{"id":6322,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/do-latim-a-temas-de-fronteira\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"do-latim-a-temas-de-fronteira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-latim-a-temas-de-fronteira\/","title":{"rendered":"Do latim a temas de fronteira"},"content":{"rendered":"<p>Nasceu no Porto. Foi Bispo Auxiliar em Braga, Lisboa e Leiria-F\u00e1tima. Desde 1993 preside \u00e0 Diocese que tem um Santu\u00e1rio mundial. Uma honra, que d\u00e1 trabalho e n\u00e3o faz esquecer a restante diocese. <!--more--> Ag\u00eancia Ecclesia &#8211; Com que determina\u00e7\u00e3o assumiu a miss\u00e3o episcopal, h\u00e1 25 anos? D. Serafim Ferreira e Silva &#8211; Eu nunca pensei ser Bispo. Fui mandado para Braga, em 79. Estive l\u00e1 at\u00e9 81. Depois fui para Lisboa, onde fui Bispo auxiliar na zona do Oeste, e fui secret\u00e1rio na Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa. Em 87 fui nomeado coadjutor de Leira-F\u00e1tima e, em 93, sucedi ao Sr. D. Alberto Cosme do Amaral, e aqui estou! As tr\u00eas dioceses s\u00e3o muito diferentes. Apesar de haver uma unidade cultural b\u00e1sica, h\u00e1 diferen\u00e7as t\u00edpicas, desde Braga a Lisboa, ao Porto e a F\u00e1tima?  AE \u2013 O perfil do Bispo acompanhou essas diferen\u00e7as? SFS \u2013 O perfil do Bispo, desde o c\u00f3digo gen\u00e9tico, tem elementos identi-ficantes. O Bispo que fala tem bastante poder de adapta\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que fa\u00e7a o ensaio da lucidez, mas procura ser l\u00facido, contextualizando-se de acordo com as pessoas e o ambiente. Reconhe\u00e7o que ser Bispo da Igreja universal \u00e9 uma coisa. Depois, incarnando, tem de se adaptar. Braga, Porto, Lisboa, Leiria, F\u00e1tima s\u00e3o por\u00e7\u00f5es ou parcelas da mesma Igreja, mas tem caracter\u00edsticas muito t\u00edpicas: quer clero, quer no laicado; quer no viver o presente, quer na sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria.  AE \u2013 A Diocese onde agora \u00e9 Bispo vive voltada para F\u00e1tima e esquecida de outras estruturas e projectos? SFS \u2013 A Diocese chamava-se Leiria desde 1545. Desde 1984 passou a designar-se de Leiria-F\u00e1tima. No estrangeiro, mesmo no Vaticano, \u00e9 mais f\u00e1cil dizer F\u00e1tima (\u00e9 uma palavra mais sonora, tem fasc\u00ednio e tem sobretudo a fama de uma mensagem). O Bispo local, tem de ser o ordin\u00e1rio do lugar, tem de fazer equipa com o clero e o laicado. N\u00e3o pode esquecer o semin\u00e1rio, n\u00e3o pode esquecer os movimentos organizados, n\u00e3o pode esquecer as unidades pastorais chamadas vigararias, n\u00e3o pode esquecer as unidades de base chamadas par\u00f3quias&#8230; Mas tamb\u00e9m n\u00e3o pode esquecer F\u00e1tima. F\u00e1tima n\u00e3o \u00e9 propriedade administrativa nacional ou supra-nacional. O santu\u00e1rio de F\u00e1tima est\u00e1 integrado na Diocese que tem o seu nome. Ent\u00e3o o Bispo tem que fazer equipa com o Santu\u00e1rio de F\u00e1tima e tem de fazer equipa com o Conselho Pres-biteral Diocesano, como Conselho Pastoral, sem esquecer os semin\u00e1rios, a pastoral das voca\u00e7\u00f5es, etc.  AE \u2013 O dinamismo da Diocese de Leiria-F\u00e1tima vive \u00e0 sombra do Santu\u00e1rio? SFS \u2013 Talvez n\u00e3o. F\u00e1tima \u00e9 um encargo que dignifica toda a diocese. D\u00e1 trabalho, mas tamb\u00e9m d\u00e1 honra. O Bispo local tem que de ter tempo para a actividade diocesana, sem esquecer a actividade do Santu\u00e1rio.  AE \u2013 A realiza\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo Dioce-sano baliza o seu trabalho episcopal? SFS \u2013 O esp\u00edrito sinodal mant\u00e9m-se. Realiz\u00e1mos um s\u00ednodo que, nalgumas etapas, teve 7 anos de percurso. Mas n\u00e3o chegou  \u00e0 meta final. Continua numa mesma caminhada sinodal, de corresponsa-bilidade, de renova\u00e7\u00e3o permanente, de crescimento na f\u00e9 e sobretudo de di\u00e1logo com as mudan\u00e7as e as pessoas que podem ter culturas ou sensibilidades diferentes. Esta \u201csinodalidade\u201d \u00e9 t\u00edpica de uma Igreja particular, que caminha, se renova, dialoga, que procura responder \u00e0s interroga\u00e7\u00f5es de adolescentes e jovens, dos que t\u00eam mais tend\u00eancia conservadora ou fundamentalista&#8230;  AE \u2013 Tem \u201crepresentantes\u201d de todas essas categorias e sente necessidade de dialogar com elas? SFS \u2013 A Dicoese de Leiria-F\u00e1tima  tem cerca de 300 mil habitantes, na maioria de express\u00e3o cat\u00f3lica.  AE \u2013 Tem fundamentalistas? SFS \u2013 \u00c9 prov\u00e1vel que haja um ou outro resqu\u00edcio de tend\u00eancia mais radicalista, n\u00e3o queria dizer fundamentalista. O que \u00e9 importante \u00e9 respeitar a liberdade e ajudar numa caminhada dialogal, l\u00facida, para que o bom senso, a harmonia, a igualdade b\u00e1sica e  diferen\u00e7a ocasional ou circunstancial, mas numa converg\u00eancia para a verdade e a unidade.  AE \u2013 S\u00e3o exemplos desse radicalismo os que se manifestaram contra projectos ecum\u00e9nicos para o Santu\u00e1rio de F\u00e1tima? SFS \u2013 Isso n\u00e3o aconteceu a n\u00edvel da Diocese. S\u00e3o vozes estranhas e estrangeiras.   AE \u2013 \u00c9 um dossier que est\u00e1 esclarecido? SFS \u2013 Potencialmente sim, mas ainda hoje recebi 7 mensagens falando do assunto, em diferentes l\u00ednguas. Tudo isso obriga que o Bispo da terra v\u00e1 tomando p\u00edlulas de paci\u00eancia, de sensatez, de lucidez para n\u00e3o excomungar ningu\u00e9m, mas atender essas pessoas e, tanto quanto poss\u00edvel, dialogar (embora se chegue a um ponto que j\u00e1 n\u00e3o vale a pena prolongar o di\u00e1logo).  AE \u2013 No seu trabalho episcopal, surge com inova\u00e7\u00f5es, com pronunciamentos originais (foi o caso do desporto, acidentes nas estradas, inc\u00eandios). Isso corres-ponde a uma forma espec\u00edfica de olhar a Igreja e o mundo por parte do Bispo de Leiria-F\u00e1tima? SFS \u2013 O Bispo actual de Leiria-F\u00e1tima \u00e9 um homem normal. Mas esse homem, antes de ser crist\u00e3o, dias antes, j\u00e1 era cidad\u00e3o. O cidad\u00e3o tem problemas que n\u00e3o ficam no adro da Igreja: os do trabalho, da estrada, do futebol&#8230; O Bispo actual procura estar incarnado, com os p\u00e9s na terra e cabe\u00e7a levantada mais para cima, atendendo ao est\u00f4mago vazio, ao inc\u00eandio porventura criminoso, ao desastre por falta de sinaliza\u00e7\u00e3o&#8230; \u00c9 nesse jeito de ser que um homem normal procura fazer comunh\u00e3o, no sentido de corresponsabilidade, procurando prevenir, acautelar para que o rem\u00e9dio n\u00e3o venha atrasado.  AE \u2013 Essa aten\u00e7\u00e3o fez com que criasse, por exemplo, um pr\u00e9mio para os desportistas SFS \u2013 \u00c9 verdade!  AE \u2013 Porque lan\u00e7ou essa iniciativa? SFS \u2013 Porque um jogador n\u00e3o o \u00e9 s\u00f3 com os p\u00e9s, \u00e9 tamb\u00e9m com a cabe\u00e7a, o cora\u00e7\u00e3o; \u00e9 no balne\u00e1rio, \u00e9 em casa, \u00e9 com a fam\u00edlia, \u00e9 na rua.  Um atleta n\u00e3o \u00e9 atleta s\u00f3 no campo. O mesmo atleta tem muitos outros mundos onde vai circulando. Um atleta n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para dar espect\u00e1culo. Tem um relacionamento na linha \u00e9tica. O atleta tem o direito de ser feliz, n\u00e3o pode ser instrumen-talizado. Pode, muitas vezes, ser v\u00edtima de uma m\u00e1quina que diria quase enferrujada ou lucrativa. Essa escravid\u00e3o foi, felizmente, ultrapassada, mas pode haver em sectores desportivos ou art\u00edsticos, resqu\u00edcios de uma certa escravatura. Eu creio e quero que haja uma liberta\u00e7\u00e3o total, que haja um esp\u00edrito aberto e que haja um relacionamento de outras pessoas de amizade e de verdade.  AE \u2013 \u00c9 o que espera para a realiza\u00e7\u00e3o do Euro? SFS \u2013 Publiquei uma pequena nota de boas vindas e para que o Euro 2004 nos dignifique. Andamos \u00e0 procura de auto-estima, mas os pequenos sinais \u00e9 que nos fazem ser um Portugal positivo e de inspira\u00e7\u00e3o relacional e crist\u00e3. Eu acredito que o Euro 2004, qualquer que seja o resultado da nossa equipa nacional, vai ser um investimento, para al\u00e9m dos est\u00e1dios. Mesmo que lhe chamem catedral, um est\u00e1dio \u00e9, sem um carrefour, um lugar de encontro de pessoas de muitas diferen\u00e7as, culturais, partid\u00e1rias, pol\u00edticas ou club\u00edsticas. Mas, na pluralidade, deve haver festa. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio haver respeito, uns pelos outros.  AE \u2013 Ser jornalista, \u00e9 uma paix\u00e3o antiga, do Bispo Serafim Ferreira e Silva? SFS \u2013 \u00c9 verdade. O saber escrever \u00e9 uma arte, \u00e9 um desafio, \u00e9 uma exig\u00eancia: o ter algo para comunicar e saber comunicar. Considero que \u00e9 uma arte. N\u00e3o quer dizer que eu tenha esses talentos, mas procuro, na comunica\u00e7\u00e3o, fazer entender o que est\u00e1 no meu pensamento, com toda a rectid\u00e3o e toda a sinceridade. Porque o grande poema de qualquer ser humano, \u00e9 a sinceridade: a busca do mais al\u00e9m nas coordenadas da verdade e n\u00e3o do fingimento.  AE \u2013 Essa arte deveria ser aplicada a todos os projectos de comunica\u00e7\u00e3o? SFS \u2013 H\u00e1 regras b\u00e1sicas imperec\u00edveis, que n\u00e3o mudam. H\u00e1 outras que s\u00e3o circunstanciais que t\u00eam um \u00edndice de toler\u00e2ncia. As regras b\u00e1sicas \u00e9 que haja um sentido \u00e9tico e um sentido est\u00e9tico: que haja seriedade no que se diz e beleza ou boa forma na maneira como se diz.  AE \u2013 Porque gosta sempre de comunicar em Latim? SFS &#8211; A l\u00edngua que melhor falo, depois do portugu\u00eas \u00e9 o latim&#8230; Uma vez ou outra recordo-me de express\u00f5es quase intraduz\u00edveis, por isso corro o risco de dizer qualquer \u201cpalavrita\u201d em latim&#8230;  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nasceu no Porto. Foi Bispo Auxiliar em Braga, Lisboa e Leiria-F\u00e1tima. 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