{"id":63732,"date":"2013-12-13T06:06:00","date_gmt":"2013-12-13T06:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/12\/13\/a-autenticidade-e-o-remedio-e-a-autenticidade-e-o-que-esta-nas-palavras-do-papa\/"},"modified":"2013-12-13T06:06:00","modified_gmt":"2013-12-13T06:06:00","slug":"a-autenticidade-e-o-remedio-e-a-autenticidade-e-o-que-esta-nas-palavras-do-papa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-autenticidade-e-o-remedio-e-a-autenticidade-e-o-que-esta-nas-palavras-do-papa\/","title":{"rendered":"\u00abA autenticidade \u00e9 o rem\u00e9dio e a autenticidade \u00e9 o que est\u00e1 nas palavras do Papa\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Adriano Moreira comenta primeiros nove meses de pontificado de Francisco <!--more--> <\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia (AE) &#8211; Ficou muito agradavelmente surpreendido pela elei&ccedil;&atilde;o deste Papa, pela escolha do nome Francisco. Esse fasc&iacute;nio perdurou nestes meses de pontificado?<\/em><\/p>\n<p><em>Adriano Moreira (AM) &ndash;<\/em> Sem d&uacute;vida nenhuma. Fiquei mais do que satisfeito, fiquei emocionado porque nunca tinha acontecido na hist&oacute;ria da Igreja e o S&atilde;o Francisco [de Assis] &eacute; uma boa inspira&ccedil;&atilde;o para a &eacute;poca que estamos a viver. E depois est&aacute; muito de acordo certamente, se n&atilde;o ele n&atilde;o escolheria o nome, com a sua experi&ecirc;ncia de pastor e de bispo, depois de cardeal porque cresceu e certamente foi apurando, apoiado na sua f&eacute;, a compreens&atilde;o do mundo em que vivia. Ele viveu num dos mundos pobres que n&oacute;s temos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; desde logo curioso como vindo do &ldquo;fim do mundo&rdquo;, como ele disse, as mensagens est&atilde;o a chegar a todo o mundo. Esse fasc&iacute;nio inicial perdurou, o Papa foi comprovando nas mensagens, nos gestos&hellip;<\/em><\/p>\n<p>AM &ndash; At&eacute; agora com certeza e espero que se acrescente mas gostava de insistir que ele cresceu num meio onde compreendeu a necessidade que h&aacute; de dar efetividade a um principio que foi o Conc&iacute;lio que era a proemin&ecirc;ncia dos pobres. Recordo-me muito bem de ter at&eacute; adotado isso como doutrina da democracia crist&atilde; em Portugal e na altura n&atilde;o foi considerado uma afirma&ccedil;&atilde;o que merecesse grande aten&ccedil;&atilde;o. N&oacute;s est&aacute;vamos a caminho do neorriquismo que nos levou &agrave;s circunst&acirc;ncias em que estamos hoje mas naturalmente ele &eacute; da regi&atilde;o onde nasceu a geografia da fome, que teve tanta import&acirc;ncia. A regi&atilde;o que criou tantas inquieta&ccedil;&otilde;es &agrave; Igreja com a teologia da liberta&ccedil;&atilde;o, por exemplo. Tudo express&otilde;es que chegaram a levar ao risco de haver uma dissid&ecirc;ncia. E ele foi criticado, atacado pelo pa&iacute;s onde vive e manteve uma serenidade total perante a deturpa&ccedil;&atilde;o e at&eacute; a inven&ccedil;&atilde;o perante a imagem que criam atribuir-lhe. Recentemente foi traduzido para portugu&ecirc;s o livro sobre a lista das pessoas que salvou (&#8220;<a href=\"http:\/\/www.agencia.ecclesia.pt\/cgi-bin\/noticia.pl?&amp;id=98032\" target=\"_blank\">A Lista de Bergoglio<\/a>&#8220;) e ele nunca fez refer&ecirc;ncia a isso e nunca respondeu &agrave; deturpa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&Eacute; um homem que tem muita convic&ccedil;&atilde;o e certeza da hierarquia dos valores e tamb&eacute;m da voca&ccedil;&atilde;o que o chamou. Depois, ele faz uma coisa que &eacute; muito franciscana que &eacute; rezar pela conduta, os exemplos, proceder e mostrar-se de certa maneira que era um talento do S&atilde;o Francisco, o exemplo da simplicidade e da uni&atilde;o das necessidades da popula&ccedil;&atilde;o. Ele est&aacute; a dar esse exemplo num per&iacute;odo naturalmente muito dif&iacute;cil, em que a diminui&ccedil;&atilde;o dos fi&eacute;is &eacute; enorme, h&aacute; mesmo o risco de se tornar minoria na Europa em que vivemos e sobretudo numa &eacute;poca em que regi&atilde;o que foi considerada a mais rica do mundo, influente, consumista, substituiu o credo dos valores pelo credo do mercado. Este &eacute; o combate que ele levantou e &eacute; um dos aspetos em que vai ser mais uma vez objeto, como &eacute; costume, de alguma reinterpreta&ccedil;&atilde;o do que diz e que n&atilde;o corresponde ao que efetivamente queria dizer. Mas ele &eacute; suficientemente experiente e com autoridade e vis&atilde;o suficiente para enfrentar esse risco tamb&eacute;m que as palavras porventura sejam deturpadas e hoje o risco &eacute; muito grande porque se os meios de comunica&ccedil;&atilde;o decidem interpretar alguma afirma&ccedil;&atilde;o, sobretudo original ou nova, que tenha sido feita o risco que se multipliquem os sentidos &eacute; muito grande. As palavras t&ecirc;m esta duplicidade, umas vezes s&atilde;o submissas e outras vezes s&atilde;o subversivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A interpreta&ccedil;&atilde;o das palavras que o Papa diz nos seus discursos e documentos rapidamente chega a uma dupla perspetiva sobre elas. Ou s&atilde;o o essencial do Evangelho, a doutrina da Igreja de sempre, ou uma novidade muito grande que agora, o sucessor de S&atilde;o Pedro est&aacute; a proclamar. Estaremos perante duas perspetivas que se op&otilde;em?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash;<\/em> Eu acho que n&atilde;o. Aquilo que est&aacute; a acontecer &eacute; que o Papa Francisco est&aacute; a compreender, e j&aacute; compreendeu, que o mundo mudou. A grande parte das institui&ccedil;&otilde;es que t&ecirc;m responsabilidades p&uacute;blicas ainda n&atilde;o assumiu a necessidade de rever a sua vis&atilde;o do mundo e da vida e acontece o mesmo com os partidos pol&iacute;ticos.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &ndash; A Igreja Cat&oacute;lica n&atilde;o tinha at&eacute; este pontificado feito essa revis&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash;<\/em> De algum modo j&aacute; tinha feito, embora em algumas vezes com muita dificuldade, sobretudo com aqueles movimentos da Am&eacute;rica Latina em que passou grandes dificuldades para evitar a cis&atilde;o que chegou a esperar-se mas progressivamente tem que enfrentar a mudan&ccedil;a do mundo e n&atilde;o pensar que pode recolher-se a um convento a meditar em si pr&oacute;pria e n&atilde;o na sociedade que espera por ela. Eu creio que temos neste momento, mesmo em Portugal, bispos com uma juventude e uma capacidade da vis&atilde;o da mudan&ccedil;a do mundo que podem acompanhar com autenticidade a doutrina&ccedil;&atilde;o do Papa Francisco. E, sobretudo dar valora&ccedil;&atilde;o ao imperativo do Conc&iacute;lio da proemin&ecirc;ncia dos pobres em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; Igreja.<\/p>\n<p>Uma das coisas importantes que [o Papa] j&aacute; se pronunciou diz respeito a um caso, tema fundamental em Portugal neste momento que &eacute; o Estado Social. H&aacute; alguns int&eacute;rpretes apressados que julgam que o ES &eacute; caridade do Governo. O Estado Social s&atilde;o direitos que completam aquilo que foram as grandes declara&ccedil;&otilde;es de direitos. Eu costumo dar como exemplo aos estudantes que a Declara&ccedil;&atilde;o dos Direitos de Filadelfia, com as famosas palavras do Thomas Jefferson [terceiro presidente dos Estados Unidos da Am&eacute;rica], &ldquo;todos os Homens nascem iguais e com igual direito &agrave; felicidade&rdquo; mas as mulheres n&atilde;o, os &iacute;ndios n&atilde;o, os escravos n&atilde;o, os trabalhadores n&atilde;o, etc. Uma s&eacute;rie de &ldquo;n&atilde;os&rdquo; que era necess&aacute;rio apagar e foi a Doutrina Social da Igreja, em converg&ecirc;ncia com o socialismo democr&aacute;tico, que criou aquilo que os franceses chamam &ldquo;Le droit prestation&rdquo;. &Eacute; necess&aacute;rio a quem n&atilde;o tem mesmo ponto de partida satisfazer de alguma maneira o ponto de partida, &eacute; para isso que s&atilde;o os direitos presta&ccedil;&atilde;o &agrave;s pessoas e depois disso existe tamb&eacute;m a caridade e o amor ao pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p>A preserva&ccedil;&atilde;o de uma coisa que considero fundamental &eacute; que a comunidade nacional seja de afetos porque sem eu ser comunidade de afetos que torna &uacute;til, exequ&iacute;vel e obrigat&oacute;rio o exerc&iacute;cio do amor ao pr&oacute;ximo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O que dizer neste problema do Estado Social ao argumento que se repete muitas vezes de que &ldquo;n&atilde;o h&aacute; dinheiro&rdquo;?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash; <\/em>Isso n&atilde;o impede que haja princ&iacute;pios. O Estado Social na Constitui&ccedil;&atilde;o Portuguesa &eacute; uma principiologia porque temos disposi&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o imperativas mas t&ecirc;m princ&iacute;pios e que neste momento parecem ser uma das dificuldades do Executivo lidar com o Tribunal Constitucional (TC). Parece que algumas vezes t&ecirc;m dificuldade em compreender que o TC invoca princ&iacute;pios em vez de invocar uma disposi&ccedil;&atilde;o literal que esteja escrita. A principiologia que est&aacute; na Constitui&ccedil;&atilde;o Portuguesa do ES diz respeito &agrave;s possibilidades do Estado e por consequ&ecirc;ncia podem as possibilidades diminuir mas os princ&iacute;pios n&atilde;o diminuem e, por isso, &eacute; completamente errado, a meu ver, crer entre outras coisas que se anunciam para a Constitui&ccedil;&atilde;o, a refunda&ccedil;&atilde;o do Estado que parece uma express&atilde;o exagerad&iacute;ssima mas &eacute; bom que apare&ccedil;a gente com ambi&ccedil;&atilde;o, &eacute; preciso que isto n&atilde;o desapare&ccedil;a da Constitui&ccedil;&atilde;o porque faz parte das conquistas ocidentais, das declara&ccedil;&otilde;es de direitos ocidentais. E ai, espero que a doutrina&ccedil;&atilde;o do Papa traga um grande fortalecimento a estes princ&iacute;pios, &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o dos princ&iacute;pios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Tamb&eacute;m numa afirma&ccedil;&atilde;o que o Papa foi repetindo, na rejei&ccedil;&atilde;o de uma economia de exclus&atilde;o, nessa afirma&ccedil;&atilde;o forte &ndash; &ldquo;a economia mata&rdquo;?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash;<\/em> N&atilde;o sou economista, mas em todo o caso a &lsquo;Escola de Chicago est&aacute;&rsquo; sempre mais em vista. E n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vida que prestemos muita aten&ccedil;&atilde;o &agrave;s pol&iacute;ticas inclusivas e exclusivas. As pol&iacute;ticas exclusivas foram aconselhadas em pa&iacute;ses como o Chile, Argentina, Ceil&atilde;o, etc, em lugares onde o exagero que leva ao cansa&ccedil;o, &agrave; fadiga tribut&aacute;ria que destr&oacute;i a classe m&eacute;dia, que aumenta a pobreza, n&atilde;o concentre rea&ccedil;&atilde;o porque os regimes s&atilde;o organizados em termos t&atilde;o autorit&aacute;rios que facilmente dominam essa situa&ccedil;&atilde;o e n&atilde;o podemos consentir nisso. Infelizmente a situa&ccedil;&atilde;o de Portugal neste momento d&aacute; impress&atilde;o que essa pol&iacute;tica est&aacute; ser desenvolvida e tem limites. Eu acho que &eacute; uma ocasi&atilde;o em que a doutrina da Igreja &eacute; fundamental e sobretudo porque come&ccedil;amos a ter manifesta&ccedil;&otilde;es da sociedade civil n&atilde;o enquadradas, nem por partidos nem por sindicatos, espont&acirc;neas. N&atilde;o acredito em ju&iacute;zos de certeza nem de probabilidade, que acho uma aud&aacute;cia, mas este conjunto de manifesta&ccedil;&otilde;es leva-nos a pensar que a alternativa est&aacute; &agrave; espera de uma oportunidade e a sociedade n&atilde;o vai ser a mesma.<\/p>\n<p>N&atilde;o se pode com seguran&ccedil;a e at&eacute; por respeito pelo direitos das pessoas estar a incitar a viol&ecirc;ncia ou a imaginar que se tem um modelo para a sociedade civil que vai aparecer. Agora, n&atilde;o temos d&uacute;vidas que os sinais indicam que alguma coisa vai acontecer. A nossa incapacidade de saber obriga-nos a imaginar que o imprevisto est&aacute; &agrave; espera de uma oportunidade e a esperan&ccedil;a &eacute; que a mobiliza&ccedil;&atilde;o da sociedade civil fa&ccedil;a com que essa oportunidade corresponda a valores. E, ai est&aacute; o problema da interven&ccedil;&atilde;o do Papa. O que aconteceu &eacute; que neste nosso Ocidente apareceu uma esp&eacute;cie de credo do mercado, p&otilde;e os valores absolutamente de lado e esse credo &eacute; apontado como dando superioridade a valores instrumentais, como &agrave; efic&aacute;cia porque Deus recompensar&aacute; os melhores. Uma economia desta mata, como diz o Papa, e por consequ&ecirc;ncia o que ele est&aacute; a pedir &eacute; uma &eacute;tica para a vida econ&oacute;mica, mesmo para o mercado. N&atilde;o &eacute; preciso ser revolucion&aacute;rio ou entender isso num sentido de apelo ou interven&ccedil;&atilde;o revolucion&aacute;ria para compreender que o mercado sem regras faz com o credo do mercado ponha de lado a escala dos valores. Julgo que essa &eacute; uma das debilidades muito grandes do Ocidente, &eacute; certamente uma raz&atilde;o a considerar na diminui&ccedil;&atilde;o da influ&ecirc;ncia da Igreja curiosamente numa &eacute;poca em que as estat&iacute;sticas revelam o apelo crescente &agrave; transcend&ecirc;ncia. A autenticidade &eacute; o rem&eacute;dio e a autenticidade &eacute; o que est&aacute; nas palavras do Papa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; um apelo &agrave; transcend&ecirc;ncia e n&atilde;o &agrave; institui&ccedil;&atilde;o transcendente?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash; <\/em>N&atilde;o tanto &agrave; institui&ccedil;&atilde;o e isso n&atilde;o pode ser ignorado mas h&aacute; uma arma para isso indispens&aacute;vel que &eacute; o poder da palavra e eu acredito que o poder da palavra &eacute; capaz de ganhar &agrave; palavra do poder. Mais de uma vez aconteceu isso na sociedade e as modifica&ccedil;&otilde;es come&ccedil;aram por factos insignificantes quase inesperados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O que &eacute; que se pode esperar do Papa Francisco nessa desej&aacute;vel mudan&ccedil;a?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &#8211;<\/em> Penso que ele vai intransigentemente lutar para que o mercado seja condicionado por uma &eacute;tica. A &eacute;tica da parte da Igreja Cat&oacute;lica n&atilde;o precisa de grandes discuss&otilde;es e explica&ccedil;&otilde;es mas h&aacute; um efeito mesmo na ordem pol&iacute;tica internacional que &eacute; importante. A ordem pol&iacute;tica internacional teve em suspenso com a guerra fria porque vivemos um ordem de pactos militares e isso acabou mas temos ainda a Organiza&ccedil;&atilde;o das Na&ccedil;&otilde;es Unidas e um Conselho Econ&oacute;mico e Social que n&atilde;o foi chamado a avaliar a situa&ccedil;&atilde;o que &eacute; global e devia ser chamado. A pr&oacute;pria Igreja tem uma grande import&acirc;ncia porque &eacute; a primeira vez no mundo, na hist&oacute;ria conhecida, em que todas as &aacute;reas culturais falam livremente e a busca de paradigmas que abranjam essa globalidade &eacute; fundamental.<\/p>\n<p>Penso que a palavra de Francisco faz falta para encontrar esse paradigma global que ainda n&atilde;o encontramos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Do que percebe e interpreta das an&aacute;lises sociais, a palavra do Papa &eacute; global? O seu discurso vindo do fim do mundo atingiu a for&ccedil;a da globalidade?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash; <\/em>Ele ainda tem passos para dar porque neste momento, usando a linguagem dos juristas, recebeu uma heran&ccedil;a e n&atilde;o foi a benef&iacute;cio de invent&aacute;rio e n&atilde;o vem s&oacute; o ativo mas o passivo tamb&eacute;m. Ele est&aacute; a dar grandes exemplos, no sentido de reformar o Vaticano e isso vai levar tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; &Eacute; o desafio maior do pontificado?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash;<\/em> N&atilde;o sei se &eacute; o maior ou n&atilde;o, mas se temos um Papa em&eacute;rito [Bento XVI] que d&aacute; o exemplo de declarar a sua fraqueza, que n&atilde;o &eacute; capaz, que o cargo e o encargo ultrapassam a sua capacidade &eacute; uma grande demonstra&ccedil;&atilde;o de coragem, dedica&ccedil;&atilde;o mas ao mesmo tempo d&aacute;-nos sinal que a heran&ccedil;a &eacute; pesada. N&atilde;o vou sequer tentar determinar ou definir mas basta isto para ter a certeza que ele est&aacute; a enfrentar uma heran&ccedil;a pesad&iacute;ssima dando o exemplo franciscano da simplicidade, da compreens&atilde;o do povo, da pobreza que est&aacute; a envolver tantas regi&otilde;es do mundo e espero que a sua a&ccedil;&atilde;o v&aacute; conseguindo repor uma escala de valores que consiga dominar o credo do mercado que est&aacute; a ser dominante no mundo em que vivemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Diante dessa necessidade de reforma, as palavras do Papa desafiam a uma desinstala&ccedil;&atilde;o, ir &agrave;s periferias. Pod&iacute;amos pensar que se &eacute; para reformar vamos ao centro, ao Vaticano mas as ordens do Papa s&atilde;o outras. Come&ccedil;a por ai, pelas periferias?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash;<\/em> Ele n&atilde;o esquece que a sua palavra &eacute; dirigida ao <em>Logo<\/em>s e que a prega a todas as criaturas. Ele n&atilde;o pode abandonar isso e basta o exemplo do antecessor, a fadiga, para pensar no fardo que ele assumiu e n&atilde;o se pode ter a certeza que a simples interven&ccedil;&atilde;o dele vai ser suficiente para repor os valores como desejaria. Os poucos meses de exerc&iacute;cio fazem crescer a esperan&ccedil;a de que as coisas possam voltar a subordinar-se aos valores, identificar n&atilde;o apenas o Ocidente mas que para al&eacute;m de tudo aquilo que erradamente tamb&eacute;m o Ocidente fez e praticou que possa ter influ&ecirc;ncia. &Eacute; por isso que as reuni&otilde;es entre todas as religi&otilde;es, a procura do paradigma comum &eacute; uma tarefa da maior import&acirc;ncia e que n&atilde;o deve ser abandonada mas apoiada e aceitando a afirma&ccedil;&atilde;o, que se vulgarizou, que se n&atilde;o houver paz entre as religi&otilde;es n&atilde;o haver&aacute; paz no mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Numa metodologia jesu&iacute;tica, e deste Papa Francisco, ser&aacute; que a centralidade de Jesus Cristo, a desinstala&ccedil;&atilde;o, o an&uacute;ncio, o ir &agrave;s periferias e a rejei&ccedil;&atilde;o da economia de exclus&atilde;o ser&atilde;o as tr&ecirc;s ideias chave deste pontificado. Comunga desta opini&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash;<\/em> Acho que sim mas, neste momento para mim, a &uacute;ltima &eacute; a mais importante de todas. N&oacute;s estamos de facto num capitalismo explosivo.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Ser&aacute; tamb&eacute;m a mais importante para o Papa?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash; <\/em>Nas frases dele &eacute; evidente. Sobretudo deve ter peso no esp&iacute;rito dele o ambiente em que nasceu, cresceu e exerceu a sua fun&ccedil;&atilde;o de pastor porque s&atilde;o regi&otilde;es que foram submetidas &agrave; explora&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica onde as pol&iacute;ticas exclusivas foram dominantes. Com regimes pol&iacute;ticos que fazem lembrar as brutalidades da pr&oacute;pria coloniza&ccedil;&atilde;o naquela &eacute;poca e isso n&atilde;o deve levar ningu&eacute;m a surpreender-se que o Papa considere esse ponto fundamental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Essa circunst&acirc;ncia de vir da Am&eacute;rica do Sul, a mensagem do Papa est&aacute; a ser cada vez mais global e est&aacute; a impor-se?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash; <\/em>Penso que sim, pelas not&iacute;cias. Claro que ele n&atilde;o tem exerc&iacute;cio de meses suficiente para que se observe imediatamente resultados embora sendo a interven&ccedil;&atilde;o do Papa um milagre que n&atilde;o seja surpreendente mas para a vida normal n&atilde;o h&aacute; tempo suficiente. Se bem me recordo, o padre Ant&oacute;nio Vieira diz que uma das caracter&iacute;sticas do milagre &eacute; dispensar o tempo que seria necess&aacute;rio. N&atilde;o sei se aqui podemos dispensar o tempo.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &ndash; Como analisa as poss&iacute;veis tens&otilde;es que possam existir entre quem desejaria uma reforma imediata, feita com grandes sinais, com grandes tomadas de posi&ccedil;&atilde;o e essa forma de anunciar e transformar do Papa?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash; <\/em>Aquilo que ele est&aacute; a fazer, acreditando no poder da palavra, &eacute; o m&eacute;todo a seguir porque no fundo &eacute; aplicar o mesmo que se faz com o pecador. Procura-se chamar, que ele readote os seus valores e &eacute; o que o Papa est&aacute; a fazer. N&atilde;o espero que ele fa&ccedil;a coisas revolucion&aacute;rias, incitamentos. Ele vai continuar como S&atilde;o Francisco [de Assis] se for poss&iacute;vel at&eacute; sem palavra, s&oacute; o exemplo j&aacute; serve de prega&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash;A pr&oacute;pria expetativa de revolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o poder&aacute; ser prejudicial ao pontificado do Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash;<\/em> N&oacute;s nunca sabemos porque o processo social &eacute; cada vez mais complexo. Todos falamos em globalismo, porque fica bem para mostrar a nossa cultura, mas conhecer as vari&aacute;veis, as redes, as interdepend&ecirc;ncias e o consequencialismo de tudo isto no globalismo sabemos pouco. Ignoramos muito e fazer progn&oacute;sticos acho uma aud&aacute;cia. Mas n&atilde;o &eacute; uma aud&aacute;cia ver se aquele homem est&aacute; a agir de acordo com os seus valores, a autenticidade, e isso &eacute; o fundamental. E ele est&aacute; a agir com autenticidade porque o comportamento est&aacute; a ser como Francisco.<\/p>\n<p>H&aacute; aqui uma coisa que tamb&eacute;m se aplica aos governos e muitas vezes parece que n&atilde;o gostam que se diga isso ou n&atilde;o entendem que a autenticidade &eacute; a coincid&ecirc;ncia entre o que se anuncia e o que se faz. A falta de coincid&ecirc;ncia d&aacute; origem &agrave; falta de autenticidade e da legitimidade do exerc&iacute;cio. N&atilde;o &eacute; o caso nem o esper&aacute;vel deste Papa. Ele vai dar o exemplo de autenticidade enfrentando todos os riscos e segundo alguns comentaristas anunciam-se riscos grandes para esta autenticidade que o Papa est&aacute; a mostrar. Mas ele n&atilde;o via desviar-se disso. A f&eacute; dele &eacute; suficiente para n&atilde;o se desviar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O livro a &ldquo;Lista de Bergoglio&rdquo;, que referiu, conta epis&oacute;dios que o Papa n&atilde;o temeu colocar a vida em risco na Argentina. Algo semelhante poder&aacute; passar neste pontificado? <\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash; <\/em>Espero que n&atilde;o aconte&ccedil;a como aconteceu com Jo&atilde;o Paulo II que, neste aspeto, n&atilde;o teve a interven&ccedil;&atilde;o que Francisco est&aacute; a ter. O Papa Jo&atilde;o Paulo II correu o risco que correu e n&atilde;o tinha de enfrentar um problema como este momento da reforma da Igreja e da pobreza do mundo de uma economia instalada.<\/p>\n<p>&Eacute; evidente que Francisco respondeu ao chamamento para ser sacerdote, tamb&eacute;m est&aacute; sempre &agrave; espera do chamamento quando tiver de acabar a sua passagem pelo mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; O professor Adriano Moreira est&aacute; a apresentar o novo livro &ldquo;Mem&oacute;rias do outono ocidental. Um s&eacute;culo sem b&uacute;ssola&rdquo;. O Papa Francisco poderia ser ou est&aacute; a ser a b&uacute;ssola que o Ocidente n&atilde;o tinha?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash; <\/em>Ele est&aacute; a procurar que se torne a usar a b&uacute;ssola porque no que respeita &agrave; doutrina propriamente e aos princ&iacute;pios s&atilde;o os mesmos. Ele est&aacute; a combater o abandono dos princ&iacute;pios e isso &eacute; a tarefa dele. Espero qu&ecirc; se consiga inverter esta marcha e se consiga p&ocirc;r o di&aacute;logo no lugar do confronto, o respeito no lugar da toler&acirc;ncia, que &eacute; absolutamente necess&aacute;rio, e a paz no lugar do combate.<\/p>\n<p>Uma das raz&otilde;es que me leva a isto &eacute; o facto de termos feito isso em algumas ocasi&otilde;es, como nas cruzadas e na reconquista, trazer Deus para o campo da batalha. N&atilde;o &eacute; para o campo de batalha que &eacute; preciso chamar pelos valores mas para a paz e penso que interven&ccedil;&atilde;o dele vai ser importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; A exorta&ccedil;&atilde;o apost&oacute;lica &ldquo;Evangelii Gaudium&rdquo; do Papa Francisco: Est&aacute; aqui uma b&uacute;ssola?<\/em><\/p>\n<p><em>AM &ndash;<\/em> Est&aacute;. Eu estou a ler com a maior aten&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o quero desde j&aacute; fazer opini&otilde;es do documento que considero da maior import&acirc;ncia, mas a&iacute; j&aacute; se come&ccedil;a &eacute; a repor a b&uacute;ssola. Eu julgo que &eacute; assim que ele est&aacute; a agir.<\/p>\n<p><em><br \/><\/em><\/p>\n<p><em>(A entrevista vai ser transmitida este domingo, &agrave;s 11h20, no programa &#8217;70&#215;7, da RTP2)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Adriano Moreira comenta primeiros nove meses de pontificado de Francisco<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[120,191,203,274],"class_list":["post-63732","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-bento-xvi","tag-economia","tag-europa","tag-papa-francisco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63732","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63732"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63732\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63732"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63732"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63732"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}