{"id":63032,"date":"2013-10-25T11:14:38","date_gmt":"2013-10-25T11:14:38","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/10\/25\/braganca-miranda-uma-diocese-em-revolucao-silenciosa\/"},"modified":"2013-10-25T11:14:38","modified_gmt":"2013-10-25T11:14:38","slug":"braganca-miranda-uma-diocese-em-revolucao-silenciosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/braganca-miranda-uma-diocese-em-revolucao-silenciosa\/","title":{"rendered":"Bragan\u00e7a-Miranda: Uma diocese em \u00abrevolu\u00e7\u00e3o silenciosa\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>D. Jos\u00e9 Cordeiro <!--more--> <\/p>\n<p><strong>Diocese Bragan&ccedil;a-Miranda: Uma &laquo;revolu&ccedil;&atilde;o silenciosa&raquo;<\/strong><\/p>\n<p>De tenra idade ou &laquo;bispo beb&eacute;&raquo;, como lhe chamou uma crian&ccedil;a, D. Jos&eacute; Cordeiro est&aacute; a fazer uma &laquo;revolu&ccedil;&atilde;o silenciosa&raquo; na diocese de Bragan&ccedil;a-Miranda. Com olhar vivo e pr&oacute;ximo dos seus, o prelado revisitou ideias antigas, deu-lhes um toque pessoal e est&aacute; a reorganizar a diocese do nordeste transmontano.&nbsp;<\/p>\n<p>Este &laquo;gigante adormecido&raquo; acorda lentamente e caminha com o pastor porque &ldquo;a grande mudan&ccedil;a na concretiza&ccedil;&atilde;o das unidades pastorais &eacute; o paradigma pastoral que n&atilde;o &eacute; assente, &uacute;nica e exclusivamente, no clero, mas em todos os baptizados&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE)<\/strong> &ndash; &Eacute; natural de Bragan&ccedil;a e agora &eacute; bispo desta diocese. Recentemente, afirmou que esta diocese era um gigante adormecido, mas que vai acordando lentamente. J&aacute; acordou na totalidade?<\/p>\n<p><strong>D. Jos&eacute; Cordeiro (JC)<\/strong> &ndash; Ela est&aacute; a acordar e eu estou a crescer. H&aacute; dois anos que estou no exerc&iacute;cio do minist&eacute;rio episcopal e quando celebrei o segundo anivers&aacute;rio (02 de outubro de 2013), uma crian&ccedil;a de cinco anos disse que eu era um bispo beb&eacute;. Sinto-me ainda nessa condi&ccedil;&atilde;o e este territ&oacute;rio est&aacute; a acordar e a crescer. Nestes dois anos, d&aacute; para confirmar isso mesmo. J&aacute; s&atilde;o alguns os frutos que podemos colher das tr&ecirc;s prioridades que lan&ccedil;&aacute;mos, no in&iacute;cio, a partir de uma assembleia do clero: reorganiza&ccedil;&atilde;o da diocese, forma&ccedil;&atilde;o permanente do clero e a forma&ccedil;&atilde;o permanente dos leigos.<\/p>\n<p>Quando um gigante adormecido acorda, provoca alguns estragos. Primeiro que se adapte &agrave; luz, &agrave;s novas realidades e &agrave;s mudan&ccedil;as&hellip; &Eacute; este processo lento, determinado e, ao mesmo tempo, humilde. &Eacute; &agrave; luz das orienta&ccedil;&otilde;es conciliares e da comunh&atilde;o que se gera a Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Um gigante adormecido quando acorda, provoca alguns estragos. J&aacute; provocou alguns estragos?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Acho que sim (risos), mas &eacute; normal. O provocar e o incomodar as pessoas&hellip; J&aacute; o referi, v&aacute;rias vezes, quando me questionaram sobre tal, que prefiro ser criticado por fazer, por incomodar (depois da tomada de consci&ecirc;ncia do que somos e de ter os p&eacute;s bem assentes na terra) do que me acomodar. N&atilde;o me quero acomodar&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Ainda &eacute; muito novo para se acomodar&hellip;<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Espero que n&atilde;o, mas isso da acomoda&ccedil;&atilde;o pode acontecer em todas as idades. A Palavra de Deus incomoda-nos todos os dias e o Evangelho exige, de n&oacute;s, essa abertura &agrave; surpresa e &agrave; novidade. N&atilde;o &eacute; mudar por mudar, mas para ser mais fiel e mais aut&ecirc;ntico ao Evangelho. Alguns estragos aparecem porque se mexe com interesses e, se calhar, com neg&oacute;cios (usando as palavras do Papa Francisco). &Agrave;s vezes, as pessoas usam os mesmos meios que usam na vida social e na vida pol&iacute;tica e depois aplicam-nos &agrave; Igreja e causam alguns estragos. Devemos estar muito atentos e essa &eacute; uma miss&atilde;o do bispo: ser vigilante e acompanhar como pai, pastor, amigo e irm&atilde;o.<\/p>\n<p>Os estragos s&atilde;o relativos &agrave;s mudan&ccedil;as porque a convers&atilde;o exige uma mudan&ccedil;a do cora&ccedil;&atilde;o, mas exige, em simult&acirc;neo, o deixar estilos, pensamentos e modos de ser e viver que n&atilde;o s&atilde;o t&atilde;o consent&acirc;neos com o Evangelho.&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Est&aacute; vigilante em rela&ccedil;&atilde;o a esses neg&oacute;cios e interesses?<\/p>\n<p><strong>JC <\/strong>&ndash; Claro que sim. No &acirc;mbito da pr&oacute;pria Igreja, da ac&ccedil;&atilde;o social e ao n&iacute;vel interno&hellip; Recordo aquilo que dizia Bento XVI: &laquo;Os inimigos da Igreja n&atilde;o est&atilde;o fora, mas est&atilde;o c&aacute; dentro&raquo;. Perante estas realidades &eacute; preciso purificar. Voltar &agrave;s fontes. Mas se as pessoas n&atilde;o t&ecirc;m essas fontes &eacute; mais dif&iacute;cil esse processo porque algumas podem ser t&atilde;o religiosas que n&atilde;o chegam a ser crist&atilde;s. N&atilde;o basta ser religioso ou piedoso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; A diocese j&aacute; passou de um cristianismo sociol&oacute;gico, de uma religiosidade popular, para um cristianismo convicto e centrado na f&eacute;?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Esse &eacute; um processo muito lento. Prefiro falar em piedade popular do que, propriamente, em religiosidade popular. A piedade popular assenta nas ra&iacute;zes da f&eacute; e tem alguma rela&ccedil;&atilde;o com a liturgia. Estamos a fazer esse esfor&ccedil;o. O primeiro ano, &agrave; luz da proclama&ccedil;&atilde;o do Ano da F&eacute;, esteve muito voltado para a liturgia, como a primeira escola da f&eacute;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; N&atilde;o sentia as comunidades como escolas da f&eacute;?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Em algumas comunidades isso j&aacute; acontecia, mas no comum e de forma t&atilde;o sistem&aacute;tica e continuada como estamos a fazer, vai acontecendo. Noto isso tamb&eacute;m nas visitas pastorais. J&aacute; visitei, at&eacute; ao momento, mais de 90 par&oacute;quias e mais de trezentas comunidades. A liturgia come&ccedil;a a ser vivida e entendida como a melhor escola da f&eacute;.<\/p>\n<p>Este ano estamos a viver o &laquo;ano da voca&ccedil;&atilde;o&raquo;, para que cada um tome consci&ecirc;ncia da sua voca&ccedil;&atilde;o e miss&atilde;o na Igreja. De baptizado e seguidor de Jesus Cristo. Neste ano pastoral, coloc&aacute;mos a conjuga&ccedil;&atilde;o de tr&ecirc;s verbos: rezar, chamar e testemunhar. Este caminho &eacute; lento, mas progressivo.<\/p>\n<p>Naquilo que vou verificando na conversa com os colaboradores &ndash; os presb&iacute;teros &ndash; e na rela&ccedil;&atilde;o directa com os fi&eacute;is leigos, vou percebendo o desejo enorme de acertar o passo com Jesus Cristo e de fazer da ora&ccedil;&atilde;o essa alegria do cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Est&aacute; neste territ&oacute;rio eclesial h&aacute; dois anos como bispo, sente que est&aacute; a fazer uma revolu&ccedil;&atilde;o silenciosa ou barulhenta?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; J&aacute; a apelidaram de revolu&ccedil;&atilde;o silenciosa, mas n&atilde;o tenho pretens&atilde;o nenhuma disso. Apenas pretendemos construir juntos e estarmos abertos aos novos caminhos da miss&atilde;o. O que estamos a fazer &eacute; a renova&ccedil;&atilde;o na continuidade. Isto n&atilde;o come&ccedil;ou do nada, mesmo a reorganiza&ccedil;&atilde;o. Mesmo as &laquo;Unidades Pastorais&raquo; era algo que j&aacute; estava no papel, no ano 2000. Agora, depois de actualizado e revisitado, est&aacute; no terreno com as dificuldades inerentes daquilo que &eacute; pr&oacute;prio &agrave; mudan&ccedil;a e &agrave; novidade. Estamos a potenciar ao m&aacute;ximo todos aqueles meios que nos conduzam a sermos uma s&oacute; e mesma Igreja. Temos de percorrer o caminho da uni&atilde;o e da paz para que haja esta consci&ecirc;ncia de Igreja. Notei isso, depois de alguns anos fora, [esteve em Roma] que n&atilde;o h&aacute; esta consci&ecirc;ncia de uma Igreja diocesana. Queremos trilhar esta eclesiologia de comunh&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Apercebeu-se que tinha adultos com f&eacute; de crian&ccedil;a?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Refiro isso, constantemente, nas visitas pastorais, brincando um pouco com esse jogo de palavras. Alguma f&eacute; que existe no &acirc;mbito da piedade popular &eacute; de pessoas que tiveram alguma prepara&ccedil;&atilde;o e fundamenta&ccedil;&atilde;o da f&eacute; para a primeira comunh&atilde;o, para o crisma ou, eventualmente, para o matrim&oacute;nio, mas depois acharam que aquilo &laquo;vem do c&eacute;u aos trambolh&otilde;es&raquo; e desligaram.&nbsp; Por isso, temos adultos com f&eacute; infantil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mesmo com o sacramento da Confirma&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Sim porque isso n&atilde;o &eacute; autom&aacute;tico, nem m&aacute;gico. &Eacute; a conclus&atilde;o da inicia&ccedil;&atilde;o crist&atilde;, mas que exige um aprofundamento constante e permanente. Tal como as pessoas cultivam outros &acirc;mbitos da sua vida t&eacute;cnica, profissional e acad&eacute;mica, na f&eacute; tem de acontecer o mesmo. A rela&ccedil;&atilde;o com Deus tem de ser continuada pela ora&ccedil;&atilde;o, pelos sacramentos, pela pr&aacute;tica da caridade e pela forma&ccedil;&atilde;o. Felizmente que as propostas de forma&ccedil;&atilde;o que estamos a fazer na diocese est&atilde;o a ser muito bem correspondidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O envelhecimento do clero e da popula&ccedil;&atilde;o na realidade diocesana &eacute; vis&iacute;vel. Assiste-se a uma continuada desertifica&ccedil;&atilde;o humana?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; &Eacute; preocupante e alarmante. Estamos na maior diocese do norte do pa&iacute;s, em termos territoriais, com uma popula&ccedil;&atilde;o &agrave; volta das 137 mil pessoas, mas com 326 par&oacute;quias e 634 comunidades. Ainda hoje para ir de Bragan&ccedil;a a Freixo de Espada &agrave; Cinta preciso de duas horas. Tudo isto revela a nossa situa&ccedil;&atilde;o de interioridade. Nestas condi&ccedil;&otilde;es ainda se torna mais dif&iacute;cil a nossa miss&atilde;o. &Eacute; com estas caracter&iacute;sticas e com estas pessoas que n&oacute;s vivemos.<\/p>\n<p>Nota-se, por um lado, o envelhecimento e, por outro, o n&atilde;o nascimento. Para al&eacute;m disto assistimos tamb&eacute;m &agrave; fuga do capital humano e do grande potencial para outros pontos do pa&iacute;s e para o estrangeiro. Verifico isso nas comunidades que visito e, sobretudo, de casais novos. Este &laquo;boom&raquo; da emigra&ccedil;&atilde;o &eacute; semelhante aos anos 60 do s&eacute;culo passado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Um retrocesso na evolu&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Claro que sim. Nos &uacute;ltimos 50 anos perdemos metade da popula&ccedil;&atilde;o e isso &eacute; um retrocesso. N&atilde;o &eacute; indicador positivo de um desenvolvimento integral desta regi&atilde;o. Daquilo que vou conhecendo, cada vez mais se deve passar por uma aposta consistente na agricultura (n&atilde;o a de marcos e de divis&atilde;o), mas aquela de quil&oacute;metros. Uma agricultura bem pensada e estruturada. Tamb&eacute;m na cultura, no patrim&oacute;nio material e imaterial que &eacute; t&atilde;o rico. Sem esquecer o turismo e, de modo especial, no turismo religioso. Assistimos ao encerramento de tantas realidades. &Eacute; confrangedor deixar de ver os sinais de tr&acirc;nsito nalgumas aldeias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Qualquer dia colocam a sinal&eacute;tica de reserva de ca&ccedil;a.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Em muito lugares isso j&aacute; acontece.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; H&aacute; cerca de 27 mil hectares de terra desaproveitada no distrito. O que fazer?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Uma pergunta a devolver aos respons&aacute;veis ao n&iacute;vel aut&aacute;rquico e ao n&iacute;vel governamental. Creio que h&aacute; muito a fazer e a fazer de uma maneira inteligente e respons&aacute;vel. Mas isso d&aacute; que fazer&hellip; Por isso n&atilde;o h&aacute; tanta gente envolvida e a pensar de forma global e integrada este nordeste transmontano. J&aacute; se perderam muitas oportunidades desde h&aacute; uns anos a esta parte e, sobretudo, com tantos incentivos da Uni&atilde;o Europeia. Estes foram demasiadamente localizados e n&atilde;o tiveram a perspectiva do todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; A solid&atilde;o dos idosos &eacute; uma realidade preocupante. Chegou mesmo a escrever uma carta pastoral sobre este assunto.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; &Eacute; uma realidade que me ocupa e preocupa. Faz parte dos programas das visitas pastorais o encontro com os mais idosos em casa ou nos centros sociais paroquiais. Tanto me ocupa que se criou em Bragan&ccedil;a e noutros lugares da diocese um lugar de escuta, de atendimento e rela&ccedil;&atilde;o de ajuda. Come&ccedil;amos pela parte sacramental e espiritual &#8211; &agrave;s quintas-feiras das 09.30 &agrave;s 17.00 &ndash; onde est&atilde;o oito sacerdotes no atendimento do sacramento da reconcilia&ccedil;&atilde;o, ora&ccedil;&atilde;o e adora&ccedil;&atilde;o ao sant&iacute;ssimo. Temos o intuito de acolher as pessoas, justamente por causa da solid&atilde;o. A par disto, estamos na cria&ccedil;&atilde;o de um gabinete inter-disciplinar que envolve psic&oacute;logos, psiquiatras, assistentes sociais e tamb&eacute;m alguns sacerdotes para o encaminhamento daqueles casos que ultrapassam o &acirc;mbito sacramental e espiritual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O sentimento de ang&uacute;stia vive no meio dos brigantinos e dos bragan&ccedil;anos.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Nota-se, infelizmente, n&atilde;o apenas nas pessoas mais idosas, mas tamb&eacute;m &eacute; muito preocupante junto dos mais novos. Gente sem perspectiva de futuro. N&atilde;o &eacute; por acaso que em Portugal, o medicamento mais vendido &eacute; o anti-depressivo. Noto isso, infelizmente, nesta zona. Necessitamos de mais pessoas dispon&iacute;veis para ouvir, estar e acolher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mas estamos numa sociedade onde impera o ru&iacute;do&hellip;<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; &Eacute; poss&iacute;vel que sim, mesmo no nordeste transmontano onde ainda pensamos que existe uma vida mais saud&aacute;vel. Aqui sentimos o positivo e, se calhar ainda mais acentuado o negativo, da globaliza&ccedil;&atilde;o. Por isso, o ru&iacute;do n&atilde;o deixa escutar o sil&ecirc;ncio e n&atilde;o deixa escutar os outros. As pessoas n&atilde;o t&ecirc;m tempo, nem paci&ecirc;ncia&#8230; Muitos, s&oacute; necessitam de ser ouvidos. O acompanhamento n&atilde;o deve ter a componente moralista, nem direcionista.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Nestes di&aacute;logos que tipo de car&ecirc;ncias as pessoas apresentam?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; At&eacute; ao momento, as pessoas t&ecirc;m apresentado car&ecirc;ncias espirituais e afectivas, resultantes da pr&oacute;pria solid&atilde;o. Existem tamb&eacute;m as car&ecirc;ncias materiais e essas, felizmente, vamos tendo ainda respostas sociais para elas. A Igreja diocesana tem a responsabilidade de mais de 70% de ac&ccedil;&atilde;o social. O que tem incomodado mais, ultimamente, s&atilde;o as pessoas que come&ccedil;aram a sentir a priva&ccedil;&atilde;o daquilo que h&aacute; uns meses n&atilde;o tinham. Esta situa&ccedil;&atilde;o tem incomodado muito e, especialmente, as pessoas que v&ecirc;m pela primeira vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Nem tudo &eacute; negro e lamuriento na diocese de Bragan&ccedil;a. Existe sangue novo com a presen&ccedil;a do Instituto Polit&eacute;cnico. Recentemente afirmou: &ldquo;a juventude pode contar comigo&rdquo;.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Desde a minha nomea&ccedil;&atilde;o para este servi&ccedil;o e minist&eacute;rio, dispus-me a ser colaborador da alegria e da esperan&ccedil;a dos jovens. E assim temos feito. &Eacute; com alegria que registamos um aumento dos jovens, n&atilde;o apenas nas celebra&ccedil;&otilde;es lit&uacute;rgicas, mas tamb&eacute;m nos movimentos e grupos juvenis.<\/p>\n<p>Por outro lado, mesmo com a presen&ccedil;a do Instituto Polit&eacute;cnico o futuro come&ccedil;a a ser algo preocupante. Este ano, j&aacute; se notou uma diminui&ccedil;&atilde;o de presen&ccedil;a na cidade. Em simult&acirc;neo &eacute; um desafio, visto que est&atilde;o a chegar &agrave; cidade, muitos jovens provenientes de v&aacute;rios pa&iacute;ses.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE <\/strong>&ndash; A multiculturalidade chegou &agrave; cidade.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Come&ccedil;amos a sentir isso, mas n&atilde;o sei se Bragan&ccedil;a est&aacute; preparada para responder a essa multiculturalidade e, nomeadamente, a Igreja. Estamos a tentar e a dar passos para que seja um acolhimento e resposta positiva. Mesmo em rela&ccedil;&atilde;o aos agrupamentos escolares estou um pouco pessimista, j&aacute; fui mais optimista. As escolas que existiam espalhadas pelas aldeias est&atilde;o a congregar-se nas sedes de concelho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; O bispo da esperan&ccedil;a com registos de pessimismo?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; N&atilde;o&hellip; Isso nunca. A cultura da lamenta&ccedil;&atilde;o em mim, &agrave; minha volta e nesta igreja, n&atilde;o quero que &laquo;monte a sua tenda&raquo;. &Eacute; preciso olhar com esperan&ccedil;a o presente e o futuro. &Eacute; a cultura da esperan&ccedil;a que nos anima. A f&eacute; n&atilde;o &eacute; uma ideologia&hellip; A lamenta&ccedil;&atilde;o de dizermos que estamos longe, somos periferia, somos interior, n&atilde;o tem lugar. Essas s&atilde;o as nossas caracter&iacute;sticas e n&atilde;o nos podemos comparar a ningu&eacute;m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Ao n&iacute;vel da pastoral juvenil e da pastoral universit&aacute;ria que projectos est&atilde;o a decorrer na diocese. Que trabalhos espec&iacute;ficos est&atilde;o a fazer com esta camada populacional?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Temos um servi&ccedil;o diocesano da pastoral do ensino superior, a capelania do Instituto Polit&eacute;cnico, o secretariado diocesano da pastoral juvenil e vocacional. Estes servi&ccedil;os est&atilde;o a dar passos lentos, mas a construir algo s&oacute;lido. Est&atilde;o a envolver os jovens.<\/p>\n<p>A par disso, nas unidades pastorais e a n&iacute;vel local &ndash; com os professores de Educa&ccedil;&atilde;o Moral e Religiosa Cat&oacute;lica e as fam&iacute;lias &ndash; estamos a fazer com que os jovens se sintam protagonistas na ac&ccedil;&atilde;o pastoral da Igreja e no an&uacute;ncio do Evangelho. N&atilde;o fazemos para os jovens, mas fazemos com os jovens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Chegou a fazer uma caminhada com eles at&eacute; Santiago de Compostela.<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Foi uma experi&ecirc;ncia singular de f&eacute;. Na conclus&atilde;o estavam mais de 600 pessoas. As &laquo;lectio divinas&raquo; e as jornadas diocesanas da juventude t&ecirc;m sido experi&ecirc;ncias muito positivas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Como s&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es da diocese de Bragan&ccedil;a-Miranda com as dioceses vizinhas espanholas?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Positivas. Ainda n&atilde;o implement&aacute;mos nada de concreto ao n&iacute;vel diocesano, mas ao n&iacute;vel local transfronteiri&ccedil;o est&atilde;o mais do que consolidadas. Existem momentos comuns entre as v&aacute;rias localidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mais virados para Espanha do que para o litoral portugu&ecirc;s?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; N&atilde;o (risos). Sou membro do col&eacute;gio episcopal, mas antes de mais da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa. No entanto, o nosso territ&oacute;rio faz fronteira com 5 dioceses espanholas&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Mas voltando &agrave; realidade do nordeste transmontano, D. Jos&eacute; Cordeiro &eacute; o pastor que anda a bater nas portas das casas dos crist&atilde;os e perguntar se pode entrar?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; Mais do que bater nas portas das casas, bato nas portas do cora&ccedil;&atilde;o. Tenho aprendido muito e tem sido uma grande escola. Tem sido a parte mais bela do minist&eacute;rio episcopal nestes dois anos. As visitas pastorais s&atilde;o o cora&ccedil;&atilde;o do minist&eacute;rio episcopal, numa rela&ccedil;&atilde;o de proximidade e simplicidade. Procuro sempre dizer &agrave;s pessoas que o centro da visita pastoral n&atilde;o &eacute; o bispo, mas &eacute; Cristo. Algumas pessoas, sobretudo as pessoas de mais idade, n&atilde;o est&atilde;o &agrave; espera de um bispo t&atilde;o novo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Como &eacute; que surgiu esta ideia de dividir a diocese em unidades pastorais?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; A diocese continua com as 326 par&oacute;quias e as 634 comunidades, mas agora articulada em 33 unidades pastorais. Destas, 25 j&aacute; est&atilde;o implementadas no terreno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>AE<\/strong> &ndash; Sentiu resist&ecirc;ncias do clero para esta inova&ccedil;&atilde;o?<\/p>\n<p><strong>JC<\/strong> &ndash; N&atilde;o senti tanto quanto pensava, mas senti algumas como &eacute; normal. A maior dificuldade n&atilde;o foi a implementa&ccedil;&atilde;o das unidades pastorais porque esse estudo j&aacute; estava realizado no ano 2000, mas a redu&ccedil;&atilde;o dos arciprestados. Quando cheguei t&iacute;nhamos 12 arciprestados e passar para 4 foi mais dura essa reorganiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Nas unidades pastorais, no seu objectivo fundamental, n&atilde;o houve reac&ccedil;&atilde;o. Houve reac&ccedil;&atilde;o mas aos h&aacute;bitos adquiridos e, sobretudo, porque era uma pastoral muito centrada na figura do p&aacute;roco. A grande mudan&ccedil;a na concretiza&ccedil;&atilde;o das unidades pastorais &eacute; o paradigma pastoral que n&atilde;o &eacute; assente, &uacute;nica e exclusivamente, no clero, mas em todos os baptizados. Com esta quantidade de par&oacute;quias s&oacute; temos 60 padres no activo. &nbsp;<\/p>\n<p><em>LFS<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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