{"id":65865,"date":"2014-05-12T16:37:20","date_gmt":"2014-05-12T16:37:20","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/05\/12\/cristaos-nao-podem-ser-parte-menor-na-terra-santa\/"},"modified":"2014-05-12T16:37:20","modified_gmt":"2014-05-12T16:37:20","slug":"cristaos-nao-podem-ser-parte-menor-na-terra-santa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cristaos-nao-podem-ser-parte-menor-na-terra-santa\/","title":{"rendered":"Crist\u00e3os n\u00e3o podem ser \u00abparte menor\u00bb na Terra Santa"},"content":{"rendered":"<p>APresen\u00e7a do patriarca latino de Jerusal\u00e9m, D. Fouad Twal em Portugal, para presidir \u00e0s cerim\u00f3nias de F\u00e1tima, motiva uma an\u00e1lise \u00e0 conjuntura social e religiosa do M\u00e9dio Oriente <!--more--> <\/p>\n<p>A presen&ccedil;a do patriarca latino de Jerusal&eacute;m, D. Fouad Twal em Portugal, para presidir &agrave;s cerim&oacute;nias de 12 e 13 de maio em F&aacute;tima, motivou uma an&aacute;lise &agrave; conjuntura social e religiosa do M&eacute;dio Oriente, com a participa&ccedil;&atilde;o do General Valen&ccedil;a Pinto e do lugar-tenente da Ordem de Cavalaria do Santo Sepulcro, Gon&ccedil;alo Figueiredo Barros<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &ndash; Esta problem&aacute;tica da persegui&ccedil;&atilde;o aos crist&atilde;os tem de se relacionar com a Primavera &Aacute;rabe, com todos os acontecimentos que est&atilde;o a ocorrer no M&eacute;dio Oriente. Est&aacute; em curso uma limpeza &eacute;tnica dos crist&atilde;os?<\/em><\/p>\n<p><em>Valen&ccedil;a Pinto (VP) &ndash; <\/em>Eu n&atilde;o diria que est&aacute; em curso objetivamente uma limpeza &eacute;tnica dos crist&atilde;os no M&eacute;dio Oriente, o que est&aacute; em curso, no meu entendimento, &eacute; uma completa neglig&ecirc;ncia, um completo esquecimento em rela&ccedil;&atilde;o aos crist&atilde;os do M&eacute;dio Oriente.<\/p>\n<p>Provavelmente porque o problema do M&eacute;dio Oriente, que &eacute; um problema t&atilde;o importante, pesado e complicado, como n&oacute;s todos sabemos, se transformou de uma forma muito redutora, numa quest&atilde;o entre israelitas e palestinianos, entre judeus e mu&ccedil;ulmanos.<\/p>\n<p>Evidentemente n&atilde;o pode ser isso, &eacute; isso mas tem de ser mais do que isso. Resumido a isso, os crist&atilde;os ficaram esquecidos, ficaram numa posi&ccedil;&atilde;o de subalternidade refor&ccedil;ada, &aacute;rabes crist&atilde;os entre &aacute;rabes mu&ccedil;ulmanos, &aacute;rabes entre judeus, e foram v&iacute;timas das oposi&ccedil;&otilde;es entre uns e outros.<\/p>\n<p>Foram v&iacute;timas tamb&eacute;m, em tempos mais recentes, das oposi&ccedil;&otilde;es entre sunitas e xiitas, em alguns casos com variantes, caso dos alauitas na S&iacute;ria, mas n&atilde;o h&aacute; objetivamente uma limpeza &eacute;tnica nesse sentido.<\/p>\n<p>H&aacute; uma grande neglig&ecirc;ncia, e particularmente pelo lado de Israel, verifica-se um grande somat&oacute;rio de pr&aacute;ticas discriminat&oacute;rias muitas vezes de pura natureza administrativa mas que s&atilde;o discriminat&oacute;rias e que efetivamente convidam ao &ecirc;xodo que se tem verificado e que &eacute; absolutamente deplor&aacute;vel.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Como observa estes acontecimentos que t&ecirc;m como consequ&ecirc;ncia a fuga de muitos crist&atilde;os do M&eacute;dio Oriente?<\/em><\/p>\n<p><em>Gon&ccedil;alo Figueiredo Barros (GFB) &#8211; <\/em>Para responder a essa pergunta fazia uma cita&ccedil;&atilde;o do Papa Francisco por ocasi&atilde;o de uma rece&ccedil;&atilde;o que fez aos membros que integraram a Assembleia da Congrega&ccedil;&atilde;o para as Igrejas Orientais no final do ano passado.<\/p>\n<p>Ele referia que suscitam grande preocupa&ccedil;&atilde;o as condi&ccedil;&otilde;es de vida dos crist&atilde;os, que em muitas partes do M&eacute;dio Oriente sofrem de maneira particularmente forte perante as consequ&ecirc;ncias das tens&otilde;es e dos conflitos em curso.<\/p>\n<p>Mencionou expressamente a S&iacute;ria, o Iraque, o Egito e outras &aacute;reas da Terra Santa. E mais adiante faz um apelo a que se respeite o direito de todos a uma vida digna e a professarem livremente a pr&oacute;pria f&eacute;.<\/p>\n<p>N&atilde;o nos resignamos a pensar o M&eacute;dio Oriente sem os crist&atilde;os, que desde h&aacute; dois mil anos ali professam o nome de Jesus, inseridos como cidad&atilde;os de pleno titulo na vida social, cultural e religiosa das na&ccedil;&otilde;es a que pertencem.<\/p>\n<p>&Eacute; justamente este o ponto fulcral da preocupa&ccedil;&atilde;o que existe em apoiar os crist&atilde;os da Terra Santa. Os crist&atilde;os da Terra Santa est&atilde;o instalados naquela regi&atilde;o h&aacute; dois mil anos, t&ecirc;m sido v&iacute;timas de v&aacute;rios conflitos que lhes s&atilde;o alheios, n&atilde;o s&oacute; na Terra Santa como no M&eacute;dio Oriente, em geral.<\/p>\n<p>Recrudesce os atentados e as persegui&ccedil;&otilde;es aos crist&atilde;os no M&eacute;dio Oriente, a quest&atilde;o da S&iacute;ria tem sido dram&aacute;tica, h&aacute; um milh&atilde;o de refugiados s&iacute;rios na Jord&acirc;nia neste momento, s&oacute; para se ter uma ideia.<\/p>\n<p>Uma das visitas que o Papa Francisco vai fazer proximamente, ainda este m&ecirc;s &agrave; Terra Santa, vai ser a visita a campos de refugiados do M&eacute;dio Oriente, mas n&atilde;o s&oacute; da S&iacute;ria. O Iraque tem quinhentos mil refugiados em campos tamb&eacute;m na Jord&acirc;nia, para n&atilde;o falar nos palestinianos.<\/p>\n<p>Os palestinianos desde h&aacute; muitas d&eacute;cadas t&ecirc;m fugido para a Jord&acirc;nia e t&ecirc;m sido abrigados na Jord&acirc;nia e hoje constituem uma popula&ccedil;&atilde;o maiorit&aacute;ria no pr&oacute;prio pa&iacute;s.<\/p>\n<p>A posi&ccedil;&atilde;o da Igreja Cat&oacute;lica tem sido muito clara nesse sentido de apoiar todas estas comunidades que est&atilde;o a ser v&iacute;timas deste contexto muito complicado, em que h&aacute; um sofrimento real, di&aacute;rio, obst&aacute;culos de toda a natureza.<\/p>\n<p>Aquilo que nos parece mais elementar n&atilde;o &eacute; observado na Terra Santa nem no M&eacute;dio Oriente, o simples facto da pessoa ter direito ao trabalho e poder ter um livre acesso ao trabalho &eacute;-lhes vedado, para al&eacute;m de todo o outro tipo de persegui&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&Eacute; neste contexto, de facto, que a Igreja tem atuado, e particularmente a Ordem do Santo Sepulcro tem atuado no sentido de apoiar os projetos que o patriarca latino de Jerusal&eacute;m. Noventa e seis por cento dos projetos do Patriarcado Latino s&atilde;o financiados pela Ordem.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash;A promessa de uma consolida&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica nalguns pa&iacute;ses acabou por nunca se atingir, provocando at&eacute; que as partes em fratura se acentuassem&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>VP &ndash; <\/em>Certamente que sim, e &eacute; em parte por isso que se verifica o &ecirc;xodo que o doutor Gon&ccedil;alo Barros acabou de referir, e que dificilmente ser&aacute; travado ou invertido este sentido de sa&iacute;da das pessoas se tudo nos parecer trat&aacute;vel na perspetiva de &eacute; preciso reconhecer em simult&acirc;neo o direito &agrave; exist&ecirc;ncia livre, independente e segura de Israel e Palestina.<\/p>\n<p>Certamente que isso &eacute; indispens&aacute;vel, mas n&atilde;o pode acontecer que este Israel e esta Palestina, cuja exist&ecirc;ncia livre, segura e independente n&oacute;s desejamos, sejam percebidos como Estados homog&eacute;neos quer no sentido &eacute;tnico como confessional.<\/p>\n<p>Um e outro s&atilde;o Estados de v&aacute;rias comunidades, e entre essas comunidades est&atilde;o os crist&atilde;os, est&atilde;o no fundo pessoas para as quais &eacute; completamente id&ecirc;ntico o plano de exig&ecirc;ncia em mat&eacute;ria de direitos, liberdades e garantias.<\/p>\n<p>Essa &eacute; a volta que tem de ser dada, certamente a procura de uma solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, mas por mais que a pol&iacute;tica &agrave;s vezes esteja distante disso, uma solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica que n&atilde;o pode subalternizar ningu&eacute;m, e por isso tem de procurar assentar em princ&iacute;pios, valores e crit&eacute;rios de ordem &eacute;tica e moral, em que ningu&eacute;m seja discriminado.<\/p>\n<p>E a&iacute; cabe necessariamente um papel potencialmente muito grande &agrave; Santa S&eacute;, n&atilde;o apenas &agrave; Santa S&eacute; mas certamente &agrave; Santa S&eacute;, tanto no plano da pastoral como no plano da a&ccedil;&atilde;o diplom&aacute;tica.<\/p>\n<p>Agora os crist&atilde;os n&atilde;o podem &eacute; ser parte n&atilde;o existente ou parte menor. Ningu&eacute;m &eacute; menor, nenhuma pessoa &eacute; descart&aacute;vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O conflito antes de ser religioso n&atilde;o &eacute; pol&iacute;tico?<\/em><\/p>\n<p><em>VP &ndash;<\/em> &Eacute; certamente, mas o que n&oacute;s n&atilde;o podemos ignorar &eacute; que faz parte desse conflito pol&iacute;tico um grupo chamado crist&atilde;os, que existe de um lado e existe do outro, como h&aacute; &aacute;rabes em Israel e judeus na Palestina.<\/p>\n<p>&Eacute; isso que tem de ser alterado, essa oposi&ccedil;&atilde;o definitiva entre judeus e mu&ccedil;ulmanos a qual faz desaparecer a presen&ccedil;a crist&atilde;. Como foi muito bem referido, n&atilde;o pode ser negligenciada, como li numa frase muito interessante, a Terra Santa n&atilde;o pode ser um museu da hist&oacute;ria crist&atilde;, tem de ser um lugar de viv&ecirc;ncia crist&atilde;, os crist&atilde;os est&atilde;o l&aacute; h&aacute; dois mil anos.<\/p>\n<p>Mas n&oacute;s estamos numa &eacute;poca em que a seguran&ccedil;a dos indiv&iacute;duos n&atilde;o poder ser subalternizada em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; seguran&ccedil;a dos Estados, e &eacute; isso que &eacute; preciso ter presente.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; E &eacute; o que est&aacute; a acontecer naquele territ&oacute;rio?<\/em><\/p>\n<p><em>VP &ndash; <\/em>N&atilde;o s&oacute; ali mas tamb&eacute;m ali e &eacute; isso que &eacute; preciso certamente inverter e alterar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; No caso dos crist&atilde;os da Terra Santa, eles estar&atilde;o a ser v&iacute;timas por parte da comunidade isl&acirc;mica, sendo considerados infi&eacute;is, e por parte tamb&eacute;m da comunidade judaica, pelo sentimento anticrist&atilde;o que pode estar em crescimento. Duplamente v&iacute;timas?<\/em><\/p>\n<p><em>VP &ndash;<\/em> A primeira vitimiza&ccedil;&atilde;o &eacute; a neglig&ecirc;ncia a que s&atilde;o sujeitos. Mas depois efetivamente assim &eacute;, no caso do direito ao trabalho, como foi referido, as dificuldades de vida quotidiana, marcando itiner&aacute;rios espec&iacute;ficos que tornam muito dif&iacute;cil o viver quotidiano das pessoas, imaginando projetos urban&iacute;sticos em zonas tradicionalmente de resid&ecirc;ncia crist&atilde;, o que s&oacute; tem paralelo com a tr&aacute;gica pol&iacute;tica dos colonatos, tudo isso s&atilde;o formas de dificultar a vida das comunidades crist&atilde;s.<\/p>\n<p>Como &eacute; uma forma de dificultar a vida &agrave;s comunidades crist&atilde;s a cria&ccedil;&atilde;o de alguns entraves &agrave; a&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es de matriz crist&atilde; muito forte e muito importantes na regi&atilde;o, as organiza&ccedil;&otilde;es diocesanas, as organiza&ccedil;&otilde;es afins, de que a Ordem do Santo Sepulcro &eacute; um exemplo.<\/p>\n<p>Ou outras organiza&ccedil;&otilde;es j&aacute; mais da sociedade civil, lato senso, como sejam as escolas, e nelas sobreleva a Universidade de Bel&eacute;m ou como seja a Pontif&iacute;cia Miss&atilde;o para a Palestina, basicamente orientada para o apoio humanit&aacute;rio, cultural, econ&oacute;mico e social aos palestinianos.<\/p>\n<p>Tudo isso &eacute; tornado dif&iacute;cil e quando tudo &eacute; tornado dif&iacute;cil as pessoas, que ainda por cima t&ecirc;m de conviver com a viol&ecirc;ncia tr&aacute;gica, saem da maneira como t&ecirc;m vindo a sair.<\/p>\n<p>&Eacute; muito dif&iacute;cil dar valores exatos, porque a din&acirc;mica &eacute; de tal maneira grande, no sentido negativo, que &eacute; muito dif&iacute;cil ter valores seguros acerca deste &ecirc;xodo que se constata. Mas os n&uacute;meros que com alguma seguran&ccedil;a se encontram mostram redu&ccedil;&otilde;es absolutamente aflitivas, com comunidades que representavam vinte por cento h&aacute; quarenta anos e que hoje representam dois, tr&ecirc;s por cento.<\/p>\n<p>E a ideia que se tem, perfeitamente assumida, &eacute; que hoje h&aacute; tantos crist&atilde;os residentes no M&eacute;dio Oriente como h&aacute; crist&atilde;os do M&eacute;dio Oriente residentes em di&aacute;spora, sobretudo na Am&eacute;rica Latina, Brasil e Argentina, e tamb&eacute;m na Am&eacute;rica do Norte.<\/p>\n<p>Tem havido algum movimento de emigra&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, em particular para Israel, vindos de outros pa&iacute;ses, Rom&eacute;nia, &Iacute;ndia, as Filipinas, Eti&oacute;pia e v&aacute;rios outros, e isso de alguma maneira equilibra os contingentes quando se faz estat&iacute;stica mas n&atilde;o equilibra o problema em si mesmo, de modo algum.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; A Ordem do Santo Sepulcro tem sentido esta dificuldade em atuar, em fazer chegar as ajudas, por parte da comunidade internacional, &agrave; Terra Santa?<\/em><\/p>\n<p><em>GFB &ndash;<\/em> Os donativos que a Ordem d&aacute; normalmente s&atilde;o canalizados para Roma e Roma, que aprova os projetos que s&atilde;o apresentados pelo patriarca latino, canaliza esses donativos para cada projeto que depois fiscaliza e acompanha.<\/p>\n<p>Nesse aspeto, dos movimentos da Ordem e do Vaticano para a Terra Santa, n&atilde;o h&aacute; problemas. Os problemas s&atilde;o mais o que &eacute; que os crist&atilde;os do M&eacute;dio Oriente esperam do Ocidente. E o problema p&otilde;e-se aqui.<\/p>\n<p>N&oacute;s sabemos que os crist&atilde;os s&atilde;o hoje o grupo religioso mais perseguido, h&aacute; duzentos milh&otilde;es de crist&atilde;os em todo o mundo que s&atilde;o perseguidos ou que n&atilde;o exercem livremente o seu culto religioso.<\/p>\n<p>Mais de dois ter&ccedil;os das na&ccedil;&otilde;es no mundo n&atilde;o criam espa&ccedil;os de liberdade religiosa para os crist&atilde;os, s&atilde;o impressionantes estes n&uacute;meros, e isto naturalmente tem reflexo na maneira como os pa&iacute;ses e o Ocidente que tem denegado muito os seus valores crist&atilde;os, como &eacute; que os pa&iacute;ses encaram a situa&ccedil;&atilde;o dos crist&atilde;os na Terra Santa e no M&eacute;dio Oriente em geral.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nesse contexto o que &eacute; que de facto o Ocidente pode fazer pelos crist&atilde;os da Terra Santa?<\/em><\/p>\n<p><em>GFB &ndash;<\/em> N&atilde;o resisto a ler uma cita&ccedil;&atilde;o que &eacute; t&atilde;o impressionante que eu n&atilde;o queria deixar de ler. O bispo maronita, monsenhor Bechara Rai, &agrave; pergunta de &lsquo;que esperais do Ocidente&rsquo; respondeu s&oacute; isto: Pouca coisa, os pa&iacute;ses ocidentais olham antes de tudo para os seus interesses econ&oacute;micos e pol&iacute;ticos, enquanto a comunidade internacional afasta o seu olhar dos problemas dos crist&atilde;os do M&eacute;dio Oriente.<\/p>\n<p>E isto representa um bocadinho do que se passa, se houvesse mais preocupa&ccedil;&atilde;o na salvaguarda e na preserva&ccedil;&atilde;o dos valores perenes, culturais e morais, o mundo certamente arranjaria solu&ccedil;&otilde;es para que os problemas que existem no M&eacute;dio Oriente fossem resolvidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O Ocidente n&atilde;o estar&aacute; preocupado com os valores, com os crist&atilde;os e com as pessoas em geral na Terra Santa, mas ter&aacute; permanentemente um papel de interven&ccedil;&atilde;o naqueles conflitos, nomeadamente pelo fornecimento de armas. Est&aacute; agir na via contr&aacute;ria, precisamente? <\/em><\/p>\n<p><em>VP &#8211;<\/em> N&atilde;o s&atilde;o as armas que fazem a via contr&aacute;ria, o que faz a via contr&aacute;ria ou a via boa &eacute; a vontade das pessoas, e a boa ou pior leitura que fazem da situa&ccedil;&atilde;o, exatamente o que o doutor Gon&ccedil;alo Barros acabou de referir.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>VP &#8211;<\/em> Estamos distantes no Ocidente e estamos distantes em todo o mundo, mas a nossa cultura e civiliza&ccedil;&atilde;o torna-nos mais culpados, nesse sentido estamos distantes de prestar aten&ccedil;&atilde;o aos valores que s&atilde;o importantes de observar, e estamos &agrave; procura apenas de uma solu&ccedil;&atilde;o supostamente m&aacute;gica e um pouco constitu&iacute;da pela via mecanicista, do lit&iacute;gio entre uns e outros.<\/p>\n<p>Por essa via n&atilde;o se vai porventura chegar a lado nenhum, e eu ali&aacute;s costumo pensar e dizer que n&atilde;o h&aacute; solu&ccedil;&atilde;o para a quest&atilde;o do M&eacute;dio Oriente, no sentido de uma solu&ccedil;&atilde;o tranquilizadora e definitiva, tanto quanto a Hist&oacute;ria nos permite a ideia de definitivo, e o que h&aacute; &eacute; que encontrar o melhor modus vivendi poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>E esse &lsquo;modus vivendi&rsquo; s&oacute; pode assentar em acomoda&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o pode ser acomoda&ccedil;&atilde;o entre estes e aqueles, tem de ser entre todos. E eu vejo nessa acomoda&ccedil;&atilde;o correta entre todos uma base virtuosa para a procura de uma melhor solu&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>Agora o M&eacute;dio Oriente &eacute; uma zona em que &eacute; imposs&iacute;vel aos grandes poderes do mundo deixar de estar presentes e ativos. Passam-se l&aacute;, ou entrecruzam-se l&aacute; linhas de tens&atilde;o fundamentais para a afirma&ccedil;&atilde;o da Uni&atilde;o Europeia, por exemplo, para o combate ao radicalismo isl&acirc;mico, para a seguran&ccedil;a energ&eacute;tica, para a quest&atilde;o important&iacute;ssima da prolifera&ccedil;&atilde;o nuclear, tudo isso &eacute; importante mas nada disso &eacute; abord&aacute;vel de uma forma s&eacute;ria e sustent&aacute;vel se as pessoas, e em particular as pessoas locais, forem desconsideradas no quadro da busca de melhores solu&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O Papa Bento XVI em maio de 2009 defendeu em Israel o direito a Israel existir e tamb&eacute;m reconhe&ccedil;a-se, afirmou, que o povo palestiniano tem direito a uma p&aacute;tria independente. Resolver a quest&atilde;o dos Estados n&atilde;o bastar&aacute;?<\/em><\/p>\n<p><em>VP &ndash;<\/em> Eu acho que &eacute; um passo absolutamente indispens&aacute;vel, o que eu acho que n&atilde;o ser&aacute; satisfat&oacute;rio e suficiente &eacute; se disser assim &lsquo;Israel &eacute; um Estado de judeus, contra estes e aqueles e a Palestina um Estado de mu&ccedil;ulmanos, contra estes e aqueles.<\/p>\n<p>N&atilde;o, Israel e Palestina n&atilde;o se podem perceber a eles pr&oacute;prios e n&atilde;o podem ser percebidos pelo mundo, em particular pelo Ocidente que tem uma matriz que n&oacute;s todos praticamos e devemos observar, como entes puros neste sentido, como entes homog&eacute;neos nem no sentido &eacute;tnico nem no sentido religioso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Em cada um deles h&aacute; diferentes grupos<\/em><\/p>\n<p><em>VP &ndash;<\/em> Exatamente e esses grupos t&ecirc;m de poder viver em harmonia e sob a responsabilidade do mesmo Estado.<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O que tornar&aacute; mais dif&iacute;cil resolver a quest&atilde;o&nbsp; <\/em><\/p>\n<p><em>VP &ndash;<\/em> Certamente, mas julgo que s&oacute; &eacute; essa a via, a outra via, o mais que pode, n&atilde;o vejo, e em particular no tema que aqui nos motiva hoje, na manuten&ccedil;&atilde;o desta dicotomia e deste antagonismo fundamental entre israelitas e palestinianos, judeus e mu&ccedil;ulmanos, e s&oacute; visto a essa luz, eu acho que o m&aacute;ximo a que se pode aspirar &eacute; &agrave; preserva&ccedil;&atilde;o da presen&ccedil;a crist&atilde; e isso n&atilde;o basta, com certeza.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que expetativa tem a Ordem do Santo Sepulcro para a visita do Papa Francisco, at&eacute; para passos que se possam dar na resolu&ccedil;&atilde;o destes problemas?<\/em><\/p>\n<p><em>GFB &ndash;<\/em>. Vamos ter a presidir &agrave;s cerim&oacute;nias de maio em F&aacute;tima ao patriarca latino de Jerusal&eacute;m, que &eacute; a figura m&aacute;xima da Igreja Cat&oacute;lica na Terra Santa. No fundo personifica, de certa maneira, a presen&ccedil;a da Terra Santa na Terra de Santa Maria, concretamente esta liga&ccedil;&atilde;o de Portugal &agrave; Terra Santa e da Terra Santa a Portugal. &Eacute; um feito hist&oacute;rico, uma circunst&acirc;ncia hist&oacute;rica, porque nunca aconteceu uma situa&ccedil;&atilde;o desta.<\/p>\n<p>O patriarca latino veio a convite de D. Ant&oacute;nio Marto, bispo de Leiria-F&aacute;tima, e vai transmitir de viva voz as preocupa&ccedil;&otilde;es que na Terra Santa, no local onde tudo se passa, e tem sido o objeto desta nossa conversa tamb&eacute;m, as particulares situa&ccedil;&otilde;es de dificuldade que os crist&atilde;os da Terra Santa atravessam.<\/p>\n<p>Transmitir tamb&eacute;m uma mensagem de esperan&ccedil;a para a sensibiliza&ccedil;&atilde;o dos portugueses e do mundo ocidental para o apoio que vai sendo necess&aacute;rio.<\/p>\n<p>N&atilde;o deixa de ser extraordin&aacute;ria esta presen&ccedil;a, numa semana que medeia entre a presen&ccedil;a do monsenhor Fouad Twal, patriarca latino de Jerusal&eacute;m, em Portugal, e a rece&ccedil;&atilde;o que ele ir&aacute; dar ao Papa Francisco em Jerusal&eacute;m, em Bel&eacute;m e na Jord&acirc;nia.<\/p>\n<p>Mas de facto n&oacute;s sabemos que Portugal, com toda a sua voca&ccedil;&atilde;o mission&aacute;ria e tradi&ccedil;&atilde;o, pode ter aqui um papel tamb&eacute;m importante de ser um espa&ccedil;o para a abertura e divulga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Eu s&oacute; queria referir aqui uma outra situa&ccedil;&atilde;o que se relaciona tamb&eacute;m com esta: h&aacute; dois, tr&ecirc;s anos, esteve em Portugal a convite da Funda&ccedil;&atilde;o Ajuda a Igreja que Sofre o atual patriarca da Babil&oacute;nia, D. Louis Sako.<\/p>\n<p>E &agrave; pergunta que lhe foi feita, id&ecirc;ntica &agrave; sua, quando lhe pediram para ele dizer o que &eacute; que precisa do Ocidente para ajudar os crist&atilde;os que est&atilde;o a sofrer no Iraque, ele disse com um sorriso nos l&aacute;bios uma verdade surpreendente. N&oacute;s s&oacute; precisamos que se lembrem de n&oacute;s.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Nesta visita do Papa que passos podem ser dados para essa reconcilia&ccedil;&atilde;o entre os v&aacute;rios grupos, os v&aacute;rios povos que habitam aquela terra? <\/em><\/p>\n<p>VP &ndash; &Agrave; Santa S&eacute; e ao Papa cabe uma miss&atilde;o de pastoral, de diplomacia e de est&iacute;mulo. A miss&atilde;o pastoral n&atilde;o tenho autoridade para a comentar, mas pode-se perceber que &eacute; aquele inerente &agrave; sua alta dignidade e fun&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>A miss&atilde;o de diplomacia, que seria aquela para a qual eu me atreveria um pouco a olhar, tem que ver, embora pare&ccedil;a paradoxal, com a afirma&ccedil;&atilde;o destes valores, princ&iacute;pios, destas exig&ecirc;ncias no que toca ao respeito pelas vidas, pelos bens, pelas liberdades e pelos direitos das pessoas.<\/p>\n<p>E depois uma posi&ccedil;&atilde;o de exig&ecirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o por exemplo &agrave; quest&atilde;o de Jerusal&eacute;m. Jerusal&eacute;m n&atilde;o pode ser entendida como uns e outros procuram entend&ecirc;-la. Israel como a sua capital e terra, onde est&atilde;o os seus &oacute;rg&atilde;os de soberania.<\/p>\n<p>Do lado dos palestinianos, uma reivindica&ccedil;&atilde;o sobre pelo menos a parte oriental da cidade, e da parte dos crist&atilde;os uma tentativa de existir num s&iacute;tio onde hoje s&atilde;o quase irrelevantes, do ponto de vista demogr&aacute;fico, embora a relev&acirc;ncia n&atilde;o possa ser medida, de todo, por esses par&acirc;metros.<\/p>\n<p>Eu acho que a Santa S&eacute;, de resto em linha com o que &eacute; a posi&ccedil;&atilde;o da comunidade internacional, tem de se manter fiel e ativa na defesa de Jerusal&eacute;m como &lsquo;corpus separatum&rsquo;, como lhe chamou as Na&ccedil;&otilde;es Unidas, quando em 1947, mais ou menos, regulou a partilha da Palestina.<\/p>\n<p>E &eacute; um pouco na linha disso que todas as representa&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas em Israel est&atilde;o em Telavive, inclusive a do Vaticano e a portuguesa, e isso tem de ser uma linha de exig&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>Porque realmente Jerusal&eacute;m, e o patriarca latino de Jerusal&eacute;m h&aacute; pouco tempo invocou, &eacute; uma figura simb&oacute;lica apenas mas com grande sentido, Jerusal&eacute;m pode, do ponto de vista simb&oacute;lico, dos valores, dos princ&iacute;pios, pode e deve ser encarada como uma capital da humanidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>APresen\u00e7a do patriarca latino de Jerusal\u00e9m, D. 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