{"id":6399,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/festa-entre-povos-inseguros\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"festa-entre-povos-inseguros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/festa-entre-povos-inseguros\/","title":{"rendered":"Festa entre povos inseguros"},"content":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 no universal que nos realizamos como Povo\u201d, afirmou recentemente o Presidente da Rep\u00fablica, Dr. Jorge Sampaio no dia de Portugal e das Comunidades, em Bragan\u00e7a. Uma constata\u00e7\u00e3o que \u00e9 sinal da globalidade, acolhimento e alegria \u201cmar\u00edtima\u201d que marcam a nossa alma: identidade nacional! Afinal, sempre fizemos do acolher o outro e de receber em casa, uma festa! Chegaram os \u201cestrangeiros\u201d. O Portugal tranquilo \u201c\u00e0 beira da Europa plantado\u201d \u00e9, outra vez, invadido. N\u00e3o v\u00eam para trabalhar. V\u00eam para o Futebol. Contudo, devido \u00e0 hodierna conjectura global p\u00f3s-atentados terroristas, o Pa\u00eds lan\u00e7a-se, por um lado, em medidas excepcionais de controlo e de cria\u00e7\u00e3o de estruturas que garantam eficazmente a seguran\u00e7a dos jogadores e do p\u00fablico e, por outro, que impe\u00e7am o engrossar das \u201cquotas\u201d da imigra\u00e7\u00e3o ilegal e os excessos dos mais violentos da bola. Na verdade, est\u00e1-se diante de um medo diferente daquele que o Pa\u00eds tem crescentemente manifestado face aos imigrantes sob a forma de xenofobia e um racismo \u201cpoliticamente correcto\u201d. A palavra \u201cestrangeiro\u201d \u00e9 sempre mais associada a medo, a perigo, a invasor\u2026 Os tempos mudaram. N\u00e3o s\u00e3o os da sorridente EXPO 98 \u00e9 certo, por\u00e9m o EURO 2004 revela-nos uma Europa \u201camea\u00e7ada\u201d que se tornou espa\u00e7o inseguro e violento. Por isso, Portugal, em conformidade com as regras internacionais, toma precau\u00e7\u00f5es excepcionais para o bem de todos: as fronteiras foram repostas suspendendo o m\u00edtico Acordo \u201cSchengen\u201d, o terrorismo amea\u00e7a em cada esquina de multid\u00e3o devido ao perpetuar-se da situa\u00e7\u00e3o do Iraque e Afeganist\u00e3o, as claques pac\u00edficas e os \u201chooligans\u201d violentos coabitam dentro e fora dos 10 est\u00e1dios, e foram criados os tem\u00edveis \u201ccentros tempor\u00e1rios de deten\u00e7\u00e3o para estrangeiros\u201d candidatos \u00e0 expuls\u00e3o e repatriamento\u2026 O \u201cestrangeiro\u201d adquire uma nova conota\u00e7\u00e3o e, por conseguinte, estigmatiza\u00e7\u00e3o e a \u201cliberdade de circula\u00e7\u00e3o\u201d \u00e9 vigiada policialmente! Afinal, o \u201cdogma\u201d europeu da liberdade de movimento parece necessitar de imediata reforma. No entanto, por umas semanas de alguma \u201caliena\u00e7\u00e3o nacional\u201d, o Pa\u00eds vai esquecer os \u201capitos dourados\u201d, que ainda continuam a existir e a alimentar a intransparente \u201cind\u00fastria\u201d nacional futebol\u00edstica, como tamb\u00e9m ocultar outros \u201cpecados sociais\u201d \u2013 sem arrependimento \u00e0 vista! \u2013 denunciados pelos bispos. Inesperadamente o neg\u00f3cio e a moda das Bandeiras da Rep\u00fablica pegaram como nunca; os Est\u00e1dios modernizados \u2013 que os imigrantes ajudaram a construir e a terminar dentro dos prazos previstos &#8211; ficaram prontos a horas; o delicado destino da Selec\u00e7\u00e3o foi entregue a um estrangeiro de um pa\u00eds irm\u00e3o da CPLP \u2013 o Brasil \u2013; os nossos jogadores \u201cemigrantes\u201d, melhor aplaudidos l\u00e1 fora do que c\u00e1, foram convocados e regressaram temporariamente. Em tudo paira uma \u201cmesti\u00e7agem\u201d cultural e coopera\u00e7\u00e3o transnacional que tem em cada equipa europeia em campo a \u201cpar\u00e1bola\u201d mais fiel e eloquente da identidade e cidadania europeias. As identidades ultrapassam os limites das fronteiras e at\u00e9 de continentes! H\u00e1 algo novo no ar de que \u00e9 preciso tomar consci\u00eancia: uma outra cidadania, um outro modo de ser na\u00e7\u00e3o e povo! O que significa hoje dizer-se portugu\u00eas, grego, franc\u00eas, holand\u00eas, lituano, russo? O EURO, como o Encontro de Povos que praticam desporto, surge tamb\u00e9m como ocasi\u00e3o para \u201cdesmistificar\u201d nacionalismos, separatismos e laicismos exacerbados, tacanhos, demag\u00f3gicos e advers\u00e1rios que noutras mat\u00e9rias pol\u00edticas, como acontece face \u00e0 Imigra\u00e7\u00e3o, \u00e0 Fam\u00edlia, \u00e0 Vida, ao Trabalho e Asilo, parecem persistir entre os europeus. Mas, desta vez longe da alegria dos est\u00e1dios e dos t\u00e9cnicas de balne\u00e1rio. Esse outro jogo de interesses que divide os Povos continuar\u00e1 a jogar-se nos Parlamentos e nos f\u00f3runs da Sociedade Civil. Ser\u00e1, de maneira especial, a\u00ed que n\u00f3s teremos que agitar a bandeira dos direitos humanos, da justi\u00e7a e da coes\u00e3o social. Ser\u00e1 um eterno campeonato que promete durar enquanto houver jogadores dispostos a jogar para ganhar trof\u00e9us de dignidade e humanidade. Assiste-se, nestes dias, a uma excepcional demonstra\u00e7\u00e3o de patriotismo \u00e0 volta do futebol. Um sentimento colectivo refor\u00e7ado pela exalta\u00e7\u00e3o \u201cmedi\u00e1tica\u201d dos s\u00edmbolos nacionais \u2013 Bandeira e Hino \u2013 que lamentavelmente n\u00e3o tem sido visto noutras \u00e1reas e momentos aonde ele se poder\u00e1 tornar decisivo para o presente do Pa\u00eds e da Europa no mundo: o Emprego e a Sa\u00fade, a Ci\u00eancia e Tecnologia, a Agricultura e o Ambiente, o Mar e as Pescas, a Migra\u00e7\u00e3o, as Elei\u00e7\u00f5es, s\u00f3 para citar alguns. Pelo contr\u00e1rio, nota-se indiferen\u00e7a social, descomprometimento pol\u00edtico e muito pouco orgulho nacional. Por isso, pergunto-me: \u00e9 patriotismo ou bairrismo provinciano? Estranho?! Em geral, orgulhamo-nos de ser portugueses em quest\u00f5es secund\u00e1rias e l\u00fadicas, em vez de o fazermos com forte \u201csentido nacional\u201d e intransigente responsabilidade solid\u00e1ria em quest\u00f5es principais e decididamente vitais para o bem comum nacional ou internacional. A \u00fanica excep\u00e7\u00e3o foi a luta por Timor Lorosae, se a mem\u00f3ria n\u00e3o me falha, que uniu o Pa\u00eds nos \u00faltimos 30 anos. Portugal e Timor pareciam uma \u00fanica P\u00e1tria. \u201cPortugal \u00e9 a ousadia de um Povo (\u2026). Um futuro para Portugal h\u00e1-de medir-se pela capacidade de construir pontes entre as culturas, de p\u00f4r os homens em di\u00e1logo, de contribuir para o progresso da humanidade concebida como uma \u00fanica fam\u00edlia humana\u201d. (cfr. Carta Pastoral \u201cResponsabilidade solid\u00e1ria pelo bem comum\u201d, n\u00ba 33). Foi dito recentemente e com raz\u00e3o! Portanto, depois dos Est\u00e1dios, unamo-nos para construir pontes de di\u00e1logo e de progresso para todos! Aprendamos a ver nas migra\u00e7\u00f5es internacionais uma formid\u00e1vel oportunidade \u201cpontif\u00edcia\u201d de Unidade entre Povos e invistamos com realismo e utopia na edifica\u00e7\u00e3o universal de uma \u201csociedade integrada\u201d!   Rui M. da Silva Pedro Director da Obra Cat\u00f3lica  Portuguesa de Migra\u00e7\u00f5es<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u00c9 no universal que nos realizamos como Povo\u201d, afirmou recentemente o Presidente da Rep\u00fablica, Dr. Jorge Sampaio no dia de Portugal e das Comunidades, em Bragan\u00e7a. Uma constata\u00e7\u00e3o que \u00e9 sinal da globalidade, acolhimento e alegria \u201cmar\u00edtima\u201d que marcam a nossa alma: identidade nacional! 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