{"id":6747,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/os-novos-caminhos-de-aproximacao-ao-texto-biblico\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"os-novos-caminhos-de-aproximacao-ao-texto-biblico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-novos-caminhos-de-aproximacao-ao-texto-biblico\/","title":{"rendered":"Os novos caminhos de aproxima\u00e7\u00e3o ao texto b\u00edblico"},"content":{"rendered":"<p>O Pe. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a desafia os crist\u00e3os a ler a B\u00edblia como um livro que \u00e9 <!--more--> Te\u00f3logo e poeta s\u00e3o duas das palavras associadas ao Pe. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, protagonista de uma vida feita de investiga\u00e7\u00e3o e an\u00fancio.  A actual crise da linguagem religiosa, testemunho do final de um certo modo de ser crist\u00e3o, faz-nos acreditar que na nossa sociedade, a F\u00e9 n\u00e3o mais se transmitir\u00e1 pelas veias da assimila\u00e7\u00e3o a um determinado contexto s\u00f3cio-cultural. Esta convic\u00e7\u00e3o levou o actual secret\u00e1rio da Comiss\u00e3o Episcopal da Cultura a apresentar na Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, em Lisboa, a sua tese de Doutoramento sobre o tema \u201cA Constru\u00e7\u00e3o de Jesus. Uma leitura narrativa de Lc 7,36-50\u201d.   <i>ECCLESIA \u2013 Continua a ser importante, em pleno s\u00e9culo XXI, procurar novas abordagens \u00e0 Sagrada Escritura?<\/i> Pe. Tolentino Mendon\u00e7a \u2013 Hoje em dia, todos sentimos a urg\u00eancia de encontrar novos caminhos de aproxima\u00e7\u00e3o ao texto b\u00edblico. Ainda vivemos uma crise da linguagem religiosa, h\u00e1 uma dificuldade de expressar de forma pertinente e relevante o que s\u00e3o as verdades do n\u00facleo fundamental da f\u00e9, entre as quais a B\u00edblia ocupa um lugar central. A necessidade de encontrar outros instrumentos de interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 vital, tanto mais que verifico um div\u00f3rcio muito grande entre o Livro em si e aqueles que deveriam ser os seus receptores, os principais destinat\u00e1rios, que \u00e9 o Povo de Deus.  <i>E \u2013A crise da linguagem em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 B\u00edblia tem a ver com os nossos preconceitos quando nos abeiramos dela?<\/i> TM \u2013 Acontece muitas vezes haver uma conviv\u00eancia com o texto e criar-se uma falsa ideia de familiaridade: a B\u00edblia \u00e9 um texto escutado que precisa de ser lido. Na fome e na sede que hoje sentimos nas comunidades crist\u00e3s em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Escritura se percebe que esse div\u00f3rcio pode ser superado no esfor\u00e7o de ajudar a ler a B\u00edblia. Esse \u00e9 um dos desafios do nosso s\u00e9culo: hoje temos a consci\u00eancia de que n\u00e3o basta tornar acess\u00edvel a circula\u00e7\u00e3o material do texto, \u00e9 preciso criar leitores competentes, para saber interpretar e chegar ao pr\u00f3prio texto.  <i>E \u2013 O desafio de fazer do leitor uma parte necess\u00e1ria para a compreens\u00e3o da narrativa \u00e9 algo recorrente no seu trabalho&#8230; <\/i> TM \u2013 O di\u00e1logo com o leitor \u00e9 conduzido pelo pr\u00f3prio texto, que precisa dele para acordar. Como diz Umberto Eco, o texto \u00e9 uma m\u00e1quina pregui\u00e7osa que precisa da colabora\u00e7\u00e3o do leitor para que a mensagem se erga. Este aproximar-se do leitor \u00e9 alguma coisa que o texto pede e deseja: a abordagem do tipo narrativo \u00e9 perceber como o texto leva o leitor a uma determinada compreens\u00e3o e o conduz a um determinado efeito. Isto percebe-se com a Jornada de Nazar\u00e9, relatada por Lucas, quando Jesus pega no livro, o abre e l\u00ea uma passagem do profeta Isa\u00edas, dizendo, no fim de a ler: hoje cumpriu-se esta palavra. Jesus sentiu-se inclu\u00eddo no texto e o m\u00e9todo de an\u00e1lise narrativa faz sentir ao leitor que ele n\u00e3o \u00e9 um espectador, mas que as hist\u00f3rias permanecem em aberto, incompletas, enquanto o lietor n\u00e3o dizer \u201choje cumpriu-se esta passagem da Escritura\u201d.  <i>E \u2013 De que nos devemos valer para ler a B\u00edblia: da cr\u00edtica liter\u00e1ria ou da teologia?<\/i> TM \u2013 As duas coisas n\u00e3o se podem opor, mas a compreens\u00e3o de que grande parte da B\u00edblia \u00e9 composta de hist\u00f3rias e que \u00e9 preciso saber interpret\u00e1-las usando m\u00e9todos de outras \u00e1reas do saber \u2013 a teoria da literatura, estudos liter\u00e1rios -, m\u00e9todos que se utilizam para estudar os romances, ler a B\u00edblia como um livro, podem ser caminhos muito importantes.  Precisamos tamb\u00e9m de um outro conjunto de instrumentos \u2013 hist\u00f3ria, arqueologia, sociologia, teologia &#8211; para nos avizinharmos do maravilhoso mundo b\u00edblico.  <i>E \u2013 Essa s\u00edntese \u00e9 feita no seu trabalho?<\/i> TM \u2013 Eu tentei fazer uma leitura liter\u00e1ria de um texto de Lucas e depois abrir para todo o Evangelho. Um dado interessante que hoje se tem na interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia \u00e9 o aproveitar de um patrim\u00f3nio que vem da literatura para coloc\u00e1-lo ao servi\u00e7o da leitura b\u00edblica. Isso pareceu-me pertinente e foi esse exerc\u00edcio de uma leitura liter\u00e1ria do pr\u00f3prio Evangelho que eu fiz, sem dissociar o conte\u00fado do livro da maneira como ele est\u00e1 escrito: temos de valorizar e percepcionar os sinais que o autor liter\u00e1rio, Lucas, utilizou.  <i>E \u2013 O m\u00e9todo narrativo traz alguma novidade na leitura do Evangelho?<\/i> TM \u2013 O m\u00e9todo torna a mensagem mais viva, mesmo quando o texto \u00e9 conhecido, porque muitas vezes o conv\u00edvio com a B\u00edblia \u00e9 muito utilit\u00e1rio, manipulador, para se confirmar uma ideia ou uma verdade, colocando-a ao servi\u00e7o de uma catequese, de uma afirma\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, doutrinal, moral. A grande viragem \u00e9 regressar ao texto, aos seus conte\u00fados, deixando-se encantar pelo pr\u00f3prio texto, porque em grande parte a B\u00edblia \u00e9 feitas de hist\u00f3rias e a narrativa \u00e9 um encantamento colocado no correr tempo. \u00c9 preciso deixar-se encantar pelas hist\u00f3rias sobre Jesus e n\u00e3o ficar apenas pela inco\u00eancia do encantamento, partindo para um encontro mais profundo com o mundo do pr\u00f3prio texto.  <i>E \u2013 O Pe. Tolentino fala em org\u00e2nica do texto e que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel entender o res\u00edduo teol\u00f3gico sem compreender essa org\u00e2nica.<\/i> TM \u2013 Exactamente, as duas coisas est\u00e3o unidas e se n\u00f3s quisermos saber quem \u00e9 Jesus precisamos de fazer o caminho do texto. Quando falo em \u201cConstru\u00e7\u00e3o de Jesus\u201d n\u00e3o \u00e9 porque Jesus n\u00e3o preceda o pr\u00f3prio texto como exist\u00eancia hist\u00f3rica, mas Lucas, ao contar Jesus, como que o vai construindo pela acumula\u00e7\u00e3o de tra\u00e7os, de caracter\u00edsticas, contando o espa\u00e7o e o tempo, dando uma organiza\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria \u00e0 intriga do Evangelho. O que me interessou foi perceber esta \u201cconstru\u00e7\u00e3o\u201d.  <i>E \u2013 Palavras como constru\u00e7\u00e3o e intriga n\u00e3o s\u00e3o muito comuns na an\u00e1lise B\u00edblica&#8230;<\/i> TM \u2013 N\u00f3s crist\u00e3os lidamos com a Palavra de Deus h\u00e1 2 mil anos e s\u00f3 recentemente se come\u00e7ou a utilizar o vocabul\u00e1rio da leitura e dos livros para a B\u00edblia. Penso que no futuro estes termos soar\u00e3o menos estranhos.  <i>E \u2013 Ainda assim, falar de \u201cA Constru\u00e7\u00e3o de Jesus\u201d n\u00e3o poder\u00e1 introduzir um elemento de ambiguidade?<\/i> TM \u2013 H\u00e1 uma ambiguidade que \u00e9 pretendida, no sentido de despertar a aten\u00e7\u00e3o. Ao mesmo tempo, a palavra constru\u00e7\u00e3o \u00e9 pr\u00f3pria deste m\u00e9todo narrativo: o que me interessa tomar \u00e9 o relato que Lucas faz do Jesus hist\u00f3rico, n\u00e3o se preocupando em tra\u00e7ar um retrato acabado de Jesus, passando pela indetermina\u00e7\u00e3o, pelo paradoxo e a ambiguidade. Um dos m\u00e9ritos do t\u00edtulo deste trabalho \u00e9 exactamente dizer aos crist\u00e3os que n\u00f3s n\u00e3o temos o conhecimento completo de Jesus, n\u00e3o sabemos tudo o que \u00e9 poss\u00edvel saber, mas todos n\u00f3s precisamos de nos tornar de novo leitores e disc\u00edpulos que fazem o caminho que o Evangelho nos narra.  <i>E \u2013 O seu trabalho parte de um epis\u00f3dio para tirar conclus\u00f5es mais gerais sobre o Evangelho. Porque a escolha desta passagem (Lc 7,36-50)?<\/i> TM \u2013 A estrutura do Evangelho de Lucas e dos outros \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o por epis\u00f3dios. N\u00f3s n\u00e3o temos uma hist\u00f3ria \u00fanica do princ\u00edpio ao fim, temos sim a cristaliza\u00e7\u00e3o em torno a uma pessoa, a pessoa de Jesus.  Os evangelistas querem contar a hist\u00f3ria de Jesus e fazem-no numa sequ\u00eancia de epis\u00f3dios: eu escolhi um que \u00e9 uma miniatura preciosa, onde Lucas revela todas as capacidades que tem como contador de hist\u00f3rias, que \u00e9 o epis\u00f3dio de uma mulher an\u00f3nima, uma intrusa que interrompe uma refei\u00e7\u00e3o de Jesus em casa de um Fariseu. Cria-se aqui um incidente em que Jesus \u00e9 posto causa pelo seu anfitri\u00e3o e em que Jesus acaba por colocar em causa toda a ideologia representada pelo seu anfitri\u00e3o, acolhendo o gesto da mulher, perdoando os seus pecados e revelando-se como salvador da pessoa humana. Ao longo do Evangelho h\u00e1 v\u00e1rios t\u00edtulos atribu\u00eddos a Jesus, com uma fun\u00e7\u00e3o revelat\u00f3ria, e este texto \u00e9 muito importante porque representa o questionamento do t\u00edtulo de profeta, percebe-se que Jesus \u00e9 mais que um profeta porque tem o poder de perdoar os pecados  <i>E \u2013 Quais foram os motivos que o levaram a fazer uma tese de doutoramento sobre este texto?<\/i> TM \u2013 A minha ideia inicial era analisar os tr\u00eas momentos em que Jesus \u00e9 convidado dos Fariseus, uma especificidade do Evangelho de Lucas, que se passa muitas vezes em volta da mesa, como na literatura grega. Acontece que o primeiro texto se revelou t\u00e3o rico e profundo que foi suficiente para a apresenta\u00e7\u00e3o deste trabalho.  <i>E \u2013 A sua faceta de autor est\u00e1 presente?<\/i> TM \u2013 Est\u00e1 presente sobretudo na aten\u00e7\u00e3o ao trabalho de Lucas. Se calhar a poesia e a literatura constr\u00f3em um leitor atento aos processo da cria\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria, se bem que o m\u00e9todo de an\u00e1lise narrativa \u00e9 bastamente utilizado. Agora, o grande desafio passa pela leitura, s\u00f3 nos aproximamos de Jesus passando pelo relato do Evangelho.  <i>E \u2013 \u00c9 preciso partir ao encontro do texto como se fosse desconhecido?<\/i> TM \u2013 Exactamente: temos de compreender que n\u00e3o sabemos nada do texto e precisamos de aprender tudo outra vez.   <B>Not\u00edcias relacionadas<\/B> <a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/noticia.asp?noticiaid=10043\">\u2022 A narrativa b\u00edblica e a crise da linguagem religiosa<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Pe. 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