{"id":63748,"date":"2013-12-13T12:41:59","date_gmt":"2013-12-13T12:41:59","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/12\/13\/mensagem-do-papa-francisco-para-a-celebracao-do-xlvii-dia-mundial-da-paz\/"},"modified":"2013-12-13T12:41:59","modified_gmt":"2013-12-13T12:41:59","slug":"mensagem-do-papa-francisco-para-a-celebracao-do-xlvii-dia-mundial-da-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mensagem-do-papa-francisco-para-a-celebracao-do-xlvii-dia-mundial-da-paz\/","title":{"rendered":"Mensagem do Papa Francisco para a celebra\u00e7\u00e3o do XLVII Dia Mundial da Paz"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">1&ordm; DE JANEIRO DE 2014<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>FRATERNIDADE, FUNDAMENTO E CAMINHO PARA A PAZ<\/strong><\/p>\n<p>1. Nesta minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, desejo formular a todos, indiv&iacute;duos e povos, votos duma vida repleta de alegria e esperan&ccedil;a. Com efeito, no cora&ccedil;&atilde;o de cada homem e mulher, habita o anseio duma vida plena que cont&eacute;m uma aspira&ccedil;&atilde;o irreprim&iacute;vel de fraternidade, impelindo &agrave; comunh&atilde;o com os outros, em quem n&atilde;o encontramos inimigos ou concorrentes, mas irm&atilde;os que devemos acolher e abra&ccedil;ar.<\/p>\n<p>Na realidade, a fraternidade &eacute; uma dimens&atilde;o essencial do homem, sendo ele um ser relacional. A consci&ecirc;ncia viva desta dimens&atilde;o relacional leva-nos a ver e tratar cada pessoa como uma verdadeira irm&atilde; e um verdadeiro irm&atilde;o; sem tal consci&ecirc;ncia, torna-se imposs&iacute;vel a constru&ccedil;&atilde;o duma sociedade justa, duma paz firme e duradoura. E conv&eacute;m desde j&aacute; lembrar que a fraternidade se come&ccedil;a a aprender habitualmente no seio da fam&iacute;lia, gra&ccedil;as sobretudo &agrave;s fun&ccedil;&otilde;es respons&aacute;veis e complementares de todos os seus membros, mormente do pai e da m&atilde;e. A fam&iacute;lia &eacute; a fonte de toda a fraternidade, sendo por isso mesmo tamb&eacute;m o fundamento e o caminho prim&aacute;rio para a paz, j&aacute; que, por voca&ccedil;&atilde;o, deveria contagiar o mundo com o seu amor.<\/p>\n<p>O n&uacute;mero sempre crescente de liga&ccedil;&otilde;es e comunica&ccedil;&otilde;es que envolvem o nosso planeta torna mais palp&aacute;vel a consci&ecirc;ncia da unidade e partilha dum destino comum entre as na&ccedil;&otilde;es da terra. Assim, nos dinamismos da hist&oacute;ria &ndash; independentemente da diversidade das etnias, das sociedades e das culturas &ndash;, vemos semeada a voca&ccedil;&atilde;o a formar uma comunidade feita de irm&atilde;os que se acolhem mutuamente e cuidam uns dos outros. Contudo, ainda hoje, esta voca&ccedil;&atilde;o &eacute; muitas vezes contrastada e negada nos factos, num mundo caracterizado pela &laquo;globaliza&ccedil;&atilde;o da indiferen&ccedil;a&raquo; que lentamente nos faz &laquo;habituar&raquo; ao sofrimento alheio, fechando-nos em n&oacute;s mesmos.<\/p>\n<p>Em muitas partes do mundo, parece n&atilde;o conhecer tr&eacute;guas a grave les&atilde;o dos direitos humanos fundamentais, sobretudo dos direitos &agrave; vida e &agrave; liberdade de religi&atilde;o. Exemplo preocupante disso mesmo &eacute; o dram&aacute;tico fen&oacute;meno do tr&aacute;fico de seres humanos, sobre cuja vida e desespero especulam pessoas sem escr&uacute;pulos. &Agrave;s guerras feitas de confrontos armados juntam-se guerras menos vis&iacute;veis, mas n&atilde;o menos cru&eacute;is, que se combatem nos campos econ&oacute;mico e financeiro com meios igualmente demolidores de vidas, de fam&iacute;lias, de empresas.<\/p>\n<p>A globaliza&ccedil;&atilde;o, como afirmou&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/index_po.htm\" target=\"_blank\">Bento XVI<\/a>, torna-nos vizinhos, mas n&atilde;o nos faz irm&atilde;os.[1]&nbsp;As in&uacute;meras situa&ccedil;&otilde;es de desigualdade, pobreza e injusti&ccedil;a indicam n&atilde;o s&oacute; uma profunda car&ecirc;ncia de fraternidade, mas tamb&eacute;m a aus&ecirc;ncia duma cultura de solidariedade. As novas ideologias, caracterizadas por generalizado individualismo, egocentrismo e consumismo materialista, debilitam os la&ccedil;os sociais, alimentando aquela mentalidade do &laquo;descart&aacute;vel&raquo; que induz ao desprezo e abandono dos mais fracos, daqueles que s&atilde;o considerados &laquo;in&uacute;teis&raquo;. Assim, a conviv&ecirc;ncia humana assemelha-se sempre mais a um mero&nbsp;<em>do ut des<\/em>&nbsp;pragm&aacute;tico e ego&iacute;sta.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, resulta claramente que as pr&oacute;prias &eacute;ticas contempor&acirc;neas se mostram incapazes de produzir aut&ecirc;nticos v&iacute;nculos de fraternidade, porque uma fraternidade privada da refer&ecirc;ncia a um Pai comum como seu fundamento &uacute;ltimo n&atilde;o consegue subsistir.[2]&nbsp;Uma verdadeira fraternidade entre os homens sup&otilde;e e exige uma paternidade transcendente. A partir do reconhecimento desta paternidade, consolida-se a fraternidade entre os homens, ou seja, aquele fazer-se &laquo;pr&oacute;ximo&raquo; para cuidar do outro.<\/p>\n<p><em>&laquo;Onde est&aacute; o teu irm&atilde;o?&raquo;&nbsp;<\/em>(<em>Gn<\/em>&nbsp;4, 9)<\/p>\n<p>2. Para compreender melhor esta voca&ccedil;&atilde;o do homem &agrave; fraternidade e para reconhecer de forma mais adequada os obst&aacute;culos que se interp&otilde;em &agrave; sua realiza&ccedil;&atilde;o e identificar as vias para a supera&ccedil;&atilde;o dos mesmos, &eacute; fundamental deixar-se guiar pelo conhecimento do des&iacute;gnio de Deus, tal como se apresenta de forma egr&eacute;gia na Sagrada Escritura.<\/p>\n<p>Segundo a narra&ccedil;&atilde;o das origens, todos os homens prov&ecirc;m dos mesmos pais, de Ad&atilde;o e Eva, casal criado por Deus &agrave; sua imagem e semelhan&ccedil;a (cf.&nbsp;<em>Gn<\/em>&nbsp;1, 26), do qual nascem Caim e Abel. Na hist&oacute;ria desta fam&iacute;lia primig&eacute;nia, lemos a origem da sociedade, a evolu&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es entre as pessoas e os povos.<\/p>\n<p>Abel &eacute; pastor, Caim agricultor. A sua identidade profunda e, conjuntamente, a sua voca&ccedil;&atilde;o &eacute;&nbsp;<em>ser irm&atilde;os<\/em>, embora na diversidade da sua actividade e cultura, da sua maneira de se relacionarem com Deus e com a cria&ccedil;&atilde;o. Mas o assassinato de Abel por Caim atesta, tragicamente, a rejei&ccedil;&atilde;o radical da voca&ccedil;&atilde;o a ser irm&atilde;os. A sua hist&oacute;ria (cf.&nbsp;<em>Gn<\/em>&nbsp;4, 1-16) p&otilde;e em evid&ecirc;ncia o dif&iacute;cil dever, a que todos os homens s&atilde;o chamados, de viver juntos, cuidando uns dos outros. Caim, n&atilde;o aceitando a predilec&ccedil;&atilde;o de Deus por Abel, que Lhe oferecia o melhor do seu rebanho &ndash; &laquo;o Senhor olhou com agrado para Abel e para a sua oferta, mas n&atilde;o olhou com agrado para Caim nem para a sua oferta&raquo; (<em>Gn<\/em>&nbsp;4, 4-5) &ndash;, mata Abel por inveja. Desta forma, recusa reconhecer-se irm&atilde;o, relacionar-se positivamente com ele, viver diante de Deus, assumindo as suas responsabilidades de cuidar e proteger o outro. &Agrave; pergunta com que Deus interpela Caim &ndash; &laquo;onde est&aacute; o teu irm&atilde;o?&raquo; &ndash;, pedindo-lhe contas da sua ac&ccedil;&atilde;o, responde: &laquo;N&atilde;o sei dele. Sou, porventura, guarda do meu irm&atilde;o?&raquo; (<em>Gn<\/em>&nbsp;4, 9). Depois &ndash; diz-nos o livro do G&eacute;nesis &ndash;, &laquo;Caim afastou-se da presen&ccedil;a do Senhor&raquo; (4, 16).<\/p>\n<p>&Eacute; preciso interrogar-se sobre os motivos profundos que induziram Caim a ignorar o v&iacute;nculo de fraternidade e, simultaneamente, o v&iacute;nculo de reciprocidade e comunh&atilde;o que o ligavam ao seu irm&atilde;o Abel. O pr&oacute;prio Deus denuncia e censura a Caim a sua contiguidade com o mal: &laquo;o pecado deitar-se-&aacute; &agrave; tua porta&raquo; (<em>Gn&nbsp;<\/em>4, 7). Mas Caim recusa opor-se ao mal, e decide igualmente &laquo;lan&ccedil;ar-se sobre o irm&atilde;o&raquo; (<em>Gn<\/em>&nbsp;4, 8), desprezando o projecto de Deus. Deste modo, frustra a sua voca&ccedil;&atilde;o original para ser filho de Deus e viver a fraternidade.<\/p>\n<p>A narra&ccedil;&atilde;o de Caim e Abel ensina que a humanidade traz inscrita em si mesma uma voca&ccedil;&atilde;o &agrave; fraternidade, mas tamb&eacute;m a possibilidade dram&aacute;tica da sua trai&ccedil;&atilde;o. Disso mesmo d&aacute; testemunho o ego&iacute;smo di&aacute;rio, que est&aacute; na base de muitas guerras e injusti&ccedil;as: na realidade, muitos homens e mulheres morrem pela m&atilde;o de irm&atilde;os e irm&atilde;s que n&atilde;o sabem reconhecer-se como tais, isto &eacute;, como seres feitos para a reciprocidade, a comunh&atilde;o e a doa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><em>&laquo;E v&oacute;s sois todos irm&atilde;os&raquo;&nbsp;<\/em>(<em>Mt<\/em>&nbsp;23, 8)<\/p>\n<p>3. Surge espontaneamente a pergunta: poder&atilde;o um dia os homens e as mulheres deste mundo corresponder plenamente ao anseio de fraternidade, gravado neles por Deus Pai? Conseguir&atilde;o, meramente com as suas for&ccedil;as, vencer a indiferen&ccedil;a, o ego&iacute;smo e o &oacute;dio, aceitar as leg&iacute;timas diferen&ccedil;as que caracterizam os irm&atilde;os e as irm&atilde;s?<\/p>\n<p>Parafraseando as palavras do Senhor Jesus, poderemos sintetizar assim a resposta que Ele nos d&aacute;: dado que h&aacute; um s&oacute; Pai, que &eacute; Deus, v&oacute;s sois todos irm&atilde;os (cf.&nbsp;<em>Mt<\/em>&nbsp;23, 8-9). A raiz da fraternidade est&aacute; contida na paternidade de Deus. N&atilde;o se trata de uma paternidade gen&eacute;rica, indistinta e historicamente ineficaz, mas do amor pessoal, sol&iacute;cito e extraordinariamente concreto de Deus por cada um dos homens (cf.&nbsp;<em>Mt<\/em>&nbsp;6, 25-30). Trata-se, por conseguinte, de uma paternidade eficazmente geradora de fraternidade, porque o amor de Deus, quando &eacute; acolhido, torna-se no mais admir&aacute;vel agente de transforma&ccedil;&atilde;o da vida e das rela&ccedil;&otilde;es com o outro, abrindo os seres humanos &agrave; solidariedade e &agrave; partilha activa.<\/p>\n<p>Em particular, a fraternidade humana foi regenerada&nbsp;<em>em<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>por<\/em>&nbsp;Jesus Cristo, com a sua morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o. A cruz &eacute; o &laquo;lugar&raquo; definitivo de&nbsp;<em>funda&ccedil;&atilde;o<\/em>&nbsp;da fraternidade que os homens, por si s&oacute;s, n&atilde;o s&atilde;o capazes de gerar. Jesus Cristo, que assumiu a natureza humana para a redimir, amando o Pai at&eacute; &agrave; morte e morte de cruz (cf.&nbsp;<em>Fl<\/em>&nbsp;2, 8), por meio da sua ressurrei&ccedil;&atilde;o constitui-nos como&nbsp;<em>humanidade nova<\/em>, em plena comunh&atilde;o com a vontade de Deus, com o seu projecto, que inclui a realiza&ccedil;&atilde;o plena da voca&ccedil;&atilde;o &agrave; fraternidade.<\/p>\n<p>Jesus retoma o projecto inicial do Pai, reconhecendo-Lhe a primazia sobre todas as coisas. Mas Cristo, com o seu abandono at&eacute; &agrave; morte por amor do Pai, torna-Se&nbsp;<em>princ&iacute;pio novo<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>definitivo<\/em>&nbsp;de todos n&oacute;s, chamados a reconhecer-nos n&rsquo;Ele como irm&atilde;os, porque&nbsp;<em>filhos<\/em>&nbsp;do mesmo Pai. Ele &eacute; a pr&oacute;pria Alian&ccedil;a, o espa&ccedil;o pessoal da reconcilia&ccedil;&atilde;o do homem com Deus e dos irm&atilde;os entre si. Na morte de Jesus na cruz, ficou superada tamb&eacute;m a&nbsp;<em>separa&ccedil;&atilde;o<\/em>&nbsp;entre os povos, entre o povo da Alian&ccedil;a e o povo dos Gentios, privado de esperan&ccedil;a porque permanecera at&eacute; ent&atilde;o alheio aos pactos da Promessa. Como se l&ecirc; na Carta aos Ef&eacute;sios, Jesus Cristo &eacute; Aquele que reconcilia em Si todos os homens. Ele&nbsp;<em>&eacute;<\/em>&nbsp;a paz, porque, dos dois povos, fez um s&oacute;, derrubando o muro de separa&ccedil;&atilde;o que os dividia, ou seja, a inimizade. Criou em Si mesmo um s&oacute; povo, um s&oacute; homem novo, uma s&oacute; humanidade nova (cf. 2,14-16).<\/p>\n<p>Quem aceita a vida de Cristo e vive n&rsquo;Ele, reconhece Deus como Pai e a Ele Se entrega totalmente, amando-O acima de todas as coisas. O homem reconciliado v&ecirc;, em Deus, o Pai de todos e, consequentemente, &eacute; solicitado a viver uma fraternidade aberta a todos. Em Cristo, o outro &eacute; acolhido e amado como filho ou filha de Deus, como irm&atilde;o ou irm&atilde;, e n&atilde;o como um estranho, menos ainda como um antagonista ou at&eacute; um inimigo. Na fam&iacute;lia de Deus, onde todos s&atilde;o filhos dum mesmo Pai e, porque enxertados em Cristo,&nbsp;<em>filhos no Filho<\/em>, n&atilde;o h&aacute; &laquo;vidas descart&aacute;veis&raquo;. Todos gozam de igual e inviol&aacute;vel dignidade; todos s&atilde;o amados por Deus, todos foram resgatados pelo sangue de Cristo, que morreu na cruz e ressuscitou por cada um. Esta &eacute; a raz&atilde;o pela qual n&atilde;o se pode ficar indiferente perante a sorte dos irm&atilde;os.<\/p>\n<p><em>A fraternidade, fundamento e caminho para a paz<\/em><\/p>\n<p>4. Suposto isto, &eacute; f&aacute;cil compreender que a fraternidade &eacute;&nbsp;<em>fundamento<\/em>&nbsp;e&nbsp;<em>caminho<\/em>&nbsp;para a paz. As Enc&iacute;clicas sociais dos meus Predecessores oferecem uma ajuda valiosa neste sentido. Basta ver as defini&ccedil;&otilde;es de paz da&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/paul_vi\/encyclicals\/documents\/hf_p-vi_enc_26031967_populorum_po.html\" target=\"_blank\">Populorum progressio<\/a><\/em>, de&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/paul_vi\/index_po.htm\" target=\"_blank\">Paulo VI<\/a>, ou da&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis_po.html\" target=\"_blank\">Sollicitudo rei socialis<\/a><\/em>, de&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/index_po.htm\" target=\"_blank\">Jo&atilde;o Paulo II<\/a>. Da primeira, apreendemos que o desenvolvimento integral dos povos &eacute; o novo nome da paz[3]&nbsp;e, da segunda, que a paz &eacute;&nbsp;<em>opus solidaritatis<\/em>, fruto da solidariedade.[4]<\/p>\n<p>Paulo VI afirma que tanto as pessoas como as na&ccedil;&otilde;es se devem encontrar num esp&iacute;rito de fraternidade. E explica: &laquo;Nesta compreens&atilde;o e amizade m&uacute;tuas, nesta comunh&atilde;o sagrada, devemos (&#8230;) trabalhar juntos para construir o futuro comum da humanidade&raquo;.[5]&nbsp;Este dever recai primariamente sobre os mais favorecidos. As suas obriga&ccedil;&otilde;es radicam-se na fraternidade humana e sobrenatural, apresentando-se sob um tr&iacute;plice aspecto: o&nbsp;<em>dever de solidariedade<\/em>, que exige que as na&ccedil;&otilde;es ricas ajudem as menos avan&ccedil;adas; o&nbsp;<em>dever de justi&ccedil;a social<\/em>, que requer a reformula&ccedil;&atilde;o em termos mais correctos das rela&ccedil;&otilde;es defeituosas entre povos fortes e povos fracos; o&nbsp;<em>dever de caridade universal<\/em>, que implica a promo&ccedil;&atilde;o de um mundo mais humano para todos, um mundo onde todos tenham qualquer coisa a dar e a receber, sem que o progresso de uns seja obst&aacute;culo ao desenvolvimento dos outros.[6]<\/p>\n<p>Ora, da mesma forma que se considera a paz como&nbsp;<em>opus solidarietatis<\/em>, &eacute; imposs&iacute;vel n&atilde;o pensar que o seu fundamento principal seja a fraternidade. A paz, afirma&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/index_po.htm\" target=\"_blank\">Jo&atilde;o Paulo II<\/a>, &eacute; um bem indivis&iacute;vel: ou &eacute; bem de todos, ou n&atilde;o o &eacute; de ningu&eacute;m. Na realidade, a paz s&oacute; pode ser conquistada e usufru&iacute;da como melhor qualidade de vida e como desenvolvimento mais humano e sustent&aacute;vel, se estiver viva, em todos, &laquo;a determina&ccedil;&atilde;o firme e perseverante de se empenhar pelo bem comum&raquo;.[7]&nbsp;Isto implica n&atilde;o deixar-se guiar pela &laquo;avidez do lucro&raquo; e pela &laquo;sede do poder&raquo;. &Eacute; preciso estar pronto a &laquo;&ldquo;perder-se&rdquo; em benef&iacute;cio do pr&oacute;ximo em vez de o explorar, e a &ldquo;servi-lo&rdquo; em vez de o oprimir para proveito pr&oacute;prio (&#8230;). O &ldquo;outro&rdquo; &ndash; pessoa, povo ou na&ccedil;&atilde;o &ndash; [n&atilde;o deve ser visto] como um instrumento qualquer, de que se explora, a baixo pre&ccedil;o, a capacidade de trabalhar e a resist&ecirc;ncia f&iacute;sica, para o abandonar quando j&aacute; n&atilde;o serve; mas sim como um nosso &ldquo;semelhante&rdquo;, um &ldquo;aux&iacute;lio&rdquo;&raquo;.[8]<\/p>\n<p>A&nbsp;<em>solidariedade crist&atilde;<\/em>&nbsp;pressup&otilde;e que o pr&oacute;ximo seja amado n&atilde;o s&oacute; como &laquo;um ser humano com os seus direitos e a sua igualdade fundamental em rela&ccedil;&atilde;o a todos os demais, mas [como] a&nbsp;<em>imagem viva<\/em>&nbsp;de Deus Pai, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e tornada objecto da ac&ccedil;&atilde;o permanente do Esp&iacute;rito Santo&raquo;,[9]&nbsp;como um&nbsp;<em>irm&atilde;o<\/em>. &laquo;Ent&atilde;o a consci&ecirc;ncia da paternidade comum de Deus, da fraternidade de todos os homens em Cristo, &ldquo;filhos no Filho&rdquo;, e da presen&ccedil;a e da ac&ccedil;&atilde;o vivificante do Esp&iacute;rito Santo conferir&aacute; &ndash; lembra&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/index_po.htm\" target=\"_blank\">Jo&atilde;o Paulo II<\/a>&nbsp;&ndash; ao nosso olhar sobre o mundo como que um&nbsp;<em>novo crit&eacute;rio<\/em>&nbsp;para o interpretar&raquo;,[10]&nbsp;para o transformar.<\/p>\n<p><em>A fraternidade, premissa para vencer a pobreza<\/em><\/p>\n<p>5. Na&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html\" target=\"_blank\"><em>Caritas in veritate<\/em><\/a>, o meu&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/index_po.htm\" target=\"_blank\">Predecessor<\/a>&nbsp;lembrava ao mundo que uma causa importante da&nbsp;<em>pobreza<\/em>&nbsp;&eacute; a falta de<em>fraternidade<\/em>&nbsp;entre os povos e entre os homens.[11]&nbsp;Em muitas sociedades, sentimos uma profunda&nbsp;<em>pobreza relacional<\/em>, devido &agrave; car&ecirc;ncia de s&oacute;lidas rela&ccedil;&otilde;es familiares e comunit&aacute;rias; assistimos, preocupados, ao crescimento de diferentes tipos de car&ecirc;ncias, marginaliza&ccedil;&atilde;o, solid&atilde;o e de v&aacute;rias formas de depend&ecirc;ncia patol&oacute;gica. Uma tal pobreza s&oacute; pode ser superada atrav&eacute;s da redescoberta e valoriza&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es&nbsp;<em>fraternas<\/em>&nbsp;no seio das fam&iacute;lias e das comunidades, atrav&eacute;s da partilha das alegrias e tristezas, das dificuldades e sucessos presentes na vida das pessoas.<\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, se por um lado se verifica uma redu&ccedil;&atilde;o da&nbsp;<em>pobreza absoluta<\/em>, por outro n&atilde;o podemos deixar de reconhecer um grave aumento da&nbsp;<em>pobreza relativa<\/em>, isto &eacute;, de desigualdades entre pessoas e grupos que convivem numa regi&atilde;o espec&iacute;fica ou num determinado contexto hist&oacute;rico-cultural. Neste sentido, servem pol&iacute;ticas eficazes que promovam o princ&iacute;pio da&nbsp;<em>fraternidade<\/em>, garantindo &agrave;s pessoas &ndash; iguais na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais &ndash; acesso aos &laquo;capitais&raquo;, aos servi&ccedil;os, aos recursos educativos, sanit&aacute;rios e tecnol&oacute;gicos, para que cada uma delas tenha oportunidade de exprimir e realizar o seu projecto de vida e possa desenvolver-se plenamente como pessoa.<\/p>\n<p>Reconhece-se haver necessidade tamb&eacute;m de pol&iacute;ticas que sirvam para atenuar a excessiva desigualdade de rendimento. N&atilde;o devemos esquecer o ensinamento da Igreja sobre a chamada&nbsp;<em>hipoteca social<\/em>, segundo a qual, se &eacute; l&iacute;cito &ndash; como diz S&atilde;o Tom&aacute;s de Aquino &ndash; e mesmo necess&aacute;rio que &laquo;o homem tenha a propriedade dos bens&raquo;,[12]&nbsp;quanto ao uso, por&eacute;m, &laquo;n&atilde;o deve considerar as coisas exteriores que legitimamente possui s&oacute; como pr&oacute;prias, mas tamb&eacute;m como comuns, no sentido de que possam beneficiar n&atilde;o s&oacute; a si mas tamb&eacute;m aos outros&raquo;.[13]<\/p>\n<p>Por &uacute;ltimo, h&aacute; uma forma de promover a fraternidade &ndash; e, assim, vencer a pobreza &ndash; que deve estar na base de todas as outras. &Eacute; o desapego vivido por quem escolhe estilos de vida s&oacute;brios e essenciais, por quem, partilhando as suas riquezas, consegue assim experimentar a comunh&atilde;o fraterna com os outros. Isto &eacute; fundamental, para seguir Jesus Cristo e ser verdadeiramente crist&atilde;o. &Eacute; o caso n&atilde;o s&oacute; das pessoas consagradas que professam voto de pobreza, mas tamb&eacute;m de muitas fam&iacute;lias e tantos cidad&atilde;os respons&aacute;veis que acreditam firmemente que a rela&ccedil;&atilde;o fraterna com o pr&oacute;ximo constitua o bem mais precioso.<\/p>\n<p><em>A redescoberta da fraternidade na economia<\/em><\/p>\n<p>6. As graves crises financeiras e econ&oacute;micas dos nossos dias &ndash; que t&ecirc;m a sua origem no progressivo afastamento do homem de Deus e do pr&oacute;ximo, com a ambi&ccedil;&atilde;o desmedida de bens materiais, por um lado, e o empobrecimento das rela&ccedil;&otilde;es interpessoais e comunit&aacute;rias, por outro &ndash; impeliram muitas pessoas a buscar o bem-estar, a felicidade e a seguran&ccedil;a no consumo e no lucro fora de toda a l&oacute;gica duma economia saud&aacute;vel. J&aacute;, em 1979, o&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/index_po.htm\" target=\"_blank\">Papa Jo&atilde;o Paulo II<\/a>alertava para a exist&ecirc;ncia de &laquo;um real e percept&iacute;vel perigo de que, enquanto progride enormemente o dom&iacute;nio do homem sobre o mundo das coisas, ele perca os fios essenciais deste seu dom&iacute;nio e, de diversas maneiras, submeta a elas a sua humanidade, e ele pr&oacute;prio se torne objecto de multiforme manipula&ccedil;&atilde;o, se bem que muitas vezes n&atilde;o directamente percept&iacute;vel; manipula&ccedil;&atilde;o atrav&eacute;s de toda a organiza&ccedil;&atilde;o da vida comunit&aacute;ria, mediante o sistema de produ&ccedil;&atilde;o e por meio de press&otilde;es dos meios de comunica&ccedil;&atilde;o social&raquo;.[14]<\/p>\n<p>As sucessivas crises econ&oacute;micas devem levar a repensar adequadamente os modelos de desenvolvimento econ&oacute;mico e a mudar os estilos de vida. A crise actual, com pesadas consequ&ecirc;ncias na vida das pessoas, pode ser tamb&eacute;m uma ocasi&atilde;o prop&iacute;cia para recuperar as virtudes da prud&ecirc;ncia, temperan&ccedil;a, justi&ccedil;a e fortaleza. Elas podem ajudar-nos a superar os momentos dif&iacute;ceis e a redescobrir os la&ccedil;os fraternos que nos unem uns aos outros, com a confian&ccedil;a profunda de que o homem tem necessidade e &eacute; capaz de algo mais do que a maximiza&ccedil;&atilde;o do pr&oacute;prio lucro individual. As referidas virtudes s&atilde;o necess&aacute;rias sobretudo para construir e manter uma sociedade &agrave; medida da dignidade humana.<\/p>\n<p><em>A fraternidade extingue a guerra<\/em><\/p>\n<p>7. Ao longo do ano que termina, muitos irm&atilde;os e irm&atilde;s nossos continuaram a viver a experi&ecirc;ncia dilacerante da guerra, que constitui uma grave e profunda ferida infligida &agrave; fraternidade.<\/p>\n<p>H&aacute; muitos conflitos que se consumam na indiferen&ccedil;a geral. A todos aqueles que vivem em terras onde as armas imp&otilde;em terror e destrui&ccedil;&atilde;o, asseguro a minha solidariedade pessoal e a de toda a Igreja. Esta &uacute;ltima tem por miss&atilde;o levar o amor de Cristo tamb&eacute;m &agrave;s v&iacute;timas indefesas das guerras esquecidas, atrav&eacute;s da ora&ccedil;&atilde;o pela paz, do servi&ccedil;o aos feridos, aos famintos, aos refugiados, aos deslocados e a quantos vivem no terror. De igual modo a Igreja levanta a sua voz para fazer chegar aos respons&aacute;veis o grito de dor desta humanidade atribulada e fazer cessar, juntamente com as hostilidades, todo o abuso e viola&ccedil;&atilde;o dos direitos fundamentais do homem.[15]<\/p>\n<p>Por este motivo, desejo dirigir um forte apelo a quantos semeiam viol&ecirc;ncia e morte, com as armas: naquele que hoje considerais apenas um inimigo a abater, redescobri o vosso irm&atilde;o e detende a vossa m&atilde;o! Renunciai &agrave; via das armas e ide ao encontro do outro com o di&aacute;logo, o perd&atilde;o e a reconcilia&ccedil;&atilde;o para reconstruir a justi&ccedil;a, a confian&ccedil;a e esperan&ccedil;a ao vosso redor! &laquo;Nesta &oacute;ptica, torna-se claro que, na vida dos povos, os conflitos armados constituem sempre a deliberada nega&ccedil;&atilde;o de qualquer conc&oacute;rdia internacional poss&iacute;vel, originando divis&otilde;es profundas e dilacerantes feridas que necessitam de muitos anos para se curarem. As guerras constituem a rejei&ccedil;&atilde;o pr&aacute;tica de se comprometer para alcan&ccedil;ar aquelas grandes metas econ&oacute;micas e sociais que a comunidade internacional estabeleceu&raquo;.[16]<\/p>\n<p>Mas, enquanto houver em circula&ccedil;&atilde;o uma quantidade t&atilde;o grande como a actual de armamentos, poder-se-&aacute; sempre encontrar novos pretextos para iniciar as hostilidades. Por isso, fa&ccedil;o meu o apelo lan&ccedil;ado pelos meus Predecessores a favor da n&atilde;o-prolifera&ccedil;&atilde;o das armas e do desarmamento por parte de todos, a come&ccedil;ar pelo desarmamento nuclear e qu&iacute;mico.<\/p>\n<p>N&atilde;o podemos, por&eacute;m, deixar de constatar que os acordos internacionais e as leis nacionais, embora sendo necess&aacute;rios e altamente desej&aacute;veis, por si s&oacute;s n&atilde;o bastam para preservar a humanidade do risco de conflitos armados. &Eacute; precisa uma convers&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o que permita a cada um reconhecer no outro um irm&atilde;o do qual cuidar e com o qual trabalhar para, juntos, constru&iacute;rem uma vida em plenitude para todos. Este &eacute; o esp&iacute;rito que anima muitas das iniciativas da sociedade civil, incluindo as organiza&ccedil;&otilde;es religiosas, a favor da paz. Espero que o compromisso di&aacute;rio de todos continue a dar fruto e que se possa chegar tamb&eacute;m &agrave; efectiva aplica&ccedil;&atilde;o, no direito internacional, do direito &agrave; paz como direito humano fundamental, pressuposto necess&aacute;rio para o exerc&iacute;cio de todos os outros direitos.<\/p>\n<p><em>A corrup&ccedil;&atilde;o e o crime organizado contrastam a fraternidade<\/em><\/p>\n<p>8. O horizonte da fraternidade apela ao crescimento em plenitude de todo o homem e mulher. As justas ambi&ccedil;&otilde;es duma pessoa, sobretudo se jovem, n&atilde;o devem ser frustradas nem lesadas; n&atilde;o se lhe deve roubar a esperan&ccedil;a de pod&ecirc;-las realizar. A ambi&ccedil;&atilde;o, por&eacute;m, n&atilde;o deve ser confundida com prevarica&ccedil;&atilde;o; pelo contr&aacute;rio, &eacute; necess&aacute;rio competir na m&uacute;tua estima (cf.&nbsp;<em>Rm<\/em>&nbsp;12, 10). Mesmo nas disputas, que constituem um aspecto inevit&aacute;vel da vida, &eacute; preciso recordar-se sempre de que somos irm&atilde;os; por isso, &eacute; necess&aacute;rio educar e educar-se para n&atilde;o considerar o pr&oacute;ximo como um inimigo nem um advers&aacute;rio a eliminar.<\/p>\n<p>A fraternidade gera paz social, porque cria um equil&iacute;brio entre liberdade e justi&ccedil;a, entre responsabilidade pessoal e solidariedade, entre bem dos indiv&iacute;duos e bem comum. Uma comunidade pol&iacute;tica deve, portanto, agir de forma transparente e respons&aacute;vel para favorecer tudo isto. Os cidad&atilde;os devem sentir-se representados pelos poderes p&uacute;blicos, no respeito da sua liberdade. Em vez disso, muitas vezes, entre cidad&atilde;o e institui&ccedil;&otilde;es, interp&otilde;em-se interesses partid&aacute;rios que deformam essa rela&ccedil;&atilde;o, favorecendo a cria&ccedil;&atilde;o dum clima perene de conflito.<\/p>\n<p>Um aut&ecirc;ntico esp&iacute;rito de fraternidade vence o ego&iacute;smo individual, que contrasta a possibilidade das pessoas viverem em liberdade e harmonia entre si. Tal ego&iacute;smo desenvolve-se, socialmente, quer nas muitas formas de corrup&ccedil;&atilde;o que hoje se difunde de maneira capilar, quer na forma&ccedil;&atilde;o de organiza&ccedil;&otilde;es criminosas &ndash; desde os pequenos grupos at&eacute; &agrave;queles organizados &agrave; escala global &ndash; que, minando profundamente a legalidade e a justi&ccedil;a, ferem no cora&ccedil;&atilde;o a dignidade da pessoa. Estas organiza&ccedil;&otilde;es ofendem gravemente a Deus, prejudicam os irm&atilde;os e lesam a cria&ccedil;&atilde;o, revestindo-se duma gravidade ainda maior se t&ecirc;m conota&ccedil;&otilde;es religiosas.<\/p>\n<p>Penso no drama dilacerante da droga com a qual se lucra desafiando leis morais e civis, na devasta&ccedil;&atilde;o dos recursos naturais e na polui&ccedil;&atilde;o em curso, na trag&eacute;dia da explora&ccedil;&atilde;o do trabalho; penso nos tr&aacute;ficos il&iacute;citos de dinheiro como tamb&eacute;m na especula&ccedil;&atilde;o financeira que, muitas vezes, assume caracteres predadores e nocivos para inteiros sistemas econ&oacute;micos e sociais, lan&ccedil;ando na pobreza milh&otilde;es de homens e mulheres; penso na prostitui&ccedil;&atilde;o que diariamente ceifa v&iacute;timas inocentes, sobretudo entre os mais jovens, roubando-lhes o futuro; penso no abom&iacute;nio do tr&aacute;fico de seres humanos, nos crimes e abusos contra menores, na escravid&atilde;o que ainda espalha o seu horror em muitas partes do mundo, na trag&eacute;dia frequentemente ignorada dos emigrantes sobre quem se especula indignamente na ilegalidade. A este respeito escreveu&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_xxiii\/index_po.htm\" target=\"_blank\">Jo&atilde;o XXIII<\/a>: &laquo;Uma conviv&ecirc;ncia baseada unicamente em rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a nada tem de humano: nela v&ecirc;em as pessoas coarctada a pr&oacute;pria liberdade, quando, pelo contr&aacute;rio, deveriam ser postas em condi&ccedil;&atilde;o tal que se sentissem estimuladas a procurar o pr&oacute;prio desenvolvimento e aperfei&ccedil;oamento&raquo;.[17]&nbsp;Mas o homem pode converter-se, e n&atilde;o se deve jamais desesperar da possibilidade de mudar de vida. Gostaria que isto fosse uma mensagem de confian&ccedil;a para todos, mesmo para aqueles que cometeram crimes hediondos, porque Deus n&atilde;o quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (cf.&nbsp;<em>Ez<\/em>&nbsp;18, 23).<\/p>\n<p>No contexto alargado da sociabilidade humana, considerando o delito e a pena, penso tamb&eacute;m nas condi&ccedil;&otilde;es desumanas de muitos estabelecimentos prisionais, onde frequentemente o preso acaba reduzido a um estado sub-humano, violado na sua dignidade de homem e sufocado tamb&eacute;m em toda a vontade e express&atilde;o de resgate. A Igreja faz muito em todas estas &aacute;reas, a maior parte das vezes sem rumor. Exorto e encorajo a fazer ainda mais, na esperan&ccedil;a de que tais ac&ccedil;&otilde;es desencadeadas por tantos homens e mulheres corajosos possam cada vez mais ser sustentadas, leal e honestamente, tamb&eacute;m pelos poderes civis.<\/p>\n<p><em>A fraternidade ajuda a guardar e cultivar a natureza<\/em><\/p>\n<p>9. A fam&iacute;lia humana recebeu, do Criador, um dom em comum: a natureza. A vis&atilde;o crist&atilde; da cria&ccedil;&atilde;o apresenta um ju&iacute;zo positivo sobre a licitude das interven&ccedil;&otilde;es na natureza para dela tirar benef&iacute;cio, contanto que se actue responsavelmente, isto &eacute;, reconhecendo aquela &laquo;gram&aacute;tica&raquo; que est&aacute; inscrita nela e utilizando, com sabedoria, os recursos para proveito de todos, respeitando a beleza, a finalidade e a utilidade dos diferentes seres vivos e a sua fun&ccedil;&atilde;o no ecossistema. Em suma, a natureza est&aacute; &agrave; nossa disposi&ccedil;&atilde;o, mas somos chamados a administr&aacute;-la responsavelmente. Em vez disso, muitas vezes deixamo-nos guiar pela gan&acirc;ncia, pela soberba de dominar, possuir, manipular, desfrutar; n&atilde;o guardamos a natureza, n&atilde;o a respeitamos, nem a consideramos como um dom gratuito de que devemos cuidar e colocar ao servi&ccedil;o dos irm&atilde;os, incluindo as gera&ccedil;&otilde;es futuras.<\/p>\n<p>De modo particular o sector produtivo prim&aacute;rio, o&nbsp;<em>sector agr&iacute;cola<\/em>, tem a voca&ccedil;&atilde;o vital de cultivar e guardar os recursos naturais para alimentar a humanidade. A prop&oacute;sito, a persistente vergonha da fome no mundo leva-me a partilhar convosco esta pergunta:&nbsp;<em>De que modo usamos os recursos da terra<\/em>? As sociedades actuais devem reflectir sobre a hierarquia das prioridades no destino da produ&ccedil;&atilde;o. De facto, &eacute; um dever impelente que se utilizem de tal modo os recursos da terra, que todos se vejam livres da fome. As iniciativas e as solu&ccedil;&otilde;es poss&iacute;veis s&atilde;o muitas, e n&atilde;o se limitam ao aumento da produ&ccedil;&atilde;o. &Eacute; mais que sabido que a produ&ccedil;&atilde;o actual &eacute; suficiente, e todavia h&aacute; milh&otilde;es de pessoas que sofrem e morrem de fome, o que constitui um verdadeiro esc&acirc;ndalo. Por isso, &eacute; necess&aacute;rio encontrar o modo para que todos possam beneficiar dos frutos da terra, n&atilde;o s&oacute; para evitar que se alargue o fosso entre aqueles que t&ecirc;m mais e os que devem contentar-se com as migalhas, mas tamb&eacute;m e sobretudo por uma exig&ecirc;ncia de justi&ccedil;a e equidade e de respeito por cada ser humano. Neste sentido, gostaria de lembrar a todos o necess&aacute;rio&nbsp;<em>destino universal dos bens<\/em>, que &eacute; um dos princ&iacute;pios fulcrais da doutrina social da Igreja. O respeito deste princ&iacute;pio &eacute; a condi&ccedil;&atilde;o essencial para permitir um acesso real e equitativo aos bens essenciais e prim&aacute;rios de que todo o homem precisa e tem direito.<\/p>\n<p><em>Conclus&atilde;o<\/em><\/p>\n<p>10. H&aacute; necessidade que a fraternidade seja descoberta, amada, experimentada, anunciada e testemunhada; mas s&oacute; o amor dado por Deus &eacute; que nos permite acolher e viver plenamente a fraternidade.<\/p>\n<p>O necess&aacute;rio realismo da pol&iacute;tica e da economia n&atilde;o pode reduzir-se a um tecnicismo sem ideal, que ignora a dimens&atilde;o transcendente do homem. Quando falta esta abertura a Deus, toda a actividade humana se torna mais pobre, e as pessoas s&atilde;o reduzidas a objecto pass&iacute;vel de explora&ccedil;&atilde;o. Somente se a pol&iacute;tica e a economia aceitarem mover-se no amplo espa&ccedil;o assegurado por esta abertura &Agrave;quele que ama todo o homem e mulher, &eacute; que conseguir&atilde;o estruturar-se com base num verdadeiro esp&iacute;rito de caridade fraterna e poder&atilde;o ser instrumento eficaz de desenvolvimento humano integral e de paz.<\/p>\n<p>N&oacute;s, crist&atilde;os, acreditamos que, na Igreja, somos membros uns dos outros e todos mutuamente necess&aacute;rios, porque a cada um de n&oacute;s foi dada uma gra&ccedil;a, segundo a medida do dom de Cristo, para utilidade comum (cf.&nbsp;<em>Ef<\/em>&nbsp;4, 7.25;&nbsp;<em>1 Cor<\/em>12, 7). Cristo veio ao mundo para nos trazer a gra&ccedil;a divina, isto &eacute;, a possibilidade de participar na sua vida. Isto implica tecer um relacionamento fraterno, caracterizado pela reciprocidade, o perd&atilde;o, o dom total de si mesmo, segundo a grandeza e a profundidade do amor de Deus, oferecido &agrave; humanidade por Aquele que, crucificado e ressuscitado, atrai todos a Si: &laquo;Dou-vos um novo mandamento: que vos ameis uns aos outros; que vos ameis uns aos outros assim como Eu vos amei. Por isto &eacute; que todos conhecer&atilde;o que sois meus disc&iacute;pulos: se vos amardes uns aos outros&raquo; (<em>Jo<\/em>&nbsp;13, 34-35). Esta &eacute; a boa nova que requer, de cada um, um passo mais, um exerc&iacute;cio perene de empatia, de escuta do sofrimento e da esperan&ccedil;a do outro, mesmo do que est&aacute; mais distante de mim, encaminhando-se pela estrada exigente daquele amor que sabe doar-se e gastar-se gratuitamente pelo bem de cada irm&atilde;o e irm&atilde;.<\/p>\n<p>Cristo abra&ccedil;a todo o ser humano e deseja que ningu&eacute;m se perca. &laquo;Deus n&atilde;o enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele&raquo; (<em>Jo<\/em>&nbsp;3, 17). F&aacute;-lo sem oprimir, sem for&ccedil;ar ningu&eacute;m a abrir-Lhe as portas do cora&ccedil;&atilde;o e da mente. &laquo;O que for maior entre v&oacute;s seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve &ndash; diz Jesus Cristo &ndash;. Eu estou no meio de v&oacute;s como aquele que serve&raquo; (<em>Lc<\/em>&nbsp;22, 26-27). Deste modo, cada actividade deve ser caracterizada por uma atitude de servi&ccedil;o &agrave;s pessoas, incluindo as mais distantes e desconhecidas. O servi&ccedil;o &eacute; a alma da fraternidade que edifica a paz.<\/p>\n<p>Que Maria, a M&atilde;e de Jesus, nos ajude a compreender e a viver todos os dias a fraternidade que jorra do cora&ccedil;&atilde;o do seu Filho, para levar a paz a todo o homem que vive nesta nossa amada terra.<\/p>\n<p><em>Vaticano, 8 de Dezembro de 2013.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p align=\"center\"><strong>FRANCISCUS<\/strong><\/p>\n<p> &nbsp;     <\/p>\n<hr size=\"1\" \/>\n<p>[1]Cf. Carta enc.&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html\" target=\"_blank\"><em>Caritas in veritate<\/em><\/a>&nbsp;(29 de Junho de 2009), 19:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;101 (2009), 654-655.<\/p>\n<p>[2]Cf. Francisco, Carta enc.&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/francesco\/encyclicals\/documents\/papa-francesco_20130629_enciclica-lumen-fidei_po.html\" target=\"_blank\"><em>Lumen fidei<\/em>&nbsp;<\/a>(29 de Junho de 2013), 54:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;105 (2013), 591-592.<\/p>\n<p>[3]Cf. Paulo VI, Carta enc.&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/paul_vi\/encyclicals\/documents\/hf_p-vi_enc_26031967_populorum_po.html\" target=\"_blank\">Populorum progressio<\/a>&nbsp;<\/em>(26 de Mar&ccedil;o de 1967), 87:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;59 (1967), 299.<\/p>\n<p>[4]Cf. Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc.&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis_po.html\" target=\"_blank\">Sollicitudo rei socialis<\/a><\/em>&nbsp;(30 de Dezembro de 1987), 39:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;80 (1988), 566-568.<\/p>\n<p>[5]Carta enc.&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/paul_vi\/encyclicals\/documents\/hf_p-vi_enc_26031967_populorum_po.html\" target=\"_blank\">Populorum progressio<\/a>&nbsp;<\/em>(26 de Mar&ccedil;o de 1967), 43:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;59 (1967), 278-279.<\/p>\n<p>[6]Cf.&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/paul_vi\/encyclicals\/documents\/hf_p-vi_enc_26031967_populorum_po.html\" target=\"_blank\">ibid<\/a>.<\/em>, 44:&nbsp;<em>o. c.<\/em>, 279.<\/p>\n<p>[7]Carta enc.&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis_po.html\" target=\"_blank\">Sollicitudo rei socialis<\/a><\/em>&nbsp;(30 de Dezembro de 1987), 38:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;80 (1988), 566.<\/p>\n<p>[8]<em>&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis_po.html\" target=\"_blank\">Ibid<\/a>.<\/em>, 38-39:&nbsp;<em>o. c.,<\/em>&nbsp;566-567.<\/p>\n<p>[9]&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis_po.html\" target=\"_blank\">Ibid<\/a>.<\/em>, 40:&nbsp;<em>o. c.,<\/em>&nbsp;569.<\/p>\n<p>[10]<em>&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis_po.html\" target=\"_blank\">Ibid<\/a>.<\/em>, 40:&nbsp;<em>o. c.<\/em>, 569.<\/p>\n<p>[11]Cf. Carta enc.&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/benedict_xvi\/encyclicals\/documents\/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate_po.html\" target=\"_blank\"><em>Caritas in veritate<\/em><\/a>&nbsp;(29 de Junho de 2009), 19:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;101 (2009), 654-655.<\/p>\n<p>[12]<em>&nbsp;Summa theologiae<\/em>, II-II, q. 66, a. 2.<\/p>\n<p>[13]&nbsp;Conc. Ecum. Vat. II, Const. past. sobre a Igreja no mundo contempor&acirc;neo&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/archive\/hist_councils\/ii_vatican_council\/documents\/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html\" target=\"_blank\">Gaudium et spes<\/a><\/em>, 69; cf. Le&atilde;o XIII, Carta enc.&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/leo_xiii\/encyclicals\/documents\/hf_l-xiii_enc_15051891_rerum-novarum_po.html\" target=\"_blank\">Rerum novarum<\/a><\/em>&nbsp;(15 de Maio de 1891), 19:&nbsp;<em>ASS<\/em>&nbsp;23 (1890-1891), 651; Jo&atilde;o Paulo II, Carta enc.&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_30121987_sollicitudo-rei-socialis_po.html\" target=\"_blank\">Sollicitudo rei socialis<\/a>&nbsp;<\/em>(30 de Dezembro de 1987), 42:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;80 (1988), 573-574; Pont. Conselho &laquo;Justi&ccedil;a e Paz&raquo;,&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/pontifical_councils\/justpeace\/documents\/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html\" target=\"_blank\">Comp&ecirc;ndio da Doutrina Social da Igreja<\/a><\/em>, 178.<\/p>\n<p>[14]&nbsp;Carta enc.&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_paul_ii\/encyclicals\/documents\/hf_jp-ii_enc_04031979_redemptor-hominis_po.html\" target=\"_blank\">Redemptor hominis<\/a><\/em>&nbsp;(4 de Mar&ccedil;o de 1979), 16:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;61 (1979), 290.<\/p>\n<p>[15]Cf. Pont. Conselho &laquo;Justi&ccedil;a e Paz&raquo;,&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/roman_curia\/pontifical_councils\/justpeace\/documents\/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html\" target=\"_blank\">Comp&ecirc;ndio da Doutrina Social da Igreja<\/a><\/em>, 159.<\/p>\n<p>[16]&nbsp;Francisco,&nbsp;<em><a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/francesco\/letters\/2013\/documents\/papa-francesco_20130904_putin-g20_po.html\" target=\"_blank\">Carta ao Presidente Vladimir Putin<\/a>&nbsp;<\/em>(4 de Setembro de 2013):&nbsp;<em>L&rsquo;Osservatore Romano<\/em>&nbsp;(ed. portuguesa de 8\/IX\/2013), 5.<\/p>\n<p>[17]&nbsp;Carta enc.&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.vatican.va\/holy_father\/john_xxiii\/encyclicals\/documents\/hf_j-xxiii_enc_11041963_pacem_po.html\" target=\"_blank\"><em>Pacem in terris<\/em>&nbsp;<\/a>(11 de Abril de 1963), 17:&nbsp;<em>AAS<\/em>&nbsp;55 (1963), 265.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>1&ordm; DE JANEIRO DE 2014 &nbsp; FRATERNIDADE, FUNDAMENTO E CAMINHO PARA A PAZ 1. Nesta minha primeira Mensagem para o Dia Mundial da Paz, desejo formular a todos, indiv&iacute;duos e povos, votos duma vida repleta de alegria e esperan&ccedil;a. 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