{"id":64634,"date":"2014-02-17T13:13:46","date_gmt":"2014-02-17T13:13:46","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2014\/02\/17\/episodios-do-exilio-de-d-antonio-ferreira-gomes-na-diocese-de-valencia\/"},"modified":"2014-02-17T13:13:46","modified_gmt":"2014-02-17T13:13:46","slug":"episodios-do-exilio-de-d-antonio-ferreira-gomes-na-diocese-de-valencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/episodios-do-exilio-de-d-antonio-ferreira-gomes-na-diocese-de-valencia\/","title":{"rendered":"Epis\u00f3dios do ex\u00edlio de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes na diocese de Val\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>O bispo do Porto, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, esteve exilado na diocese de Val\u00eancia (Espanha) de 1960 a 1963. Passados 50 anos deste ex\u00edlio, em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, o padre Nuno Vieira, da diocese Segorbe-Castell\u00f3n, relata alguns epis\u00f3dios deste per\u00edodo que o prelado portuense esteve \u00abausente\u00bb do pa\u00eds. <!--more--> <\/p>\n<p>O bispo do Porto, D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes, esteve exilado na diocese de Val&ecirc;ncia (Espanha) de 1960 a 1963. Passados 50 anos deste ex&iacute;lio, em entrevista &agrave; Ag&ecirc;ncia ECCLESIA, o padre Nuno Vieira, da diocese Segorbe-Castell&oacute;n, relata alguns epis&oacute;dios deste per&iacute;odo que o prelado portuense esteve &laquo;ausente&raquo; do pa&iacute;s.<\/p>\n<p><strong>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE)<\/strong> &ndash; No in&iacute;cio do II Conc&iacute;lio do Vaticano, D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes estava exilado na diocese de Val&ecirc;ncia (Espanha). Apesar das conting&ecirc;ncias, n&atilde;o deixou de exercer o seu m&uacute;nus episcopal nas terras levantinas?<br \/><strong>Nuno Vieira (NV)<\/strong> &ndash; Al&eacute;m de um ex&iacute;lio for&ccedil;ado, se um bispo se retirasse &ndash; ainda para mais com a idade que tinha D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes e tal como se encontrava de sa&uacute;de &ndash; seria uma dupla humilha&ccedil;&atilde;o. Foi acolhido em Val&ecirc;ncia e o bispo da diocese espanhola contou com ele para fazer as visitas pastorais. Sabe-se que deu tamb&eacute;m algumas confer&ecirc;ncias no semin&aacute;rio, mas em &acirc;mbitos mais reduzidos. O grande contacto que teve foi com as par&oacute;quias e com as comunidades religiosas que visitou tamb&eacute;m durante as visitas pastorais.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Visitas pastorais que eram preparadas de forma minuciosa?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Verdade. D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes tinha uma desvantagem muito grande porque n&atilde;o conhecia o meio. Por isso, tinha reuni&otilde;es peri&oacute;dicas com o bispo titular (D. Marcelino Olaechea) e tamb&eacute;m com o bispo auxiliar (D. Rafael Gonz&aacute;lez Moralejo) para poder organizar essas visitas. Al&eacute;m do mais, era fundamental perceber o momento pol&iacute;tico e hist&oacute;rico que se vivia.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Antes de chegar a Val&ecirc;ncia, D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes esteve em Santiago de Compostela. Existe alguma raz&atilde;o para este salto territorial?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Alguns historiadores apontam para a proximidade da fronteira portuguesa. No entanto, suponho que quando esteve em Santiago de Compostela esperava-se que n&atilde;o fosse um ex&iacute;lio t&atilde;o prolongado. O facto de estar perto, a qualquer momento possibilitava a entrada em Portugal.<br \/>Como essa entrada em terras portuguesas n&atilde;o se verificou, os bispos espanh&oacute;is e o n&uacute;ncio n&atilde;o tinham grande desejo que D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes estivesse fora de Espanha. Chegaram &agrave; conclus&atilde;o que esta parte da Pen&iacute;nsula Ib&eacute;rica seria uma boa op&ccedil;&atilde;o. Consta tamb&eacute;m que, o primeiro contacto feito &eacute; com a diocese de Segorbe-Castell&oacute;n porque estava rec&eacute;m-nomeado o bispo para aquela diocese espanhola (formou-se em 1960).<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; A hip&oacute;tese da diocese Segorbe-Castell&oacute;n foi colocada de lado?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Suponho que sim. Vi um documento onde se perguntava ao bispo da diocese se tinha disponibilidade em receb&ecirc;-lo &ndash; n&atilde;o sei a resposta porque o arquivo da nunciatura ainda n&atilde;o est&aacute; dispon&iacute;vel -, mas suponho que os motivos alegados foram que a diocese era recente e pequena. Numa informa&ccedil;&atilde;o obtida com um padre colaborador directo do bispo da &eacute;poca, este disse-me: &ldquo;Seria melhor que ele [D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes] estivesse numa diocese maior e com outro dinamismo pastoral&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Como foi o acolhimento de D. Marcelino Olaechea [bispo titular de Val&ecirc;ncia] ao bispo portugu&ecirc;s exilado?<br \/><strong>NV <\/strong>&ndash; N&atilde;o foi uma situa&ccedil;&atilde;o nova na diocese de Val&ecirc;ncia. Quando o bispo do Porto chegou, j&aacute; vivia em Val&ecirc;ncia o arcebispo de Lima, (Peru), D. Em&iacute;lio Francisco Liss&oacute;n Chaves, que estava em condi&ccedil;&otilde;es similares. Tinha trabalho pastoral na diocese, mas estava muito limitado devido &agrave; doen&ccedil;a e &agrave; idade (faleceu dois meses ap&oacute;s a chegada do bispo portugu&ecirc;s). Val&ecirc;ncia contava apenas com um bispo auxiliar, D. Rafael Gonz&aacute;lez Moralejo, que se tornou &iacute;ntimo amigo de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes foi fazer o &laquo;papel&raquo; de um bispo auxiliar?<br \/><strong>NV <\/strong>&#8211; Pode dizer-se que sim. D. Marcelino Olaechea era um homem muito independente e, em simult&acirc;neo, muito organizado. &Eacute; da tradi&ccedil;&atilde;o dos arcebispos de Val&ecirc;ncia, homens de grande actividade pastoral. O arcebispo titular contou com D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes para as visitas pastorais.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Nos tr&ecirc;s anos (1960-63) que esteve nesta diocese espanhola realizou 173 visitas pastorais. Um n&uacute;mero muito alto, sabendo que passou bastante tempo no Vaticano na prepara&ccedil;&atilde;o e no conc&iacute;lio?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Verdade. Fez, talvez, aquelas que teria feito na diocese do Porto (risos&hellip;).<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Este n&uacute;mero, demonstra o seu empenho pastoral.<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; A diocese de Val&ecirc;ncia &eacute; enorme. D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes deu uma ajuda preciosa.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; A chegada do bispo do Porto &agrave; diocese de Val&ecirc;ncia suscitou um interesse especial nos movimentos com sensibilidade social. Estes movimentos tinham conhecimento do percurso de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes?<br \/><strong>NV <\/strong>&ndash; Foi uma chegada muito abafada. Os jornais espanh&oacute;is da &eacute;poca n&atilde;o dizem absolutamente nada da quest&atilde;o. Visitei a hemeroteca onde pesquisei todos os jornais daqueles dias (antes e depois) e n&atilde;o h&aacute; nenhuma refer&ecirc;ncia &agrave; chegada do bispo do Porto. Excepto a ECCLESIA (revista espanhola), que noticia que o bispo do Porto estabeleceu a resid&ecirc;ncia na diocese de Val&ecirc;ncia. Por outro, atrav&eacute;s de testemunhos das religiosas que atendiam D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes, as visitas eram bastante controladas e escassas.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Visitas de portugueses?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Sim. Essencialmente de padres e, muito poucas vezes, de leigos. Sabe-se tamb&eacute;m que eram visitas r&aacute;pidas. As visitas mais alargadas aconteciam quando D. Ant&oacute;nio sa&iacute;a de Val&ecirc;ncia.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O General Franco n&atilde;o mostrou retic&ecirc;ncias em acolher um bispo que foi expulso por Ant&oacute;nio Oliveira Salazar?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Franco era um homem profundamente cat&oacute;lico, com uma eclesiologia antes do II Conc&iacute;lio do Vaticano. Sempre respeitou os bispos. Se houve algum temor do poder pol&iacute;tico foi na chegada de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes&hellip; Algum temor por aquilo que pudesse acontecer e da poss&iacute;vel aproxima&ccedil;&atilde;o de alguns grupos sociais que pudessem tomar o bispo do Porto para a quest&atilde;o social. Tal como noutras ocasi&otilde;es, D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes demonstrou a sua intelig&ecirc;ncia e n&atilde;o se deixou expor a nenhum tipo de contacto.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Ele sabia que estava controlado pela pol&iacute;cia pol&iacute;tica de Portugal e Espanha?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; N&atilde;o h&aacute; conhecimento de agentes da PIDE na diocese de Val&ecirc;ncia, mas sabe-se que a pol&iacute;cia espanhola passava informa&ccedil;&otilde;es &agrave; pol&iacute;cia portuguesa. A pol&iacute;cia espanhola controlava-o.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mesmo nas visitas pastorais?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Algumas sim.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Alguns discursos dele eram proferidos na l&iacute;ngua de Cam&otilde;es com receio de ser mal entendido em castelhano. Ele dominava a l&iacute;ngua de Cervantes?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Ele dominava o castelhano, mas sentia-se mais &agrave; vontade a falar portugu&ecirc;s. As testemunhas da &eacute;poca dizem que ele falava um &laquo;portunhol&raquo;, por outro lado seria tamb&eacute;m uma desculpa para n&atilde;o entrar em determinados temas.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Existe alguma raz&atilde;o espec&iacute;fica para que D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes tenha ido viver para uma casa de religiosas e n&atilde;o para a casa episcopal?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; N&atilde;o h&aacute; tradi&ccedil;&atilde;o em Val&ecirc;ncia que o bispo titular viva com os seus auxiliares. D. Marcelino Olaechea vivia no Pa&ccedil;o Episcopal e o seu auxiliar, D. Rafael Gonz&aacute;lez Moralejo, vivia noutra resid&ecirc;ncia. O bispo titular tinha uma vida aut&oacute;noma.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Apesar de exilado, D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes escreve uma missiva [datada de 27 de novembro de 1961] a Guilherme Braga da Cruz onde sublinha que &ldquo;afinal o desterro &eacute; a liberdade e alguma poss&iacute;vel aspira&ccedil;&atilde;o de verticalidade&rdquo;.<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Era liberdade porque lutava pela causa da liberdade. Ele continuava a pensar que era poss&iacute;vel a liberdade. Foi um homem com grande liberdade interior e isso ficou demonstrado quando ele voltou a Portugal.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mas os discursos feitos na diocese levantina n&atilde;o tinham o mesmo teor daqueles que fazia no Porto.<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; N&atilde;o podia faz&ecirc;-los. Primeiro por cortesia com o arcebispo que o recebeu, por outro lado ele tamb&eacute;m sabia a situa&ccedil;&atilde;o delicada em que se encontrava. Teve de ser muito prudente para chegar ao fim.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes nunca pensou em fixar-se, definitivamente, em Val&ecirc;ncia?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Suponho que n&atilde;o. Apesar do sucesso que teve e de ser reconhecido &ndash; foi convidado para os grandes actos sociais &#8211; sempre desejou, at&eacute; pelo seu temperamento, voltar ao Porto. Foi homem muito empenhado na diocese &ndash; fazia cerca de 60 visitas pastorais por ano &ndash; mas tamb&eacute;m dedicou muito do seu tempo a preparar as sess&otilde;es do II Conc&iacute;lio do Vaticano.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; No in&iacute;cio, devido &agrave; situa&ccedil;&atilde;o deliciada esteve ausente dos media. Depois, no fim de mostrar o seu valor e de ser conhecido, deu alguma entrevista a algum &oacute;rg&atilde;o de comunica&ccedil;&atilde;o social?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; N&atilde;o existe nenhuma entrevista de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes. Nas consultas feitas, todos s&atilde;o un&acirc;nimes: o bispo do Porto era um homem muito reservado.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mas em Portugal concedeu entrevistas.<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Em Val&ecirc;ncia, a situa&ccedil;&atilde;o era muito comprometedora. Apesar de se considerar livre interiormente, D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes estava muito condicionado na ac&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O clero de Val&ecirc;ncia tinha conhecimento que D. Ant&oacute;nio F. Gomes era um bispo exilado?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Tinha conhecimento e comentavam. Os coment&aacute;rios, por norma, eram acolhedores. Ningu&eacute;m percebia como se podia exilar um bispo, s&oacute; se fosse por prepot&ecirc;ncia do poder pol&iacute;tico. Havia um profundo respeito por D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes e, inclusivamente, chegou a ordenar um sacerdote. O bispo portugu&ecirc;s sempre foi muito educado e carinhoso para com as pessoas.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Nas cerca de 180 visitas pastorais que realizou na diocese e naquilo que escreveu d&aacute; para perceber que D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes deu uma aten&ccedil;&atilde;o especial aos mais desfavorecidos.<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Era o momento p&oacute;s-guerra e havia muita mis&eacute;ria. D. Marcelino Olaechea chegou a fundar 200 congrega&ccedil;&otilde;es religiosas que se dedicavam a apoiar os mais pobres e necessitados. Foi quando come&ccedil;ou a instru&ccedil;&atilde;o prim&aacute;ria e havia um &iacute;ndice de analfabetismo tremendo. Encontravam-se casos dram&aacute;ticos.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Sendo D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes um bispo intelectual e que falava para as elites, em Espanha mudou o seu estilo de linguagem?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Era um homem mais simples porque tinha uma realidade diferente. Tinha um povo marcado e dividido. &Eacute; conveniente n&atilde;o esquecer que na guerra espanhola houve confrontos entre pais e filhos. Fam&iacute;lias inteiras divididas. Uns no &laquo;bando&raquo; republicano e outros no &laquo;bando&raquo; nacional. Realizaram-se aut&ecirc;nticos massacres e a Igreja contribuiu na restaura&ccedil;&atilde;o da paz social. Esta serviu-se continuamente do apelo ao perd&atilde;o e ao esquecimento.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O bispo do Porto soube compreender a realidade onde estava inserido e ajudou a apaziguar os &oacute;dios.<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Isso foi not&oacute;rio. Era a grande miss&atilde;o da Igreja, basta ver as cartas pastorais e as homilias dos bispos. Fazia, com frequ&ecirc;ncia, um apelo &agrave; fraternidade e &agrave; unidade.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; N&atilde;o era perigoso falar de pobreza naquela &eacute;poca? Ser-se conotado com os partidos pol&iacute;ticos da esquerda?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Quando D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes esteve nas terras levantinas, j&aacute; n&atilde;o era muito perigoso porque havia bispos que tinham essa sensibilidade social.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Alguns bispos estavam na imin&ecirc;ncia de serem desterrados. O caso do bispo de Bilbau, D. Ant&oacute;nio A&ntilde;overos, &eacute; disso um exemplo.<br \/><strong>NV <\/strong>&ndash; Naqueles anos ainda n&atilde;o, mas poucos anos depois sim. Pretenderam expuls&aacute;-lo do pa&iacute;s repetindo na &iacute;ntegra o m&eacute;todo de Salazar, por atrever-se a publicar, em 1973, uma homilia hostil ao governo com a ordem expressa de ser lida pelos sacerdotes em todas as igrejas da sua diocese. No entanto, Franco voltou atr&aacute;s. Apesar da linha ideol&oacute;gica que tinha, Franco era um homem profundamente religioso e respeitador da Igreja.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O sil&ecirc;ncio de Franco em rela&ccedil;&atilde;o ao ex&iacute;lio de D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes pode ser entendido com aprova&ccedil;&atilde;o ao acto de Salazar?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; N&atilde;o. O sil&ecirc;ncio de Franco significa mais o respeito que ele tinha para com os bispos.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mas Salazar tamb&eacute;m era cat&oacute;lico&hellip;<br \/><strong>NV <\/strong>&ndash; Franco pensava de forma diferente de Salazar. Franco necessitava da Igreja para levantar o pa&iacute;s. Este sabia que o &uacute;nico aliado que o podia ajudar a trazer a paz social era apenas a Igreja. A Igreja era a &uacute;nica que conseguia juntar os dois &laquo;bandos&raquo; da guerra: os nacionais e os republicanos.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; As visitas e inaugura&ccedil;&otilde;es de cemit&eacute;rios faziam parte do programa das visitas pastorais. Havia um grande culto aos mortos naquele tempo?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Actualmente perdeu-se bastante, mas havia um grande culto. Tanto que uma actividade espec&iacute;fica desses actos pastorais era a visita aos defuntos.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O bispo do Porto n&atilde;o foi convidado para leccionar?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Li autores que dizem que ele deu aulas no Semin&aacute;rio de Val&ecirc;ncia. No entanto, quando fui investigar cheguei &agrave; conclus&atilde;o que n&atilde;o deu aulas em nenhum s&iacute;tio (risos&hellip;). Nos livros do semin&aacute;rio n&atilde;o aparece nenhum registo onde apare&ccedil;a D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes como professor. Estranhei bastante as afirma&ccedil;&otilde;es de tais autores porque sabia que os professores eram todos vistos &laquo;&agrave; lupa&raquo;.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Devido &agrave; sua intensa actividade, D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes n&atilde;o dispensava o seu tempo de f&eacute;rias. Nesses locais tamb&eacute;m recebia familiares e elementos do clero do Porto?<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; Recebia muitas visitas. &Eacute; curioso que algumas delas foram feitas no carro porque se sentia vigiado. Era mais f&aacute;cil estar em Val&ecirc;ncia do que fora da cidade.<\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&ndash; Durante o per&iacute;odo (1960-1963) que esteve em Val&ecirc;ncia, D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes travou uma grande amizade com D. Rafael Gonz&aacute;lez Moralejo, bispo auxiliar da diocese. O conhecimento teve o seu in&iacute;cio no Porto (num congresso) e aprofundou-se na diocese valenciana.<br \/><strong>NV<\/strong> &ndash; D. Rafael Gonz&aacute;lez Moralejo manifestou sempre um sentimento de carinho para com D. Ant&oacute;nio F. Gomes pela situa&ccedil;&atilde;o que estava a viver. Muitas vezes, pensamos que tudo isto &eacute; f&aacute;cil, mas desterrar um bispo da sua sede deve ser dif&iacute;cil&hellip;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O bispo auxiliar era professor do Instituto Social Le&atilde;o XIII de Madrid. As quest&otilde;es sociais eram uma preocupa&ccedil;&atilde;o dos dois prelados.<br \/><strong>NV<\/strong> &#8211; Na diocese de Val&ecirc;ncia era D. Rafael Gonz&aacute;lez Moralejo que tinha o pelouro das quest&otilde;es sociais.<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Desempenhou tamb&eacute;m um papel importante junto da Santa S&eacute;.<br \/><strong>NV <\/strong>&ndash; Important&iacute;ssimo. Ele acabou por ser o intermedi&aacute;rio entre D. Ant&oacute;nio Ferreira Gomes e a Santa S&eacute;. Estabeleceu-se uma rela&ccedil;&atilde;o de confian&ccedil;a entre os dois. Mesmo depois de ter sido nomeado bispo de Huelva, D. Rafael e D. Ant&oacute;nio continuaram amigos.<\/p>\n<p><em>LFS<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O bispo do Porto, D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes, esteve exilado na diocese de Val\u00eancia (Espanha) de 1960 a 1963. 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