{"id":6692,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-festa-e-os-ritos-do-futebol\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-festa-e-os-ritos-do-futebol","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-festa-e-os-ritos-do-futebol\/","title":{"rendered":"A festa e os ritos do futebol"},"content":{"rendered":"<p>Fernando Micael Pereira, professor da UCP, conversa com a ECCLESIA sobre a festa que foi o Euro-2004 e aquilo que fica ap\u00f3s o final da competi\u00e7\u00e3o <!--more--> ECCLESIA \u2013 Como se explica todo o entusiasmo em torno do Eruo-2004 e da selec\u00e7\u00e3o portuguesa de futebol? Micael Pereira: Este movimento simb\u00f3lico vale por si pr\u00f3prio, mas dever\u00e1 ter consequ\u00eancias pr\u00e1ticas na vida de todos os dias.  E \u2013 Teve de ser a paix\u00e3o do futebol a causar tudo isto&#8230; MP \u2013 N\u00e3o sei se teria de ser o futebol, as certamente tinha de ser uma paix\u00e3o: foi o futebol e isso n\u00e3o admira, porque o jogo \u00e9 uma met\u00e1fora da sociedade e era uma dos vectores poss\u00edveis para uma mobiliza\u00e7\u00e3o importante, que se tinha de fazer, e que neste caso nem era gratuita, pois tinha um objectivo imediato.   E \u2013 As bandeiras que se viram nas janelas, nos autom\u00f3veis e um pouco por todo o lado s\u00e3o decisivas para a afirma\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional? MP \u2013 \u00c9 positivo, em termos de alegria, e todos foram muito sens\u00edveis a este aspecto. Em Portugal, as coisas passam-se de forma mais contidas e desta vez houve um clima de festa que n\u00e3o t\u00ednhamos desde o tempo da aldeia. H\u00e1 outro aspecto importante, que foi a import\u00e2ncia de ultrapassar as diferen\u00e7as, que temos  algo que nos identifica e ao identificar nos agrega. Efectivamente, o futebol nem sempre serve para agregar, por causa da competi\u00e7\u00e3o, e a vantagem do Euro \u00e9 que esteve em causa um jogo entre pa\u00edses, o que \u00e9 de uma modernidade muito grande num momento em que a UE se alarga. Nesta interac\u00e7\u00e3o n\u00e3o havia inimigos, mas advers\u00e1rios que eram estes ou aqueles, e esta foi uma experi\u00eancia de uni\u00e3o e solidariedade que nos fez andar para a frente, sem \u201cchoradinhos\u201d nem partidarismos.  E \u2013 O nacionalismo \u00e9 uma palavra a ter presente? MP \u2013 Em Portugal andamos h\u00e1 muitos anos a confundir patriotismo com nacionalismo: este \u00e9 uma radicaliza\u00e7\u00e3o dos sentimentos patri\u00f3ticos, que nos leva a esmagar tudo e todos \u00e0 luz desta ideia. N\u00e3o vi neste momento qualquer aspecto de nacionalismo, mas sim o amor da p\u00e1tria, a identidade, a n\u00e3o-radicaliza\u00e7\u00e3o.   E \u2013 Mesmo na afirma\u00e7\u00e3o da p\u00e1tria est\u00e1vamos atr\u00e1s de outros pa\u00edses? MP \u2013 Eu penso que sim, h\u00e1 uma despropor\u00e7\u00e3o nas manifesta\u00e7\u00f5es externas portuguesas nestes dom\u00ednios em rela\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses: and\u00e1mos com um tesouro escondido, que n\u00e3o facilita o desenvolvimento de um patriotismo sadio. \u00c9 de esperar que se mantenham manifesta\u00e7\u00f5es e ritos, sem cair na banaliza\u00e7\u00e3o ou no abuso.  E \u2013 Foi um brasileiro a estimular este instinto patriota&#8230; MP \u2013 Ele tinha de ser o porta-voz, porque n\u00e3o houve aqui um rito folcl\u00f3rico: o ritual tinha uma funcionalidade simb\u00f3lico-psicol\u00f3gica, havia uma cren\u00e7a de que valia a pena apostar. A dimens\u00e3o simb\u00f3lica era mediada por algo de \u00fatil e julgo que Scolari soube faz\u00ea-lo, com simplicidade, mostrando a sua utilidade. Progressivamente, o futebol foi motor de outros fen\u00f3menos que o ultrapassaram, que tem a ver com o modo de vivermos com os outros.  E \u2013 De que forma \u00e9 que esteve presente no Euro-2004 o factor religi\u00e3o? MP \u2013 Ele esteve presente de muitas maneiras e muito expl\u00edcitas: n\u00e3o se passou nada de verdadeiramente religioso, apesar de v\u00e1rios apelos e analogias com a religi\u00e3o. Come\u00e7aria com a evidencia\u00e7\u00e3o das supersti\u00e7\u00f5es que muitas pessoas vieram a p\u00fablico manifestar: acredita-se que o facto de eu fazer isto ou aquilo vai ser decisivo para algo que me ultrapassa, \u00e9 a tentativa de agarrar for\u00e7as externas. Este aspecto m\u00e1gico-supersticioso foi evidente. Outra dimens\u00e3o foi a das promessas, feitas por v\u00e1rios jogadores, de ir a F\u00e1tima, porventura. Um outro n\u00edvel mais calmo \u00e9 o do pedido, das ora\u00e7\u00f5es, que entra em di\u00e1logo com Deus, mais calmo, menos controlador.  H\u00e1 rituais usados nestes tempos an\u00e1logos aos religiosos: os cortejos, as \u201cprociss\u00f5es\u201d de motards, com o \u201csagrado\u201d \u00e0 frente, devidamente enquadro; as \u201cvig\u00edlias\u201d de quem passou horas \u00e0 frente da Academia do Sporting; as \u201cconfiss\u00f5es\u201d dos jogadores na Televis\u00e3o; as \u201cvestes\u201d dos participantes, com opas diferentes; o \u201critual da paz\u201d, com os jogadores abra\u00e7ados durante o hino nacional.  E \u2013 Quando o que \u00e9 humano n\u00e3o chega para atingir o que se pretende, \u00e9 normal recorrer ao Transcendente? MP \u2013 \u00c9 claro que o humano n\u00e3o chega: temos de saltar, ir ao encontro de algu\u00e9m que est\u00e1 acima de n\u00f3s.  E \u2013 O que fica do Euro-2004? MP \u2013 Ficam coisas muito importantes: a ac\u00e7\u00e3o dram\u00e1tica, que nos marca no dom\u00ednio do simb\u00f3lico, que espero venha a confirmar sementes de aspectos importantes da nossa vida. A experi\u00eancia de comunh\u00e3o resultou muito bem, a percep\u00e7\u00e3o de que a competi\u00e7\u00e3o caminha para a coopera\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para a luta de morte tamb\u00e9m foi muito importante. Isso pode-nos ter marcado, deu-nos a ver o que somos capazes de fazer em alegria e coopera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fernando Micael Pereira, professor da UCP, conversa com a ECCLESIA sobre a festa que foi o Euro-2004 e aquilo que fica ap\u00f3s o final da competi\u00e7\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[122,207,314,321],"class_list":["post-6692","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-brasil","tag-fatima","tag-solidariedade","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6692","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6692"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6692\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6692"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6692"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6692"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}