2neos e com atitudes contradit\u00f3rias. Por vezes at\u00e9 nos iludimos a contar o n\u00famero das comunh\u00f5es durante o ano. Sei que n\u00e3o deveria haver eucaristia sem comunh\u00e3o mas, acredito, esta sem experi\u00eancias vitais e comprometidas pode ser acto de piedade indigno. A comunh\u00e3o vive-se no quotidiano entre bispo e sacerdotes, entre sacerdotes e leigos, entre comunidade religiosa e sociedade ou mundo profano. Nunca permitamos rupturas a qualquer n\u00edvel, coloquemos longe de n\u00f3s a indiferen\u00e7a, o ci\u00fame, a inveja, as rivalidades f\u00fateis, as fac\u00e7\u00f5es ou grupos. Somos uma \u00fanica Igreja e Deus fala pela comunh\u00e3o com a humanidade para al\u00e9m da cor, da ra\u00e7a, dos partidos, das opini\u00f5es subjectivas. Quem n\u00e3o \u00e9 capaz de viver e construir comunh\u00e3o, n\u00e3o se pode considerar Igreja.  4. Interpela\u00e7\u00f5es para um Ano Vocacional Neste dia quis deixar aos sacerdotes, para que cheguem a todos os crist\u00e3os, tr\u00eas apelos: ser crist\u00e3o, ser Palavra, ser Comunh\u00e3o. Se nos envolvermos nesta estrat\u00e9gia que \u00e9 a \u00fanica que vale, teremos muitas voca\u00e7\u00f5es de especial consagra\u00e7\u00e3o. E se elas n\u00e3o surgirem, o Esp\u00edrito dir-nos-\u00e1, sem m\u00e1goa para o nosso saudosismo, os caminhos pastorais que teremos de percorrer para que Cristo continue a ser o \u00fanico Salvador. Em dia de anivers\u00e1rio de tomada de posse n\u00e3o posso deixar de agradecer a quantos, sacerdotes e leigos, t\u00eam sido alento e est\u00edmulo. Se tenho sido motivo de desalento ou desencanto para algu\u00e9m, solicito uma ac\u00e7\u00e3o convergente na correc\u00e7\u00e3o fraterna e positiva, para avan\u00e7armos em comum. S\u00f3 com todos encontraremos a consola\u00e7\u00e3o de vidas realizadas e alegres. Durante esta Ano Vocacional n\u00e3o perguntemos o que fazer e como viver. Soltemos as amarras da imagina\u00e7\u00e3o e demos corpo a um conjunto de iniciativas com for\u00e7a de persuas\u00e3o vocacional. Houve um tempo em que a Pastoral Vocacional se apoiava no acompanhar e discernir: hoje necessitava duma cultura do chamamento. Devemos faz\u00ea-lo atrav\u00e9s de Palavras e iniciativas. Sejamos audazes. Mas, dum modo particular, manifestemos a grande felicidade experimentada como consequ\u00eancia duma resposta pessoal coerente e convincente. S\u00f3 o testemunho \u00e9 elucidativo. Gostaria de me colocar na primeira fila. Conto com todos. N\u00e3o gastaremos a vida em v\u00e3o. Para \u201canunciar em plenitude a palavra de Deus\u201d precisamos da tranquilidade que resulta de \u201csentar-se aos p\u00e9s de Jesus\u201d e daqui, como Igreja, encontrar \u201cp\u00e3o\u201d \u201cpara restaurar as for\u00e7as\u201d da apressada humanidade que deve servir. \u201cLevantemo-nos\u201d e partamos em comunh\u00e3o profunda para \u201cmostrar\u201d a \u201cbeleza\u201d dum Deus que ama infinitamente os homens e as mulheres de hoje. Sejamos coragem uns para os outros. Eu quero ser. Conto com todos e cada uma.  + Jorge Ortiga, A. P. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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