{"id":63585,"date":"2013-12-03T15:49:13","date_gmt":"2013-12-03T15:49:13","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/12\/03\/papa-nao-teme-por-em-risco-a-sua-reputacao-e-a-sua-vida\/"},"modified":"2013-12-03T15:49:13","modified_gmt":"2013-12-03T15:49:13","slug":"papa-nao-teme-por-em-risco-a-sua-reputacao-e-a-sua-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/papa-nao-teme-por-em-risco-a-sua-reputacao-e-a-sua-vida\/","title":{"rendered":"Papa n\u00e3o teme p\u00f4r em risco a sua reputa\u00e7\u00e3o e a sua vida"},"content":{"rendered":"<p>Autor do livro &#8220;A Lista de Bergoglio&#8221;, Nello Scavo, analisa o pontificado de Francisco <!--more--> <\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Ag&ecirc;ncia Ecclesia &#8211; Como lhe surgiu a ideia deste livro?<\/span><\/p>\n<p>Nello Scavo &#8211; Logo ap&oacute;s a elei&ccedil;&atilde;o do Papa Bergoglio, surgiram suspeitas e acusa&ccedil;&otilde;es que o envolviam como c&uacute;mplice da ditadura argentina, de 76 a 83. Isto surpreendeu-me! Eu n&atilde;o conhecia muito sobre esta &eacute;poca hist&oacute;rica e comecei a investigar.<\/p>\n<p>Fa&ccedil;o jornalismo na &aacute;rea da investiga&ccedil;&atilde;o criminal e de guerra e, instintivamente comecei a investigar a consist&ecirc;ncia destas acusa&ccedil;&otilde;es que eu considerava muito graves. Entretanto, logo nas primeiras horas ap&oacute;s a elei&ccedil;&atilde;o de Bergoglio, come&ccedil;ava-se a perceber que estas acusa&ccedil;&otilde;es assentavam em testemunhos indiretos, em documentos redigidos pela pol&iacute;cia pol&iacute;tica que n&atilde;o eram cred&iacute;veis, assim como outras refer&ecirc;ncias um pouco estranhas, como uma fotografia que mostrava Bergoglio em 1994 a dar a comunh&atilde;o ao general Videla, onze anos depois da queda da ditadura. Aquela fotografia estava manipulada para que n&atilde;o se percebesse quem era o sacerdote. Eu encontrei o original e percebe-se claramente que n&atilde;o se trata de Bergoglio, mas de um sacerdote argentino de idade muito avan&ccedil;ada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Estava diante de acusa&ccedil;&otilde;es com falta de fundamento?<\/em><\/p>\n<p>NS &#8211; Sim. Percebi que as acusa&ccedil;&otilde;es eram muito estranhas e avancei com esta investiga&ccedil;&atilde;o, que inicialmente publiquei no meu jornal, em It&aacute;lia, &#8220;Avennire&#8221;.<\/p>\n<p>Depois surgiu este livro, porque enquanto recolhia informa&ccedil;&atilde;o, algumas pessoas diziam-me ter sido ajudadas ou protegidas por Bergoglio durante a ditadura. Vozes que inicialmente eram apenas espor&aacute;dicas, mas se multiplicaram.<\/p>\n<p>Eu pude verificar com documentos e testemunhos precisos a veracidade destes factos, chegando &agrave; conclus&atilde;o de que Bergoglio bem como os jesu&iacute;tas argentinos, com a colabora&ccedil;&atilde;o de jesu&iacute;tas brasileiros, desenvolveram toda uma atividade de prote&ccedil;&atilde;o de dissidentes e pessoas perseguidas pela ditadura. Uma atividade extraordin&aacute;ria, correndo riscos muito grandes, mas que permitiu salvar muitas pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; &Eacute; um momento hist&oacute;rico em que, na Argentina, coexiste uma Igreja da coragem e da den&uacute;ncia e outra do conformismo e do sil&ecirc;ncio?<\/em><\/p>\n<p>NS &#8211; Na &eacute;poca da ditadura, a Igreja estava dividida. Uma parte do episcopado era claramente c&uacute;mplice, pensava que a ditadura era a solu&ccedil;&atilde;o para os problemas da Argentina a sair de uma guerra civil, entre movimentos de esquerda e institui&ccedil;&otilde;es mais pr&oacute;ximas da direita pol&iacute;tica. H&aacute; tamb&eacute;m uma parte desta Igreja que emerge, nesta tens&atilde;o, e empenhou-se no salvamento de muitas pessoas que tiveram a coragem de denunciar viola&ccedil;&otilde;es grav&iacute;ssimas dos direitos humanos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Recorda casos concretos?<\/em><\/p>\n<p>NS &#8211; Recordo casos como a Par&oacute;quia de Santa Cruz onde alguns leigos foram mortos devido a um infiltrado dos servi&ccedil;os secretos, penso nos padres Palotinos, no Bispo Angelelli, ou sacerdotes como o padre Maur&iacute;cio Silva. Foram assassinado apenas porque entenderam que desenvolviam uma atividade subversiva.<\/p>\n<p>Na hierarquia a Igreja era amb&iacute;gua. Mas nas bases a Igreja na Argentina desenvolveu, com o tempo, uma consci&ecirc;ncia cr&iacute;tica muito forte. Bergoglio encontrou-se neste contexto hist&oacute;rico e escolheu salvar a vida de algumas pessoas, no sil&ecirc;ncio e no segredo, o que tamb&eacute;m era motivo de acusa&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Hoje temos a certeza que se Bergoglio se tivesse exposto na sua luta pelos direitos humanos, teria entrado no rol de suspeitos da pol&iacute;cia militar dos servi&ccedil;os secretos e n&atilde;o poderia salvar ningu&eacute;m. Ele fez uma escolha muito dif&iacute;cil, muito corajosa, mas que permitiu a estas pessoas estarem hoje vivas e poderem revelar uma parte de Bergoglio que n&atilde;o conhec&iacute;amos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; N&atilde;o ter&aacute; sido f&aacute;cil recolher estes testemunhos, provenientes de uma &eacute;poca de tanto sofrimento&hellip;<\/em><\/p>\n<p>NS &#8211; Foi muito dif&iacute;cil mas tamb&eacute;m apaixonante! Muitas destas testemunhas n&atilde;o queriam falar inicialmente. Queriam respeitar o sil&ecirc;ncio que tinham decidido impor a estes acontecimentos.<\/p>\n<p>O sil&ecirc;ncio surpreendeu-me, no in&iacute;cio. Questionava-me: se Bergoglio &eacute; inocente porque &eacute; que os seus amigos n&atilde;o falam e n&atilde;o o defendem? Ele, pelo contr&aacute;rio, manteve sempre o segredo em torno destas atividades, um pouco tamb&eacute;m como diz o Evangelho, que &ldquo;a tua m&atilde;o direita n&atilde;o saiba o que faz a esquerda&rdquo;.<\/p>\n<p>Foi dif&iacute;cil convencer as pessoas a falar porque sentiam-se a violar um pacto de sil&ecirc;ncio e de amizade para com Bergoglio. Depois, diante de documentos que tinha encontrado, testemunhos pessoais e processos dos tribunais, alguns decidiram contar a verdade para dar a conhecer ao mundo quem &eacute; verdadeiramente Mario Bergoglio e para afirmar que nenhuma suspeita lhe pode ser atribu&iacute;da.<\/p>\n<p>Ainda outro elemento: alguns organismos internacionais, n&atilde;o apenas a justi&ccedil;a argentina mas tamb&eacute;m a Amnistia Internacional, que n&atilde;o &eacute; uma organiza&ccedil;&atilde;o cat&oacute;lica, tinham elaborado um documento interno, que se publica neste livro, e na qual explicam as raz&otilde;es pelas quais Jorge Mario Bergoglio n&atilde;o pode ser acusado. N&atilde;o existe nada contra ele.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Assim que foi anunciado, o nome de Mario Bergoglio deixou muitos surpreendidos, que n&atilde;o esconderam o seu desconhecimento em rela&ccedil;&atilde;o ao homem escolhido para suceder a Bento XVI. No seu caso, e depois desta investiga&ccedil;&atilde;o, ficou com uma outra ideia do Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>NS &#8211; Eu conhecia muito pouco de Jorge Mario Bergoglio e devo dizer que muitos jornalistas, mesmo vaticanistas, conheciam pouco deste homem. Outros j&aacute; o seguiam h&aacute; algum tempo e imaginavam que um dia pudesse chegar a Papa.<\/p>\n<p>A reconstru&ccedil;&atilde;o do livro, a forma com estas pessoas me contaram como era Bergoglio naquela &eacute;poca e a amizade que continuaram a cultivar com ele at&eacute; agora, porque Bergoglio n&atilde;o as perdeu de vista, possibilitou-me o conhecimento de um outro Jorge Mario Bergoglio. Ele n&atilde;o &eacute; apenas o arcebispo, o homem institucional. &Eacute; verdadeiramente um pastor da Igreja que n&atilde;o teme p&ocirc;r em risco a sua reputa&ccedil;&atilde;o, a sua vida, para que possa salvar, nem que seja apenas uma das suas ovelhas do seu rebanho. &Eacute; isto que podemos verificar na coragem que ele est&aacute; a demonstrar no seu pontificado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Entende que a coragem que demonstrou diante da ditadura militar lhe far&aacute; falta neste momento em que trabalha na renova&ccedil;&atilde;o da C&uacute;ria e quer mais transpar&ecirc;ncia no sistema financeiro do Vaticano?<\/em><\/p>\n<p>NS &#8211; Muitos pessoas perguntam-me se Bergoglio est&aacute; em perigo. Eu n&atilde;o creio! Penso que ele n&atilde;o se preocupa minimamente com isso. No entanto, o Papa est&aacute; a criar muitos inimigos porque tem a coragem, por exemplo, de denunciar a alta finan&ccedil;a, os grandes bancos, o poder pol&iacute;tico que n&atilde;o se ocupa dos pobres nem dos &uacute;ltimos. Pede a todos para que se ocupem destas pessoas. Estou a pensar nessa viagem prof&eacute;tica a Lambedusa, o lugar onde desembarca quem quer emigrar para a Europa e o lugar onde a Europa se deve responsabilizar por tantas vidas que se perdem. Porque &eacute; que os pa&iacute;ses de onde prov&ecirc;m estas pessoas s&atilde;o ainda hoje, em 2013, atingidos por pobreza, por guerras?<\/p>\n<p>O Papa est&aacute; a mudar a forma de viver, at&eacute; dentro da pr&oacute;pria Igreja. O Papa est&aacute; a mudar muito a forma como de fora se encara a Igreja. Por isso este &eacute; um Papa muito forte, que conquistou o carinho e a amizade de tanta gente, crentes e n&atilde;o crentes. A sua for&ccedil;a, alimentada pela sua profunda espiritualidade, lev&aacute;-lo-&aacute; muito longe!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E o que pensa o Papa deste livro?<\/em><\/p>\n<p>NS &#8211; N&atilde;o fa&ccedil;o ideia! Este trabalho n&atilde;o o envolveu. Sei que recebeu uma c&oacute;pia do livro e que estava ao corrente. No entanto, ele nunca quis falar destes acontecimentos e, a menos que um dia os queira comentar, vai manter-se em sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>At&eacute; eu, com o tempo, mudei de opini&atilde;o: quando inicialmente achava que ele se devia defender, hoje penso que fez bem em ter-se reservado ao sil&ecirc;ncio&hellip;<\/p>\n<p><em>HM\/PR<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Autor do livro &#8220;A Lista de Bergoglio&#8221;, Nello Scavo, analisa o pontificado de Francisco<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[105,120,122,189,199,203,274],"class_list":["post-63585","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-amnistia-internacional","tag-bento-xvi","tag-brasil","tag-direitos-humanos","tag-espiritualidade","tag-europa","tag-papa-francisco"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63585","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=63585"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/63585\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=63585"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=63585"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=63585"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}