{"id":68340,"date":"2014-08-04T10:29:00","date_gmt":"2014-08-04T10:29:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/08\/04\/ferias-lugares-de-encontro\/"},"modified":"2014-08-04T10:29:00","modified_gmt":"2014-08-04T10:29:00","slug":"ferias-lugares-de-encontro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ferias-lugares-de-encontro\/","title":{"rendered":"F\u00e9rias: Lugares de encontro"},"content":{"rendered":"<p>As f\u00e9rias deveriam come\u00e7ar com um encontro pessoal, connosco pr\u00f3prios. Essa \u00e9 a sugest\u00e3o que o padre Vasco Pinto Magalh\u00e3es, jesu\u00edta, deixa para qualquer pessoa que inicie um per\u00edodo de descanso. O autor do livro \u00abS\u00f3 avan\u00e7a quem descansa\u00bb diz ainda que mais do que turistas, dever\u00edamos ser peregrinos, para dar valor e espa\u00e7o ao tempo. S\u00f3 assim se alcan\u00e7a o verdadeiro repouso, cultivando rela\u00e7\u00f5es e n\u00e3o fotografias. <!--more--> <\/p>\n<p> \t<em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia (AE) &ndash; Que oportunidade oferecem as f&eacute;rias?<\/em><\/p>\n<p> \tPadre Vasco Pinto Magalh&atilde;es (PVPM) &ndash; As f&eacute;rias s&atilde;o uma oportunidade mas n&atilde;o s&atilde;o uma oportunidade para todos. As f&eacute;rias n&atilde;o s&atilde;o apenas o tempo de ver&atilde;o; tamb&eacute;m h&aacute; grandes f&eacute;rias de inverno. Devia haver f&eacute;rias de P&aacute;scoa. Acho que dev&iacute;amos rechear todo o nosso tempo de tempos de verdadeiro descanso.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; As f&eacute;rias s&atilde;o mais um estado de alma do que um tempo balizado por esta&ccedil;&otilde;es do ano?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; As f&eacute;rias deveriam ser a capacidade de criar condi&ccedil;&otilde;es e concretizar momentos de humaniza&ccedil;&atilde;o, momentos de paragem, de respirar, de digerir, espa&ccedil;os de sil&ecirc;ncio e de rela&ccedil;&atilde;o. Sobretudo porque vivemos um tempo intensivo, onde a quantidade se sobrep&otilde;e &agrave; qualidade. Acresce a necessidade de parar, caso contr&aacute;rio mastigamos em seco e n&atilde;o assimilamos. Este &eacute; um dos perigos do nosso tempo, que a quantidade perverta a qualidade.<\/p>\n<p> \tEstou convencido que aquilo que nos descansa &eacute; a verdadeira rela&ccedil;&atilde;o humana. Falamos muito uns com os outros, interagimos, mas relacionarmo-nos &eacute; algo que nos pode escapar com grande facilidade. H&aacute; as rela&ccedil;&otilde;es sociais, de trabalho, de fam&iacute;lia, mas a rela&ccedil;&atilde;o que nos descansa, que nos faz aceitar quem somos, que nos ajuda a aceitar o outro &ndash; isso, &eacute; com certeza, o que mais nos descansa.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Mas a rela&ccedil;&atilde;o faz parte do dia-a-dia normal do ano inteiro&hellip;<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Por isso &eacute; que uma pessoa que viva solit&aacute;ria &#8211; ainda que no meio de multid&atilde;o &#8211; se n&atilde;o tiver experi&ecirc;ncia quotidiana, desgasta-se numa rela&ccedil;&atilde;o saud&aacute;vel, afetiva, tranquila.<\/p>\n<p> \tDesde logo a rela&ccedil;&atilde;o consigo pr&oacute;prio. Se eu estou mal comigo, como vou descansar? Se n&atilde;o me entendo, se estou em conflito com realidades e giro mal esse conflito; se a press&atilde;o &eacute; tanta por coisas a mais ou coisas a menos. Realmente dev&iacute;amos come&ccedil;ar pela rela&ccedil;&atilde;o connosco pr&oacute;prios, para aprender a descansar.<\/p>\n<p> \tN&atilde;o &eacute; s&oacute; ter tempo de f&eacute;rias e ter dinheiro para rumar &agrave; montanha ou &agrave; praia. &Eacute; outra coisa. Nesse sentido depende muito do estado de alma, mas tamb&eacute;m de como concretizo e arranjo condi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p> \tUma coisa &eacute; estar nesta paisagem (Casa de Ora&ccedil;&atilde;o de Santa Rafaela Maria, em Palmela); outra &eacute; na Avenida da Liberdade, no meio da barulheira. N&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que precisamos cortar para encontrar ritmos mais humanos.<\/p>\n<p> \tToda a nossa vida &eacute; r&iacute;tmica: inspirar e expirar, alimentar-se e digerir. Mas parece que montamos uma sociedade contra o ritmo, ou ao ritmo de um computador.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Contra o tempo&hellip;<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; A acelera&ccedil;&atilde;o do progresso hoje, sobretudo no mundo da comunica&ccedil;&atilde;o e da inform&aacute;tica, &eacute; t&atilde;o grande que humanamente n&atilde;o temos capacidade para acompanhar. Somos levados pela m&aacute;quina. N&atilde;o estou nada contra o progresso, mas tem uma ambiguidade.<\/p>\n<p> \tN&atilde;o sou capaz de dizer se as pessoas hoje se cansam mais ou menos. Mas h&aacute; um ritmo mais acelerado, que torna mais dif&iacute;cil encontrar um espa&ccedil;o para respirar as &aacute;rvores, ouvir esta cigarra que est&aacute; aqui ao lado a cantar.<\/p>\n<p> \tH&aacute; uma ambiguidade no progresso: certamente &eacute; uma coisa boa, mas vai muito &agrave; frente da nossa capacidade de o digerir e integrar.<\/p>\n<p> \tO facto de estarmos sempre contact&aacute;veis: n&atilde;o vou dizer que &eacute; mau, mas &eacute; perigoso. H&aacute; pessoas que j&aacute; n&atilde;o s&atilde;o capazes de parar. Ficam muito aflitas: falta-me o telem&oacute;vel, tenho de ver os <em>emails<\/em>, n&atilde;o sei o que est&aacute; a acontecer.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; O per&iacute;odo de descanso e de f&eacute;rias pode ser, por isso, um per&iacute;odo de ansiedade, de irritabilidade?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Esse &eacute; um dos grandes perigos e das ambiguidades, provocado pelo facto de quando come&ccedil;amos as f&eacute;rias n&atilde;o come&ccedil;armos com descanso.<\/p>\n<p> \tAs f&eacute;rias podem tornar-se numa correria, uma competi&ccedil;&atilde;o, uma ansiedade para estar em todo o lado, para viver uma s&eacute;rie de coisas, encher um programa incr&iacute;vel. Acaba por ser uma nova canseira. As pessoas regressam de f&eacute;rias a precisar de respirar, de descanso. Por isso distingo as f&eacute;rias e o descanso.<\/p>\n<p> \tOs domingos deixaram de ser tempos de relaxamento, de fazer a s&iacute;ntese, rever a semana e preparar a pr&oacute;xima. Vamos acumulando. Por vezes digo &agrave;s pessoas que n&atilde;o est&atilde;o em descanso mas em ressaca.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; F&eacute;rias, no latim, significa &laquo;dia de festa&raquo;. Estamos preparados para esse dia de festa?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Dev&iacute;amos estar. Mas a festa sup&otilde;e um espa&ccedil;o tranquilo de alegria, uma comunica&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o se faz festa sozinho, porque se perde a rela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> \tPodem fazer-se f&eacute;rias sozinho: h&aacute; a rela&ccedil;&atilde;o com a natureza, pode visitar-se museus. E pode descansar muito. Mas trata-se de enriquecer-se de outras rela&ccedil;&otilde;es construtivas. Por isso a arte, a natureza, a experi&ecirc;ncia da f&eacute; mais desenvolvida, um retiro para comunicar melhor com Deus, sem ansiedade.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Pode ser um tempo para fazer perguntas?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Deve ser. Acho que &eacute; mais importante perguntar do que responder. Estamos sempre &agrave; espera das respostas que geram uma grande ansiedade. &laquo;Que resposta &eacute; que eu dou a isto?&raquo;; mas dev&iacute;amos antes dizer &laquo;que pergunta &eacute; que eu fa&ccedil;o a isto?&raquo;; &laquo;Como &eacute; que se resolve isto?&raquo;; dev&iacute;amos perguntar &laquo;onde &eacute; que isto em leva?&raquo;<\/p>\n<p> \tDev&iacute;amos, desde pequenos, ser ensinados a perguntar, mais do que a responder. A resposta est&aacute; ao n&iacute;vel da intelectualidade, na ideia concebida de que confundimos a vida com um problema. Mas a vida n&atilde;o &eacute; um problema, &eacute; um processo. Aos processos interrogamo-los. Os problemas s&atilde;o te&oacute;ricos. Eu costumo dizer que a vida n&atilde;o tem solu&ccedil;&atilde;o, mas os problemas t&ecirc;m solu&ccedil;&atilde;o. A vida tem percursos, desenvolvimentos, ritmos que v&atilde;o dando resposta ao crescimento.<\/p>\n<p> \tN&oacute;s n&atilde;o fazemos uma crian&ccedil;a crescer metendo-a dentro de um computador, dando-lhe respostas para as quais ela ainda n&atilde;o tem perguntas. &Eacute; preciso que ela tenha perguntas.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Tenha tempo&hellip;<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Tenha tempo. A correria do tempo est&aacute; a estragar-nos a capacidade de amar. O tempo e o amor s&atilde;o indeslig&aacute;veis. Amar &eacute; sobretudo tempo e espera. Se n&atilde;o racionalizamos e torna-se um jogo de conquista ou sedu&ccedil;&atilde;o. Amar &eacute; estar, &eacute; colher, dar tempo no momento da entrega.<\/p>\n<p> \tChristian Bobin, um autor de que gosto muito, dizia que a fadiga bate fortemente a duas portas: ao amor e ao sono. Na correria e no cansa&ccedil;o n&atilde;o somos capazes de amar. Fazemos coisas, temos algumas rela&ccedil;&otilde;es, mas o amor, a amizade, precisa de tempo e, cansados, n&atilde;o somos capazes de amar.<\/p>\n<p> \tDizia ele tamb&eacute;m que no cansa&ccedil;o fechamos a porta ao sil&ecirc;ncio e &agrave; amizade. Porque &eacute; que hoje h&aacute; tantas irrita&ccedil;&otilde;es nas rela&ccedil;&otilde;es humanas, mesmo nas pessoas de quem se gosta? A rela&ccedil;&atilde;o est&aacute; viciada pelo cansa&ccedil;o, por necessidades, por se estar com o pensamento em outro lugar ou pessoa, por estar a fazer duas coisas ao mesmo tempo. O amor tem de ser personalizado, tem de estar centrado no outro.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Tem de haver uma partilha de tempo?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; E acontece isso na amizade. O amor a Deus &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o com os valores, com o absoluto, com a verdade. No meio desta agita&ccedil;&atilde;o de estarmos a fazer tr&ecirc;s coisas ao mesmo tempo, querer responder a solicita&ccedil;&otilde;es simult&acirc;neas, impressionados ainda com pessoas que n&atilde;o t&ecirc;m trabalho e f&eacute;rias, que est&atilde;o s&oacute;s, a carga &eacute; muito forte.<\/p>\n<p> \tN&atilde;o abrimos porta ao sil&ecirc;ncio que seria condi&ccedil;&atilde;o primeira da rela&ccedil;&atilde;o. O sil&ecirc;ncio &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o para ouvir e falar melhor. N&atilde;o &eacute; a aus&ecirc;ncia de comunica&ccedil;&atilde;o. Sabemos que no sil&ecirc;ncio ouvimos a pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia, o outro, descobrem-se outros n&iacute;veis. Isso &eacute; t&atilde;o repousante.<\/p>\n<p> \tMas as pessoas quando est&atilde;o muito cansadas desatam a correr. Uma esp&eacute;cie de tenta&ccedil;&atilde;o de fuga para a frente. Penso muito nisto. Tanta gente cansada, com depress&otilde;es que o tempo curava e a rela&ccedil;&atilde;o curaria. Afinal est&atilde;o no meio da multid&atilde;o mas muito sozinhas.<\/p>\n<p> \t<strong>Pessoas em rela&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; O livro C&acirc;ntico dos C&acirc;nticos deixa indica&ccedil;&otilde;es sugeridas por si. &laquo;Porque eis que passou o inverno, a chuva cessou e se foi. Aparecem as flores na terra, o tempo de cantar chega e a voz da rola ouve-se em nossa terra. A figueira j&aacute; deu os seus figos e as vides em flor, exalam o seu aroma.&raquo; (CT 2, 10- 14) Este trecho relata um passeio partilhado por dois amantes que optam por sair para apreciar a beleza da natureza e o tempo silencioso que a vida pede.<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; &Eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o cheia do ritmo da natureza. N&atilde;o quer ter frutos no inverno. Percebe a beleza das esta&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o quer colher fora do tempo. Tamb&eacute;m na rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se pode colher fora do tempo.<\/p>\n<p> \tO C&acirc;ntico dos C&acirc;nticos &eacute; muito bonito porque h&aacute; afastamento e aproxima&ccedil;&atilde;o, uma esp&eacute;cie de medo de se perder o outro porque est&aacute; longe e n&atilde;o vem na hora que eu queria, mas est&aacute; para vir. &Eacute; muito bonito porque &eacute; o grande retrato da rela&ccedil;&atilde;o com Deus. Mas amamo-nos mal.<\/p>\n<p> \tO C&acirc;ntico dos C&acirc;nticos &eacute; a grande met&aacute;fora da rela&ccedil;&atilde;o. Sem medo de perceber que h&aacute; sentimentos. O que aconteceu com esta hist&oacute;ria de andarmos com os sentimentos a explodir ou recalcados? Criamos o que alguns fil&oacute;sofos chamam de &laquo;imotivismo&raquo;. N&atilde;o controlamos e vivemos das emo&ccedil;&otilde;es; queremos respostas racionais, mas vivemos das emo&ccedil;&otilde;es. O &laquo;imotivismo&raquo; &eacute; uma doen&ccedil;a do nosso tempo. Tudo se faz por impulso, emo&ccedil;&atilde;o e dizemos que temos direito &agrave; emo&ccedil;&atilde;o, ao sentimento, que &eacute; uma grande confus&atilde;o.<\/p>\n<p> \tNesse trecho percebemos que h&aacute; emo&ccedil;&atilde;o, mas n&atilde;o separada da intelig&ecirc;ncia. Perceber os tempos e os modos.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Mostra inteireza?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Mostra que, sem estar fechado dentro de si pr&oacute;prio, se est&aacute; bem centrado em si mesmo. &Eacute; uma distin&ccedil;&atilde;o que gosto de fazer &ndash; uma coisa &eacute; uma pessoa fechada no seu umbigo; outra &eacute; uma pessoa centrada. Uma pessoa centrada pode dar-se a si pr&oacute;pria ou dar o seu centro a outro; uma pessoa umbigada n&atilde;o d&aacute; nem recebe. Essa est&aacute; stressad&iacute;ssima.<\/p>\n<p> \tH&aacute; coisas que hoje dificultam a tranquilidade. As crises econ&oacute;micas e financeiras, o desemprego- como &eacute; que v&atilde;o ter f&eacute;rias e descanso? &Eacute; preciso sabedoria para controlar a ansiedade, quando n&atilde;o se tem dinheiro para alimentar os filhos. O que &eacute; isso de f&eacute;rias? Vai chamar nomes a outro.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Da&iacute; a import&acirc;ncia de percebermos as f&eacute;rias independentemente do local onde estejamos?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Sim, embora haja locais que ajudam. N&oacute;s somos carne e osso, estamos ligados &agrave; natureza, &agrave; press&atilde;o atmosf&eacute;rica, ao ambiente, tudo isso nos faz ser quem somos. Seria uma abstra&ccedil;&atilde;o pensar que sou independente disso tudo. N&atilde;o sou.<\/p>\n<p> \tO que n&atilde;o quer dizer que n&atilde;o haja uma constru&ccedil;&atilde;o que vai funcionando &agrave; medida que vou fazendo decis&otilde;es, que n&atilde;o s&oacute; impulsos. Organizo as f&eacute;rias ou deixo correr? H&aacute; um certo deixar correr como sinal de liberdade, mas tamb&eacute;m n&atilde;o devo ser imprudente, devo planear, mas sem ser escravo.<\/p>\n<p> \tH&aacute; outra doen&ccedil;a do nosso tempo que &eacute; a competi&ccedil;&atilde;o. Estamos sempre a olhar para o outro, o outro est&aacute; a divertir-se e eu n&atilde;o, o outro est&aacute; ali e eu n&atilde;o&hellip;. A competi&ccedil;&atilde;o que leva &agrave; inveja. &Eacute; das coisas que mais cansa. Porque &eacute; a m&aacute; rela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> \t<strong>Turistas ou peregrinos?<\/strong><\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Nas f&eacute;rias, devemos ser turistas ou peregrinos?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Mesmo nas f&eacute;rias devemos ser peregrinos. E n&atilde;o estou nada contra o turismo, gosto de fazer turismo. Quase todos os anos fa&ccedil;o uma viagem com um grupo. Em breve irei &agrave; Sic&iacute;lia, uma ilha que une a hist&oacute;ria passada e o futuro. Pensamos na Sic&iacute;lia e nas pessoas que est&atilde;o a chegar a morrer no Mediterr&acirc;neo.<\/p>\n<p> \tFazer f&eacute;rias n&atilde;o nos devia desligar destas duas realidades: das gra&ccedil;as e das desgra&ccedil;as. Dever&iacute;amos lig&aacute;-las bem. Nesse sentido sou mais peregrino.<\/p>\n<p> \tO turista &ndash; por vezes digo essa frase &ndash; &eacute; andar nesta vida usufruindo e deitando fora o que n&atilde;o interessa. Os turistas que n&atilde;o me levem a mal porque &eacute; muito bom poder viajar e h&aacute; &eacute;pocas na vida em que o turismo faz muito bem, se &eacute; bem organizado, se tem um objetivo. Mas se for um acumular de fotografias&hellip; Lembra-me a historinha do japon&ecirc;s que foi viajar e perguntaram-lhe se tinha gostado. Ele disse: &laquo;N&atilde;o sei, ainda n&atilde;o vi as fotografias.&raquo; Isso &eacute; no mau sentido do turista.<\/p>\n<p> \tO turista, no bom sentido, &eacute; peregrino, sabe o valor do tempo, tem metas, n&atilde;o quer comer tudo de uma vez, trava a gula. Faz uma escolha. Isso &eacute; que descansa. Caso contr&aacute;rio tem-se uma lista imensa de coisas que se viu e onde se esteve, mas vale a pena perguntar &laquo;onde &eacute; que estiveste como pessoa?&raquo; Se entraste na competi&ccedil;&atilde;o, podes dizer que j&aacute; tiveste em muitos locais, mas n&atilde;o estiveste em lado nenhum.<\/p>\n<p> \tA vida &eacute; por a cabe&ccedil;a no c&eacute;u e os p&eacute;s na terra. &Eacute; viver sem abdicar do esp&iacute;rito e dos objetivos, do querer crescer.<\/p>\n<p> \t&Eacute; uma distin&ccedil;&atilde;o que eu gosto de fazer que parece &oacute;bvia mas na pr&aacute;tica n&atilde;o &eacute;: crescer e aumentar. Uma pessoa crescida n&atilde;o &eacute; uma crian&ccedil;a aumentada; &eacute; uma crian&ccedil;a que se transformou, morreu, passou a jovem e agora &eacute; adulto. Mas j&aacute; n&atilde;o &eacute; crian&ccedil;a.<\/p>\n<p> \tA nossa tenta&ccedil;&atilde;o do mundo &eacute; aumentar: as experi&ecirc;ncias, o mundo. E h&aacute; f&eacute;rias que s&atilde;o correr.<\/p>\n<p> \t<em>AE- A poetisa Ad&iacute;lia Lopes diz que &laquo;O tempo &eacute; templo&raquo;.<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; N&atilde;o conhecia e &eacute; bem verdade. Precisa do tempo para cada coisa. O livro do Eclesiastes tem um hino ao tempo. O tempo que vivemos, aquele que desaproveitamos porque estamos presos ao passado ou cegos com o futuro.<\/p>\n<p> \tO nosso templo &eacute; o aqui e o agora. &Eacute; aqui que eu posso por os p&eacute;s no ch&atilde;o, encontrar uma pessoa e olh&aacute;-la, receber o Esp&iacute;rito, abstrair-me do que n&atilde;o interessa. Por isso &eacute; que a ora&ccedil;&atilde;o descansa imenso. Naturalmente quando n&atilde;o &eacute; uma reza aflita. Mas quando a ora&ccedil;&atilde;o significa respirar o Esp&iacute;rito, que &eacute; vento, respira&ccedil;&atilde;o, inspirar e respirar. E por isso n&atilde;o se pode rezar como quem liga um bot&atilde;o, uma m&aacute;quina, porque por vezes estamos ofegantes. Precisamos fechar os olhos, tomar consci&ecirc;ncia de onde estamos, respirar fundo, procurar o objetivo. E ai a conversa acontece. Tal como a conversa de duas pessoas, com ritmo. Caso contr&aacute;rio &eacute; uma viol&ecirc;ncia.<\/p>\n<p> \tH&aacute; tanta viol&ecirc;ncia no nosso mundo. Pela negativa e pela positiva. N&oacute;s abrimos um jornal e n&atilde;o nos d&aacute; descanso. Os jornais n&atilde;o existem para isso, mas deviam dar se as noticias n&atilde;o fossem precipitadas. Sobretudo se n&atilde;o se sobrepusessem. Estamos a cair numa coisa terr&iacute;vel que o Papa Francisco chamou de &laquo;globaliza&ccedil;&atilde;o da indiferen&ccedil;a&raquo;. Como acontecem tantas coisas e ao mesmo tempo, nada vale nada, &eacute; tudo igual.<\/p>\n<p> \tIsto arrasa, nivela por baixo e aburguesa. Tornamo-nos burgueses &ndash; pessoas que t&ecirc;m todos os meios, mas j&aacute; n&atilde;o vibram com nada.<\/p>\n<p> \tA globaliza&ccedil;&atilde;o que &eacute; uma coisa boa, acho eu, mas muito amb&iacute;gua, pela forma como quer ser alcan&ccedil;ada &ndash; tudo para todos ao mesmo tempo.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Coloca-nos em rela&ccedil;&atilde;o mas tira-nos as rela&ccedil;&otilde;es?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Porque aniquila a diferen&ccedil;a. As diferen&ccedil;as &eacute; que nos enriquecem. O Papa Francisco diz uma coisa engra&ccedil;ada, a prop&oacute;sito da globaliza&ccedil;&atilde;o e dos crit&eacute;rios: geralmente pensamos que o ideal da globaliza&ccedil;&atilde;o, enquanto figura, seria a esfera. Mas ele diz que a esfera massifica porque todos os pontos est&atilde;o &agrave; mesma dist&acirc;ncia do centro, como se fossem iguais.<\/p>\n<p> \tO ideal n&atilde;o &eacute; sermos uma esfera mas um poliedro, onde por muitas faces que existam todas s&atilde;o diferentes. A globaliza&ccedil;&atilde;o, quando trata tudo por igual, destr&oacute;i a pessoa. O igualitarismo estimula a competi&ccedil;&atilde;o porque queremos ser diferentes. Devemos s&ecirc;-lo, penso eu.<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Pe&ccedil;o-lhe que nos indique algumas dicas para melhor preparar o tempo de f&eacute;rias. A primeira j&aacute; a deu, no in&iacute;cio da nossa conversa &ndash; marcar esse encontro connosco pr&oacute;prios. H&aacute; mais?<\/em><\/p>\n<p> \tPVPM &ndash; Pensar que vou para f&eacute;rias n&atilde;o apenas para me distrair mas para ter a oportunidade de me encontrar. Encontrar-me comigo, com os outros, com os valores e com o futuro. Viver a comunh&atilde;o com a natureza, os outros.<\/p>\n<p> \tQue as f&eacute;rias n&atilde;o sejam s&oacute; para distrair no sentido do esquecer a realidade presente: fazer um intervalo onde n&atilde;o se pense. N&atilde;o &#8211; pensar em que &eacute; que eu vou pensar. Escolher um bom livro, perceber onde vou ouvir uma boa m&uacute;sica, perceber onde, se sou crente, rezar e como. E isso fazer parte do programa de f&eacute;rias. Seria a dica que eu deixaria.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As f\u00e9rias deveriam come\u00e7ar com um encontro pessoal, connosco pr\u00f3prios. Essa \u00e9 a sugest\u00e3o que o padre Vasco Pinto Magalh\u00e3es, jesu\u00edta, deixa para qualquer pessoa que inicie um per\u00edodo de descanso. 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