{"id":67815,"date":"2014-06-27T10:53:00","date_gmt":"2014-06-27T10:53:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/06\/27\/sophia-uma-poetisa-de-causas\/"},"modified":"2014-06-27T10:53:00","modified_gmt":"2014-06-27T10:53:00","slug":"sophia-uma-poetisa-de-causas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sophia-uma-poetisa-de-causas\/","title":{"rendered":"Sophia, uma poetisa de \u00abcausas\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista a Jos\u00e9 Manuel dos Santos, orador oficial na cerim\u00f3nia de traslada\u00e7\u00e3o dos restos mortais de Sophia de Mello Breyner Andresen para o Pante\u00e3o Nacional <!--more--> <\/p>\n<p> \tO escritor Jos&eacute; Manuel dos Santos vai ser o orador oficial na cerim&oacute;nia de traslada&ccedil;&atilde;o dos restos mortais de Sophia de Mello Breyner Andresen para o Pante&atilde;o Nacional. O diretor cultural da Funda&ccedil;&atilde;o EDP e amigo da fam&iacute;lia da escritora fala &agrave; Ag&ecirc;ncia ECCLESIA da sua obra e do legado que deixou &agrave; sociedade portuguesa<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &ndash; O que &eacute; que esteve na base desta proposta de traslada&ccedil;&atilde;o dos restos mortais da poetisa Sophia de Mello Breyner Andresen para o Pante&atilde;o Nacional?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>Jos&eacute; Manuel dos Santos (JMS) &ndash;<\/em> Eu entendo que algum decl&iacute;nio que todos n&oacute;s sentimos e que nos preocupa nas democracias ocidentais &eacute; acompanhado de uma dessimboliza&ccedil;&atilde;o da pr&oacute;pria democracia, &eacute; preciso dar aos s&iacute;mbolos a sua for&ccedil;a, o seu valor e a sua fun&ccedil;&atilde;o de exemplo.<\/p>\n<p> \tE este ano passam 40 anos do 25 de abril e 10 anos da morte de Sophia, uma grande poeta e cidad&atilde;, que por isso re&uacute;ne em si um valor simb&oacute;lico que deve ser apontado &agrave; nossa comunidade, a todas as gera&ccedil;&otilde;es mas tamb&eacute;m &agrave;s novas gera&ccedil;&otilde;es que ganham em ter conhecimento dessa li&ccedil;&atilde;o, que foi essa vida e que &eacute;, continua a ser, essa obra.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; &Eacute; justo dizer que as novas gera&ccedil;&otilde;es poder&atilde;o conhecer o nome, mas n&atilde;o o associam ao percurso que a poetisa teve?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash; <\/em>Creio que a Sophia tem uma situa&ccedil;&atilde;o um pouco singular, toda a gente a conhece por causa das hist&oacute;rias para crian&ccedil;as.<\/p>\n<p> \tEla &eacute; uma grande autora de hist&oacute;rias para crian&ccedil;as, e portanto toda a gente que leu a &ldquo;Menina do Mar&rdquo; ou &ldquo;O Rapaz de Bronze&rdquo; ficou encantada com aquela capacidade extraordin&aacute;ria de usar uma linguagem acess&iacute;vel a todos e com aquela beleza, aquela vibra&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> \tE por isso todas as pessoas, de todas as gera&ccedil;&otilde;es, conhecem o nome de Sophia, se n&atilde;o leram as hist&oacute;rias, os filhos ou os netos leram, e isso &eacute; um convite a que conhe&ccedil;am o resto da obra de Sophia.<\/p>\n<p> \tA poesia de que foi autora &eacute; elevad&iacute;ssima, extraordin&aacute;ria, e tamb&eacute;m a vida, uma vida que ela quis sempre ligada &agrave; sua pr&oacute;pria obra.<\/p>\n<p> \tEla dizia que escrevia para salvar a vida, portanto a conce&ccedil;&atilde;o que ela tem da poesia n&atilde;o &eacute; de uma carreira liter&aacute;ria, n&atilde;o &eacute; de um lugar proeminente na sociedade.<\/p>\n<p> \tEla dizia: a poesia &eacute; para mim uma arte do ser. E por isso eu escrevo para estar em concord&acirc;ncia com a realidade e com o universo.<\/p>\n<p> \tE desse ponto de vista, &eacute; tamb&eacute;m justo esta liga&ccedil;&atilde;o entre aquilo que foi o seu comportamento humano e o que foi a sua obra, a sua vida.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; E &eacute; isso que &eacute; importante propor nos dias de hoje, da&iacute; a import&acirc;ncia desta cerim&oacute;nia?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Sim, esta cerim&oacute;nia tem enorme import&acirc;ncia porque estamos a falar de algu&eacute;m que &eacute;, a v&aacute;rios t&iacute;tulos, exemplar. N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil reunir numa s&oacute; pessoa esta exemplaridade, uma grande escritora, uma grande mulher, uma grande portuguesa, uma grande cidad&atilde;.<\/p>\n<p> \tNeste tempo, em que todos n&oacute;s estamos preocupados com o que est&aacute; a acontecer, ela representa uma possibilidade de podermos olhar um pouco acima das nossas preocupa&ccedil;&otilde;es, n&atilde;o para as ignorarmos mas para arranjarmos a for&ccedil;a que nos permita ultrapassar os obst&aacute;culos e as dificuldades que todos estamos a viver, em Portugal claramente mas tamb&eacute;m no mundo em geral. &nbsp;<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Faz esta an&aacute;lise atrav&eacute;s da obra po&eacute;tica de Sophia e daquilo que dela emana, mas tamb&eacute;m a partir do contacto que teve com a pr&oacute;pria poetisa.<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash; <\/em>Sim, eu vi uma continuidade entre aquilo que ela era, que ela escrevia, e aquilo que ela pensava, fazia.<\/p>\n<p> \tEra de facto uma personalidade fascinant&iacute;ssima, cuja linguagem n&atilde;o tinha lugares comuns, frases feitas, concess&otilde;es, e portanto conversar com ela era quase como ouvir a poesia dela, dita de outra maneira.<\/p>\n<p> \tEla dizia que a poesia n&atilde;o precisava de festa de anos, porque precisava de ser dita, ouvida, todos os dias. E praticava este princ&iacute;pio, havia uma continuidade absoluta entre o seu viver e o seu escrever.<\/p>\n<p> \tE isso &eacute; tamb&eacute;m aquilo que se pode assinalar com este ato da traslada&ccedil;&atilde;o para o Pante&atilde;o, em que, de alguma maneira, se vai p&ocirc;r a mem&oacute;ria de Sophia &agrave; altura daquilo que ela deu, que ela soube dar &agrave; sua vida e &agrave; sua obra.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Tem mem&oacute;rias, acontecimentos concretos a partir do contacto com ela, que possam exemplificar a discri&ccedil;&atilde;o que faz dela?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Havia nela sempre uma preocupa&ccedil;&atilde;o e uma disponibilidade para aquelas causas que considerava justas. Antes do 25 de Abril, ela teve um combate politico-c&iacute;vico muito importante, disse em v&aacute;rias entrevistas que tinha chegado &agrave; pol&iacute;tica pelo cristianismo, pela leitura do Evangelho e por esse conceito de justi&ccedil;a fundamental que h&aacute; nele.<\/p>\n<p> \tE a seguir ao 25 de Abril, empenhou-se em a&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas concretas, quando achou que essas a&ccedil;&otilde;es eram importantes, quer no plano nacional quer internacional.<\/p>\n<p> \tEla foi deputada da Assembleia Constituinte, e a&iacute; a sua voz a&iacute; levantou-se sempre em defesa dos grandes valores da cultura. Mas foi tamb&eacute;m mandat&aacute;ria de candidaturas presidenciais, esteve por exemplo em a&ccedil;&otilde;es de solidariedade na altura da luta do povo polaco pela liberdade e democracia.<\/p>\n<p> \tPortanto, nunca virou a cara, embora parecesse uma pessoa um pouco despistada e desatenta.<\/p>\n<p> \tH&aacute; muitas hist&oacute;rias sobre as suas distra&ccedil;&otilde;es, chegava normalmente com um ar perdido e atrasado a todo o lado, mas depois quando abria a boca e falava era extraordin&aacute;rio sempre o que dizia.<\/p>\n<p> \tEu gosto de dizer que ela estava desatenta e distra&iacute;da de tudo, menos daquilo que era importante.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Todo o percurso de Sophia, toda a luta que ela fez at&eacute; chegar ao 25 de Abril, n&atilde;o se apagou depois da revolu&ccedil;&atilde;o, o olhar cr&iacute;tico continuou tamb&eacute;m depois. Numa determinada entrevista, ela disse que o 25 de Abril trouxe coisas &oacute;timas no plano pol&iacute;tico mas no plano cultural n&atilde;o, dando como exemplos a demagogia, o consumismo, a pressa, as propagandas.<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Sim, ela logo em 1975, 1976, numa carta ao Jorge de Sena, diz-lhe: o que vai matar a nossa democracia &eacute; a sua incompet&ecirc;ncia cultural. E ela n&atilde;o fez isto como uma profetiza que est&aacute; a anunciar o fim de uma coisa que a ela &eacute; indiferente. Pelo contr&aacute;rio, h&aacute; aqui uma grande preocupa&ccedil;&atilde;o e um grande empenhamento para que isso n&atilde;o aconte&ccedil;a.<\/p>\n<p> \tEm toda a sua vida h&aacute; esse combate. O espirito cr&iacute;tico dela exercia-se sempre, a palavra dela levantava-se, ouvia-se sempre com sentido critico e construtivo, para corrigir o que ela achava que estava errado.<\/p>\n<p> \tH&aacute; de qualquer forma, temos de reconhecer, um desencontro dela, que n&atilde;o &eacute; apenas dela, com aquilo em que as sociedades se foram tornando. Sociedades de consumo exagerado, sociedades de massifica&ccedil;&atilde;o, em que se sabe o pre&ccedil;o de tudo e n&atilde;o se sabe o valor de nada.<\/p>\n<p> \tE para isso h&aacute;, quer nos poemas dela quer nas entrevistas que d&aacute;, sempre uma palavra, um alerta, um alarme sobre o que est&aacute; a acontecer, algo que &eacute; tamb&eacute;m muito importante ter presente neste momento e neste ano.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; A pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia crist&atilde; dela brotava precisamente desse esp&iacute;rito. Ela hoje em dia encaixaria naquele t&iacute;tulo, que at&eacute; muitos recusam, de cat&oacute;lico progressista? <\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Sim, ali&aacute;s antes da traslada&ccedil;&atilde;o que vai depois permitir conceder &agrave; Sophia as honras de Pante&atilde;o Nacional, vai haver simbolicamente a celebra&ccedil;&atilde;o de uma missa na Capela do Rato. E a Capela do Rato n&atilde;o foi escolhida por acaso, na vida dela tem um grande significado e simbolismo.<\/p>\n<p> \tSendo Sophia uma mulher com um ar fr&aacute;gil, e que como digo, parecia um pouco fora do mundo, ela tem um combate extraordin&aacute;rio na associa&ccedil;&atilde;o de solidariedade para com as fam&iacute;lias dos presos pol&iacute;ticos. Com o marido Francisco Sousa Tavares, tem um combate constante pela liberdade, pela justi&ccedil;a, que ela considerou sempre, sempre insepar&aacute;veis.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Pr&oacute;xima do final da vida, ela dizia que gostava que se realizasse a justi&ccedil;a social, a diminui&ccedil;&atilde;o da diferen&ccedil;a entre ricos e pobres. A justi&ccedil;a para os pobres era aquilo que mais a preocupava, dizia mesmo que o resto lhe era indiferente. Isto &eacute; um testemunho, uma heran&ccedil;a muito forte.<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> &Eacute; um testemunho fort&iacute;ssimo, num tempo como o nosso tem que se fazer ouvir a sua voz. Ela era uma mulher que vinha de uma fam&iacute;lia privilegiada e considerou que esse privil&eacute;gio n&atilde;o lhe dava o direito de humilhar ou de ter alguma superioridade em rela&ccedil;&atilde;o aos outros.<\/p>\n<p> \tPelo contr&aacute;rio, Sophia achou que esse privil&eacute;gio lhe dava uma responsabilidade de lutar pela justi&ccedil;a e pelas condi&ccedil;&otilde;es de dignidade humana de todos. E isso tamb&eacute;m &eacute; uma li&ccedil;&atilde;o extraordin&aacute;ria.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Como se processou a aprova&ccedil;&atilde;o desta iniciativa da traslada&ccedil;&atilde;o do corpo de Sophia para o Pante&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash; <\/em>Eu lancei a ideia num artigo, esse artigo teve alguma repercuss&atilde;o e algum eco e os deputados na Assembleia da Rep&uacute;blica acolheram essa sugest&atilde;o, por unanimidade como se compreende, porque &eacute; uma figura em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; qual n&atilde;o h&aacute; nenhum reparo, de nenhuma natureza, a fazer.<\/p>\n<p> \tIsto &eacute; extraordin&aacute;rio, porque h&aacute; pessoas que conseguem uma esp&eacute;cie de unanimidade mole e passiva, porque se abst&ecirc;m, porque se calam, porque n&atilde;o dizem o que pensam, porque navegam em &aacute;guas de ambiguidade e de pouca clareza.<\/p>\n<p> \tEla sempre foi clar&iacute;ssima, a sua voz disse sempre o que era preciso ser dito, afrontou quem tinha que afrontar. No entanto fez isso com uma altura, com uma dignidade, com um sentido humano e cultural, com uma intelig&ecirc;ncia que levou a que mesmo aquelas pessoas que, num ou noutro momento podem ter sido objeto da discord&acirc;ncia ou da cr&iacute;tica dela, renderem-se perante a superioridade com que ela fez sempre essa cr&iacute;tica, ou com que ela fez os reparos que tinha que fazer.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Especificamente em rela&ccedil;&atilde;o ao programa de dia 2 de julho, o que &eacute; que foi preparado?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Vai haver uma Missa que tem um car&aacute;ter mais privado, na Capela do Rato, seguida de um cortejo pela cidade. Depois o corpo de Sophia passar&aacute; pela Assembleia da Rep&uacute;blica, a caminho do Pante&atilde;o Nacional, onde &agrave;s 19h00 &#8211; &eacute; bom que as pessoas estejam um pouco antes &#8211; se vai proceder a uma cerim&oacute;nia.<\/p>\n<p> \tNessa cerim&oacute;nia terei a honra, o privil&eacute;gio, de ser o orador oficial, por escolha da fam&iacute;lia, e ir&atilde;o falar tamb&eacute;m o presidente da Rep&uacute;blica e a presidente da Assembleia da Rep&uacute;blica.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Que palavras &eacute; que vai dirigir &agrave;s pessoas, em honra de Sophia?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Com um poder de concis&atilde;o que lhe era grato, ela preferia sempre o que era conciso e claro, &eacute; uma das caracter&iacute;sticas dela e da poesia dela, vou tentar resumir o que a sua vida, a sua obra. Falar um pouco dos princ&iacute;pios que a inspiraram e da maneira admir&aacute;vel como ela os realizou.<\/p>\n<p> \tN&atilde;o esque&ccedil;o a liberdade, a justi&ccedil;a, a poesia, acho que a li&ccedil;&atilde;o dela &eacute; fundamentalmente essa, a poesia, a liberdade e a justi&ccedil;a &#8211; s&atilde;o boas raz&otilde;es para que os homens se possam olhar uns aos outros, olhos nos olhos, e ela ensinou-nos isso.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Haver&aacute; mais algum outro momento especial que possa j&aacute; ser desvendado antes das celebra&ccedil;&otilde;es?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &#8211;<\/em> Sim, v&atilde;o ser ouvidos alguns poemas ditos por ela, na voz gravada que temos dela, vamos ter m&uacute;sica e uma coisa extraordin&aacute;ria numa cerim&oacute;nia desta, vamos ter bailado.<\/p>\n<p> \tA Companhia Nacional de Bailado vai interpretar duas pe&ccedil;as, porque o bailado, a dan&ccedil;a, atravessaram toda a vida e obra de Sophia.<\/p>\n<p> \tAs palavras da dan&ccedil;a aparecem na sua poesia do &uacute;ltimo ao primeiro poema. Por exemplo, um excerto de um bailado que vai ser l&aacute; lan&ccedil;ado &eacute; o Lago dos Cisnes, e h&aacute; uma carta de Sophia para a m&atilde;e, quando penso que nos anos 50 viu o Lago dos Cisnes, e ela fala maravilhada com o que viu.<\/p>\n<p> \tPortanto h&aacute; essa mem&oacute;ria, as cerim&oacute;nias de entrada no Pante&atilde;o n&atilde;o s&atilde;o cerim&oacute;nias f&uacute;nebres, s&atilde;o de alguma maneira uma ressurrei&ccedil;&atilde;o simb&oacute;lica.<\/p>\n<p> \tDe alguma maneira, o Pante&atilde;o &eacute; o reconhecimento que a morte n&atilde;o prevaleceu contra aquelas pessoas, que elas est&atilde;o vivas pelo seu simbolismo, pelo seu exemplo, pelo legado que nos deixaram, e no caso de Sophia, por maioria de raz&atilde;o ainda, pela sua obra.<\/p>\n<p> \tOs grandes poetas n&atilde;o morrem, porque continuam a viver sempre que abrimos um livro e lemos o que eles nos deixaram ou escreveram para podermos ler.<\/p>\n<p> \tSophia est&aacute; viva por todas essas raz&otilde;es, pela mem&oacute;ria que temos dela, pelo legado exemplar que nos deixou e por essa obra extraordin&aacute;ria que vai desde os contos, hist&oacute;rias para crian&ccedil;as at&eacute; a ensaios de uma intelig&ecirc;ncia extraordin&aacute;ria. Mas sobretudo a grande poesia que nos deixou, em que ela fala do universo, dos atos do quotidiano, dos combates pol&iacute;ticos, fala de outros escritores, da ma&ccedil;&atilde; que a deslumbrou quando viu uma manh&atilde;, fala de tudo daquela maneira absolutamente extraordin&aacute;ria que era a dela.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Nestes dias que antecedem a cerim&oacute;nia no Pante&atilde;o, tem-se lembrado de alguns momentos que partilhou com Sophia?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Sim, tenho-me lembrado de algumas vezes que estive l&aacute; em casa com ela, que lanchei com ela, que conversei, as viagens que fiz. Eu tive fun&ccedil;&otilde;es na Presid&ecirc;ncia da Rep&uacute;blica durante 20 anos, era assessor cultural, fazia a liga&ccedil;&atilde;o com os escritores, intelectuais, com os artistas, e portanto falava frequentemente com Sophia.<\/p>\n<p> \tAcompanhei-a em muitas viagens que fez, a convite quer do presidente M&aacute;rio Soares quer depois do presidente Jorge Sampaio, e h&aacute; de facto mem&oacute;rias absolutamente extraordin&aacute;rias.<\/p>\n<p> \tA maneira como ela olhava as coisas, os coment&aacute;rios que fazia, a gra&ccedil;a que tinha &#8211; era uma pessoa que tinha uma grande gra&ccedil;a &#8211; as hist&oacute;rias que contava com uma grande ironia.<\/p>\n<p> \tE isso fazia da Sophia ao mesmo tempo, como todas as personalidades com a dimens&atilde;o dela, uma figura transparente e ao mesmo tempo misteriosa, havia sempre qualquer coisa nela que nos surpreendia.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Que hist&oacute;rias peculiares &eacute; que guarda sobre ela?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &#8211;<\/em> Um dia o presidente M&aacute;rio Soares estava em v&eacute;speras de partir para uma visita de Estado muito importante e est&aacute;vamos a preparar a tradu&ccedil;&atilde;o dos discursos que iam ser feitos nos v&aacute;rios acontecimentos dessa vida, coisa que &eacute; sempre feita sob uma grande press&atilde;o. Um presidente tem sempre muito que fazer e normalmente j&aacute; escreve mesmo sobre a hora e depois rev&ecirc; e depois &eacute; preciso mandar aquilo para tradu&ccedil;&atilde;o, para que quando se parta esteja j&aacute; tudo bem organizado.<\/p>\n<p> \tEstamos num dia desses, eu entrei no gabinete e percebi que o presidente M&aacute;rio Soares estava ao telefone com a Sophia. O assunto era uma empregada dom&eacute;stica da Sophia, que tinha sa&iacute;do por qualquer raz&atilde;o, e a Sophia estava um pouco atrapalhada porque n&atilde;o tinha empregada e ela n&atilde;o se orientava muito bem nas coisas dom&eacute;sticas.<\/p>\n<p> \tE eu ouvi o presidente M&aacute;rio Soares dizer &ndash; &oacute; Sophia, eu vou tratar do assunto &ndash; n&atilde;o podemos esquecer que eram amigos e que tinham uma conviv&ecirc;ncia, uma amizade e uma intimidade de muitos anos. Desligou o telefone e quando n&oacute;s insistimos com as tradu&ccedil;&otilde;es ele disse: N&atilde;o, n&atilde;o, agora vou ter de arranjar primeiro aqui uma solu&ccedil;&atilde;o para o problema dom&eacute;stico da Sophia.<\/p>\n<p> \tIsto &eacute; mais importante do que tudo o resto, porque ela diz-me que enquanto n&atilde;o tiver este problema resolvido, ela n&atilde;o escreve. E mais importante que tudo &eacute; que ela escreva, o meu dever como presidente da Rep&uacute;blica &eacute; resolver este problema, dizia.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; E o que &eacute; que diria Sophia nos dias de hoje?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Continuaria a dizer o que disse, que o mundo em que vivemos n&atilde;o &eacute; um mundo justo, tornou-se at&eacute; mais injusto do que j&aacute; foi.<\/p>\n<p> \tE mesmo a pr&oacute;pria liberdade que ela cantou naquele poema maravilhoso do 25 de abril, a maneira como ela conta como esse poema lhe surgiu &eacute; uma hist&oacute;ria tamb&eacute;m extraordin&aacute;ria.<\/p>\n<p> \tEla diz que a despertaram no meio da noite e lhe disseram &ndash; h&aacute; uma revolu&ccedil;&atilde;o na rua &ndash; e ela foi ouvir r&aacute;dio.<\/p>\n<p> \tSophia tinha o r&aacute;dio numa divis&atilde;o da casa que tinha uns vidros que davam para o jardim, na Travessa das M&oacute;nicas. Ela ficou colada ao r&aacute;dio a ouvir a evolu&ccedil;&atilde;o da revolu&ccedil;&atilde;o, a perceber tamb&eacute;m por telefone, como &eacute; que a revolu&ccedil;&atilde;o se ia construindo e tornado vitoriosa. &Agrave; medida que isto se foi passando, que as horas foram passando, a noite foi dando lugar ao dia.<\/p>\n<p> \tDa&iacute; ela no poema falar &ndash; &ldquo;emergimos da noite e do sil&ecirc;ncio&rdquo;. E ela, num desses testemunhos, liga isto &agrave; P&aacute;scoa que tinha acontecido poucos dias antes na semana anterior &agrave; revolu&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p> \tSophia diz que esta passagem da noite ao dia, das trevas &agrave; luz, foi para si uma nova P&aacute;scoa, como um milagre que Portugal viveu nas ruas, naqueles momentos. Esta &eacute; tamb&eacute;m uma mem&oacute;ria extraordin&aacute;ria, que se percebe como os poemas de Sophia nunca eram qualquer coisa que n&atilde;o fosse autenticidade em estado puro.<\/p>\n<p> \t&nbsp;<\/p>\n<p> \t<em>AE &ndash; Portanto as palavras de Sophia nas d&eacute;cadas de 60, 70, continuam a fazer sentido hoje?<\/em><\/p>\n<p> \t<em>JMS &ndash;<\/em> Acho que continuam a fazer muito sentido, porque ela faz uma esp&eacute;cie de liga&ccedil;&atilde;o de todos os tempos e de todas as figuras. Ela tem um poema, por exemplo, dedicado a Catarina Euf&eacute;mia em que tira tudo o que depois foi, digamos, clich&eacute; ideol&oacute;gico sobre essa figura, restituindo-lhe uma esp&eacute;cie de pureza e nudeza inicial.<\/p>\n<p> \tEla liga-a uma grande figura que admirava extraordinariamente, Ant&iacute;gona, que era a mulher que clamava sempre por justi&ccedil;a e que achava que havia uma justi&ccedil;a e um direito que se podia impor &agrave; pr&oacute;pria lei. E isso &eacute; uma li&ccedil;&atilde;o muito importante para o nosso tempo.<\/p>\n<p> \tEu gostaria ainda de dizer uma frase, fazendo uma cita&ccedil;&atilde;o dela, que diz assim: &ldquo;&Eacute; costume dizer s&oacute; aos pobres portugueses: Tenham paci&ecirc;ncia. Eu acho que dev&iacute;amos dizer: N&atilde;o tenham paci&ecirc;ncia&rdquo;.<\/p>\n<p> \tE isso &eacute; extraordin&aacute;rio.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista a Jos\u00e9 Manuel dos Santos, orador oficial na cerim\u00f3nia de traslada\u00e7\u00e3o dos restos mortais de Sophia de Mello Breyner Andresen para o Pante\u00e3o Nacional<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[92,168,314],"class_list":["post-67815","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-25-de-abril","tag-diocese-da-guarda","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67815","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=67815"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/67815\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=67815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=67815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=67815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}