{"id":6281,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/os-guetos-da-cidade-e-a-utilizacao-abusiva-de-deus\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"os-guetos-da-cidade-e-a-utilizacao-abusiva-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-guetos-da-cidade-e-a-utilizacao-abusiva-de-deus\/","title":{"rendered":"Os guetos da cidade e a utiliza\u00e7\u00e3o abusiva de Deus"},"content":{"rendered":"<p>Entrevista com Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Centro de Reflex\u00e3o Crist\u00e3 e Centro Nacional de Cultura. <!--more--> Ag\u00eancia ECCLESIA \u2013 As \u00abconfer\u00eancias de Maio\u00bb terminaram que avalia\u00e7\u00e3o podemos retirar deste ciclo subordinado ao tema \u201cCidade de Deus \u2013 Cidade das Pessoas\u201d? Guilherme de Oliveira Martins &#8211;  O Centro de Reflex\u00e3o Crist\u00e3 (CRC) tem a tradi\u00e7\u00e3o de organizar, todos os meses de Maio, um ciclo de confer\u00eancias. Este ano retom\u00e1mos essa tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 certo que nos \u00faltimos anos ela tinha tido lugar mas com uma participa\u00e7\u00e3o relativamente reduzida de pessoas, e desta vez fizemos uma especial mobiliza\u00e7\u00e3o e tivemos uma preocupa\u00e7\u00e3o particular de ir ao encontro de um n\u00famero maior de pessoas, n\u00e3o s\u00f3 membros do Centro de Reflex\u00e3o Crist\u00e3  mas tamb\u00e9m amigos do CRC, crist\u00e3os em geral.  A resposta excedeu as nossas expectativas gra\u00e7as ao apoio do Centro de Estudos da Ordem do Carmo.  Pudemos contar com estas instala\u00e7\u00f5es e tivemos sempre casas com cerca de 100 ou mais pessoas a assistir sendo que os col\u00f3quios foram extraordinariamente  participados. Um balan\u00e7o muito positivo relativamente \u00e0 receptividade e relativamente ao facto de o Centro de Reflex\u00e3o Crist\u00e3 estar numa fase de grande afirma\u00e7\u00e3o e de grande vitalidade.  AE \u2013 Ent\u00e3o, Deus est\u00e1 na cidade? GOM &#8211; Deus tem que estar na cidade. Ao propormos o tema: \u201cCidade de Deus &#8211; Cidade das pessoas\u201d, fizemo-lo, n\u00e3o para contrapor a cidade de Deus \u00e0 cidade das pessoas, para criar uma liga\u00e7\u00e3o e uma complementaridade. Deus est\u00e1 na cidade e interpela-nos permanentemente. Quando o nosso conselho consultivo nos prop\u00f4s este tema, f\u00ea-lo a pensar na prepara\u00e7\u00e3o do grande Congresso que ter\u00e1 lugar em Lisboa, no ano 2005, sobre a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o. O tema teria de ser concreto e por isso pens\u00e1mos na cidade, a organiza\u00e7\u00e3o da cidade e o fen\u00f3meno urbano. Por isso come\u00e7\u00e1mos por falar da solidariedade e da falta de solidariedade na cidade.   AE &#8211; Nota-se mais a falta da solidariedade ou a solidariedade na cidade? GOM &#8211; Infelizmente nota-se muito os exemplos de falta de solidariedade. O Arq\u00ba Nuno Teot\u00f3nio Pereira, na 1\u00aa sess\u00e3o, chamou a aten\u00e7\u00e3o para o facto de, cada vez mais, termos na nossa pr\u00f3pria cidade guetos de pobres e guetos de ricos: os bairros degradados e os condom\u00ednios fechados. Dois sinais contrastados da falta de solidariedade. Na \u00faltima sess\u00e3o, o Arq\u00ba Duarte Nuno Sim\u00f5es chamou a aten\u00e7\u00e3o para a necessidade de criarmos uma cidade onde nos sintamos bem, uma cidade hospitaleira. A rela\u00e7\u00e3o das pessoas deve ser traduzida em gestos de aproxima\u00e7\u00e3o e n\u00e3o gestos de ego\u00edsmo.  AE &#8211; Acha poss\u00edvel uma cidade hospitaleira no meio de tanta indiferen\u00e7a? GOM &#8211;  Julgo que poss\u00edvel \u00e9 e se n\u00e3o fosse poss\u00edvel eu n\u00e3o acreditaria, como acredito, nas Organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil. Ao aceitar a presid\u00eancia do CRC fi-lo a partir de um projecto que \u00e9 a presen\u00e7a dos crist\u00e3os na sociedade e essa presen\u00e7a dos crist\u00e3os na sociedade obriga-nos a empenharmo-nos em gestos e em iniciativas que suscitem a tomada de consci\u00eancia de que uns dependemos dos outros.  Por outro lado, n\u00f3s tamb\u00e9m reflectimos sobre a presen\u00e7a da cultura  e a import\u00e2ncia da cultura. Deus na cultura. Ao longo das sess\u00f5es chamou-se a aten\u00e7\u00e3o para o facto de encontrarmos um n\u00famero pouco significativo de intelectuais que assumem essa interroga\u00e7\u00e3o religiosa.  Na minha experi\u00eancia no mundo da cultura, actualmente tamb\u00e9m sou presidente do Centro Nacional da Cultural, \u00e9 a de que a presen\u00e7a de Deus na cultura \u00e9 algo de mais subtil e mais complexo do que \u00e0 primeira vista possa parecer.  AE &#8211; As pessoas t\u00eam vergonha de se assumirem como crist\u00e3os? GOM &#8211; N\u00e3o se trata de vergonha ou n\u00e3o vergonha. Trata-se, sobretudo, de compreender que o mundo \u00e9 indiferente, est\u00e1 pouco atento \u00e0s quest\u00f5es religiosas, \u00e9 um mundo vazio, \u00e9 um mundo que se vai empobrecendo. Ainda h\u00e1 poucas semanas invocava isso num texto que fiz, citando um intelectual alem\u00e3o, laico, agn\u00f3stico, um dos grandes pensadores contempor\u00e2neos, que dizia justamente isto \u00abque \u00e9 necess\u00e1rio que a sociedade contempor\u00e2nea tome consci\u00eancia da import\u00e2ncia do fen\u00f3meno religioso\u00bb.  Independentemente de haver ou n\u00e3o uma mobiliza\u00e7\u00e3o ou mesmo um empenhamento militante numa Igreja ou uma confiss\u00e3o religiosa. Depois da morte de Deus proclamada por Nitzsche \u00e9 preciso compreendermos qual o sentido e o alcance dessa proclama\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata da morte do fen\u00f3meno religioso. Trata-se sim da necessidade de distinguir a esfera religiosa e a esfera filos\u00f3fica e compreender que o mundo contempor\u00e2neo responde por caminhos diferentes e de formas diversas \u00e0 interpela\u00e7\u00e3o da f\u00e9 e \u00e0  interpela\u00e7\u00e3o religiosa. Por isso um  dos projectos do CRC \u00e9 o di\u00e1logo entre pessoas de f\u00e9 e pessoas que n\u00e3o t\u00eam f\u00e9. Os que t\u00eam religi\u00e3o e os que n\u00e3o t\u00eam religi\u00e3o.   AE \u2013 Neste di\u00e1logo entre crentes e n\u00e3o crentes, os protagonistas conseguem abdicar dos seus valores?  GOM &#8211; Verificamos que h\u00e1 pontes porque temos a preocupa\u00e7\u00e3o de encontrar pessoas inteligentes e pessoas que sejam capazes de responder \u00e0s interpela\u00e7\u00f5es. Um dos grandes problemas com que nos debatemos, no mundo da cultura, \u00e9 a prolifera\u00e7\u00e3o de mon\u00f3logos. Se houver um di\u00e1logo s\u00e9rio entre pessoas de boa vontade, entre pessoas inteligentes, naturalmente que h\u00e1 um enriquecimento m\u00fatuo. O di\u00e1logo cultural \u00e9 absolutamente fundamental  AE \u2013 Ser\u00e1 que a sociedade contempor\u00e2nea est\u00e1 aberta a estas pontes?  GOM &#8211; Hoje h\u00e1 a consci\u00eancia plena, perante as consequ\u00eancias da indiferen\u00e7a e do vazio, que \u00e9 necess\u00e1rio abrir janelas e perspectivas novas em torno do fen\u00f3meno religioso e em torno dos fen\u00f3menos religiosos. O nosso terceiro col\u00f3quio, nas nossa confer\u00eancias de Maio, foi um di\u00e1logo muito interessante e riqu\u00edssimo. Um col\u00f3quio entre tr\u00eas representantes das religi\u00f5es do Livro que t\u00eam as mesmas ra\u00edzes. Num mundo de guerra \u00e9 importante falarmos de um projecto de cultura da paz. Um projecto que obriga as pessoas se falem e percebam que h\u00e1 ra\u00edzes comuns que s\u00e3o  mais importantes do que aquilo que circunstancialmente divide.  E da\u00ed exprimirmos uma enorme preocupa\u00e7\u00e3o pelo facto de estarem a ser reconstru\u00eddos os muros, entre pessoas, entre comunidades, e a constru\u00e7\u00e3o de muros de separa\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o de paz, nunca \u00e9 um factor positivo e ben\u00e9fico. Por outro lado assistimos, muitas vezes, \u00e0 utiliza\u00e7\u00e3o abusiva de Deus e do nome de Deus em nome de projectos de guerra e de viol\u00eancia.  AE \u2013 Fazer a guerra em nome de Deus. GOM &#8211; A intoler\u00e2ncia gera-se na incompreens\u00e3o. Incompreens\u00e3o  do outro, incompreens\u00e3o das diferen\u00e7a, incompreens\u00e3o das complementaridades, incompreens\u00e3o do di\u00e1logo. O di\u00e1logo \u00e9 um elemento absolutamente central se n\u00f3s quisermos enriquecer-nos . Jo\u00e3o Paulo II tem sido, nesse aspecto, algu\u00e9m que tem tido um contributo excepcional. Uma vez que, num horizonte de guerra e num horizonte de conflito deu sempre um sinal clar\u00edssimo de que h\u00e1 que dar passos s\u00e9rios para evitar os conflitos e, sobretudo, que n\u00e3o haja essa escalada de viol\u00eancia em nome de uma vis\u00e3o fechada, r\u00edgida da F\u00e9 e de Deus.  AE &#8211; Jo\u00e3o Paulo II apelou mas, alguns pol\u00edticos, n\u00e3o ouviram o apelo GOM &#8211; \u00c9 verdade. Infelizmente, os acontecimentos t\u00eam confirmado que Jo\u00e3o Paulo II, nesse ponto, tem tido uma vis\u00e3o prof\u00e9tica. O mundo \u00e9 sempre feito de uma tens\u00e3o entre a vis\u00e3o prof\u00e9tica e a vis\u00e3o pol\u00edtica. A vis\u00e3o pol\u00edtica \u00e9 mais imediatista. \u00c9 necess\u00e1rio que a vis\u00e3o prof\u00e9tica alimente a vis\u00e3o pol\u00edtica mas muitas  vezes h\u00e1 div\u00f3rcio O polo prof\u00e9tico coloca a dignidade humana em primeiro lugar. \u00c9 algo que n\u00f3s temos que apoiar com toda a nossa for\u00e7a e criar essas pontes para que a cidade de Deus seja tamb\u00e9m a cidade das pessoas. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista com Guilherme de Oliveira Martins, presidente do Centro de Reflex\u00e3o Crist\u00e3 e Centro Nacional de Cultura.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[153,237,268,314],"class_list":["post-6281","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-crc","tag-joao-paulo-ii","tag-nova-evangelizacao","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6281","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6281"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6281\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6281"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6281"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6281"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}