{"id":65571,"date":"2014-04-18T18:36:58","date_gmt":"2014-04-18T18:36:58","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/04\/18\/coimbra-homilia-da-celebracao-da-paixao-do-senhor\/"},"modified":"2014-04-18T18:36:58","modified_gmt":"2014-04-18T18:36:58","slug":"coimbra-homilia-da-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/coimbra-homilia-da-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Coimbra: Homilia da Celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>Nesta tarde de Sexta-Feira Santa a cruz ergue-se como o sinal maior do amor de Deus e apresenta-se como o &uacute;nico caminho v&aacute;lido do amor humano. Diante dela as palavras s&atilde;o simples adornos e o sil&ecirc;ncio de contempla&ccedil;&atilde;o &eacute; gerador de gestos que protagonizam a vida. Nela se revela a sabedoria de Deus, a &uacute;nica que ilumina todos os caminhos dos homens e os faz ser sempre precursores de novas auroras de ressurrei&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&ldquo;Sou Eu&rdquo;.<\/p>\n<p>Esta express&atilde;o do Evangelho segundo S. Jo&atilde;o que se l&ecirc; na liturgia deste dia n&atilde;o &eacute; somente a afirma&ccedil;&atilde;o de uma identidade humana, mas tem, na interpreta&ccedil;&atilde;o da Escritura, um valor teol&oacute;gico, ou seja &eacute; uma afirma&ccedil;&atilde;o de que Jesus &eacute; o Filho de Deus.<\/p>\n<p>Diante dos que O procuram para lhe dar a morte, Ele avan&ccedil;a, cumprindo o que fora profetizado nos cantos do Servo do Senhor: n&atilde;o recuou um passo, apresentou-se diante deles, n&atilde;o vacilou.<\/p>\n<p>Enquanto Filho de Deus, &ldquo;ele pr&oacute;prio entregou a sua vida &agrave; morte&rdquo;, obedeceu sempre e em tudo, amou at&eacute; ao fim. Poderia Deus agir de outro modo, Ele que tem entranhas de miseric&oacute;rdia e se comove infinitamente com o sofrimento e com a morte dos seus filhos? Poderia deix&aacute;-los entregues a si mesmos e no caminho da perdi&ccedil;&atilde;o eterna, o fruto dos seus pecados? N&atilde;o. Porque como declara o profeta Oseias, Ele &eacute; Deus e n&atilde;o um homem, &eacute; o Santo de Israel.<\/p>\n<p>Jesus avan&ccedil;a confiante no Pai e n&atilde;o permite que algu&eacute;m duvide da sua decis&atilde;o: &ldquo;J&aacute; vos disse que sou Eu. Por isso, se &eacute; a Mim que buscais, deixai que estes se retirem&rdquo;. E n&atilde;o permite sequer que algu&eacute;m use de viol&ecirc;ncia para o livrar de cumprir a sua miss&atilde;o e de salvar aqueles que lhe foram confiados pela entrega da sua vida &agrave; morte: &ldquo;mete a tua espada na bainha. N&atilde;o hei-de beber o c&aacute;lice que meu Pai Me deu?&rdquo;.<\/p>\n<p>Se h&aacute; um pre&ccedil;o a pagar para que todos sejam salvos, n&atilde;o h&aacute; que hesitar nem recuar. Esse &eacute; o contributo que Lhe cabe dar para que isso aconte&ccedil;a; esse &eacute; o caminho a percorrer e nisso consiste a prova do seu amor, que nunca &eacute; a busca do pr&oacute;prio bem pessoal, mas sempre a procura desinteressada do bem dos outros.<\/p>\n<p>Quando procuramos a novidade do cristianismo, o seu distintivo inequ&iacute;voco, &eacute; aqui que o encontramos. N&atilde;o seria aut&ecirc;ntico nem verdadeiramente novo sem os acontecimentos que celebramos em Sexta-Feira Santa, porque seria porventura uma mensagem bela, mas n&atilde;o provada pelo sacrif&iacute;cio e pela morte de cruz.<\/p>\n<p>De entre todos os racioc&iacute;nios e argumentos que possamos aduzir para referir a verdade da f&eacute; crist&atilde;, sobressai um, qual selo da sua autenticidade: a morte de Cristo na cruz, a prova do amor de Deus por n&oacute;s.<\/p>\n<p>&ldquo;N&atilde;o sou&rdquo;.<\/p>\n<p>Num contraste bem claro com o &ldquo;sim&rdquo; de Jesus, expresso na sua solene apresenta&ccedil;&atilde;o por palavras e pela oferta da sua vida na cruz, pr&oacute;prio do modo de agir de Deus, surge o &ldquo;n&atilde;o&rdquo; de Pedro, expresso na sua fuga a Deus, &agrave; cruz e &agrave; entrega. &Agrave;s perguntas insistentes que lhe dirigem durante o julgamento, acerca da sua identidade, ele responde por tr&ecirc;s vezes, &ldquo;n&atilde;o sou&rdquo;.<\/p>\n<p>Nas palavras e na atitude de Pedro reflete-se este que &eacute;, t&atilde;o frequentemente, o modo de agir dos homens, o nosso modo de agir, diante das exig&ecirc;ncias do amor de Deus e do amor dos homens.<\/p>\n<p>Centrado em si mesmo, obcecado pela defesa da sua pr&oacute;pria vida, n&atilde;o aceita a cruz, fecha-se ao amor e acaba por permitir a morte e, quando n&atilde;o, por protagonizar uma cultura de morte. O gr&atilde;o de trigo lan&ccedil;ado &agrave; terra, se morre, d&aacute; muito fruto, se n&atilde;o morre, fica s&oacute;, como Jesus dissera.<\/p>\n<p>&ldquo;Estava junto &agrave; cruz de Jesus sua M&atilde;e&#8230;&rdquo;<\/p>\n<p>O Evangelho n&atilde;o pode deixar de salientar a outra vers&atilde;o das poss&iacute;veis atitudes humanas diante de Jesus e diante dos irm&atilde;os. F&aacute;-lo por meio da refer&ecirc;ncia a Sua M&atilde;e e &agrave;s outras mulheres que acompanham e permanecem de p&eacute; junto &agrave; cruz, participando de todos os momentos e sentindo elas mesmas como sua a cruz de Jesus.<\/p>\n<p>Desta maneira o Evangelho nos sugere o modo de nos situarmos diante da cruz de Jesus, diante da nossa cruz e diante da cruz dos homens, nossos irm&atilde;os, de p&eacute;, e afirmando claramente por palavras e atitudes: aqui estou. Eis o modelo para o crist&atilde;o, eis o caminho da Igreja, figurada na pessoa de Maria, a M&atilde;e de Jesus, como &eacute; caracter&iacute;stica do evangelista S. Jo&atilde;o.<\/p>\n<p>Nesta tarde de Sexta-Feira Santa, contemplando Jesus suspenso na cruz, confrontamo-nos com a nossa resposta ao amor de Deus.<\/p>\n<p>Onde est&aacute; o nosso cora&ccedil;&atilde;o? &ndash; perguntava, h&aacute; dias, o papa Francisco.<\/p>\n<p>Onde est&aacute; o nosso cora&ccedil;&atilde;o? &ndash; pergunta-nos o Senhor, hoje, a n&oacute;s.<\/p>\n<p>Sem cora&ccedil;&atilde;o, sem amor e sem cruz acolhida e aceite, a nossa e a dos outros, n&atilde;o h&aacute; salva&ccedil;&atilde;o para a humanidade j&aacute; sobre esta terra. E todos os dias nos confrontamos com os sinais da aus&ecirc;ncia de cora&ccedil;&atilde;o nas fam&iacute;lias que n&atilde;o acolhem o amor que se sacrifica pela vida, pela unidade e comunh&atilde;o do seus membros, nas pol&iacute;ticas que n&atilde;o respeitam a dignidade da pessoa humana, nas rela&ccedil;&otilde;es laborais que exploram e escravizam, nos detentores do capital que n&atilde;o ouvem o clamor dos pobres, nos crentes que esquecem que apenas a caridade jamais acabar&aacute;.<\/p>\n<p>Respondendo ao convite do papa Francisco na Exorta&ccedil;&atilde;o Apost&oacute;lica Evangelii gaudium, n&oacute;s, os crist&atilde;os, quando se trata de agir e assumir responsabilidades no mundo, seremos os primeiros &ndash; o que ele chamou &ldquo;primeirear&rdquo; &#8211; adiantar-nos-emos a todos os outros, tomaremos a iniciativa quando se trata de tomarmos todas as cruzes humanas, pr&oacute;prias e alheias.<\/p>\n<p>Como Jesus, diremos: sou eu, aqui estou; como Maria, permaneceremos de p&eacute;, sentindo a cruz dos outros como a nossa pr&oacute;pria cruz.<\/p>\n<p><em>Coimbra, S&eacute; Nova, 18 de abril de 2014<\/em><\/p>\n<p><em>Virg&iacute;lio do Nascimento Antunes<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nesta tarde de Sexta-Feira Santa a cruz ergue-se como o sinal maior do amor de Deus e apresenta-se como o &uacute;nico caminho v&aacute;lido do amor humano. 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