{"id":63628,"date":"2013-12-06T12:23:26","date_gmt":"2013-12-06T12:23:26","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/12\/06\/fragilidade-como-construcao-da-esperanca\/"},"modified":"2013-12-06T12:23:26","modified_gmt":"2013-12-06T12:23:26","slug":"fragilidade-como-construcao-da-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/fragilidade-como-construcao-da-esperanca\/","title":{"rendered":"Fragilidade como constru\u00e7\u00e3o da Esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>A ECCLESIA entra no Hospital de Santa Maria, pela m\u00e3o do sacerdote Ant\u00f3nio Pedro Monteiro, que integra a equipa do Servi\u00e7o de Assist\u00eancia Espiritual e Religiosa do Centro Hospitalar de Lisboa Norte <!--more--> <\/p>\n<p>A Igreja Cat&oacute;lica assinala o tempo de Advento. Este &eacute;, para os crist&atilde;os, um caminho de esperan&ccedil;a porque esperam o nascimento de Jesus. A ECCLESIA entra no Hospital de Santa Maria, pela m&atilde;o do sacerdote Ant&oacute;nio Pedro Monteiro, que integra a equipa do Servi&ccedil;o de Assist&ecirc;ncia Espiritual e Religiosa (SAER) do Centro Hospitalar de Lisboa Norte, que compreende ainda o Hospital Pulido Valente, para encontrar a esperan&ccedil;a. Sacerdote h&aacute; tr&ecirc;s anos, est&aacute; no SAER h&aacute; um ano, a aprender a ser padre, entre as palavras e os sil&ecirc;ncios. De bata branca vestida, guarda os rostos com quem partilhou l&aacute;grimas e sorrisos porque este &eacute; um lugar onde Deus nasce mas tamb&eacute;m onde se vivem inesperadas sextas-feiras santas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &#8211; Humanamente falando, que lugar &eacute; o Hospital de Santa Maria?<\/em><\/p>\n<p><em>Padre Ant&oacute;nio Pedro Monteiro (APM) &#8211;<\/em> Dizer lugar j&aacute; diz muito. Os te&oacute;ricos gostam de distinguir entre &laquo;espa&ccedil;o&raquo; e &laquo;lugar&raquo; na medida em que &laquo;espa&ccedil;o&raquo; &eacute; o que eu tenho de cruzar e &laquo;lugar&raquo; &eacute; onde habito e construo a minha biografia.<\/p>\n<p>&Eacute; bom pensar que o Hospital pode passar de um &laquo;espa&ccedil;o&raquo; a um &laquo;lugar&raquo;. De facto &eacute; um espa&ccedil;o na medida em que eu ali recorro quando tenho um problema e tenho de inevitavelmente passar umas horas ou uns dias. Mas se eu nesse espa&ccedil;o puder repensar a minha vida, aprender com o facto de ser fr&aacute;gil, avaliar o que coloco no centro e mudar as prioridades da vida, esse espa&ccedil;o pode ser um lugar de constru&ccedil;&atilde;o do que sou.<\/p>\n<p>Nesse sentido, o Hospital &eacute; um espa&ccedil;o privilegiado. N&atilde;o preciso necessariamente do espa&ccedil;o hospitalar para construir a minha vida mas, na inevitabilidade de ter de o habitar, podemos aprender muito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Lugar tamb&eacute;m porque habitado por pessoas?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Lugar habitado por pessoas sempre e quanto mais humanizado, mais divino: algumas pessoas porque v&ecirc;m buscar o sustento do dia, outras a sa&uacute;de que falta. Percebemos que h&aacute; in&uacute;meras motiva&ccedil;&otilde;es para habitar este espa&ccedil;o, mas queremo-lo o mais humanizado poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>Essa &eacute; talvez a miss&atilde;o principal de quem est&aacute; na Capelania &ndash; contribuir para que seja um espa&ccedil;o humanizado, agrad&aacute;vel para se viver e n&atilde;o um espa&ccedil;o inevit&aacute;vel de passagem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O &laquo;humano&raquo; &eacute; parte do tratamento? <\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Quem o diz &eacute; a Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial de Sa&uacute;de. Se sa&uacute;de &eacute; esse completo bem-estar f&iacute;sico, social, ps&iacute;quico e n&atilde;o s&oacute; a aus&ecirc;ncia de doen&ccedil;a, tudo o que contribuir para esse bem-estar hol&iacute;stico &eacute; processo terap&ecirc;utico.<\/p>\n<p>Habituamo-nos a que o corpo hospitalar trate apenas do bem-estar f&iacute;sico mas percebemos que quando n&atilde;o h&aacute; possibilidade de uma cura f&iacute;sica, o que verdadeiramente importa &eacute;, pelo menos, a devolu&ccedil;&atilde;o da autonomia, da liberdade, do nome e n&atilde;o ser apenas &laquo;o senhor da cama 38&raquo;. &Eacute; dignamente um que &eacute; semelhante e n&atilde;o &eacute; menos por estar privado de bem-estar. E nesse sentido, o que &eacute; humano &eacute; tratamento de cura.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Quando &eacute; que, na sua vida, percebeu que o Hospital &eacute; esse lugar de possibilidades?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Quando passamos por uma experi&ecirc;ncia de fragilidade onde se sente a limita&ccedil;&atilde;o ou perda do poder de decis&atilde;o, eventualmente, at&eacute; perda do nome, percebemo-nos que uma s&eacute;rie de palavras que dizemos a quem est&aacute; pior deixa de fazer sentido.<\/p>\n<p>Quando, mais novo estive internado, a pessoa, no quarto, ao meu lado acabou por falecer. N&atilde;o se sabe se a pessoa vai ficar melhor, n&atilde;o adianta prometer aquilo que n&atilde;o sabemos; dizer &laquo;as melhoras&raquo; diz pouco; &laquo;est&aacute; quase a sair daqui&raquo;, &eacute; pouco; dizer: &laquo;n&atilde;o digas isso&raquo; ou &laquo;n&atilde;o sintas isso&raquo;, tamb&eacute;m n&atilde;o diz nada.<\/p>\n<p>H&aacute; tantas frases que n&atilde;o t&ecirc;m sentido e que n&atilde;o confortam e n&atilde;o trazem sa&uacute;de.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>[[a,d,4324,Emiss&atilde;o 01-12-2013]]AE &#8211; O que &eacute; que se diz? Se &eacute; que se diz alguma coisa&hellip; <\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Uma das coisas que se aprende e se ensina a quem integra a pastoral da sa&uacute;de &eacute; a calar. Quando algu&eacute;m que diz que est&aacute; revoltado com Deus, que sente o abandono de Deus, n&atilde;o temos palavra para responder perante a verdade que &eacute; sentir isso.<\/p>\n<p>Sabemos, pela vida inteira, que Deus &eacute; um amante ausente e, possivelmente, numa altura de sofrimento experimenta-se isso de sobremaneira. Ele n&atilde;o vem aliviar o sofrimento e &eacute; uma verdade quando se diz que se sente abandonado como tantas vezes se diz neste hospital. Se vamos bater nas costas e dizer &laquo;n&atilde;o digas isso, porque ele ama-te&raquo;, estamos a tapar a boca do doente e ainda acrescentamos um problema porque o paciente sente que n&atilde;o &eacute; compreendido.&nbsp;<\/p>\n<p>Fazemos com que se fale. Se o sil&ecirc;ncio ajudar a que se fale ent&atilde;o eu calo-me. Se tiver de repetir que sente que Deus o abandonou, se isso for bom para que a pessoa continue a falar&hellip; Percebemos que s&oacute; falando &eacute; que se liberta, s&oacute; falando &eacute; que se percebe que pode n&atilde;o ser assim, s&oacute; falando &eacute; que se rev&ecirc; o que se diz, e, muitas vezes, n&atilde;o h&aacute; nada a dizer.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Deus est&aacute; entre a palavra e o sil&ecirc;ncio?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Deus est&aacute; no sil&ecirc;ncio e na palavra e habita a rela&ccedil;&atilde;o. Se a vida &eacute; rela&ccedil;&atilde;o, se o que esperamos na vida inteira, e enquanto crist&atilde;os &eacute; rumar a uma rela&ccedil;&atilde;o plena no encontro com Deus, n&atilde;o se pode pensar em Deus sem rela&ccedil;&atilde;o. Tudo o que acontece neste hospital &eacute; em ordem &agrave; rela&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o pode ser um par&ecirc;ntesis na vida onde a rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; precisa. Quer-se rela&ccedil;&atilde;o, o mais humana poss&iacute;vel, e quanto mais humana para habitada por Deus. &nbsp;<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Quando &eacute; que Deus nasce no hospital?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Ele est&aacute; sempre a nascer e sempre vivo. Mas como um bom presente de Natal tem de ser embrulhado. A alegria do nascimento de Jesus, que celebramos diariamente no hospital, vem embrulhada nesse fator surpresa que tantas vezes &eacute; despoletado por um toque, uma palavra, um processo de descoberta de sentido no meio da doen&ccedil;a ou do trabalho, pensando nos profissionais.<\/p>\n<p>Somos surpreendidos com um pequeno gesto, com proximidade, acolhimento, que revela um Deus que nasce, uma alegria que renasce, porque se v&ecirc; melhor. Se assim for, Deus nasce todos os dias.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; H&aacute; rostos que ajudam a alimentar essa esperan&ccedil;a?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Claro que sim. &Eacute; f&aacute;cil sorrir e pensar que &eacute; uma vit&oacute;ria, n&atilde;o minha mas da pessoa que ao hospital veio encontrar sa&uacute;de e sentido.<\/p>\n<p>Ao fim de meses de internamento sentir que se esteve perto de uma pessoa que trazia um &laquo;Deus domesticado&raquo; mas que em determinada altura tudo se desconstr&oacute;i, a agressividade e a revolta v&ecirc;m &agrave; flor da pele, porque um Deus que se pensava de determina forma se revela de outra&hellip;<\/p>\n<p>&Eacute; gratificante, e para mim muito pedag&oacute;gico, olhar para quem fez um caminho, que entrou com Deus pela m&atilde;o domesticado &agrave; sua maneira, revoltou-se e avaliou, e foi construindo outra imagem de Deus, a seu lado a sofrer consigo.<\/p>\n<p>Casos que acompanhei e que me marcaram muito, alguns onde encontrei a morte reconciliada. &Eacute; complicado ser bem entendido, mas sentir algu&eacute;m a morrer feliz, sentindo que viver vale a pena, s&atilde;o os epis&oacute;dios mais fascinantes e reconfortantes.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Percorrendo os corredores do Hospital de Santa Maria, onde 17 mil pessoas se cruzam diariamente, onde se encontra a esperan&ccedil;a?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> O Hospital &eacute; uma caixa de surpresas. Quando se fala em esperan&ccedil;a e associamos a servi&ccedil;os de pediatria, a crian&ccedil;a &eacute; o prot&oacute;tipo da esperan&ccedil;a da Humanidade e vendo um filho em perigo de vida, questionamos se vale a pena acreditar num Deus que mata gente, que chama a si gente amada.<\/p>\n<p>Nesse sentido o hospital &eacute; uma caixinha de surpresa porque em qualquer servi&ccedil;o e corredor se encontram pessoas a repensar prioridades, a rever a imagem de Deus e do sentido da sua vida.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Que palavra, que sil&ecirc;ncio ou que gesto tem o assistente espiritual quando essa crian&ccedil;a, esperan&ccedil;a da humanidade, se encontra em situa&ccedil;&atilde;o de fragilidade?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Para n&atilde;o dar respostas abstratas relembro o que aconteceu comigo. Dei por mim, h&aacute; dias com um rapaz internado em pediatria, com v&aacute;rias doen&ccedil;as muito graves, revoltado com o Deus que aos maus parece facilitar a vida, e ele, com 18 anos n&atilde;o conhece o que &eacute; ter sa&uacute;de. Eu, calado, m&atilde;o na m&atilde;o, dei por mim a chorar com ele.<\/p>\n<p>N&atilde;o significa que o padre est&aacute; aqui para chorar. Mas catecismos e frases feitas caem por terra quando nos &eacute; tirado o tapete; caem quando &eacute; verdade o que algu&eacute;m sente por Deus n&atilde;o estar.<\/p>\n<p>N&atilde;o vale a pena contra-argumentar, fazer catequese. Nessa altura quando mais humanizarmos mais evangelizamos. Chorar com os que choram tamb&eacute;m &eacute; evang&eacute;lico.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Como &eacute; que o padre cultiva a esperan&ccedil;a para a dar aos outros?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Se isso for entendido como uma arte, &eacute; algo que se aprende fazendo. Um colega quando soube que eu ficaria a trabalhar num Hospital disse-me &laquo;isso deve ser muito duro&raquo; &#8211; como se houvesse vidas moles. &laquo;Isso deve ser preciso rezar muito&raquo;. Se eu acho que o evangelista Mateus (capitulo 24, ndr) tem raz&atilde;o quando nos diz que &laquo;quando estive doente foi a mim que visitaste&raquo;, se eu esque&ccedil;o isso, &eacute; claro que vou precisar de muita ora&ccedil;&atilde;o. Se eu esque&ccedil;o que a ora&ccedil;&atilde;o se d&aacute; no encontro com Deus e, esse encontro se d&aacute; com a pessoa que est&aacute; na horizontal, fragilizada, que quer a minha presen&ccedil;a e n&atilde;o quer que eu diga nada, e se eu n&atilde;o entendo isso como ora&ccedil;&atilde;o e como encontro com Deus, se calhar &ldquo;estou a jogar no campeonato ao lado&rdquo;.<\/p>\n<p>A ora&ccedil;&atilde;o &eacute; fundamental, o tempo pessoal de gest&atilde;o dos sentimentos e hist&oacute;rias, muitas delas duras, acredito que seja importante &ndash; e para mim tem sido &ndash; mas se n&atilde;o nos lembrarmos que vamos visitar Deus e, por isso, se o vamos visitar n&atilde;o precisamos de ter Deus na boca a toda a hora porque n&atilde;o vamos falar de Deus a Deus, mas sim escut&aacute;-lo &#8211; se n&atilde;o me lembrar disto &#8211; perco o que &eacute; o trabalho de uma Capelania, de um padre.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Trata-se de um &laquo;vela comigo&raquo;, &laquo;est&aacute; comigo&raquo;?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> &Eacute; verdade, mais do que &laquo;diz-me coisas&raquo;. &Eacute; o estar, mesmo calado. H&aacute; pacientes que, a pretexto de comungarem, a primeira coisa que pedem &eacute; que a fam&iacute;lia saia e que o padre espere um pouco. Est&atilde;o fartos de ser bombardeados de frases, discursos e ru&iacute;do. E esperamos. Quando a pessoa faz sinal, conversamos e o sacramento acontece.<\/p>\n<p>No Hospital n&atilde;o sei se interessa tanto ser ou n&atilde;o crente, ter a caderneta dos sacramentos e da catequese em dia. Aqui conseguimos experimentar que quanto mais humano, mais divino. Quanto mais humanizarmos, mais a presen&ccedil;a de Deus acontece.<\/p>\n<p>Nesse sentido a linguagem &eacute; comum, h&aacute; poucas fronteiras e descobre-se Deus uns nos outros, na medida em que nos tratamos com a dignidade de sermos o melhor produto da Cria&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Uma das leituras, que marca o Advento, relata a Anuncia&ccedil;&atilde;o, pelo Anjo Gabriel, a que Maria responde &laquo;Fa&ccedil;a-se em mim segundo a tua palavra&raquo;. Isso &eacute; poss&iacute;vel no Hospital?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> J&aacute; vi doentes a morrer, a sorrir e a dizerem isso. H&aacute; processos dolorosos que permitem chegar &agrave; conclus&atilde;o &laquo;aconte&ccedil;a&raquo;, &laquo;eu entrego&raquo;. A verdadeira paz acontece quando, sendo fr&aacute;gil, aposto a minha vida desta forma e sei que vou chegar ao fim, morrendo em paz.<\/p>\n<p>Pode parecer chocante mas n&atilde;o somos educados para pensar assim. Pelo contr&aacute;rio. Aprendemos muita coisa que sem precisamos &ndash; aprendo a cozinhar porque nunca se sabe, a conduzir porque pode dar jeito. Apostamos o conhecimento em eventualidades e n&atilde;o somos educados para a &uacute;nica certeza que temos &ndash; vamos morrer. A morte chega como uma inevitabilidade.<\/p>\n<p>Se eu puder lidar com essa certeza, vivendo at&eacute; ao fim, e sabendo que a vida, tendo um fim tem uma finalidade, a vontade seria viver at&eacute; ao fim, com sentido. Ent&atilde;o, sim, &laquo;fa&ccedil;a-se a tua vontade&raquo;, &laquo;eu ofere&ccedil;o a minha vida, at&eacute; ao fim&raquo;.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; A esperan&ccedil;a est&aacute; nesse aceitar, no &laquo;fa&ccedil;a-se a tua vontade&raquo;?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Julgo que sim. Esperan&ccedil;a &eacute; um conceito complicado de articular a vida inteira e, talvez no Hospital, mais ainda.<\/p>\n<p>Relembro a hist&oacute;ria da Pandora, que tinha a caixa de onde tudo saiu e a ela, &agrave; pressa, fecha o jarro onde guardava o alimento, a bios, e fica a elpis, a esperan&ccedil;a. Por isso dizemos que a &laquo;esperan&ccedil;a &eacute; a &uacute;ltima a morrer&raquo; e &laquo;enquanto houver vida h&aacute; esperan&ccedil;a&raquo;.<\/p>\n<p>O que percebemos &eacute; que a esperan&ccedil;a acaba por ser alimento, alimentamo-nos de esperan&ccedil;a e tamb&eacute;m &eacute; o que resta, o que fica no jarro.<\/p>\n<p>N&oacute;s, crist&atilde;os, n&atilde;o estamos habituados a falar de esperan&ccedil;a e n&atilde;o revemos o conceito. A esperan&ccedil;a pode ser o que eu coloco no centro. O Hospital &eacute; uma boa escola porque, no sofrimento &#8211; que era bom que n&atilde;o existisse mas de onde podemos tirar li&ccedil;&otilde;es &ndash; repensamos o que est&aacute; no centro da minha vida, para onde e para que &eacute; que corro.<\/p>\n<p>A esperan&ccedil;a crist&atilde;, eu n&atilde;o consigo perceber isso nos Evangelhos, n&atilde;o &eacute; um rebu&ccedil;ado dado aos mais bem comportados no final, n&atilde;o &eacute; uma recompensa &ndash; at&eacute; porque parece que Jesus d&aacute; os melhores rebu&ccedil;ados aos piores.<\/p>\n<p>A esperan&ccedil;a crist&atilde; ser&aacute; a antecipa&ccedil;&atilde;o do que eu espero. Se o que eu espero &eacute; o encontro pleno com Deus, a esperan&ccedil;a crist&atilde; vai ser a antecipa&ccedil;&atilde;o desse encontro, nos irm&atilde;os, na rela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Por isso o Hospital &eacute; e ser&aacute; um lugar de esperan&ccedil;a na medida em que eu perceber o que coloco no centro da minha vida.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; O Evangelho do I domingo do Advento, de S&atilde;o Mateus, diz &laquo;Vigiai porque n&atilde;o sabeis em que dia vir&aacute; o Senhor&raquo;. A vinda do Senhor pode ser a vinda de sexta-feira santa, ou de uma P&aacute;scoa. <\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Vigiai porque a vida &eacute; uma surpresa, abri os olhos porque se fechamos os olhos, ou os &oacute;culos est&atilde;o sujos, n&atilde;o percebemos metade da beleza que a vida pode ter.<\/p>\n<p>Sextas-feiras Santas, em percentagem &eacute; o que mais h&aacute;; momento de sofrimento e de morte, o Hospital conhece bem. Mas tamb&eacute;m diria que, apesar das hist&oacute;rias fant&aacute;sticas de diagn&oacute;sticos que afinal mostram estar errados porque afinal h&aacute;, inexplicavelmente, uma cura, mais do que pensar em efeitos especiais ou milagres, o mist&eacute;rio pascal &eacute; um mist&eacute;rio de sentido.<\/p>\n<p>&Eacute; poss&iacute;vel e eu sei, com casos concretos de rostos e nomes, e daqui para a frente sei que vai continuar a ser assim &ndash; esses momentos pascais acabam por ser, em momentos de paix&atilde;o, de dor e de morte, um encontrar de sentido.<\/p>\n<p>Inevitavelmente a fragilidade tem a senten&ccedil;a final. Mas eu n&atilde;o quero entend&ecirc;-la como senten&ccedil;a, antes como sentido at&eacute; ao fim e como busca de sentido.<\/p>\n<p>A surpresa de Deus, a P&aacute;scoa, relaciona-se com encontrar sentido e com o &laquo;valeu a pena viver at&eacute; ao &uacute;ltimo instante&raquo;.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Esse &eacute; o desafio a viver no Advento?<\/em><\/p>\n<p><em>APM &#8211;<\/em> Habituamo-nos a classificar os s&iacute;tios onde Deus tem de estar, domesticamos a sua presen&ccedil;a de na capela, nos sorrisos e nas alegrias. Mas ele aparece em tantos lugares que o vigiai, pr&oacute;prio do tempo do Advento, &eacute; um convite a abrir os olhos para a lucidez, para a surpresa de Deus. Esse &eacute; o &laquo;prato do dia&raquo; no Hospital. Em tempo de Advento faz ainda mais sentido.<\/p>\n<p><em>LS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ECCLESIA entra no Hospital de Santa Maria, pela m\u00e3o do sacerdote Ant\u00f3nio Pedro Monteiro, que integra a equipa do Servi\u00e7o de Assist\u00eancia Espiritual e Religiosa do Centro Hospitalar de Lisboa Norte<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[100,127,168,267,294],"class_list":["post-63628","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-advento","tag-catequese","tag-diocese-da-guarda","tag-natal","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63628","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63628"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63628\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63628"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63628"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63628"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}