{"id":65560,"date":"2014-04-18T16:03:17","date_gmt":"2014-04-18T16:03:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/04\/18\/braga-homilia-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/"},"modified":"2014-04-18T16:03:17","modified_gmt":"2014-04-18T16:03:17","slug":"braga-homilia-na-celebracao-da-paixao-do-senhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/braga-homilia-na-celebracao-da-paixao-do-senhor\/","title":{"rendered":"Braga: Homilia na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor"},"content":{"rendered":"<p>1. Experi&ecirc;ncia Humana<\/p>\n<p>H&aacute; uns tempos atr&aacute;s, num programa televisivo, um portador de cancro, a quem lhe diagnosticaram pouco tempo de vida, afirmava com convic&ccedil;&atilde;o o seguinte: &ldquo;Provavelmente morrerei da doen&ccedil;a, mas o que nunca acontecer&aacute; &eacute; a doen&ccedil;a matar-me&rdquo;.<\/p>\n<p>2. Sinais dos Tempos<\/p>\n<p>De facto, h&aacute; desafios quotidianos na nossa vida que nos fazem sentir imperfeitos, inseguros e aterrorizados. E diante desses desafios, que cada um tem diante de si, h&aacute; uma pergunta que fazemos constantemente: &#8211; Serei eu capaz de ultrapassar o dif&iacute;cil exame da escola?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de aguentar o insuport&aacute;vel dia de trabalho?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de pagar o cr&eacute;dito banc&aacute;rio que me falta?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de continuar a acreditar neste pa&iacute;s?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de recuperar daquela desilus&atilde;o familiar?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de corrigir os meus defeitos?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de cuidar bem daquele meu familiar que me est&aacute; confiado?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de, enquanto pai ou m&atilde;e, proporcionar aos meus filhos o futuro que merecem?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de perdoar aquele vizinho que me odeia e me difama?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de arranjar emprego?<\/p>\n<p>&#8211; Serei eu capaz de recuperar desta doen&ccedil;a que me fragiliza?<\/p>\n<p>&#8211; E serei eu capaz de celebrar a f&eacute; com autenticidade?<\/p>\n<p>3. Liturgia da Palavra<\/p>\n<p>Curiosamente, uma vez pregado na Cruz, Jesus apenas reza todo o salmo 22, o qual tamb&eacute;m come&ccedil;a com uma pergunta de reivindica&ccedil;&atilde;o: &ldquo;Meu Deus, meu Deus, porque Me abandonaste?&rdquo;<\/p>\n<p>A Cruz &eacute; a consequ&ecirc;ncia dos quatro delitos cometidos por Jesus: o delito contra a lei judaica, ao propor uma nova interpreta&ccedil;&atilde;o da mesma; o delito contra o v&iacute;nculo &agrave; terra, ao propor uma nova concep&ccedil;&atilde;o territorial a partir do Reino de Deus e de uma vida eterna que supera as limita&ccedil;&otilde;es deste mundo; o delito contra a fam&iacute;lia tradicional, ao propor o modelo comunit&aacute;rio e alargando os la&ccedil;os familiares; e o delito contra o Templo de Jerusal&eacute;m, ao referir que a adora&ccedil;&atilde;o a Deus n&atilde;o se cingiria aos judeus nem dentro do Templo, mas a todos os homens e em qualquer lugar, sendo adorado &ldquo;em esp&iacute;rito e verdade&rdquo;.[1]<\/p>\n<p>4. Desafios Pastorais<\/p>\n<p>Olhando para este cen&aacute;rio, certamente que todos n&oacute;s temos um carinho especial pelo Papa Jo&atilde;o Paulo II. E das in&uacute;meras imagens p&uacute;blicas sobre a sua vida, confesso que &eacute; inesquec&iacute;vel aquela sua &uacute;ltima apari&ccedil;&atilde;o p&uacute;blica numa janela do Vaticano. Aquele jovem Papa desportista, comunicador, animador de massas, viajante e cheio de energia de outrora, estava agora &ldquo;acabado&rdquo;, no limiar das suas for&ccedil;as f&iacute;sicas, dependente de uma cadeira de rodas, afectado por uma grave doen&ccedil;a de Parkinson, com um ar extremamente sofredor e j&aacute; sem conseguir falar.[2] Mas mesmo assim, fez quest&atilde;o de aparecer &agrave; janela, naquela manh&atilde; de domingo, n&atilde;o para fazer mais um brilhante discurso, mas apenas para se expor, para mostrar o seu sofrimento, para mostrar as suas feridas, para mostrar a sua derrota.[3]<\/p>\n<p>De facto, se na sociedade actual s&oacute; vigora o que &eacute; jovem, o que &eacute; forte, o que &eacute; belo, o que &eacute; saud&aacute;vel, o que tem sucesso, esta imagem do Papa sofredor ensina-nos que os mais fracos, os doentes, os parapl&eacute;gicos, os idosos, os desempregados e os derrotados tamb&eacute;m s&atilde;o amados por Deus.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, na enc&iacute;clica Evangelium Vitae, publicada a 25 de mar&ccedil;o de 1995, o Papa Jo&atilde;o Paulo II elabora uma reflex&atilde;o brilhante sobre a dignidade da vida humana. Deste documento podemos retirar duas ideias principais: a vida humana &eacute; um dom concedido por Deus, redimido por Cristo, ungido pelo Esp&iacute;rito Santo e confiado &agrave; responsabilidade humana; e a vida humana &eacute; um valor inviol&aacute;vel que deve ser sempre defendido em todas as circunst&acirc;ncias.[4]<\/p>\n<p>H&aacute; coisas maravilhosas. A vida, no sentido global da palavra, ultrapassa-as a todas. &Eacute; dom a trabalhar e valor a defender. As circunst&acirc;ncias de que ela &eacute; revestida s&atilde;o proclama&ccedil;&atilde;o de direitos duma dignidade que deveria ser inquestion&aacute;vel, mas nem sempre o &eacute;.<\/p>\n<p>Os sinais de morte parecem prevalecer em confronto com a realidade que nos circunda. A morte de Cristo convida-nos a amar a vida, nossa e dos outros, dos nascituros ou dos moribundos. Sim, a vida deve ser amada na sua exist&ecirc;ncia ou no permitir que ela aconte&ccedil;a. S&atilde;o alarmantes a descida brutal da taxa da natalidade mas, mais do que isso, precisamos de olhar para aquilo que se semeia nas escolas, na comunica&ccedil;&atilde;o social, nos di&aacute;logos entre amigos. Urge uma invers&atilde;o de marcha a fim de evitar o fim do pa&iacute;s. A morte de Cristo est&aacute; a reclamar mais vida e mais vidas, e isto s&oacute; com uma cultura da vida se conseguir&aacute;. S&oacute; ela convence e ultrapassa as raz&otilde;es e motivos que, com o nosso consentimento, se v&atilde;o espalhando.<\/p>\n<p>5. Conclus&atilde;o<\/p>\n<p>&ldquo;A cruz n&atilde;o &eacute; uma demonstra&ccedil;&atilde;o de viol&ecirc;ncia, de sofrimento e de morte, mas pelo contr&aacute;rio, &eacute; uma mensagem de amor, de um amor mais forte que a pr&oacute;pria morte.&rdquo;[5]<\/p>\n<p>Cristo &eacute; muito mais que um her&oacute;i de Hollywood. O mist&eacute;rio da sua Paix&atilde;o n&atilde;o pode ser captado com a objectiva de uma m&aacute;quina de filmar[6], porque a sua Paix&atilde;o continua evidente nos dias de hoje, uma vez que a Cruz n&atilde;o significa a aus&ecirc;ncia de Deus, mas que Deus coloca-se ao nosso lado, num acto de plena solidariedade humana.<\/p>\n<p>Por isso, e para terminar, uma das mais belas formas de expressarmos a nossa f&eacute;, &eacute; o  beijo paradoxal que damos &agrave; Cruz de Cristo nesta celebra&ccedil;&atilde;o. Um beijo no qual revemos as nossas pr&oacute;prias feridas e onde reconhecemos que a f&eacute; n&atilde;o expressa o medo da morte mas antes o desejo da vida.<\/p>\n<p>Por tudo isso, deixo-vos a pergunta: seremos capazes de abrir os olhos e de nos comprometermos com os beijos de compaix&atilde;o a dar em tantos rostos sofredores?<\/p>\n<p>Pe&ccedil;amos ent&atilde;o ao Senhor que nos conceda a &ldquo;alegria da vida&rdquo; para saborearmos a sua compaix&atilde;o na doen&ccedil;a que nos fere, que nos magoa, que nos desumaniza e que pode levar-nos a perder a esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p><em>D. Jorge Ortiga, A.P.; 18 de abril de 2014.<\/em><\/p>\n<p>[1] Cf. Enzo Bianchi, Jesus de Nazar&eacute;. Paix&atilde;o, morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o, 35-44.<\/p>\n<p>[2] Cf. Alain Vircondelet, S&atilde;o Jo&atilde;o Paulo II, 9.<\/p>\n<p>[3] Cf. Pe. Jorge Vila&ccedil;a, Uma bala&hellip; 30 anos depois, in Igreja Viva (Suplemento do jornal &laquo;Di&aacute;rio do Minho&raquo;), 6 de janeiro de 2014, 7.<\/p>\n<p>[4] cf. Jos&eacute;-Rom&aacute;n Flecha, Bio&eacute;tica, 41-44.<\/p>\n<p>[5] Tomas Halik, A noite do confessor, 254.<\/p>\n<p>[6] Cf. Tomas Halik, A noite do confessor, 258.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1. Experi&ecirc;ncia Humana H&aacute; uns tempos atr&aacute;s, num programa televisivo, um portador de cancro, a quem lhe diagnosticaram pouco tempo de vida, afirmava com convic&ccedil;&atilde;o o seguinte: &ldquo;Provavelmente morrerei da doen&ccedil;a, mas o que nunca acontecer&aacute; &eacute; a doen&ccedil;a matar-me&rdquo;. 2. 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