{"id":6355,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/uma-oportunidade-para-reflectirmos-sobre-as-nossas-comunidades\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"uma-oportunidade-para-reflectirmos-sobre-as-nossas-comunidades","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/uma-oportunidade-para-reflectirmos-sobre-as-nossas-comunidades\/","title":{"rendered":"\u00abUma oportunidade para reflectirmos sobre as nossas comunidades\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia do bispo do Porto na Solenidade do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo <!--more--> Igreja da Trindade &#8211; 10 de Junho de 2004 Celebramos a Solenidade do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo, que na nossa tradi\u00e7\u00e3o secular e na hist\u00f3ria da piedade crist\u00e3 continuamos a designar por festa do Corpo de Deus ou \u201cCorpus Christi\u201d. Esta solenidade \u00e9 motivo para a contempla\u00e7\u00e3o do Amor de Deus e exalta\u00e7\u00e3o do modo como a Eucaristia manifesta e exprime este Amor. Mas \u00e9 tamb\u00e9m um desafio de interpreta\u00e7\u00e3o do que significa o mist\u00e9rio eucar\u00edstico no ambiente e contexto das Festas Pascais, do Pentecostes, da Sant\u00edssima Trindade e do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus. Dir\u00edamos que o processo de calendariza\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, de forma l\u00f3gica e sistem\u00e1tica, faz convergir celebra\u00e7\u00e3o e f\u00e9, devo\u00e7\u00e3o e piedade, para a viv\u00eancia crist\u00e3 mais \u00edntima e para as express\u00f5es p\u00fablicas de exalta\u00e7\u00e3o e testemunho. A condi\u00e7\u00e3o e atitudes do crente partem da dimens\u00e3o pessoal e individual para as dimens\u00f5es social e p\u00fablica, enquanto modos de afirmar que a Igreja que Cristo institu\u00edu e estruturou \u00e9 para ser enviada, tem uma estrutura de comunh\u00e3o \u00edntima que a faz  viver e crescer visivelmente no mundo ao qual foi enviada.   Na Palavra (da Escritura) que precede e prepara a liturgia do Sacramento, evocamos uma figura, interpretamos uma mensagem e fixamos uma tradi\u00e7\u00e3o.  1 \u2013 Uma figura Melquisedec, que oferece p\u00e3o e vinho a Abra\u00e3o, cansado e faminto, \u00e9 figura antecipada de Cristo e dos sacerdotes da Nova Alian\u00e7a. Melquisedec \u00e9 rei e sacerdote, como ser\u00e1 Cristo numa perspectiva de sucess\u00e3o e de diferen\u00e7a. O p\u00e3o e o vinho que Melquisedec oferece a Abra\u00e3o e ao seu povo juntou \u00e0 mesma mesa a ra\u00e7a de Abra\u00e3o e os s\u00fabditos do rei Melquisedec: O mesmo alimento junta em unidade povos diferentes. O mundo em que vivemos \u00e9 um mundo em evolu\u00e7\u00e3o no sentido do progresso, mas a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 necessariamente um progresso vis\u00edvel e \u00f3bvio. Por causa dos avan\u00e7os e retrocessos. Assim, falamos na figura  de Melquisedec e na oferta de p\u00e3o e vinho a um povo que vai para a mesa porque tem fome e n\u00e3o experimenta preconceitos; consideramos, em consenso de tradi\u00e7\u00e3o, que Melquisedec \u00e9 uma figura do futuro Sacerdote e Rei que \u00e9 Jesus Cristo, o qual, \u00e0 mesa da \u00faltima Ceia, transformou o p\u00e3o no Seu Corpo e o vinho no seu Sangue, para se dar aos disc\u00edpulos: \u201cTomai e comei, isto \u00e9 o meu corpo\u201d; e \u201cTomais e bebei, este \u00e9 o C\u00e1lice do meu sangue\u201d. N\u00e3o podemos por isso deixar de denunciar algum esc\u00e2ndalo e at\u00e9 sentir uma certa nostalgia. Est\u00e3o em causa s\u00edmbolos, sinais, figuras que comp\u00f5em o fundo e o fundamento da nossa f\u00e9. Est\u00e3o em causa povos diferentes mas famintos de paz e de amor, que n\u00e3o se sentam \u00e0 mesa do mesmo p\u00e3o e que em vez dos gestos de amizade e de amor se multiplicam em express\u00f5es de \u00f3dio, de viol\u00eancia, de vingan\u00e7a m\u00fatua, de retalia\u00e7\u00e3o. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que d\u00e3o testemunho da pr\u00f3pria f\u00e9, adoram o Senhor presente na Eucaristia, contemplam com sinceridade e afirmam em atitudes de verdade a f\u00e9 na \u201cpresen\u00e7a real\u201d de Cristo na Eucaristia, na fidelidade \u00e0 doutrina e \u00e0 disciplina constante da Igreja e \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o multissecular, mas n\u00e3o sentem fome deste p\u00e3o ou n\u00e3o est\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de saciar-se deste alimento eucar\u00edstico. O mist\u00e9rio que celebramos \u00e9 tamb\u00e9m motivo de reflex\u00e3o no interior da Igreja.  2 \u2013 Mensagem A Mensagem que o Evangelista S. Lucas nos entrega n\u00e3o \u00e9 de facto uma cr\u00f3nica de um epis\u00f3dio ou acontecimento. \u00c9 a mensagem que ele retira da celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia na comunidade crist\u00e3 em que participava. Recorda-nos a multid\u00e3o que acorria e ouvia o Mestre falar do Reino de Deus, e evoca a fome das multid\u00f5es e a solicitude do Mestre para lhes dar de comer. Reconhece a incapacidade dos homens e exige-lhes disponibilidade e colabora\u00e7\u00e3o mediante o que lhes \u00e9 poss\u00edvel: \u201cDai-lhes v\u00f3s mesmos de comer\u201d (Lc. 9, &#8230;). A Eucaristia, que os p\u00e3es e peixes simbolizam n\u00e3o se destina a privilegiados isolados, mas \u00e0 comunidade em esp\u00edrito de partilha. N\u00e3o serve para alimentar ego\u00edsmos e exclus\u00f5es, mas para fazer unidade e cimentar comunh\u00e3o. Simbolicamente, esta comunidade celebrante e inspiradora do Evangelista \u00e9 a multid\u00e3o que vem do ex\u00edlio e se re\u00fane em assembleia de povo de Deus: Abandonou no ex\u00edlio, deixou para tr\u00e1s eventualmente casa e projectos, amigos e pecados, escravid\u00e3o a v\u00edcios que pesavam na consci\u00eancia e comprometiam na sociedade, deixou ideias e preconceitos, respeitos humanos e falsos pudores, sonhos f\u00e1tuos e ideologias ut\u00f3picas, deixou para tr\u00e1s a idade e o tempo cuja mem\u00f3ria for\u00e7a e apressa decis\u00f5es, e abre caminho \u00e0 convers\u00e3o. Vinda do ex\u00edlio, esta multid\u00e3o entrou no deserto da liberta\u00e7\u00e3o e da liberdade, est\u00e1 em busca da novidade prometida e da paz no caminho que d\u00e1 felicidade e reencontra o sentido da vida. O Evangelho diz que das sobras dos p\u00e3es e dos peixes foram recolhidos doze cestos. N\u00e3o est\u00e1 em causa a quantidade como tal nem uma irrealista totalidade. A Eucaristia simbolizada no milagre \u00e9 um dom de Deus que nunca se esgota perante a multid\u00e3o que tem f\u00e9 e quer alimentar-se. O Evangelista fala-nos, nesta Mensagem, da Eucaristia celebrada, partilhada e distribu\u00edda numa comunidade crist\u00e3 genu\u00edna, aut\u00eantica, simb\u00f3lica e normativa. Como sacramento ou sinal, a Eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m hoje mem\u00f3ria e apelo: \u201cFazei isto em mem\u00f3ria de mim\u201d; \u201cComei e bebei\u201d. Mem\u00f3ria de Cristo como apelo \u00e0 comunh\u00e3o universal, este dom de Deus \u00e9 sempre maior e mais vasto que a fome dos homens. Por isso, situa-nos espiritualmente no dom\u00ednio da utopia, que \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o da vida neste mundo, em tens\u00e3o escatol\u00f3gica entre a realidade que nos envolve e o ideal do banquete definitivo, na mesa do Pai comum. Mas esta utopia de vida em tens\u00e3o escatol\u00f3gica \u00e9 condi\u00e7\u00e3o da Esperan\u00e7a que nos anima, que deve animar a Igreja e todos os crist\u00e3os.  3 &#8211; Tradi\u00e7\u00e3o e Doutrina A partir da mensagem do Evangelho, o Ap\u00f3stolo S. Paulo ensina a orientar a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia a partir da vida e das realidades concretas, ou, por outras palavras, aponta a celebra\u00e7\u00e3o da Eucaristia como exig\u00eancia para a vida.  A comunidade crist\u00e3 de Corinto estava dividida pela oposi\u00e7\u00e3o m\u00fatua de classes sociais, que no entanto celebravam a Eucaristia. Constituindo teoricamente um s\u00f3 Corpo e comungando o mesmo p\u00e3o eucar\u00edstico, na realidade esta comunidade n\u00e3o vivia em paz, pelo que o sacramento da unidade e da comunh\u00e3o convivia com o esc\u00e2ndalo da divis\u00e3o, a falsidade e a mentira. O Ap\u00f3stolo, que se sentia respons\u00e1vel por essa comunidade que evangelizara e organizara, transmite-lhe, lembra-lhe, o que sabiam ele e os fi\u00e9is. Cristo ficou, estava com eles, como alimento a receber, repartido e partilhado. Sendo sacramento de Cristo, era sacramento da unidade necess\u00e1ria e sacramento que, supondo a unidade, \u00e9 factor de unidade e comunh\u00e3o.  Conclus\u00e3o Esta solenidade do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo \u00e9 sempre uma oportunidade para reflectirmos sobre as nossas comunidades, tantas vezes divididas apesar da Eucaristia que celebram, e apesar de comerem o mesmo p\u00e3o da unidade. E num tempo em que somos testemunhas de tantas guerras, viol\u00eancias, \u00f3dios, oposi\u00e7\u00f5es e divis\u00f5es que perturbam a paz, roubam a felicidade e lan\u00e7am sombras, medos e nuvens no horizonte de todos, vamos perdendo a autoridade e porventura a coragem para apontar a Eucaristia como sinal, sacramento e instrumento de unidade, de fraternidade e de felicidade entre os homens. Mas a Eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m express\u00e3o do Amor misericordioso de Deus. N\u00e3o \u00e9 um pr\u00e9mio para  distinguir quem quer que seja ou para fomentar presun\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um dom oferecido aos pecadores que somos, n\u00e3o para permanecermos no pecado ou na indiferen\u00e7a, mas para nos libertarmos, para sermos verdadeiramente livres. \u201cTodas as vezes que comerdes deste p\u00e3o e beberdes deste c\u00e1lice, anunciareis a morte do Senhor at\u00e9 que Ele venha\u201d (I Cor. 11, 26). Sacramento da unidade e da vontade de Deus em Cristo, sinal da unidade que desejamos e, sinal da unidade de que tanto precisamos, a Eucaristia \u00e9 tamb\u00e9m estimulo para a vida, express\u00e3o l\u00eddima da f\u00e9 crist\u00e3, fonte de devo\u00e7\u00e3o e piedade que alimenta, anima e orienta no sentido e vontade de sermos, de virmos a ser, o que ainda n\u00e3o somos mas desejamos ser. Que assim seja!  Porto, Igreja da Trindade, 10 de Junho de 2004 D. Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia do bispo do Porto na Solenidade do Sant\u00edssimo Corpo e Sangue de Cristo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[160,187,246],"class_list":["post-6355","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-d-armindo-lopes-coelho","tag-diocese-do-porto","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6355","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6355"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6355\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6355"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6355"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6355"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}