{"id":62581,"date":"2013-09-20T10:52:10","date_gmt":"2013-09-20T10:52:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/09\/20\/pais-superficialmente-democratico-vai-a-eleicoes\/"},"modified":"2013-09-20T10:52:10","modified_gmt":"2013-09-20T10:52:10","slug":"pais-superficialmente-democratico-vai-a-eleicoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/pais-superficialmente-democratico-vai-a-eleicoes\/","title":{"rendered":"Pa\u00eds superficialmente democr\u00e1tico vai a elei\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Miguel Sardica \u00e9 historiador, professor associado e diretor da Faculdade de Ci\u00eancias Humanas da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa. Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, aborda a rela\u00e7\u00e3o entre os c\u00edrculos pol\u00edticos e a sociedade civil <!--more--> <\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia ECCLESIA (AE) &ndash; As pr&oacute;ximas elei&ccedil;&otilde;es aut&aacute;rquicas podem ser vistas como uma oportunidade para aferir da sa&uacute;de da nossa democracia?<\/em><\/p>\n<p><em>Jos&eacute; Miguel Sardica (JMS) &ndash;<\/em> Estas s&atilde;o elei&ccedil;&otilde;es especiais, n&atilde;o s&atilde;o para o poder central, onde a escolha &eacute; muito mais local e est&aacute; muito mais ligada a discursos e interesses locais. Por outro lado, vivemos num tempo de forte contra&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica, forte incerteza social, forte desorienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>Nesse contexto, o ciclo eleitoral dos anos mais pr&oacute;ximo vai ser condicionado pelo discurso pol&iacute;tico muito imediatista, porque &eacute; cada vez mais dif&iacute;cil fazer planos para o m&eacute;dio prazo e cada vez mais se vai atr&aacute;s do que as pessoas querem sentir dia a dia. Tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; f&aacute;cil fazer pol&iacute;tica no cen&aacute;rio macroecon&oacute;mico no qual nos encontramos, criar um discurso que seja mobilizador, apelativo, que d&ecirc; esperan&ccedil;a &agrave;s pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Esta mobiliza&ccedil;&atilde;o passa s&oacute; pelos partidos? A apresenta&ccedil;&atilde;o de candidaturas independentes pode ser um sinal de maior participa&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica?<\/em><\/p>\n<p><em>JMS &ndash;<\/em> Em todas as elei&ccedil;&otilde;es, sobretudo nas aut&aacute;rquicas, fala-se muito na abertura dos circuitos a independentes, &agrave; esfera civil. O problema em Portugal &eacute; que quando falamos em sociedade civil, fora do Estado, ela &eacute; historicamente escassa, por raz&otilde;es v&aacute;rias &ndash; de desenvolvimento econ&oacute;mico, de cultura c&iacute;vica, de alfabetiza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Quando se fala de abertura &agrave; sociedade civil, &agrave; mobiliza&ccedil;&atilde;o, &agrave; organiza&ccedil;&atilde;o de listas de cidad&atilde;os, tamb&eacute;m temos de distinguir aqui dois aspetos: em primeiro lugar, nas elei&ccedil;&otilde;es aut&aacute;rquicas, h&aacute; muitos falsos independentes &ndash; pol&iacute;ticos do regime, do sistema, que por qualquer raz&atilde;o pessoal se zangaram com a sua cor e se candidatam teoricamente como independentes, mas na pr&aacute;tica mobilizam recursos e apoios que tinham anteriormente.<\/p>\n<p>Verdadeiramente independentes temos, felizmente, algumas listas de associa&ccedil;&otilde;es c&iacute;vicas, de cidad&atilde;os, o problema &eacute; que n&atilde;o s&oacute; a mobiliza&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica fora dos circuitos pol&iacute;ticos n&atilde;o tem os mesmos meios mas tamb&eacute;m, muitas vezes, vemos a imprepara&ccedil;&atilde;o do discurso. Pergunto-me se algumas candidaturas independentes n&atilde;o s&atilde;o muito mais um desejo voyeurista de aparecer, durante 15 dias, para as pessoas falarem sobre essa lista do que um projeto pol&iacute;tico coerente, pensado.<\/p>\n<p>O monop&oacute;lio dos circuitos pol&iacute;ticos sobre as elei&ccedil;&otilde;es &eacute; um dado hist&oacute;rico, pelo que &eacute; dif&iacute;cil que seja feita a renova&ccedil;&atilde;o com independentes, com gente n&atilde;o ligada aos c&iacute;rculos j&aacute; existentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Esses dados ajudam a explicar alguma falta de entusiasmo da popula&ccedil;&atilde;o com a vida pol&iacute;tica, no distanciamento que se nota nas taxas de absten&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>JMS &ndash; <\/em>Em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica tende-se a interpretar a absten&ccedil;&atilde;o como sin&oacute;nimo de que as coisas est&atilde;o muito mal, com um fosso enorme entre eleitorado e quem o representa, ou&nbsp; &#8211; sobretudo em pa&iacute;ses no Norte da Europa &ndash; como um sinal de que as coisas est&atilde;o bem e as pessoas n&atilde;o sentem a motiva&ccedil;&atilde;o de se expressarem pelo voto.<\/p>\n<p>Em Portugal, a absten&ccedil;&atilde;o &eacute; um sintoma de qualquer coisa que n&atilde;o est&aacute; bem, basta pensarmos no enorme entusiasmo das primeiras elei&ccedil;&otilde;es dos anos 70 e 80 do s&eacute;culo passado, com taxas de mobiliza&ccedil;&atilde;o eleitoral na casa dos 80 por cento ou mais, nalguns casos.<\/p>\n<p>Acontece que a classe pol&iacute;tica no nosso pa&iacute;s &eacute; ex&iacute;gua, endog&acirc;mica &ndash; aquela express&atilde;o que n&oacute;s ouvimos, &lsquo;eles s&atilde;o sempre os mesmos&rsquo;. Desde logo, o &lsquo;eles&rsquo; mostra a alteridade, mostra que n&atilde;o somos &lsquo;n&oacute;s&rsquo;: de facto, se olharmos sociologicamente, a classe pol&iacute;tica em Portugal praticamente n&atilde;o mudou desde 1976. H&aacute; alguma renova&ccedil;&atilde;o et&aacute;ria, como &eacute; &oacute;bvio, mas a cultura, os h&aacute;bitos, a linguagem, a maneira de fazer pol&iacute;tica s&atilde;o mais ou menos as mesmas.<\/p>\n<p>Num pa&iacute;s onde as quest&otilde;es sociais s&atilde;o muito s&eacute;rias, as pessoas retrocedem para uma esp&eacute;cie de ego&iacute;smo, centrado nos seus interesses, e n&atilde;o pensam que o voto pode ser a manifesta&ccedil;&atilde;o coletiva de um sinal que obrigue os pol&iacute;ticos a pensar e a ouvir a voz que se expressa de <em>x<\/em> em <em>x<\/em> anos, atrav&eacute;s das urnas. H&aacute; uma esp&eacute;cie de opini&atilde;o p&uacute;blica inorg&acirc;nica que sente que as coisas est&atilde;o mal, mas n&atilde;o sente que o voto seja a solu&ccedil;&atilde;o para mudar, porque n&atilde;o v&ecirc; uma alternativa. Nas elei&ccedil;&otilde;es aut&aacute;rquicas &eacute; um misto de desinteresse pela pol&iacute;tica e in&eacute;rcia, dado que &eacute; muito f&aacute;cil as C&acirc;maras terem sempre a mesma a&ccedil;&atilde;o, nunca se pensou o tecido aut&aacute;rquico como um modelo de desenvolvimento integrado.<\/p>\n<p><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p><em>AE &ndash; O modelo aut&aacute;rquico tamb&eacute;m precisa de ser revisto, para potenciar o desenvolvimento do pa&iacute;s?<\/em><\/p>\n<p><em>JMS &ndash;<\/em> O poder aut&aacute;rquico &eacute; apontado, muitas vezes, como uma das grandes conquistas da revolu&ccedil;&atilde;o de 1974. Eu penso que sim, nos anos iniciais as C&acirc;maras tiveram uma genu&iacute;na import&acirc;ncia a n&iacute;vel local, sobretudo nas regi&otilde;es mais pobres, mais do Interior. Foram agentes de desenvolvimento local, de dinamiza&ccedil;&atilde;o c&iacute;vica, atuando localmente como vozes de um poder central que era novo.<\/p>\n<p>Nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, contudo, as C&acirc;maras deixaram de assumir o papel de intermedi&aacute;rias e passaram muito mais a reproduzir os v&iacute;cios do sistema pol&iacute;tico central junto das pessoas. Foram tamb&eacute;m a forma que os poderes pol&iacute;ticos numa Lisboa macroc&eacute;fala tiveram para se relacionar com um pa&iacute;s superficialmente democratizado.<\/p>\n<p>A democracia n&atilde;o resolveu um pa&iacute;s d&uacute;plice: iletrado, pobre e im&oacute;vel no Interior; letrado, urbano, mais &aacute;gil e aberto ao mundo no Litoral. O Estado Novo agravou essa separa&ccedil;&atilde;o, conscientemente, e a democracia ainda n&atilde;o resolveu isso: as elei&ccedil;&otilde;es ganham-se ao Centro, num milh&atilde;o, dois milh&otilde;es de eleitores urbanos da faixa que vai Minho at&eacute; Set&uacute;bal. Por isso, n&atilde;o se investe em introduzir no debate pol&iacute;tica, mobilizar, democratizar as outras pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Vemos nas campanhas aut&aacute;rquicas alguma mistura entre o discurso pol&iacute;tico e os s&iacute;mbolos religiosos, por exemplo. O que podem significar estes epis&oacute;dios?<\/em><\/p>\n<p><em>JMS &ndash;<\/em> O que n&oacute;s constatamos &eacute; que a Igreja, enquanto ingrediente, narrativa social, moral, &eacute;tica, pol&iacute;tica, etc., ainda tem uma enorme influ&ecirc;ncia em Portugal e, portanto, &eacute; tentador instrumentalizar a religi&atilde;o, a Igreja, quando o discurso pol&iacute;tico n&atilde;o consegue chegar &agrave;s pessoas, por si s&oacute;, para suscitar ades&atilde;o. O mesmo acontece com linguagens outras, quando o autarca oferece mais um est&aacute;dio, mais uma obra p&uacute;blica.<\/p>\n<p>Como &eacute; sabido, a liga&ccedil;&atilde;o entre Igreja e Estado foi sempre muito forte no pa&iacute;s, &agrave; exce&ccedil;&atilde;o de algumas &eacute;pocas hist&oacute;ricas de mais acentuada seculariza&ccedil;&atilde;o ou laicidade. Os pol&iacute;ticos perceberam que t&ecirc;m de contar com a Igreja, nem que seja neutralizando-a, n&atilde;o podem abrir uma guerra, porque ela tem &ndash; merc&ecirc; de uma continuada rede assistencial em zonas onde o desenvolvimento econ&oacute;mico levou mais tempo a chegar &ndash; uma grande influ&ecirc;ncia na modela&ccedil;&atilde;o de valores. Chega-se &agrave;s pessoas com quem j&aacute; l&aacute; est&aacute; e muitas vezes n&atilde;o &eacute; o desenvolvimento econ&oacute;mico, a escola p&uacute;blica, os pol&iacute;ticos em geral, mas &eacute; o padre, a obra da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; Do ponto de vista da rela&ccedil;&atilde;o dos portugueses com a vida pol&iacute;tica, vislumbra-se alguma possibilidade de mudan&ccedil;a?<\/em><\/p>\n<p><em>JMS &ndash;<\/em> Temo que as coisas evoluam para pior. N&atilde;o vale a pena anunciar aqui apocalipses nem caos, n&atilde;o acho que estejamos &agrave; beira de qualquer guerra civil ou revolu&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o &eacute; disso que se trata.<\/p>\n<p>Penso, no entanto, que se o cen&aacute;rio econ&oacute;mico se mantiver, se o discurso pol&iacute;tico continuar a ser este, se todos os dias a opini&atilde;o p&uacute;blica continuar a ser bombardeada com as intrigas, a incoer&ecirc;ncia, uma s&eacute;rie de exemplos muito pouco edificantes que temos tido da classe pol&iacute;tica em geral &#8211; independentemente da cor pol&iacute;tica -, com a dist&acirc;ncia, a displic&ecirc;ncia com que muitas quest&otilde;es sociais graves e que afetam a vida das pessoas s&atilde;o encaradas hoje em dia &ndash; na maneira como se atiram n&uacute;mero e se tra&ccedil;am metas macroecon&oacute;micas que s&atilde;o humanamente inconceb&iacute;veis -, s&oacute; se vai aprofundar o fosso que existe entre eleitorado e representantes. Independentemente de n&oacute;s como cidad&atilde;os nos revermos mais &agrave; esquerda ou &agrave; direita, h&aacute; valores que est&atilde;o acima disso.<\/p>\n<p>Um dia, podemos chegar a uma situa&ccedil;&atilde;o no m&iacute;nimo estranha que &eacute; a da absten&ccedil;&atilde;o ser superior a todos os outros votos. Um regime democr&aacute;tico cai por v&aacute;rias raz&otilde;es, como uma revolu&ccedil;&atilde;o, um golpe de Estado, mas tamb&eacute;m cai porque implode: todos os regimes em Portugal, nos s&eacute;culos XIX e XX, n&atilde;o ca&iacute;ram por grandes oposi&ccedil;&otilde;es, por grandes golpes de Estado, ca&iacute;ram porque o estado de degrada&ccedil;&atilde;o interna a que chegaram, o estado de incapacidade de autorreforma a que chegaram, tornou muito f&aacute;cil que uma pequena oposi&ccedil;&atilde;o superasse esse regime. Assim aconteceu em 1820, em 1910, em 1926 e em 1974: fa&ccedil;o votos, democrata que sou, que n&atilde;o aconte&ccedil;a qualquer coisa de muito s&eacute;ria a este regime pol&iacute;tico que temos. Ele depende de n&oacute;s, em boa parte, mas tamb&eacute;m &eacute; verdade que j&aacute; n&atilde;o depende de n&oacute;s em muitas coisas, porque o que se passa em Portugal &eacute; parte do que se passa na Europa em geral. Ter&iacute;amos por isso de falar sobre o discurso pol&iacute;tico europeu, sobre valores &eacute;tica, sobre o tipo de cidad&atilde;o europeu que sonhamos ter e ser nos pr&oacute;ximos 10, 15, 20 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Miguel Sardica \u00e9 historiador, professor associado e diretor da Faculdade de Ci\u00eancias Humanas da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa. 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