{"id":62763,"date":"2013-10-04T11:34:27","date_gmt":"2013-10-04T11:34:27","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/10\/04\/os-desafios-da-comunicacao-digital-para-a-igreja\/"},"modified":"2013-10-04T11:34:27","modified_gmt":"2013-10-04T11:34:27","slug":"os-desafios-da-comunicacao-digital-para-a-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-desafios-da-comunicacao-digital-para-a-igreja\/","title":{"rendered":"Os desafios da comunica\u00e7\u00e3o digital para a Igreja"},"content":{"rendered":"<p>O jesu\u00edta italiano Antonio Spadaro, autor da primeira entrevista de fundo ao Papa, fala sobre o exemplo de Francisco e as mudan\u00e7as em curso na reflex\u00e3o teol\u00f3gica por causa da internet <!--more--> <\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA &#8211; Como fazer Teologia nesta era digital, qual &eacute; o desafio?<\/em><\/p>\n<p>Padre Antonio Spadaro&nbsp; (PA) &ndash; O desafio &eacute; o de sempre, &eacute; o de pensar a f&eacute; no mundo em que vivemos, no mundo cultural, na hist&oacute;ria em que vivemos. A internet tem hoje, certamente, um grande impacto no nosso modo de pensar, de pensar em geral. Ent&atilde;o, dado que a Teologia &eacute; pensar a f&eacute; &ndash; na defini&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica, &lsquo;intellectus fidei&rsquo; &ndash;, se a rede tem um impacto na forma de pensar &ndash; e a Teologia &eacute; pensar a f&eacute; -, a rede ter&aacute; um impacto na forma de pensar a f&eacute;?<\/p>\n<p>Esta &eacute; a pergunta que eu coloco e &eacute; o grande desafio da Igreja: a Igreja &eacute; chamada a estar onde est&atilde;o os homens, hoje eles est&atilde;o tamb&eacute;m na rede, pelo que a Igreja &eacute; chamada a estar tamb&eacute;m na rede.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Esse conceito de rede significa algo mais&hellip; Estamos habituados a pensar na internet e no mundo digital como um meio, mas essa n&atilde;o &eacute;, neste momento, a abordagem mais adequada.<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&ndash; N&atilde;o, n&atilde;o &eacute; a abordagem mais adequada, e de resto a Igreja est&aacute; a mover-se neste sentido, est&aacute; a dar passos. As mensagens de Bento XVI para os Dias Mundiais das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais, especialmente nos &uacute;ltimos anos, foram muito claras: fala-se claramente do mundo digital como um ambiente, n&atilde;o como instrumento, e &eacute; um ambiente comum, como diz mesmo Bento XVI na sua &uacute;ltima mensagem para o Dia Mundial das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais, &eacute; onde as pessoas vivem, se exprimem, pensam, criam rela&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>A Igreja &eacute;, por isso, chamada n&atilde;o a usar a rede, mas a viver neste ambiente.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; O que &eacute; que significa tamb&eacute;m para a Igreja esta muta&ccedil;&atilde;o, por assim dizer, para que esta rede seja verdadeiramente um ambiente de vida?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; Isso significa simplesmente estar l&aacute; e estar significa viver, viver dentro. N&atilde;o se pode perceber estando fora, fazendo an&aacute;lises.<\/p>\n<p>Portanto, significa compreender como as quest&otilde;es religiosas, por exemplo &ndash; as perguntas de f&eacute;, tamb&eacute;m as d&uacute;vidas, as tens&otilde;es, hoje tamb&eacute;m se exprimem na rede. Sabemos disso, em particular os mais jovens, no Facebook, no Twitter, com as imagens no Instagram e por a&iacute; fora.<\/p>\n<p>Tudo isto se exprime aquilo que &eacute; o grande desejo do homem de viver rela&ccedil;&otilde;es mais fortes, mais aut&ecirc;nticas. O bem, o mal, no fundo, encontram-se na rede como se encontram na vida f&iacute;sica. Por isso, para a Igreja estar na rede significa, em primeiro lugar, escutar, ouvir o que dizem os homens, como vivem neste ambiente, quais s&atilde;o as tens&otilde;es profundas da humanidade que emergem, sem se deixar amedrontar pelo mal, procurando tamb&eacute;m perceber o bem, procurando ter uma vis&atilde;o evang&eacute;lica do modo como o homem se exprime hoje, inclusive no ambiente digital.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Daquilo que &eacute; poss&iacute;vel perceber neste mundo que est&aacute; sempre em muta&ccedil;&atilde;o, tamb&eacute;m o mundo digital tem necessidade de Deus, de rezar, de celebrar, pode dizer-se&hellip; Como compreender isto?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&ndash; &Eacute; curioso, porque de facto aquilo que impressiona, que me impressionou desde o in&iacute;cio e me levou a estudar este fen&oacute;meno, foi ver como tamb&eacute;m a necessidade espiritual do homem, mesmo a necessidade de rezar, emergia na rede. Em realidades aparentemente estranhas, como o &ldquo;Second Life&rdquo;, que era um mundo paralelo, havia igrejas, inclusive casas de exerc&iacute;cios espirituais, onde os avatares se reuniam para rezar. Podemos dizer muitas coisas sobre isso, mas apercebi-me como a necessidade de Deus emerge tamb&eacute;m na rede. A Igreja n&atilde;o pode ficar surda diante disto, deve perceber o que isto significa.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Por vezes h&aacute; confus&atilde;o, tamb&eacute;m nos media, quando se diz que algu&eacute;m se pode confessar no Twitter. Para esta reflex&atilde;o espec&iacute;fica sobre os sacramentos, esta muta&ccedil;&atilde;o, este modo de ser traz efetivamente desafios pr&oacute;prios?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&ndash; Temos de entender-nos: o ambiente digital n&atilde;o substitui o ambiente f&iacute;sico. Este &eacute; um ponto: n&atilde;o h&aacute; substitui&ccedil;&atilde;o, h&aacute; uma integra&ccedil;&atilde;o. A quest&atilde;o &eacute; n&atilde;o viver a esquizofrenia, por causa da qual se escolhe ou o ambiente f&iacute;sico ou o ambiente digital.<\/p>\n<p>H&aacute; coisas que apenas se podem fazer no mundo f&iacute;sico: imaginemos os cheiros, os sabores. Ou seja, a nossa vida sens&iacute;vel exprime-se no ambiente f&iacute;sico. O ambiente digital, por outro lado, ajuda-nos na nossa comunica&ccedil;&atilde;o, isto &eacute;, ainda que vivamos de um modo diferente, conseguimos comunicar, sem as barreiras do espa&ccedil;o e do tempo, gra&ccedil;as &agrave; internet.<\/p>\n<p>Posso dar um pequeno exemplo, que vivi. Eu dou aulas na Universidade Pontif&iacute;cia Gregoriana e um aluno meu nigeriano, que vive em Roma, disse-me uma vez: &ldquo;Sabe, padre, eu amo o meu computador&rdquo;. Eu perguntei-lhe: &ldquo;Mas porqu&ecirc; amas o teu computador&rdquo;. A sua resposta foi: &ldquo;Porque dentro est&atilde;o todos os meus amigos&rdquo;.<\/p>\n<p>Esta resposta tocou-me, porque no fundo o ambiente digital era para ele o modo de permanecer em contacto com a sua fam&iacute;lia, os seus amigos, o seu ambiente. Isto &eacute; extremamente interessante e faz-me refletir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; J&aacute; disse v&aacute;rias vezes, em confer&ecirc;ncias, que o pr&oacute;ximo neste tempo &eacute; quem est&aacute; conectado e esta ideia de liga&ccedil;&atilde;o &eacute; um conceito central, tamb&eacute;m para o Cristianismo. H&aacute;, digamos, uma abordagem que se pode fazer a esta linguagem do mundo digital e tamb&eacute;m &agrave; linguagem cat&oacute;lica, para que se encontrem nesta ideia de conex&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; A Igreja tem dois mil anos de sabedoria ligada &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o, &agrave; comunica&ccedil;&atilde;o de uma mensagem, e &agrave; rela&ccedil;&atilde;o. No fundo, poderia dizer isto: a Igreja e a rede estiveram sempre destinados a encontrar-se, porque aquilo que funda a rede s&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es &ndash; pensemos nas amizades, nas rela&ccedil;&otilde;es entre pessoas -, e a comunica&ccedil;&atilde;o de uma mensagem. E aquilo que funda a Igreja s&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es de comunh&atilde;o e a comunica&ccedil;&atilde;o da mensagem evang&eacute;lica.<\/p>\n<p>Portanto, a rede e Igreja s&atilde;o chamadas desde sempre, de alguma forma, a encontrar-se. &Eacute; certo, no entanto, que para a Igreja n&atilde;o basta a conex&atilde;o, a comunh&atilde;o &eacute; muito mais e n&atilde;o &eacute; o fruto dos esfor&ccedil;os humanos, &eacute; um dom que se recebe do Alto. Diria que a Igreja n&atilde;o pode reduzir as rela&ccedil;&otilde;es eclesiais &agrave;s meras conex&otilde;es, a Igreja tem consci&ecirc;ncia de que a experi&ecirc;ncia de comunh&atilde;o que vive &eacute; um dom do Esp&iacute;rito.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Talvez por causa desta dimens&atilde;o mais profunda, mas n&atilde;o s&oacute;, exista um pouco de ceticismo, algumas reservas em v&aacute;rias interven&ccedil;&otilde;es do magist&eacute;rio, nas quais se diz que h&aacute; potencialidades nestas novas tecnologias, mas recordando os perigos, aquilo que &eacute; preciso superar. &Eacute; compreens&iacute;vel, esta posi&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; Absolutamente, e tamb&eacute;m muito importante. Evidentemente, at&eacute; pela facilidade e pela rapidez de conex&atilde;o, o bem e o mal passam rapidamente e, por isso, tamb&eacute;m o mal: existem riscos, os riscos de aliena&ccedil;&atilde;o, de esquizofrenia, mas tamb&eacute;m na vida f&iacute;sica h&aacute; muitos riscos, h&aacute; aliena&ccedil;&otilde;es, h&aacute; grandes contradi&ccedil;&otilde;es. Os riscos que se correm n&atilde;o nos devem assustar, temos de enfrentar grandes desafios, at&eacute; porque a internet n&atilde;o &eacute; algo que possa deixar de existir, &eacute; um dado de facto, por isso a quest&atilde;o n&atilde;o &eacute; &ldquo;internet sim&rdquo; ou &ldquo;internet n&atilde;o&rdquo;, mas como viver bem no tempo da internet.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Na sua entrevista &agrave;s revistas jesu&iacute;tas, o Papa Francisco disse que &eacute; necess&aacute;rio entender sempre como &eacute; que o homem de hoje se compreende. Esta dimens&atilde;o digital n&atilde;o &eacute; uma dimens&atilde;o que se possa negligenciar.<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; N&atilde;o, n&atilde;o. Nem &eacute; sequer est&aacute;tica, isto &eacute;, o homem desenvolve uma compreens&atilde;o de si cada vez maior, isso di-lo o Papa, na sua resposta. Este &eacute; um grande desafio: precisamos de ser geniais, como diz o Papa, esta &eacute; uma passagem que me tocou muito, n&atilde;o podemos ser est&aacute;ticos, n&atilde;o podemos usar sempre as mesmas categorias, n&atilde;o podemos ficar parados quando o homem muda um pouco o modo de se ver a si mesmo. A Igreja deve escutar o homem, a forma como se interpreta, para ent&atilde;o comunicar a sabedoria do Evangelho e da sua tradi&ccedil;&atilde;o, com muitos anos, sabendo que a tem de comunicar. Para isso tem de conhecer as categorias que o homem vive hoje na sua hist&oacute;ria, na sua cultura.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Para si, como foi a experi&ecirc;ncia de entrevistar o Santo Padre?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&ndash; Bem, foi&hellip; diria que &eacute; imposs&iacute;vel entrevistar o Papa. Pode dizer-me: Mas como, se o entrevistou? N&atilde;o, &eacute; imposs&iacute;vel porque na realidade, o Papa n&atilde;o consegue estar dentro de esquemas demasiado r&iacute;gidos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Pergunta-resposta&hellip;<\/em><\/p>\n<p>PA &#8211; Exato. A pergunta-resposta, pergunta-resposta com ele &eacute; imposs&iacute;vel. Ele expande o seu pensamento na rela&ccedil;&atilde;o, digamos.<\/p>\n<p>Eu tinha diante de mim, naturalmente, papel e caneta, para al&eacute;m do gravador, e a certa altura deixei de lado o papel e a caneta porque acabavam por ser um filtro. O cen&aacute;rio da nossa entrevista na realidade o de uma conversa amig&aacute;vel.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Pensa que os media e as pessoas em geral compreenderam bem esta entrevista?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; Eu penso que as pessoas perceberam muito bem. Recebi mais de mil mensagens, de pessoas &ndash; mesmo de pessoas afastadas, de sacerdotes que tinham deixado o sacerd&oacute;cio h&aacute; anos, que deixaram mesmo a Igreja &ndash; que me escreveram e diziam: Se tivesse lido esta entrevista anos atr&aacute;s, n&atilde;o teria deixado a Igreja.<\/p>\n<p>Tive a perce&ccedil;&atilde;o de que houve uma grande, como dizer, uma nova consci&ecirc;ncia: as pessoas escutam muito bem as palavras t&atilde;o diretas, simples, do Papa. Houve uma grande rea&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Diria que, mais do que a rea&ccedil;&atilde;o dos media, me tocou a rea&ccedil;&atilde;o das pessoas, que perceberam bem o Papa.<\/p>\n<p>Os jornais, por vezes, tiram uma ou outra palavra, sublinham uma ou outra palavra, procurando criar oposi&ccedil;&otilde;es. Na realidade, o discurso &eacute; um discurso muito flu&iacute;do.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Neste discurso, nunca ficou surpreendido?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; Ah, sempre! Sempre, mas tamb&eacute;m pela atitude do Papa: por exemplo, o Papa exprime uma grande autoridade, mas sem qualquer dist&acirc;ncia. Ou seja, falar com ele &eacute; perceber a sua autoridade, de pont&iacute;fice, e isso para mim &eacute; muito claro, nunca perdi essa perce&ccedil;&atilde;o. Mas ao mesmo tempo, n&atilde;o percebi qualquer dist&acirc;ncia, percebi uma comunica&ccedil;&atilde;o flu&iacute;da, diria quase amig&aacute;vel, de absoluta espontaneidade e imediatez.<\/p>\n<p>Em nenhum contexto houve rigidez ou a perce&ccedil;&atilde;o de que alguma pergunta fosse melhor n&atilde;o a fazer. Foi totalmente livre e aberto, dispon&iacute;vel para qualquer quest&atilde;o e foi uma conversa muito aberta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Esta conversa permitiu, por assim dizer, abrir as portas para aquilo que o Papa pretende para a Igreja. <\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&ndash; Com certeza, mas gostaria de dizer uma coisa que me parece importante: o Papa n&atilde;o tem ideias claras, a priori, distintas. Para alguns &eacute; como se o Papa tivesse ideais precisas, que depois coloca imediatamente em pr&aacute;tica. N&atilde;o.<\/p>\n<p>Na verdade, ele vive num processo de discernimento, ele compreende o que tem de fazer, come&ccedil;ando a agir, vendo as rea&ccedil;&otilde;es, seja das pessoas &agrave; sua volta, das pessoas em geral, seja as rea&ccedil;&otilde;es que ele tem na ora&ccedil;&atilde;o, e depois segue em frente, consultando e rezando. Diria que o Papa abre um processo e talvez nem ele pr&oacute;prio saiba bem onde vai chegar esse processo. Neste sentido, est&aacute; profundamente ligado &agrave; espiritualidade que incarna, &agrave; espiritualidade inaciana, que &eacute; a espiritualidade do discernimento espiritual.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Tamb&eacute;m sobre o mundo da Comunica&ccedil;&atilde;o, o Papa Francisco tem j&aacute; duas ou tr&ecirc;s interven&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o verdadeiramente importantes, como o discurso ao Conselho Pontif&iacute;cio, tamb&eacute;m j&aacute; escolheu o tema para o pr&oacute;ximo Dia Mundial das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais. O que &eacute; que podemos aprender com este pontificado sobre o modo como devemos ser comunicadores?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; Digamos que, at&eacute; h&aacute; algum tempo, a comunica&ccedil;&atilde;o significava transmitir. Agora significava compartilhar e nisso o Papa &eacute; extraordin&aacute;rio. Disse numa entrevista que o Papa n&atilde;o comunica, o Papa cria acontecimentos comunicativos, nos quais aqueles que recebem a mensagem se tornam atores e n&atilde;o simplesmente espetadores.<\/p>\n<p>Recordemos o momento em que o Papa aparece na varanda da Bas&iacute;lica de S&atilde;o Pedro, na tarde da sua elei&ccedil;&atilde;o: deu a sua b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, mas antes de dar a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o inclinou-se para receber a ora&ccedil;&atilde;o das pessoas que estavam na pra&ccedil;a. Assim, tornou protagonistas os homens e mulheres que estavam diante dele, naquela pra&ccedil;a, e isso &eacute; muito interessante: o Papa n&atilde;o torna as pessoas passivas, mas torna-as ativas, din&acirc;micas, capazes de serem participantes nos acontecimentos. O Papa &eacute; um homem das redes sociais.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Deveria ser um exemplo para quem tem a miss&atilde;o de comunicar, n&atilde;o propor apenas ideias e discursos, mas ter tamb&eacute;m esta capacidade de escutar e de interagir? <\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; O Papa ultrapassou o conceito do p&uacute;lpito, da Igreja que &eacute; exclusivamente emissora de uma mensagem, que est&aacute; a pregar do p&uacute;lpito, de maneira distante das pessoas. N&atilde;o, a sua forma de comunicar &eacute; o t&iacute;pico das redes sociais, ainda que o Papa n&atilde;o tenha nenhum contacto com as tecnologias. A quest&atilde;o &eacute; que ele vive de forma espont&acirc;nea e natural este modo de comunicar e este foi sempre assim, mesmo como arcebispo de Buenos Aires.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Podemos falar de forma mais espec&iacute;fica sobre a exist&ecirc;ncia de uma conta do Papa Francisco no Twitter. &Eacute; um verdadeiro caso de sucesso. Como se entende que algu&eacute;m que n&atilde;o interage com outras contas consiga ser seguido por 9 milh&otilde;es de pessoas e repetido por tanta gente? Como se explica?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; O Papa quando comunica, comunica com total espontaneidade e imediatez. Por isso, a sua mensagem &eacute; acolhida, comentada, retweetada. Ent&atilde;o, o facto de que o Papa esteja tamb&eacute;m nas redes sociais, de forma particular no Twitter, com a sua mensagem tem este significado: torn&aacute;-la dispon&iacute;vel para a partilha comigo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Regressando ao tema da ciberteologia, daquilo que o trouxe a Portugal: nas suas confer&ecirc;ncias n&atilde;o h&aacute; s&oacute; cat&oacute;licos, com certeza, n&atilde;o h&aacute; s&oacute; membros da hierarquia. As pessoas ficam surpreendidas com este conceito de Teologia no mundo digital e com a introdu&ccedil;&atilde;o na Teologia dos novos conceitos que o mundo digital trouxe? <\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; Bem, devo dizer que h&aacute; por certo conceitos que talvez sejam novos, mas tudo somado n&atilde;o diria que h&aacute; algo radicalmente novo. N&oacute;s deixamo-nos impressionar pela tecnologia, vendo que as m&aacute;quinas funcionam bem, que nos espantam pela sua qualidade, ficando profundamente impressionados por isso.<\/p>\n<p>Na verdade, dever&iacute;amos questionar-nos sobre quais as necessidades a que tudo isto responde: indagando bem, as necessidades do homem s&atilde;o sempre as mesmas dos antigos, ou seja, a necessidade de conhecer a realidade, a necessidade de relacionar-se com o outro. No fundo, o ambiente digital responde a estas necessidades: rela&ccedil;&atilde;o, conhecimento, comunica&ccedil;&atilde;o. S&atilde;o necessidades que o homem sempre teve.<\/p>\n<p>Por isso, diria que dever&iacute;amos ser menos tocados pelo aspeto tecnol&oacute;gico e dever&iacute;amos, pelo contr&aacute;rio, ficar mais impressionados pela import&acirc;ncia que estas necessidades que o homem sempre teve ainda hoje t&ecirc;m.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Para a linguagem teol&oacute;gica, n&atilde;o basta esta parte t&eacute;cnica, uma tecnofilia, n&atilde;o &eacute; suficiente.<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; N&atilde;o, de forma alguma. &Eacute; preciso que n&atilde;o nos deixemos enganar, deste ponto de vista, &eacute; preciso perceber o que leva o homem a agir. No fundo, o grande preconceito que temos, talvez o tenhamos vivido sempre e sobretudo no s&eacute;culo passado, foi o de separar a espiritualidade do homem da sua elabora&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica.<\/p>\n<p>Na realidade, a tecnologia &eacute; uma forma de espiritualidade, isto &eacute;, exprime necessidades espirituais do homem, &eacute; um facto no qual atua a liberdade, o bem e o mal. Ficamos impressionados pelo uso terr&iacute;vel da tecnologia na II Guerra Mundial, da bomba, substancialmente. Ficamos impressionados com este uso negativo e consideramos a tecnologia como algo frio, distante, desumano. Mas na verdade n&atilde;o &eacute; assim, porque a tecnologia tem um papel importante no projeto de Deus para a humanidade.<\/p>\n<p>No fundo, a verdadeira pergunta da ciberteologia &eacute; muito simples: qual &eacute; o projeto de Deus na internet, isto &eacute;, qual &eacute; o significado no plano de Deus para a humanidade.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Coloco uma quest&atilde;o hipot&eacute;tica: ainda que n&atilde;o nos devamos centrar apenas na tecnologia, &eacute; poss&iacute;vel pensar que um dia essa tecnologia seja uma extens&atilde;o do humano, n&atilde;o s&oacute; do ponto de vista externo, mas tamb&eacute;m implantada ou noutras dimens&otilde;es. Que desafios pode trazer &agrave; Teologia esta fus&atilde;o da tecnologia no humano?<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; Vejamos, &eacute; preciso perceber, discernir sobre o concreto, n&atilde;o se podem fazer discursos demasiado abstratos, porque como dizia antes, o campo da tecnologia &eacute; o campo da liberdade, no qual o homem pode agir bem ou mal e isto deriva sempre da sua espiritualidade. Onde n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel o mal, n&atilde;o h&aacute; sequer liberdade.<\/p>\n<p>O facto de ser poss&iacute;vel agir mal significa que h&aacute; verdadeiramente um campo de escolha, o campo da liberdade. Temos de estar muito atentos a isto, porque &eacute; preciso salvaguardar a humanidade do homem: n&atilde;o &eacute; idolatrar a tecnologia, mas perceber como e se a elabora&ccedil;&atilde;o tecnol&oacute;gica do homem responde &agrave; sua voca&ccedil;&atilde;o do seu esp&iacute;rito. Aqui entra em fun&ccedil;&atilde;o, se quisermos, o discurso moral, do meu ponto de vista a Teologia Espiritual.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &#8211; Para n&atilde;o se perder esta dimens&atilde;o que vai para l&aacute; da mundanidade, digamos&hellip;<\/em><\/p>\n<p>PA &nbsp;&nbsp;&ndash; Esta &eacute; a quest&atilde;o: &eacute; preciso ter em conta n&atilde;o s&oacute; a liberdade de fazer o bem e o mal mas tamb&eacute;m a capacidade de o homem exprimir os valores mais profundos da sua humanidade. A tecnologia pode ser uma grande aliada.<\/p>\n<p>De facto, Bento XVI, na sua mensagem para o Dia Mundial das Comunica&ccedil;&otilde;es Sociais de h&aacute; dois anos, disse com toda a clareza que a tecnologia pode ajudar o homem a satisfazer o seu desejo de sentido. Mas Paulo VI, em 1964, falamos de um mundo, verdadeiramente um outro mundo, disse que o c&eacute;rebro mec&acirc;nico pode ir em aux&iacute;lio do c&eacute;rebro espiritual. Ou seja, o computador, o c&eacute;rebro mec&acirc;nico vai ajudar o c&eacute;rebro espiritual do homem que se exprime no pensamento, na linguagem.<\/p>\n<p>A Igreja, na realidade, sempre percebeu a conex&atilde;o profunda, vital, entre tecnologia e espiritualidade, somos n&oacute;s que temos dificuldades para viv&ecirc;-la a fundo.<\/p>\n<p><em>OC<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jesu\u00edta italiano Antonio Spadaro, autor da primeira entrevista de fundo ao Papa, fala sobre o exemplo de Francisco e as mudan\u00e7as em curso na reflex\u00e3o teol\u00f3gica por causa da internet<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[120,168,199,274,294],"class_list":["post-62763","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-bento-xvi","tag-diocese-da-guarda","tag-espiritualidade","tag-papa-francisco","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62763","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=62763"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/62763\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=62763"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=62763"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=62763"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}