{"id":65155,"date":"2014-03-14T14:50:00","date_gmt":"2014-03-14T14:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/03\/14\/cinema-mel\/"},"modified":"2014-03-14T14:50:00","modified_gmt":"2014-03-14T14:50:00","slug":"cinema-mel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cinema-mel\/","title":{"rendered":"Cinema: Mel"},"content":{"rendered":"<p>Irene vive uma vida solit&aacute;ria e agitada entre a sua casa &agrave; beira mar e a casa dos outros: doentes terminais que visita para, clandestinamente e conforme o que acredita ser sua miss&atilde;o, conceder-lhes um final de vida digno. Por determina&ccedil;&atilde;o dos pr&oacute;prios e com a sua ajuda, &lsquo;Mel&rsquo;, nome de c&oacute;digo pelo qual &eacute; conhecida, organiza um ritual de passagem onde cabem a m&uacute;sica e uma declara&ccedil;&atilde;o de termo &agrave; vida, concretizado com a administra&ccedil;&atilde;o de um barbit&uacute;rico em dose letal, de uso veterin&aacute;rio.<\/p>\n<p>Certo dia, chamada a casa de um velho arquiteto igualmente solit&aacute;rio para a mesma fun&ccedil;&atilde;o, descobre que aquilo que fundamenta a vontade do sr. Grimaldi em p&ocirc;r termo &agrave; vida n&atilde;o &eacute; uma doen&ccedil;a terminal sem prespetiva m&eacute;dica de recupera&ccedil;&atilde;o, mas uma vis&atilde;o terminal e sard&oacute;nica sobre a utilidade da sua vida.<\/p>\n<p>O fino limite que separa este dos outros casos que at&eacute; ent&atilde;o n&atilde;o questionava, agora tornado evidente, e a inquietude provocada pela expl&iacute;cita aus&ecirc;ncia do sentido da vida, algo camuflado e latente em si pr&oacute;pria, transformam a miss&atilde;o de morte de &lsquo;Mel&rsquo; numa miss&atilde;o de vida: decididamente, tem que salvar Grimaldi.<\/p>\n<p>Interessante e corajosa op&ccedil;&atilde;o de uma realizadora estreante italiana, Valeria Golino, &lsquo;Mel&rsquo; coloca-nos perante o tema do suic&iacute;dio assistido sem qualquer prop&oacute;sito evidente de subscri&ccedil;&atilde;o, nem favor&aacute;vel nem desfavor&aacute;vel a tal pr&aacute;tica. Antes que a mera premissa de isen&ccedil;&atilde;o sobre a pr&aacute;tica possa incomodar qualquer convic&ccedil;&atilde;o de um espetador, a abordagem &eacute; pertinente e apela &agrave; nossa aten&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Primeiro, por evidenciar a sua exist&ecirc;ncia, dizendo-nos que enquanto acompanhamos em estado de alerta os movimentos pr&oacute; e contra legaliza&ccedil;&atilde;o discutidos em sede &eacute;tica, pol&iacute;tica e religiosa, o suic&iacute;dio assistido de facto acontece. Deixando-nos assim n&atilde;o mais pr&oacute;ximos mas menos alheados de uma pr&aacute;tica cujo car&aacute;ter clandestino n&atilde;o nos permite sequer aperceber da poss&iacute;vel extens&atilde;o. &Eacute; este o primeiro apelo do filme, a que nos podemos considerar chamados, passando de espetadores a atores, na aten&ccedil;&atilde;o a estas personagens que poder&atilde;o ser espelho de algu&eacute;m mais pr&oacute;ximo do que sequer imaginamos.<\/p>\n<p>Depois, porque mesmo sem atribui&ccedil;&atilde;o de ju&iacute;zo de valor e sem explorar exaustivamente os limites &eacute;ticos da a&ccedil;&atilde;o de Irene, o filme n&atilde;o banaliza a pr&aacute;tica com um registo suave que tente n&atilde;o beliscar o conforto com que nos sentamos ante o ecr&atilde;, ou o tema.<\/p>\n<p>Pelo contr&aacute;rio, a op&ccedil;&atilde;o da realizadora &eacute; a de escavar mais fundo, colocando no sentido da vida e na &iacute;ntima constru&ccedil;&atilde;o desse sentido pela implica&ccedil;&atilde;o humana &#8211; a rela&ccedil;&atilde;o, o princ&iacute;pio de transforma&ccedil;&atilde;o, de al&iacute;vio do sofrimento e de passagem, no caso, da morte para a vida. &Eacute; esta a transforma&ccedil;&atilde;o que verdadeiramente se opera em Irene, atrav&eacute;s de Grimaldi e &eacute; esta a transforma&ccedil;&atilde;o que nele ela procura operar, restituindo-lhe valor, amor pr&oacute;prio e esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Ausente de uma refer&ecirc;ncia expl&iacute;cita a Deus e independentemente do desfecho do filme, &eacute; quase imposs&iacute;vel n&atilde;o sentir o sopro que impele uma ex-modelo, atriz, nascida no seio de uma fam&iacute;lia de pintores e m&uacute;sicos onde se combinam sangue e cultura germ&acirc;nica, grega, italiana, francesa e eg&iacute;pcia, a realizar a sua primeira longa metragem sobre temas t&atilde;o delicado e atuais. Que antes do suic&iacute;dio assistido s&atilde;o o da solid&atilde;o, o da d&eacute;bil implica&ccedil;&atilde;o humana, uns com e para os outros, a aus&ecirc;ncia de significado e sentido da vida e o estado terminal de sofrimento em que tantos esses colocam.<\/p>\n<p><em>Margarida Ata&iacute;de&nbsp;<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Irene vive uma vida solit&aacute;ria e agitada entre a sua casa &agrave; beira mar e a casa dos outros: doentes terminais que visita para, clandestinamente e conforme o que acredita ser sua miss&atilde;o, conceder-lhes um final de vida digno. 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