{"id":63631,"date":"2013-12-06T12:53:17","date_gmt":"2013-12-06T12:53:17","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/12\/06\/cinema-o-som-ao-redor\/"},"modified":"2013-12-06T12:53:17","modified_gmt":"2013-12-06T12:53:17","slug":"cinema-o-som-ao-redor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cinema-o-som-ao-redor\/","title":{"rendered":"Cinema: O som ao redor"},"content":{"rendered":"<p>Num bairro da zona do Recife, Brasil, as ruas s&atilde;o dominadas pela fam&iacute;lia de <em>seu <\/em>Francisco que, em estilo mafioso, oferece seguran&ccedil;a e prote&ccedil;&atilde;o &agrave; vizinhan&ccedil;a recebendo em troca toda a liberdade para desenvolver os seus pr&oacute;prios neg&oacute;cios il&iacute;citos. A chegada de uma empresa de seguran&ccedil;a&nbsp; privada ao bairro vem naturalmente amea&ccedil;ar este sistema: enquanto os vizinhos subjugados aderem prontamente aos servi&ccedil;os da empresa oferecidos pelos afoitos vigilantes de servi&ccedil;o, <em>seu<\/em> Francisco prepara cautelosamente a forma de manter dom&iacute;nio sobre o bairro.<\/p>\n<p>Inicia-se assim uma guerra dura, aparentemente silenciosa, entre o direito e a lei do mais forte num bairro de classe m&eacute;dia onde pulsam tens&otilde;es e contrastes. No meio desta guerra, desdobram-se personagens que os vigilantes, divulgando os seus servi&ccedil;os, nos v&atilde;o descobrindo de dentro para fora das casas que visitam.<\/p>\n<p>As primeiras imagens de &lsquo;O Som ao Redor&rsquo;, uma composi&ccedil;&atilde;o a preto e branco evocando tempos de escravatura e senzalas em grandes fazendas, evidenciam a preposi&ccedil;&atilde;o do realizador brasileiro Kleber Mendon&ccedil;a Filho ao estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica entre as express&otilde;es passada e presente de explora&ccedil;&atilde;o humana. Testando, assim, o seu conceito.<\/p>\n<p>Cr&oacute;nica de uma atualidade brasileira denunciando o enorme desequil&iacute;brio social num pa&iacute;s em crescimento econ&oacute;mico, feito de desigualdades e injusti&ccedil;a, habitu&aacute;mo-nos a acompanh&aacute;-la no registo cinematogr&aacute;fico en&eacute;rgico, vibrante e ruidoso de &lsquo;Cidade de Deus&rsquo; (Fernando Meirelles), &lsquo;Cidade dos Homens&rsquo; (Paulo Morelli) ou, mais recentemente, em &lsquo;Tropa de Elite&rsquo; (Jos&eacute; Padilha).<\/p>\n<p>Aqui, no entanto, h&aacute; um ritmo e uma gram&aacute;tica totalmente diferentes, apostados numa inteligente fluidez narrativa que o realizador, constitu&iacute;do como mero mas atento observador, desenrola aos nossos olhos e pensamento. Fluidez narrativa e boa gest&atilde;o de contrastes entre o an&uacute;ncio de uma paz aparente nas ruas e a den&uacute;ncia de tens&otilde;es ocultas crescentes, aos poucos sugeridas. Progressivamente, sob um h&aacute;bil uso do som e do sil&ecirc;ncio, bem como da c&acirc;mara, espa&ccedil;o p&uacute;blico e privado entrar&atilde;o em conflito, um invadindo o outro, e a narrativa adensa-se, gritando, sem qualquer ru&iacute;do, a complexidade das rela&ccedil;&otilde;es, desigualdades sociais, o aprisionamento, a solid&atilde;o e o desejo, para alguns, de os vencer.<\/p>\n<p>&lsquo;O Som ao Redor&rsquo;, que se apresentou pela primeira vez em Portugal na &uacute;ltima edi&ccedil;&atilde;o do Indielisboa e estreia agora no circuito comercial, tem merecido o aplauso da cr&iacute;tica um pouco por todo o mundo, al&eacute;m de in&uacute;meros pr&eacute;mios nos festivais internacionais de cinema por onde tem passado: Gramado, Rio de Janeiro,&nbsp; Roterd&atilde;o e S&atilde;o Paulo.<\/p>\n<p><em>Margarida Ata&iacute;de<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num bairro da zona do Recife, Brasil, as ruas s&atilde;o dominadas pela fam&iacute;lia de seu Francisco que, em estilo mafioso, oferece seguran&ccedil;a e prote&ccedil;&atilde;o &agrave; vizinhan&ccedil;a recebendo em troca toda a liberdade para desenvolver os seus pr&oacute;prios neg&oacute;cios il&iacute;citos. 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