{"id":65450,"date":"2014-04-11T10:10:12","date_gmt":"2014-04-11T10:10:12","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/04\/11\/memorias-do-dia-da-libertacao-pessoal-e-do-pais\/"},"modified":"2014-04-11T10:10:12","modified_gmt":"2014-04-11T10:10:12","slug":"memorias-do-dia-da-libertacao-pessoal-e-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/memorias-do-dia-da-libertacao-pessoal-e-do-pais\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias do dia da liberta\u00e7\u00e3o pessoal e do pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p>Maria Concei\u00e7\u00e3o Moita estava presa em Caxias no dia 25 de abril de 1974. Participou em a\u00e7\u00f5es contra a ditadura e sobretudo contra a guerra nas col\u00f3nias portuguesas. E teve um papel determinante nos acontecimentos da Capela do Rato: leu a declara\u00e7\u00e3o que convocava a vig\u00edlia de 48 horas <!--more--> <\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia &ndash; Que liberdade conquistou no dia 25 de abril de 1974?<\/em><\/p>\n<p><em>Maria Concei&ccedil;&atilde;o Moita &ndash;<\/em> No dia 25 de abril de 1974 estava presa, na cadeia de Caxias, como estavam muitos crist&atilde;os. N&atilde;o soubemos que tinha havido a revolu&ccedil;&atilde;o nem o golpe militar pelo Movimento das For&ccedil;as Armadas. Apenas tivemos conhecimento vagamente no final do dia 25. Percebemos que havia algumas altera&ccedil;&otilde;es nas rotinas na cadeia, alguns companheiros que seriam julgados nesse dia e que n&atilde;o foram.<\/p>\n<p>Houve um autom&oacute;vel que tentou comunicar com os presos de Caxias. Atrav&eacute;s de sinais sonoros, a partir da autoestrada. Disse que tinha havido um golpe de estado e que iriamos ser libertados. Mesmo sem ouvir toda a mensagem, percebemos as duas &uacute;ltimas palavras: &ldquo;derrubado&rdquo; e &ldquo;coragem&rdquo;.<\/p>\n<p>Ficamos muito entusiasmadas, eu e as tr&ecirc;s pessoas que estavam na cela comigo, porque quer&iacute;amos que aquele pesadelo acabasse rapidamente.<\/p>\n<p>No dia 26 de abril a horas tardias, j&aacute; noite, fomos libertados depois de algumas dilig&ecirc;ncias para que todos os presos pol&iacute;ticos fossem libertados e n&atilde;o alguns como inicialmente tinha sido anunciado.<\/p>\n<p>Foi uma liberta&ccedil;&atilde;o que teve um significado pessoal enorme! Estava presa h&aacute; seis meses. Tinha passado pela tortura, isolamento numa cela sozinha e finalmente com outras companheiras.<\/p>\n<p>Foi uma liberta&ccedil;&atilde;o &uacute;nica. Era a minha liberta&ccedil;&atilde;o pessoal depois de uma situa&ccedil;&atilde;o de cativeiro; a liberta&ccedil;&atilde;o do meu pa&iacute;s, que tanto desejava; o fim da ditadura e a conquista da palavra &ldquo;liberdade&rdquo; que faltava; e depois a liberta&ccedil;&atilde;o dos povos das col&oacute;nias, uma luta onde estava particularmente implicada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Por que motivos foi presa?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> Eu estava presa porque colaborei com as brigadas revolucion&aacute;rias nalgumas a&ccedil;&otilde;es, tinha uma casa em meu nome onde se refugiavam algumas pessoas que viviam na clandestinidade e colaborei com boleias para a&ccedil;&otilde;es de brigadas revolucion&aacute;rias.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Pertencia ao grupo de cat&oacute;licos que se opunham ao regime. Essa determina&ccedil;&atilde;o implicava a rutura com a Igreja Cat&oacute;lica?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> N&atilde;o necessariamente. E muitos de n&oacute;s n&atilde;o fizemos rutura com a Igreja. Eu, por exemplo, ia &agrave; missa todos os domingos e estava completamente integrada. Alguns sim, mas n&atilde;o por raz&otilde;es de necessidade para a sua a&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>A rutura ou desencantamento com a Igreja institucional aconteceu de uma maneira natural porque os crist&atilde;os viviam muito entristecidos pelo facto dos frutos maravilhosos do Conc&iacute;lio Vaticano II n&atilde;o terem atingido a Igreja Cat&oacute;lica em Portugal de uma maneira manifesta. Houve bolsas muito interessantes, de padres e leigos, que viveram a grande abertura que foi o Conc&iacute;lio e as suas orienta&ccedil;&otilde;es, em que participei, e que tiveram uma grande import&acirc;ncia na nossa consci&ecirc;ncia pol&iacute;tica. A mesma import&acirc;ncia tiveram as enc&iacute;clicas de Jo&atilde;o XXIII e de Paulo VI, que apontavam para a grande import&acirc;ncia do desenvolvimento humano, da democracia e da viv&ecirc;ncia em liberdade, o que era incompat&iacute;vel com o que acontecia em Portugal. Afastaram-se, por isso, da Igreja de uma maneira muito entristecida e dorida&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Vencidos do catolicismo?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> N&atilde;o sei se vencidos&hellip; Vencedores, n&atilde;o, de certeza, mas muito entristecidos. Muitos deles n&atilde;o perderam a f&eacute;, mas afirmaram a grande tristeza em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; cumplicidade que a hierarquia da Igreja mantinha quer ao fascismo quer &agrave; guerra colonial.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Qual o papel dos &ldquo;cat&oacute;licos progressistas&rdquo; na constru&ccedil;&atilde;o de uma consci&ecirc;ncia pol&iacute;tica nova e de participa&ccedil;&atilde;o ativa?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> Os cat&oacute;licos da altura foram verificando que o que se vivia enquanto cidad&atilde;os era insustent&aacute;vel e insuport&aacute;vel para a sua consci&ecirc;ncia crist&atilde;. As liberdades eram coatadas, n&atilde;o havia direito &agrave; informa&ccedil;&atilde;o, que era completamente vigiada e cortada pela censura; n&atilde;o havia o direito &agrave; reuni&atilde;o e, quando nos quer&iacute;amos reunir para quest&otilde;es mais melindrosas tinha de ser na clandestinidade. Um grupo cada vez maior de crist&atilde;os foram tomando consci&ecirc;ncia destas realidades e ligando-se entre si.<\/p>\n<p>Houve pessoas e marcos de refer&ecirc;ncia. Mas a tomada de consci&ecirc;ncia da situa&ccedil;&atilde;o em que se vivia aconteceu em grupo. A&iacute; debat&iacute;amos e combin&aacute;vamos como ajudar outros crist&atilde;os a tomar consci&ecirc;ncia destas realidades, concert&aacute;vamos estrat&eacute;gias para a&ccedil;&otilde;es concretas&hellip; E estas a&ccedil;&otilde;es foram cada vez mais importantes &agrave; medida que nos aproxim&aacute;vamos do 25 de abril. Aumentava o n&uacute;mero de participantes, de v&aacute;rios quadrantes e com v&aacute;rias sensibilidades pol&iacute;ticas que tomavam medidas quer pessoais quer em grupo para dar volta &agrave; situa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; A divulga&ccedil;&atilde;o de uma nova consci&ecirc;ncia pol&iacute;tica gerou-se em torno de pensadores e publica&ccedil;&otilde;es. Qual a import&acirc;ncia do &ldquo;Tempo e o Modo&rdquo;?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> Eu n&atilde;o estive muito ligada ao &ldquo;Tempo e o Modo&rdquo;. Era de uma gera&ccedil;&atilde;o um pouco mais nova. Foram iniciadores de um pensamento muit&iacute;ssimo aprofundado e aberto ao que se pensava l&aacute; fora e ao que de melhor se pensava c&aacute; dentro. Foram intelectuais que abriram um grande clar&atilde;o na Igreja &ldquo;cinzenta&rdquo; a que est&aacute;vamos habituados.<\/p>\n<p>Eu fui uma leitora do &ldquo;Tempo e o Modo&rdquo; e ainda tenho alguns exemplares que guardo religiosamente.<\/p>\n<p>Depois, saiu um jornal que se chamava &ldquo;O Direito &agrave; Informa&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Denunciava o que se passava no pa&iacute;s, com a ditadura, a aus&ecirc;ncia de liberdades, o aumento da pobreza, da emigra&ccedil;&atilde;o, pela qual as pessoas fugiam &agrave; mis&eacute;ria extrema que acontecia no pa&iacute;s. Foi um meio de luta contra a guerra colonial, que tinha envolvido muitos crist&atilde;os desde 1964.<\/p>\n<p>O &ldquo;Direito &agrave; Informa&ccedil;&atilde;o&rdquo; durou certa de 8 ou 9 anos, tendo sa&iacute;do 18 exemplares, o que &eacute; muito porque se tratava de uma publica&ccedil;&atilde;o feita na mais rigorosa clandestinidade, escrita &agrave; m&aacute;quina por tr&ecirc;s mulheres.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; E Cadernos GEDOC, ligados ao padre Felicidade Alves?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> Os Cadernos GEDOC foram not&aacute;veis no contributo para a consciencializa&ccedil;&atilde;o de muitos cat&oacute;licos. Eles adotaram uma estrat&eacute;gia muito interessante para fugir &agrave; censura. Cada um tinha um nome diferente, normalmente nomes b&iacute;blicos: um chamava-se Judite outro um nome diferente da B&iacute;blia. O padre Felicidade teve uma grande import&acirc;ncia a&iacute; e muitos leigos ligados a ele. Posteriormente come&ccedil;ou a editar-se o &ldquo;Boletim Anti-colonial&rdquo; que tamb&eacute;m teve muito import&acirc;ncia na divulga&ccedil;&atilde;o do que se passava nos palcos de guerra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Foi uma dos &ldquo;101 cat&oacute;licos&rdquo; que assinou o &ldquo;Manifesto&rdquo;, em 1965?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> N&atilde;o me recordo! Naquela altura havia muitos documentos que era assinados e n&atilde;o me recordo se o meu nome est&aacute; no &ldquo;Manifesto dos 101 cat&oacute;licos&rdquo;. Por vezes n&atilde;o convinha assinar porque est&aacute;vamos ligados a outro tipo de iniciativas e n&atilde;o era bom que figur&aacute;ssemos entre essas assinaturas. Havia estrat&eacute;gias de defesa de n&oacute;s pr&oacute;prios e das a&ccedil;&otilde;es em que est&aacute;vamos implicados para n&atilde;o &ldquo;espantar os pardais&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que import&acirc;ncia teve o padre Alberto Neto, uma das lideran&ccedil;as cat&oacute;licas da &eacute;poca a lutar n&atilde;o por &ldquo;outra Igreja&rdquo; mas por uma &ldquo;Igreja outra&rdquo;, como dizia?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM-<\/em> De facto, quer&iacute;amos uma Igreja outra, como o padre Alberto dizia, que fosse mais fiel &agrave; Evangelho de Jesus e uma presen&ccedil;a de Jesus consent&acirc;nea com essa mensagem.<\/p>\n<p>O padre Alberto Neto foi um dos muitos cl&eacute;rigos formid&aacute;veis dessa altura. Lembro-me de tantos que foram influenciadores da juventude e outros setores que tiveram um papel determinante na tomada de consci&ecirc;ncia de jovens e n&atilde;o jovens para a situa&ccedil;&atilde;o em que se vivia.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Particularmente marcante no seu percurso de luta pela liberdade foi a participa&ccedil;&atilde;o na vig&iacute;lia da Capela do Rato. Como foi preparada e porque foi a Maria do Concei&ccedil;&atilde;o Moita a ler a declara&ccedil;&atilde;o que anunciava a realiza&ccedil;&atilde;o de uma vig&iacute;lia, em jejum, durante 48 horas?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> Os acontecimentos da Capela do Rato foram preparados com grande rigor. Tinha havido uma iniciativa na igreja de S. Domingos, dois anos antes. Mas tinha sido um epis&oacute;dio ef&eacute;mero e com pouco impacto. O que levou a pensar numa outra a&ccedil;&atilde;o, no interior da Igreja mas aberta a n&atilde;o crist&atilde;os, que tivesse mais impacto quer do ponto de vista eclesial quer pol&iacute;tico.<\/p>\n<p>Um grupo de seis pessoas decidiram dar a cara para que essa a&ccedil;&atilde;o fosse realizada. Escolheu-se a capela do Rato n&atilde;o por causa do padre Alberto Neto, mas por ser um &ldquo;antro&rdquo; onde a mensagem evang&eacute;lica era proclamada e vivida de uma maneira muito intensa por uma pequena comunidade.<\/p>\n<p>Havia um ambiente que nos chamava para o melhor de n&oacute;s pr&oacute;prios enquanto crist&atilde;os. O padre Alberto fazia umas homilias not&aacute;veis. A PIDE estava sempre a assistir, mas nunca conseguiu prend&ecirc;-lo porque, apesar de fazer a den&uacute;ncia clara das situa&ccedil;&otilde;es que se viviam em Portugal, mantinha uma linguagem sempre pr&oacute;xima do Evangelho do dia. E por isso n&atilde;o podia ser acusado de interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Ele proclamava a mensagem do Evangelho, apenas.<\/p>\n<p>Est&aacute;vamos todos presentes na missa vespertina de s&aacute;bado, dia 30 de dezembro de 1972, celebrada pelo Jo&atilde;o Seabra Dinis. No fim eu dirigi-me aos microfones dizendo aos presentes que nos quer&iacute;amos comprometer a ficar dois dias em jejum completo e em greve de fome, em solidariedade com as v&iacute;timas da guerra, como protesto contra situa&ccedil;&atilde;o de guerra que se vivia em Portugal e contra a aus&ecirc;ncia de tomadas de posi&ccedil;&atilde;o da hierarquia cat&oacute;lica condenando a situa&ccedil;&atilde;o da guerra.<\/p>\n<p>Os acontecimentos da Capela do Rato tiveram muito impacto. Foram uma pedrada no charco muito grande, sobretudo pela possibilidade de discuss&atilde;o e debate que aconteceram durante todo o tempo, pela ora&ccedil;&atilde;o e pela enorme participa&ccedil;&atilde;o que teve.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A entrada da pol&iacute;tica e as pris&otilde;es que fez aumentaram a repercuss&atilde;o dos acontecimentos?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> De facto, muitas pessoas foram presas, algumas sem sequer estar ligadas aos acontecimentos, nomeadamente muitos jovens.<\/p>\n<p>Eu estranhamente n&atilde;o fui presa. E &eacute; imposs&iacute;vel que n&atilde;o tenham percebido que eu tinha lido aquela declara&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Uns dias depois fui interrogada pela PIDE. Perguntaram-me se tinha estado na Capela e disse-lhes obviamente que sim, que concordava completamente com os objetivos da vig&iacute;lia da Capela do Rato; que estava completamente de acordo coma mensagem do Papa para o Dia Mundial da Paz, que esse ano tinha por t&iacute;tulo &ldquo;A Paz &eacute; poss&iacute;vel&rdquo;. E eu disse aos inspetor da PIDE que &ldquo;a paz &eacute; poss&iacute;vel&rdquo;, que todos t&iacute;nhamos de fazer um esfor&ccedil;o de encontrar formas e processos de resolver os conflitos entre os humanos de maneiras humanas. T&iacute;nhamos de encontrar maneiras de por fim &agrave; guerra!<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que significado teve o facto de o cardeal Ribeiro ter condenado a invas&atilde;o da Capela pela pol&iacute;cia?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> Ele foi ultrapassado pelos acontecimentos! Pediu aos padres que celebravam missas na capela do Rato que n&atilde;o deixassem de o fazer, foi muito sol&iacute;cito em rela&ccedil;&atilde;o aos padres que foram presos depois de terem celebrado e foi &agrave; PIDE libert&aacute;-los, concretamente o padre Janela e padre Armindo. Mas n&atilde;o se pode opor &agrave; entrada da pol&iacute;cia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Mas reagiu negativamente. Ter&aacute; sido uma afirma&ccedil;&atilde;o de simpatia contra as causas que estavam a ser debatidas?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> N&atilde;o o lemos assim. Teria havido tantas possibilidades de ter tomado as suas posi&ccedil;&otilde;es noutras circunst&acirc;ncias de uma maneira mais clara. Teria o seu pensamento sobre a situa&ccedil;&atilde;o de guerra e de ditadura.<\/p>\n<p>O que estava em quest&atilde;o era uma defesa das posi&ccedil;&otilde;es da Igreja, que achava que a pol&iacute;cia n&atilde;o podia invadir uma igreja para prender crist&atilde;os. No entanto, ele foi muito cauteloso e n&atilde;o enfrentou o regime.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; E depois de 1974, acabou a milit&acirc;ncia de muitos cat&oacute;licos?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> N&atilde;o acabou no 25 de abril. Traz&iacute;amos uma din&acirc;mica que era dif&iacute;cil de parar. Logo depois realizamos &ldquo;Assembleias de Crist&atilde;os&rdquo;, onde participaram todos os cat&oacute;licos, tamb&eacute;m os que faz&iacute;amos oposi&ccedil;&atilde;o ao regime. Nelas havia debate sobre tudo o que se pode imaginar.<\/p>\n<p>A coordenar essas mesas estavam cat&oacute;licos como Fernando Gomes da Silva, Manuela Silva, padre Jo&atilde;o Resina, frei Bento Domingues. Pessoas que estiveram completamente presentes na continuidade da sua a&ccedil;&atilde;o contra o regime.<\/p>\n<p>Constitu&iacute;ram-se depois v&aacute;rios grupos, como os &ldquo;Crist&atilde;os em Reflex&atilde;o Permanente&rdquo; ou os &ldquo;Crist&atilde;os pelo Socialismo&rdquo;, de algum modo impulsionado por mim, mas que durou muito tempo. Houve tamb&eacute;m um grupo que fundou o jornal &ldquo;Libertar&rdquo; que teve muita import&acirc;ncia nos primeiros tempos da vida em liberdade, consciencializando os crist&atilde;os para se misturarem com todos os cidad&atilde;os para consolidarem a liberdade e lutarem contra o capitalismo feroz que nessa altura havia em Portugal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Que presen&ccedil;a tiveram os cat&oacute;licos, por exemplo, no primeiro de maio de 1974?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash; <\/em>O Nuno Teot&oacute;nio Pereira fez nesse encontro, no Est&aacute;dio Primeiro de Maio, uma interven&ccedil;&atilde;o muito interessante. Disse: &ldquo;N&oacute;s os cat&oacute;licos estamos no meio do povo portugu&ecirc;s, muito contentes como que aconteceu em Portugal. Mas que tudo est&aacute; tudo por fazer! O 25 de abril foi um grande clar&atilde;o que aconteceu a todos, mas agora &eacute; tempo de&hellip; m&atilde;os &agrave; obra! E deixa de fazer sentido a designa&ccedil;&atilde;o de &lsquo;cat&oacute;licos progressistas&rsquo;. Agora somos portugueses que vamos trabalhar pelo nosso desenvolvimento, pelo bem-estar e pela qualidade de vida de todos!&rdquo;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Os cat&oacute;licos permaneceram tamb&eacute;m na interven&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica?<\/em><\/p>\n<p><em>MCM &ndash;<\/em> N&oacute;s crist&atilde;os, dada a autonomia da coisa pol&iacute;tica, dividimo-nos por onde a nossa compet&ecirc;ncia pol&iacute;tica achava que era justo.<em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>PR<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria Concei\u00e7\u00e3o Moita estava presa em Caxias no dia 25 de abril de 1974. Participou em a\u00e7\u00f5es contra a ditadura e sobretudo contra a guerra nas col\u00f3nias portuguesas. 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