{"id":65573,"date":"2014-04-18T18:58:10","date_gmt":"2014-04-18T18:58:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/04\/18\/lisboa-homilia-da-celebracao-da-paixao-do-senhor\/"},"modified":"2014-04-18T18:58:10","modified_gmt":"2014-04-18T18:58:10","slug":"lisboa-homilia-da-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lisboa-homilia-da-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Lisboa: Homilia da Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p><strong>A gl&oacute;ria da cruz, como chave da hist&oacute;ria<\/strong><\/p>\n<p>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os<\/p>\n<p>De tudo quanto ouvimos e continua decerto a ecoar no nosso cora&ccedil;&atilde;o, falar&aacute; mais alto a &uacute;ltima frase de Cristo, e exatamente por ser t&atilde;o total: &laquo;Tudo est&aacute; consumado!&raquo; Como acontece na vida que s&oacute; integralmente se vive; como acontece na Igreja, onde nada se pode reduzir; como acontecer&aacute; no mundo, que pede igual inteireza. Porque agora vivemos a partir do fim: do fim que Cristo atingiu, sofreu e venceu, atraindo o princ&iacute;pio em que ainda estamos, respondendo a todos os anseios e cumprindo toda a promessa.<\/p>\n<p>Estamos, irm&atilde;os, e permanecemos, junto &agrave; cruz do Senhor. Aqui nos manteremos, como em li&ccedil;&atilde;o nunca acabada, nunca por demais aprendida. Tamb&eacute;m como orienta&ccedil;&atilde;o definida do olhar e do esp&iacute;rito, para esse &uacute;ltimo ponto que Ele pr&oacute;prio garantiu: &laquo;Eu, quando for erguido da terra, atrairei todos a mim&raquo; (Jo 12, 32). A nossa presen&ccedil;a aqui, bem como em id&ecirc;nticas celebra&ccedil;&otilde;es pelo mundo inteiro neste momento, comprova a ineg&aacute;vel verdade da palavra de Cristo.<\/p>\n<p>Caso para nos interrogarmos, caso para verificarmos em n&oacute;s a verdade profunda da sua atra&ccedil;&atilde;o universal. Lei espiritual e muito mais do que f&iacute;sica. Verifiquemos ent&atilde;o e agrade&ccedil;amos sempre, pois &eacute; do Pai que tal atra&ccedil;&atilde;o prov&eacute;m, fixando-nos em Jesus, pelo &iacute;mpeto do Esp&iacute;rito. Esta hora, car&iacute;ssimos irm&atilde;os, n&atilde;o &eacute; principalmente nossa: agrade&ccedil;amo-la a Deus, que, em Cristo, tamb&eacute;m nos recupera e consuma, a cada um de n&oacute;s, na gl&oacute;ria da cruz.<\/p>\n<p>Da&iacute; que a f&eacute; seja absolutamente teologal, tamb&eacute;m no ensinamento de Cristo, superando o que concluir&iacute;amos &ldquo;pela carne e o sangue&rdquo;, ou seja s&oacute; por n&oacute;s. Retorquindo ao ap&oacute;stolo, que o confessara como Messias e Filho de Deus vivo, disse assim: &laquo;&Eacute;s feliz, Sim&atilde;o, filho de Jonas, porque n&atilde;o foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que est&aacute; no C&eacute;u&raquo; (Mt 16, 17). Assim dalgum modo aos que aqui estamos, ouvindo como se fosse a primeira vez a narrativa da Paix&atilde;o, ou fixando-nos daqui a pouco, na cruz que adoraremos.<\/p>\n<p>Concluamos ainda, convertidos sempre, que esta hora &eacute; toda de Deus, passando-se connosco &ndash; cora&ccedil;&atilde;o e consci&ecirc;ncia &ndash; o que apenas Ele determina e consegue: a fixa&ccedil;&atilde;o na cruz, a devo&ccedil;&atilde;o da alma, a mudan&ccedil;a da vida. E o que seria motivo de repulsa, &laquo;pois t&atilde;o desfigurado estava o seu rosto que tinha perdido toda a apar&ecirc;ncia de um ser humano&raquo;, como ouvimos ao profeta, torna-se viv&ecirc;ncia acrescida, como brota em sangue e &aacute;gua daquele peito lanceado.<\/p>\n<p>Detenhamo-nos noutras palavras que disse: &laquo;Tenho sede!&raquo;. Imediatamente tomadas, manifestam a secura mortal dum terr&iacute;vel instante. Mas o evangelista guardou-as, porque significavam muito mais: a ansiedade infinda do Filho pelo Pai e do Irm&atilde;o pelos irm&atilde;os, em comunh&atilde;o completa. Como o cantara um salmo: &laquo;A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo!&raquo; (Sl 42 (41), 3). Como o dissera ele a quem nos representava a todos: &laquo;D&aacute;-me de beber!&raquo; (Jo 4, 7). Se queremos viver esta hora no cora&ccedil;&atilde;o de Cristo, guardemos estas frases como o maior dos tesouros, para recolhermos o seu anseio pelo Pai e para recolhermos o seu anseio por n&oacute;s, cada um de n&oacute;s.<\/p>\n<p>Reparemos tamb&eacute;m na desadequa&ccedil;&atilde;o da resposta: para a sede de Jesus, ofereceram uma esponja de vinagre&hellip; E reparemos bem, e do fundo da nossa consci&ecirc;ncia magoada e finalmente desperta.<\/p>\n<p>O mais convincente destes momentos de Jesus, que nos salvam a n&oacute;s, &eacute; ultrapassarem em absoluto o nosso modo natural de ser, a nossa maneira usual de pensar, a forma prevista das expetativas comuns. Queremos Deus, certamente. &ndash; Mas que &ldquo;Deus&rdquo; continuamos a querer? Esperamos a salva&ccedil;&atilde;o. &ndash; Mas de que &eacute; que nos queremos realmente salvar? Almejamos a realiza&ccedil;&atilde;o perfeita dos nossos destinos individuais e coletivos. &ndash; Mas exatamente quais?<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m Jesus o desejara, profundamente desejara: &laquo;Eu vim lan&ccedil;ar fogo sobre a terra; e como gostaria que ele j&aacute; se tivesse ateado! Tenho de receber um batismo, e que ang&uacute;stia a minha at&eacute; que ele se realize!&raquo; (Lc 12, 49-50), referindo-se assim &agrave; perfeita conclus&atilde;o da sua hora total e &agrave; miss&atilde;o cumprida. &#8211; E n&oacute;s, irm&atilde;os car&iacute;ssimos, aqui reunidos numa hora que n&atilde;o permite enganos, n&oacute;s que fomos batizados no Esp&iacute;rito e no fogo que Jesus nos trouxe (cf. Lc 3, 16), estamos assim ansiosos por que se cumpra em n&oacute;s a hora da cruz, sem nos sobrar nada que n&atilde;o seja para Deus e sem guardarmos nada que devamos aos outros?!<\/p>\n<p>Cumpriram-se finalmente as profecias, resumiu-se num momento a hist&oacute;ria b&iacute;blica, fermento da que h&aacute; de ser geral. Ali se percebeu, como agora se contempla, que a consuma&ccedil;&atilde;o ansiada &eacute; a vida retribu&iacute;da. A totalidade da cruz apenas se entrev&ecirc;. Mas bem vis&iacute;vel &eacute; Cristo, Filho de Deus e Filho de Maria, pela humanidade que dela recebeu e o irmana connosco.<\/p>\n<p>Vivendo a sua paix&atilde;o, tal significa a religi&atilde;o perfeita, como Jesus a demonstra e o seu Esp&iacute;rito proporciona. Vida filial e aut&ecirc;ntica, de quem tudo devolve e nada ret&eacute;m para si. &ldquo;Nada&rdquo; significa dotes de intelig&ecirc;ncia, sensibilidade ou fortuna; &ldquo;nada&rdquo; significa inten&ccedil;&otilde;es, sonhos e projetos. Como os bra&ccedil;os da cruz, tudo acima para o Pai e tudo alargado para os outros.<\/p>\n<p>Concretizando sempre, algum de n&oacute;s tem d&uacute;vidas de que a pr&oacute;pria consuma&ccedil;&atilde;o duma sociedade perfeita, come&ccedil;ada j&aacute;, n&atilde;o poder&aacute; ser outra coisa sen&atilde;o vidas compartilhadas, dotes repartidos, aten&ccedil;&atilde;o continuada a todas as necessidades dos outros &ndash; que s&atilde;o outras tantas oportunidades e exig&ecirc;ncias de nos consumarmos na entrega?<\/p>\n<p>Deixai-me duvidar, car&iacute;ssimos irm&atilde;os, que alguma sociedade se tenha consumado j&aacute; assim, ao ponto de legitimamente se chamar &ldquo;crist&atilde;&rdquo;&hellip; Ali&aacute;s, creio que &ldquo;crist&atilde;o&rdquo; e &ldquo;crist&atilde;&rdquo; s&oacute; podem ser substantivos, n&atilde;o adjetivos, da subst&acirc;ncia de Cristo em n&oacute;s e por n&oacute;s no mundo.<\/p>\n<p>Como Paulo p&ocirc;de dizer, ele que tinha morrido inteiramente para si, para com Cristo se entregar aos outros: &laquo;Trazemos sempre no nosso corpo a morte de Jesus, para que tamb&eacute;m a vida de Jesus seja manifestada no nosso corpo&raquo; (2 Cor 4, 10). E, porventura ainda mais claramente: &laquo;Estou crucificado com Cristo. J&aacute; n&atilde;o sou eu que vivo, mas &eacute; Cristo que vive em mim. E a vida que agora tenho na carne, vivo-a na f&eacute; do Filho de Deus que me amou e a si mesmo se entregou por mim&raquo; (Gl 2, 19-20).<\/p>\n<p>Todavia, n&atilde;o sabendo se alguma sociedade se p&ocirc;de chamar legitimamente &ldquo;crist&atilde;&rdquo;, sei, de facto sei, que a paix&atilde;o de Cristo continua inteiramente dispon&iacute;vel para se tornar na paix&atilde;o dum mundo realmente de Deus e por isso compartilhado. Vislumbro-o em muitos que se comprometem, dia a dia, com o bem comum de todos e na dignifica&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;ximo: de quem precisa de nascer, de crescer, trabalhar e envelhecer em paz; de quem precisa de viver, na plenitude de Deus e na plenitude do homem. Na gl&oacute;ria da cruz, como chave da hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>A nossa presen&ccedil;a aqui revela-se ent&atilde;o como esperan&ccedil;a para o mundo. N&atilde;o a defraudemos a Deus, nem aos outros.<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente<br \/><\/em><em>S&eacute; de Lisboa, 18 de abril de 2014<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gl&oacute;ria da cruz, como chave da hist&oacute;ria Car&iacute;ssimos irm&atilde;os De tudo quanto ouvimos e continua decerto a ecoar no nosso cora&ccedil;&atilde;o, falar&aacute; mais alto a &uacute;ltima frase de Cristo, e exatamente por ser t&atilde;o total: &laquo;Tudo est&aacute; consumado!&raquo; Como acontece na vida que s&oacute; integralmente se vive; como acontece na Igreja, onde nada se [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168],"class_list":["post-65573","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65573","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65573"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65573\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65573"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65573"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65573"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}