{"id":63864,"date":"2013-12-24T06:00:00","date_gmt":"2013-12-24T06:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/12\/24\/cada-um-de-nos-e-uma-personagem-do-presepio-e-tem-de-sentir-se-envolvido-nesta-historia\/"},"modified":"2013-12-24T06:00:00","modified_gmt":"2013-12-24T06:00:00","slug":"cada-um-de-nos-e-uma-personagem-do-presepio-e-tem-de-sentir-se-envolvido-nesta-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cada-um-de-nos-e-uma-personagem-do-presepio-e-tem-de-sentir-se-envolvido-nesta-historia\/","title":{"rendered":"Cada um de n\u00f3s \u00e9 uma personagem do pres\u00e9pio e tem de sentir-se envolvido nesta hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p>O padre Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, poeta e biblista, analisa os primeiros cap\u00edtulos do Evangelho de S\u00e3o Lucas, \u00e0 luz do atual tempo do Natal, onde todos os s\u00edmbolos, como os animais no pres\u00e9pio ou a manjedoura, s\u00e3o importantes e contextualizados <!--more--> <\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia (AE) &ndash; S&atilde;o Lucas &eacute; o evangelista que nos d&aacute; uma narrativa mais completa e talvez com um rosto mais humano destes epis&oacute;dios do nascimento de Cristo?<\/em><\/p>\n<p><em>Padre Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a (JTM) &ndash;<\/em> Dentro dos evangelhos, apenas Mateus e Lucas t&ecirc;m o Evangelho da inf&acirc;ncia e &eacute; muito interessante porque ambos os evangelhos, contando a mesma realidade, situam-se em &acirc;ngulos diferentes. Mateus escolhe falar de Jesus a partir de S&atilde;o Jos&eacute; porque lhe interessava apresentar Jesus sobretudo para as comunidades judaicas, que eram crist&atilde;s, e ent&atilde;o ali o papel do pai, do pai adotivo era o papel principal.<\/p>\n<p>Lucas d&aacute;-nos duas grandes curiosidades, por um lado quem &eacute; o guia at&eacute; ao pres&eacute;pio &eacute; Maria, a figura de Nossa Senhora no Evangelho da Inf&acirc;ncia de Lucas &eacute; aquela que abre as portas ao entendimento do primeiro mist&eacute;rio de Jesus. E depois o pr&oacute;prio Evangelho da Inf&acirc;ncia em Lucas, e isso &eacute; muito interessante, &eacute; como um musical, &eacute; uma polifonia, no final de cada grande cena n&oacute;s temos um canto. Temos o canto do Benedictus, depois da anuncia&ccedil;&atilde;o a Zacarias que ia ser pai de Jo&atilde;o Batista, temos o c&acirc;ntico do Magnificat, quando Maria e Isabel se encontram, e temos o c&acirc;ntico do Nunc dimittis quando Sime&atilde;o tem ao colo o menino na primeira apresenta&ccedil;&atilde;o no templo. De maneira que &eacute; tamb&eacute;m um Evangelho com muita alegria e temos tamb&eacute;m o coro dos anjos que v&ecirc;m anunciar aos pastores que hoje lhes nasceu um salvador. &Eacute; um Evangelho guiado por Maria, atravessado por uma profundidade teol&oacute;gica enorme mas tamb&eacute;m por um tom alegre, musical, quase como que se Lucas constru&iacute;sse uma polifonia de todas as nossas vozes num louvor ao menino que nasce.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; A narrativa da anuncia&ccedil;&atilde;o, Maria surpreendida pelo anjo que lhe aparece e faz esta revela&ccedil;&atilde;o. Como podemos contextualiza-la, como surge esta narra&ccedil;&atilde;o ou este processo escolhido por Deus para se anunciar a uma rapariga de Nazar&eacute; (Galileia, Israel)?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> As anuncia&ccedil;&otilde;es fazem parte da religi&atilde;o de Israel, tamb&eacute;m no Antigo Testamento n&oacute;s temos anjos enviados a transmitir uma not&iacute;cia de Deus, de maneira que quando Maria viu um anjo n&atilde;o morreu de susto porque de certa forma, no cora&ccedil;&atilde;o e na f&eacute; dela existia essa pr&aacute;tica de Deus, de enviar dessa forma as suas mensagens. E o anjo &eacute; sempre condutor de uma mensagem muito importante da parte de Deus.<\/p>\n<p>O texto da anuncia&ccedil;&atilde;o &eacute; um texto formid&aacute;vel a v&aacute;rios pontos de vista. Um deles &eacute; porque estabelece de facto um di&aacute;logo, n&atilde;o &eacute; uma imposi&ccedil;&atilde;o, &eacute; uma proposta que Deus faz aquela rapariga de Nazar&eacute;. O anjo revela-lhe o plano de Deus e Maria coloca quest&otilde;es, pergunta como &eacute; que isso pode ser, quer perceber o mandato de Deus e s&oacute; quando o seu cora&ccedil;&atilde;o &eacute; ganho pela confian&ccedil;a na palavra de Deus e nesta racionalidade na f&eacute; que ela vai construindo no di&aacute;logo com o anjo Gabriel &eacute; que ela diz o seu sim: &ldquo;Eis escrava do Senhor fa&ccedil;a-se em mim segundo a sua palavra&rdquo;. &Eacute; um texto de facto fant&aacute;stico porque situa a mensagem de Deus numa hist&oacute;ria concreta, o nome da donzela &eacute; Maria, ela vive em Nazar&eacute; num contexto que &eacute; muito identificado, o seu esposo chama-se Jos&eacute;, est&atilde;o todos bem identificados e &eacute; assim uma hist&oacute;ria concreta que Deus se dirige, com a qual Deus dialoga e convida Maria e tamb&eacute;m Jos&eacute;, porque &eacute; agregado a esta hist&oacute;ria, convida-os a viverem a emerg&ecirc;ncia da aventura do divino na hist&oacute;ria pelo mist&eacute;rio da encarna&ccedil;&atilde;o de Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Este &ldquo;fa&ccedil;a-se em mim&rdquo;, esta resposta de Maria &eacute; um aceitar de uma realidade maior, n&atilde;o vemos aqui uma preocupa&ccedil;&atilde;o com pormenores da parte dela. Ela tem a perce&ccedil;&atilde;o que ser&aacute; dif&iacute;cil?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Ela quer perceber o essencial. Maria quer perceber o essencial, pergunta &ldquo;como poder&aacute; ser&rdquo; e quando ela percebe que o pr&oacute;prio Deus vir&aacute; em aux&iacute;lio da fragilidade humana, que o pr&oacute;prio Deus conduzir&aacute; essa hist&oacute;ria, ela abre o seu cora&ccedil;&atilde;o numa atitude que para n&oacute;s &eacute; um grande modelo. A palavra de Maria continua a ser inspiradora para a Igreja de todos os tempos, Maria no fundo sabendo uma parte mas n&atilde;o sabendo tudo disp&otilde;em-se na confian&ccedil;a a viver como parceira esta hist&oacute;ria sagrada.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; um relato que no remete algo id&ecirc;ntico para o an&uacute;ncio de Zacarias. O an&uacute;ncio do nascimento de Jo&atilde;o que &eacute; quase o apresentador de Jesus.<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> &Eacute; interessante porque S&atilde;o Lucas conta precisamente a hist&oacute;ria de Jesus sempre em paralelo com a hist&oacute;ria de Jo&atilde;o Batista. E n&oacute;s podemos encontrar no Evangelho da Inf&acirc;ncia, nos primeiros tr&ecirc;s cap&iacute;tulos do Evangelho de S&atilde;o Lucas uma esp&eacute;cie de pand&atilde; de sincronia, a palavra exeg&eacute;tica s&iacute;ncrise, uma compara&ccedil;&atilde;o &agrave; anuncia&ccedil;&atilde;o Zacarias &agrave; anuncia&ccedil;&atilde;o Jesus: Zacarias canta, Maria tamb&eacute;m canta; &agrave; uma miss&atilde;o confiada a Jo&atilde;o batista, &agrave; uma miss&atilde;o confiada a Jesus; Jo&atilde;o Batista nasce, Jesus nasce. Depois acabam por se encontrar no cap&iacute;tulo terceiro, na cena do batismo de Jesus precisamente por Jo&atilde;o Batista mas onde Jo&atilde;o Batista se assume como percursor, como aquele que prepara o caminho deste Deus que vem em Jesus de Nazar&eacute;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Existe aqui um dado interessante que &eacute; a proposta do anjo a dois casais quase imposs&iacute;veis: Zacarias casado com uma mulher de idade avan&ccedil;ada e Maria que era virgem, que n&atilde;o estava casada, que estava apenas prometida.<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Essa &eacute; de facto uma palavra muito interessante porque s&atilde;o dois nascimentos que t&ecirc;m o seu qu&ecirc; de problem&aacute;tico. N&atilde;o s&atilde;o evidentes e isso mostra de facto que o modo como Deus vem &agrave; nossa hist&oacute;ria n&atilde;o &eacute; evidente, n&atilde;o &eacute; pelo caminho mais imediato e previs&iacute;vel mas h&aacute; a imprevisibilidade de Deus. Aquilo que o anjo explica a Maria, a Deus nada &eacute; imposs&iacute;vel. E de facto o que n&oacute;s vemos &eacute; Deus vencer os imposs&iacute;veis da hist&oacute;ria. A hist&oacute;ria concreta destes dois casais, Isabel e Zacarias, Maria e Jos&eacute; para revelar a sua palavra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Esta visita de Maria a sua prima Isabel, que leitura podemos fazer deste p&ocirc;r-se a caminho?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash; <\/em>&Eacute; uma cena extraordin&aacute;ria que diz muito de Maria: Maria p&ocirc;s-se a caminho, apressadamente pelas montanhas da Judeia para ajudar Isabel. Por um lado h&aacute; um fundo hist&oacute;rico normal, uma mulher gr&aacute;vida e uma pessoa j&aacute; com alguma idade como Isabel precisa de uma presen&ccedil;a amiga, feminina, nos trabalhos do parto que a ajude nos &uacute;ltimos tempos da sua gravidez e nos primeiros dias em que &eacute; m&atilde;e. Isabel precisava de ajuda mas Maria leva no seu seio uma ajuda maior que n&atilde;o &eacute; apenas a ajuda que uma mulher amiga pode dar a outra. Que uma parenta pode dar a outra mas &eacute; transportar o menino no seu seio, Jesus vai em socorro de Isabel e de Jo&atilde;o Batista que est&aacute; para nascer como vem em socorro da nossa humanidade.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; neste contexto que surge o Magnificat que &eacute; um c&acirc;ntico de exorta&ccedil;&atilde;o, de louvor, de reconhecimento.<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash; <\/em>&Eacute; um c&acirc;ntico extraordin&aacute;rio, conta o abra&ccedil;o, o encontro daquelas duas mulheres e &eacute; como que uma dan&ccedil;a em que se recupera a grande tradi&ccedil;&atilde;o do c&acirc;ntico feminino que anuncia a a&ccedil;&atilde;o libertadora de Deus. De facto muitas palavras do Magnificat n&atilde;o s&atilde;o originais na boca de Maria, elas j&aacute; nos aparecem, por exemplo, na boca de Ana, a m&atilde;e do profeta Samuel, e em outros passos da escritura e &eacute; um texto como uma for&ccedil;a de f&eacute; extraordin&aacute;ria porque Maria enuncia a liberta&ccedil;&atilde;o de Deus, a alternativa de Deus. Este Deus que rebusca a hist&oacute;ria, que a revira mostrando as possibilidades inauditas que a hist&oacute;ria conserva. Ele reira os soberbos dos seus tronos, ele despede os ricos de m&atilde;os vazias, ele exalta os humildes, ele realiza as promessas de miseric&oacute;rdia feitas a Abra&atilde;o e a nossos pais. &Eacute; o c&acirc;ntico da alternativa de Deus, &eacute; de facto um c&acirc;ntico de uma beleza extraordin&aacute;ria e &eacute; interessante lembrar que Sofia de Mello Breyner quando lhe perguntavam qual &eacute; o poema mais lindo que conhece respondia sempre que &ldquo;&eacute; o Magnificat no Evangelho de S&atilde;o Lucas&rdquo;. &Eacute; de facto o mais belo poema da humanidade em que se canta n&atilde;o apenas o passado mas canta-se o presente atuante redentor de Deus nas nossas hist&oacute;rias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Depois o nascimento. Numa primeira parte o texto fala da determina&ccedil;&atilde;o das autoridades civis, o &eacute;dito de recensear de C&eacute;sar Augusto, de alguma forma tamb&eacute;m &eacute; uma forma de contextualiza&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica e &eacute; um dado que aconteceu?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Lucas tem essa preocupa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica de situar Jesus nas coordenadas do tempo e do lugar. E esse pr&oacute;logo ao nascimento de Jesus &eacute; de uma enorme import&acirc;ncia porque esse recenseamento de facto aconteceu, &eacute; um dado hist&oacute;rico e como em todos os recenseamentos as pessoas tinham de se deslocar de um lado para o outro. A raz&atilde;o pela qual Maria e Jos&eacute; vivendo em Nazar&eacute; t&ecirc;m Jesus em Bel&eacute;m &eacute; cheia de uma grande verossemelhan&ccedil;a hist&oacute;rica por causa deste recenseamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Depois a quest&atilde;o do n&atilde;o haver lugar, como podemos ler esta situa&ccedil;&atilde;o, mesmo na realidade dos nossos dias em que as pessoas n&atilde;o criam lugar, n&atilde;o h&aacute; lugar?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Podemos dar-lhe uma conota&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica que tinha. Eles n&atilde;o est&atilde;o na sua terra, est&atilde;o ali deslocados, visitantes, forasteiros. Uma mulher gr&aacute;vida e em trabalhos de parto n&atilde;o &eacute; uma mulher que se possa acolher em qualquer lugar e &eacute; natural que naquela situa&ccedil;&atilde;o eles tenham tido muita dificuldade em encontrar essa hospitalidade mas tem tamb&eacute;m evidentemente uma leitura simb&oacute;lica. Como se diz no pr&oacute;logo de S&atilde;o Jo&atilde;o, &ldquo;Ele veio ao que era seu e os seus n&atilde;o o reconheceram&rdquo;. Este n&atilde;o reconhecimento h&aacute; de marcar a vida de Jesus desde o primeiro instante da sua passagem pela terra.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; escolhida aquela gruta, aquele lugar, n&atilde;o se especifica&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> &Eacute; um lugar de pastores, podia ser um piso t&eacute;rreo onde estavam os animais, podia ser uma gruta onde tamb&eacute;m os animais se recolhiam, mas era de facto um lugar marginal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Esta marginalidade tem uma carga que poderemos interpretar?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Tem tamb&eacute;m uma forte carga simb&oacute;lica muito interessante. Tudo o que a narrativa descreve tem um grande sentido, por exemplo, a presen&ccedil;a dos animais, o burro e o boi s&atilde;o muito importante no pres&eacute;pio ao contr&aacute;rio do que se pensa porque t&ecirc;m a ver com uma passagem do in&iacute;cio do livro do profeta Isa&iacute;as que diz, &ldquo;o burro conheceu o seu dono e o boi conheceu aquele que o alimenta mas Israel n&atilde;o conheceu o seu Senhor&rdquo;. A presen&ccedil;a dos animais tem tamb&eacute;m quase que um sentido escritur&iacute;stico, &eacute; quase como que um ato de f&eacute; para dizer que Jesus cumpre de facto aquela palavra e o facto de ser deitado numa manjedoura tem a ver com Jesus ser o alimento e se fazer dom. O seu &uacute;ltimo grande gesto, aquele que se perpetua no tempo &eacute; a eucaristia em que Jesus se torna alimento. Ele &eacute; colocado por Maria na manjedoura que &eacute; o lugar da comida, dos impuros. Jesus &eacute; alimento que se oferece e por isso tamb&eacute;m a manjedoura &eacute; um sinal que mais tarde vamos entender perfeitamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Depois h&aacute; o epis&oacute;dio dos pastores a quem o anjo anuncia este nascimento. O facto de serem pastores tamb&eacute;m podemos fazer uma leitura noutro prisma? Os pastores n&atilde;o s&atilde;o uma classe sacerdotal.<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> H&aacute; dois sentidos. Um &eacute; esse Evangelho da alegria, os anjos que dizem &ldquo;anuncio-vos uma grande alegria que o ser&aacute; para todo o povo, hoje nasceu para v&oacute;s um salvador&rdquo;. &Eacute; a grande alegria do nascimento de Jesus e o an&uacute;ncio de uma salva&ccedil;&atilde;o para todos, n&atilde;o para os eleitos mas uma salva&ccedil;&atilde;o que chega a todos os homens e por isso veem os &uacute;ltimos. Isto &eacute;, aqueles que socialmente t&ecirc;m uma menor dignidade. Os pastores viviam fora das cidades, viviam a cuidar dos animais, eram considerados impuros e &eacute; interessante que s&atilde;o esses os &uacute;ltimos na escala social que primeiro chegam, que primeiro acolhem a adorar o Deus que nasce. Isso tamb&eacute;m j&aacute; diz alguma coisa do minist&eacute;rio de Jesus que &eacute; o salvador de todos mas que abre o seu cora&ccedil;&atilde;o de uma maneira muito particular para os &uacute;ltimos de cada tempo e de cada sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE- Estes &uacute;ltimos e no caso dos pastores tamb&eacute;m n&atilde;o se puseram com grandes perguntas para saberem ao certo o que tinha acontecido. Eles perceberam o mist&eacute;rio e puseram-se a caminho. Mais uma vez algu&eacute;m que est&aacute; a caminho?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Uma das coisas extraordin&aacute;rias no Evangelho de Lucas &eacute; muitas vezes coloca-nos como modelo, os pecadores, os impuros porque ele diz: &ldquo;os que se julgam santos justificam-se a si mesmos&rdquo;, vivem numa autossufici&ecirc;ncia e s&atilde;o aqueles que precisam de salva&ccedil;&atilde;o que nos explicam o que &eacute; acolher a salva&ccedil;&atilde;o. Tamb&eacute;m hoje podemos viver o mist&eacute;rio do Natal de uma forma muito autossuficiente, dispensando o pr&oacute;prio Jesus, como se o Natal fosse apenas uma conversa entre n&oacute;s.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &ndash; No an&uacute;ncio aos pastores a crian&ccedil;a que nasceu &eacute; o salvador, j&aacute; n&atilde;o &eacute; o filho de Jos&eacute; e Maria. O que interessa &eacute; o salvador dado &agrave; humanidade?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Isso mostra a capacidade de ver o invis&iacute;vel. Quando os pastores se inclinam diante de Jesus est&atilde;o a ver para l&aacute; daquilo que os olhos veem e o mist&eacute;rio da encarna&ccedil;&atilde;o de Jesus pede de n&oacute;s essa capacidade. Jesus &eacute; um de n&oacute;s, vive a nossa hist&oacute;ria mas temos de ser capazes de olhar nele o Deus connosco, o Deus que se faz presente nas nossas vidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O papel dos pastores n&atilde;o termina no facto de irem visitar porque eles regressam exultantes e anunciando aos outros o que viram. Este nascimento, esta mensagem n&atilde;o &eacute; para guardar no segredo, na satisfa&ccedil;&atilde;o pessoal de cada um &eacute; para comunicar aos outros?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> Um dos tra&ccedil;os muito belos na narrativa da inf&acirc;ncia &eacute; essa esp&eacute;cie de propaga&ccedil;&atilde;o. Eu vi e vou chamar outro a ver e vou dizer o que vi e vou contar e tece-se como uma esp&eacute;cie de polifonia. &Eacute; como que uma luz que n&atilde;o se pode esconder e a propaga&ccedil;&atilde;o &eacute; hoje para n&oacute;s um compromisso muito grande. No fundo vemos, ouvimos e lemos o que tocamos acerca do mist&eacute;rio da vida &eacute; aquilo que vo-lo anunciamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; o desafio hoje passados estes anos nas conjunturas hist&oacute;ricas, econ&oacute;micas e sociais que vivemos de nos deixarmos fascinar, emocionar, tocar por este nascimento do salvador que se revisita todos os anos?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> N&oacute;s crist&atilde;os n&atilde;o vivemos estes acontecimentos apenas como acontecimentos hist&oacute;ricos de um passado. Vivemo-los tamb&eacute;m na sua dimens&atilde;o de presente e de futuro. Jesus n&atilde;o nasceu, nasce. Jesus n&atilde;o foi apenas contemplado por aqueles personagens que n&oacute;s colocamos no pres&eacute;pio, cada um de n&oacute;s &eacute; uma personagem do pres&eacute;pio e tem de sentir-se envolvido nesta hist&oacute;ria sentindo que ele nasceu para si. Jesus nasceu para que cada um de n&oacute;s tenha a possibilidade de nascer mesmo sendo velho, mesmo sentindo que at&eacute; j&aacute; viveu coisas contradit&oacute;rias mas somos chamados a sentir que Jesus nasce hoje para nos fazer nascer neste momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Na forma de viver o Natal, os pres&eacute;pios j&aacute; estiveram mais fora do imagin&aacute;rio do que agora?<\/em><\/p>\n<p><em>JTM &ndash;<\/em> H&aacute; um regresso. Penso que o texto de S&atilde;o Lucas pode ajudar muito. Era importante n&atilde;o cair numa estiliza&ccedil;&atilde;o do pres&eacute;pio que o deslocasse do seu fundo b&iacute;blico porque h&aacute; uma s&eacute;rie de elementos que s&atilde;o muito importantes, como: o burro, o boi, a manjedoura. Pode parecer de facto que s&atilde;o supletivos mas s&atilde;o de facto elementos essenciais, tal como claro o menino, Maria e Jos&eacute;. &Eacute; interessante a tradi&ccedil;&atilde;o do pres&eacute;pio que &eacute; como o grande teatro do mundo, representam a vida nas aldeias e vemos os pres&eacute;pios populares portugueses, o de Machado de Castro mas mesmo esses de barro an&oacute;nimos que todo o mundo &eacute; colocado no pres&eacute;pio. &Eacute; muito bonito porque &eacute; acreditar que Jesus nasce neste mundo concreto e &eacute; muito curioso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O padre Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, poeta e biblista, analisa os primeiros cap\u00edtulos do Evangelho de S\u00e3o Lucas, \u00e0 luz do atual tempo do Natal, onde todos os s\u00edmbolos, como os animais no pres\u00e9pio ou a manjedoura, s\u00e3o importantes e 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