{"id":6168,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/a-missao-do-advogado-vista-pela-igreja\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"a-missao-do-advogado-vista-pela-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-missao-do-advogado-vista-pela-igreja\/","title":{"rendered":"A miss\u00e3o do Advogado vista pela Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Jos\u00e9 Policarpo, no Conselho Distrital da Ordem dos Advogados. <!--more--> Lisboa, 28 de Maio de 2004   1. O Evangelho e toda a doutrina crist\u00e3, visam a realiza\u00e7\u00e3o da pessoa humana, criada para ser feliz, respeitada na sua dignidade e nos seus direitos fundamentais, entre os quais avulta como perspectiva decisiva o respeito pela liberdade, considerada como capacidade de cada um ser protagonista da sua pr\u00f3pria felicidade. Mas o ide\u00e1rio crist\u00e3o aponta, igualmente, para a edifica\u00e7\u00e3o da harmonia da comunidade humana, de que a justi\u00e7a e a paz s\u00e3o dois pilares decisivos. \u00c9 certo que estes objectivos s\u00f3 ser\u00e3o plenamente alcan\u00e7ados na \u201cp\u00e1tria definitiva\u201d, a \u201cJerusal\u00e9m Celeste\u201d ou os \u201cnovos c\u00e9us e a nova terra\u201d, na linguagem da Sagrada Escritura. Mas, na perspectiva crist\u00e3, esta vis\u00e3o escatol\u00f3gica e \u201cmeta-hist\u00f3rica\u201d da perfei\u00e7\u00e3o humana, n\u00e3o nos dispensa de lutar, desde j\u00e1, pela perfei\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, no desenvolvimento da pessoa humana e na edifica\u00e7\u00e3o da harmonia da sociedade, alicer\u00e7ada sobre a justi\u00e7a e sobre a paz. A Igreja encontra o sentido de todas as profiss\u00f5es neste sentido nobre de servi\u00e7o, \u00e0 pessoa e \u00e0 comunidade humanas. Toda a compet\u00eancia \u00e9 vista como uma melhor forma de servir, o que sup\u00f5e dedica\u00e7\u00e3o abnegada \u00e0 causa do homem e da comunidade humana. \u00c9 neste quadro que a doutrina da Igreja aprecia a miss\u00e3o do Advogado, \u00e0 qual s\u00e3o feitas vastas refer\u00eancias no Magist\u00e9rio recente, que nem sequer referirei totalmente, por manifesta falta de tempo para levar mais longe uma pesquisa apenas iniciada. Mas os elementos de que disponho s\u00e3o suficientes para, aliados a algumas reflex\u00f5es pessoais, mostrarem o apre\u00e7o da Igreja por esta miss\u00e3o. Disso s\u00e3o testemunho dois discursos de Paulo VI aos membros do Conselho da Uni\u00e3o Internacional dos Advogados: \u201cA profiss\u00e3o que representais aqui \u00e9 daquelas que a Igreja olha com maior estima e respeito\u201d[1]. E ao receber o VIII Congresso Internacional dos Jovens Advogados, Paulo VI diz-lhes: \u201cAo receber-vos, quero honrar, nas vossas pessoas, a actividade espec\u00edfica e benem\u00e9rita que desenvolveis e, ao mesmo tempo, reafirmar as raz\u00f5es da estima e da considera\u00e7\u00e3o que a vossa profiss\u00e3o goza, aos olhos da Igreja, que pode orgulhar-se de antigas e nobil\u00edssimas tradi\u00e7\u00f5es\u201d[2]. 2. A etimologia latina da palavra advogado \u2013 \u201cad-vocare\u201d \u2013 significa ajudar, defendendo e chamando \u00e0 raz\u00e3o, isto \u00e9, conduzindo o outro \u00e0 verdade e \u00e0 sabedoria do discernimento. O Novo Testamento aplica-a ao pr\u00f3prio Cristo mas, sobretudo, ao Esp\u00edrito Santo. Ele \u00e9 a fonte da sabedoria, que conduz os homens no caminho da verdade e os fortalece para assumirem essa vontade de ju\u00edzo, sobre si mesmo, sobre os outros e sobre o mundo. Ele defende-nos, conduzindo-nos \u00e0 verdade, no amor pelos outros. O verdadeiro amor exige a verdade. O quadro hist\u00f3rico e cultural do exerc\u00edcio desta profiss\u00e3o situa-a, exactamente, nesse campo da ajuda fraterna, em momentos particularmente exigentes de discernimento, de assimila\u00e7\u00e3o da verdade e da responsabilidade. Ela significa, em si mesma, a afirma\u00e7\u00e3o da dignifica\u00e7\u00e3o da pessoa humana,  que precisa de ser ouvida e tem sempre uma palavra a dizer, que tem direito a defender-se, esclarecendo e contribuindo para um discernimento verdadeiro e justo. Bradam aos c\u00e9us os julgamentos em que o acusado n\u00e3o \u00e9 ouvido e escutado. Se ele n\u00e3o pode faz\u00ea-lo sozinho, pede ajuda a quem, com a compet\u00eancia do conhecimento e a experi\u00eancia do discernimento, o pode ajudar. Mas no apuramento da verdade em ordem a um julgamento, o que conta \u00e9 a palavra do que est\u00e1 a ser julgado, que pode ser pronunciada por quem o ajuda. Esta ajuda \u00e9 mais necess\u00e1ria no caso dos pobres, dos rejeitados da sociedade. Ou\u00e7amos o Papa Paulo VI, num outro discurso a advogados: \u201cA Igreja v\u00ea, antes de mais, no advogado, o homem que consagrou a sua exist\u00eancia a assistir aqueles que n\u00e3o est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de se defenderem a si mesmos. Como o mestre assiste o aluno e lhe abre os caminhos do saber, como o m\u00e9dico que assiste o doente e o cuida nas enfermidades corporais, assim o advogado assiste o cliente que precisa de ser guiado, aconselhado, defendido, no labirinto das rela\u00e7\u00f5es humanas. S\u00f3 esta finalidade, bem compreendida e praticada, bastaria para constituir um m\u00e9rito particular, a inscrever no activo desta profiss\u00e3o: porque ela eleva-se \u00e0 dignidade de um servi\u00e7o, de um verdadeiro e muito aut\u00eantico minist\u00e9rio da caridade\u201d[3]. Centrada na ajuda ao pr\u00f3ximo, para um crist\u00e3o esse servi\u00e7o do outro \u00e9 uma express\u00e3o do amor-caridade e, por conseguinte, um caminho de santidade. \u00c9 ainda o Papa Paulo VI quem o afirma em express\u00e3o ousada, no contexto da cultura contempor\u00e2nea. Prosseguindo esse ideal de servi\u00e7o, \u201csereis, n\u00e3o apenas, os servidores da verdade e da justi\u00e7a, mas tamb\u00e9m homens da bondade, da compreens\u00e3o e da miseric\u00f3rdia e, assim, o vosso servi\u00e7o transformar-se-\u00e1 e se elevar\u00e1 sempre mais, fazendo da vossa vida, um testemunho de benevol\u00eancia e da pr\u00f3pria justi\u00e7a de Deus\u201d[4]. 3. O advogado \u00e9 o homem do discernimento. A l\u00edngua francesa designa-o por \u201cMa\u00eetre\u201d, isto \u00e9, o homem da sabedoria, princ\u00edpio de todo o verdadeiro discernimento. E este sup\u00f5e, n\u00e3o apenas o apuramento da verdade dos factos, mas a busca do que eles significam, perante um quadro legal e perante o mist\u00e9rio de uma vida concreta, de uma hist\u00f3ria pessoal, do drama de uma liberdade. A prop\u00f3sito do primeiro aspecto, diz o Papa: \u201c\u00e9 claro que quando prestais aos vossos clientes a assist\u00eancia da vossa compet\u00eancia jur\u00eddica, este servi\u00e7o requer de v\u00f3s dotes n\u00e3o comuns e uma s\u00e9ria e cuidada prepara\u00e7\u00e3o. Trata-se, de facto, de aplicar as normas abstractas da lei aos casos concretos da vida humana, tendo em conta todas as circunst\u00e2ncias materiais e psicol\u00f3gicas, e de fazer brotar a verdade, a partir de testemunhos e de documentos, tantas vezes contradit\u00f3rios entre si. Trata-se de uma verdadeira arte, que sup\u00f5e rigor l\u00f3gico, uma vasta e profunda cultura, talento orat\u00f3rio, experi\u00eancia e capacidade para penetrar nos mais \u00edntimos e variados aspectos da vida do homem\u201d[5]. Ou seja, ao advogado n\u00e3o basta ser um perito em leis, \u00e9 preciso que seja um perito em humanidade. Esta arte do discernimento situa o advogado, n\u00e3o apenas no lugar de conselheiro, mas tamb\u00e9m de confidente, pois para al\u00e9m da verdade dos factos, ele tem de captar a verdade humana de cada situa\u00e7\u00e3o, o que o pode conduzir \u00e0 partilha de uma intimidade e de uma confidencialidade. Mais uma vez em compara\u00e7\u00e3o ousada, afirma Paulo VI: \u201cTalvez ningu\u00e9m, para al\u00e9m do sacerdote, conhe\u00e7a melhor que o advogado, a vida humana nos seus aspectos mais variados, mais dram\u00e1ticos, mais dolorosos, por vezes mais defeituosos, mas por vezes tamb\u00e9m os melhores\u201d[6]. E o mesmo Papa, sublinhando a import\u00e2ncia de um discernimento que tenha em conta o mist\u00e9rio da vida da pessoa, afirma: \u201cajudar\u00e1 recordar que todo o ordenamento jur\u00eddico, por mais perfeito que seja, nunca poder\u00e1 incluir nas suas formas restritas a imensa complexidade da realidade humana e social que procura regular. Por isso o advogado, embora mantendo-se fiel \u00e0 verdade e \u00e0s normas do direito positivo, alargar\u00e1 o seu olhar para al\u00e9m dos confins da lei escrita e da justi\u00e7a humana, para inspirar-se na justi\u00e7a divina, ideal de toda a perfei\u00e7\u00e3o, que Jesus, o nosso Redentor, resumiu no amor a Deus e ao pr\u00f3ximo\u201d[7]. Este aspecto da miss\u00e3o do advogado, enquanto confidente, que ajuda a um ju\u00edzo pessoal, independente do julgamento judicial, n\u00e3o se coaduna, facilmente, com a positividade das leis, que enunciam enquadramentos legais, mas dificilmente contemplam as circunst\u00e2ncias pessoais. E sem estas, a justi\u00e7a nunca ser\u00e1 completamente humana. As tradi\u00e7\u00f5es jur\u00eddicas que contemplam mais as tradi\u00e7\u00f5es culturais e os pr\u00f3prios costumes dos povos, est\u00e3o mais abertas a esse discernimento, n\u00e3o apenas legal, mas humano. Ao advogado n\u00e3o compete julgar, mas contribuir para o discernimento, que levar\u00e1 \u00e0 justi\u00e7a. Mas h\u00e1 um julgamento para o qual ele pode contribuir: o julgamento de consci\u00eancia que a pessoa faz de si mesma, independentemente do julgamento judicial que sobre ela ser\u00e1 pronunciado. E nada ajudar\u00e1 tanto \u00e0 paz interior, como o assumir a sua pr\u00f3pria verdade, na justi\u00e7a. Ao advogado n\u00e3o compete, apenas, livrar o seu cliente de uma condena\u00e7\u00e3o ou conseguir a atenua\u00e7\u00e3o da pena. \u00c9 sua fun\u00e7\u00e3o ajud\u00e1-lo a fazer um ju\u00edzo sobre si mesmo, baseado na verdade e na justi\u00e7a, e ajud\u00e1-lo a assumir a senten\u00e7a justa, num sentido de responsabilidade e de dignidade recuperada. 4. Homem do discernimento, o advogado deve procurar a verdade. N\u00e3o h\u00e1 verdadeira justi\u00e7a sem verdade. Ou\u00e7amos ainda Paulo VI: \u201c\u00e9 dever essencial da vossa profiss\u00e3o o culto da verdade, pressuposto fundamental para a manuten\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a. Dever este, particularmente respons\u00e1vel, no emprego dial\u00e9ctico e casu\u00edstico da legalidade, especialmente quando se trata de defender um acusado ou de mitigar, em favor do culpado, o rigor das leis\u201d[8]. No julgamento mais dram\u00e1tico e mais injusto da hist\u00f3ria da humanidade, o de Jesus Cristo, que se defende a Si mesmo, d\u00e1-se um confronto entre o acusado e o julgador, precisamente acerca da verdade. Jesus, \u00fanica testemunha a Seu pr\u00f3prio favor, diz: \u201cEu vim ao mundo apenas para testemunhar a verdade. Quem procura a verdade, escuta a Minha voz\u201d. Era exigir demais de Pilatos, um epicurista com uma perspectiva relativizante da verdade. E por isso responde-lhe: \u201cA verdade! Mas o que \u00e9 a verdade?\u201d (cf. Jo. 18,37-38).  Muitos julgadores humanos, mesmo no nosso tempo, se n\u00e3o perguntam \u201co que \u00e9 isso da verdade\u201d, pelo menos questionam-se \u201conde est\u00e1 a verdade\u201d, na certeza, que a experi\u00eancia confirma, que os caminhos que nos permitem chegar a ela s\u00e3o dial\u00e9cticos e, por vezes, tortuosos. O advogado para assistir, aconselhar, defender, tem de conhecer, o que lhe cria um dever de ser algu\u00e9m que procura afincadamente a verdade. S\u00e3o v\u00e1rias as frentes desta sua busca da verdade. Antes de mais, a verdade dos factos, para que o seu discernimento assente em terreno s\u00f3lido. Aqui a sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 complementar da investiga\u00e7\u00e3o policial e instrut\u00f3ria. O seu direito de a conhecer e acompanhar identifica-se com o direito da pessoa arguida ou acusada. A sua vis\u00e3o \u00e9, muitas vezes, complementar daquela, e \u00e9 importante para o discernimento que estabelecer\u00e1 a verdade dos factos. Sup\u00f5e a honestidade pessoal de n\u00e3o negar aquilo de que j\u00e1 est\u00e1 convencido, embora lhe seja leg\u00edtimo suscitar as d\u00favidas que possam levar a uma objectiva\u00e7\u00e3o da verdade. Esse suscitar da d\u00favida para chegar \u00e0 objectividade dos factos, n\u00e3o pode fazer do advogado um malabarista dos m\u00e9todos, mas algu\u00e9m que serve sempre e em tudo, a verdade. Neste apuramento da verdade dos factos ganha uma relev\u00e2ncia particular o acolhimento e a interpreta\u00e7\u00e3o dos testemunhos. Este \u00e9, na tradi\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a humana, um dos aspectos mais nobilitantes: o confiar nos testemunhos, para estabelecer a verdade. Esta atinge ent\u00e3o a dimens\u00e3o de rela\u00e7\u00e3o humana, em que a confian\u00e7a na palavra \u00e9 t\u00e3o importante como a verifica\u00e7\u00e3o. Mas sendo o aspecto mais nobre da administra\u00e7\u00e3o humana da justi\u00e7a \u00e9, tantas vezes o mais aviltado. Porque num testemunho acerca de algu\u00e9m a subjectividade de toda a rela\u00e7\u00e3o humana pode toldar a objectividade; mas sobretudo porque a pr\u00e1tica de testemunhos falsos ou incompletos leva a desacreditar o pr\u00f3prio testemunho. Na an\u00e1lise dos testemunhos, a fun\u00e7\u00e3o do advogado deve ser a de denunciar poss\u00edveis testemunhos falsos, corrigir os incompletos, apurar a objectividade para al\u00e9m da subjectividade, mas sempre na busca da clareza e da verdade. Depois da verdade dos factos, o advogado deve procurar a verdade das leis. A\u00ed est\u00e1 em quest\u00e3o a sua compet\u00eancia e seriedade profissional, o que sup\u00f5e um aturado esfor\u00e7o de estudo e de informa\u00e7\u00e3o, em ordem ao estabelecimento, o mais completo poss\u00edvel, do quadro legal em que se enquadram os factos e a realidade humana. \u00c0 busca da verdade dos factos e da lei, o advogado acrescenta a busca da compreens\u00e3o da verdade pessoal. Trata-se de conhecer e compreender a pessoa, situando factos concretos no conjunto de uma vida. Reconstruir a confian\u00e7a \u00e9, por vezes, um longo caminho, de que o advogado tem de ser capaz e mostrar-se digno dele, na medida em que esse reconstruir da confian\u00e7a \u00e9 j\u00e1 elemento da recupera\u00e7\u00e3o da pessoa, aspecto que a justi\u00e7a nunca pode menosprezar. Tudo isto traz \u00e0 miss\u00e3o do advogado uma forte componente de rela\u00e7\u00f5es humanas. 5. O advogado como homem da palavra. \u00c9 um aspecto proverbial na compreens\u00e3o popular do advogado: \u00e9 aquele que fala muito e bem, que fala de maneira a convencer. O Santo Padre Paulo VI, nos seus discursos aos advogados, n\u00e3o esquece este aspecto. Diz ele: \u201cSe o advogado procura conhecer a verdade, n\u00e3o \u00e9 para a guardar de modo avaro; \u00e9 para a divulgar e tornar conhecida. Ele \u00e9, por excel\u00eancia, o homem da palavra. O abuso que se faz da linguagem, n\u00e3o \u00e9, \u00e0 sua maneira, uma homenagem que se presta \u00e0 sua sublime fun\u00e7\u00e3o? Que poder tem a palavra para persuadir, para comover, para levar ao assentimento! Mas que responsabilidade tamb\u00e9m para aquele que se deixasse levar a p\u00f4r este maravilhoso instrumento ao servi\u00e7o das paix\u00f5es humanas\u201d[9]. Falar bem \u00e9 uma arte, que sup\u00f5e a beleza da forma e a autenticidade das emo\u00e7\u00f5es. Mas o poder convincente da palavra s\u00f3 lhe vem da verdade que ela serve e transmite. Como j\u00e1 sugeria Santo Agostinho, o que usa a palavra para convencer da verdade e apontar os caminhos da justi\u00e7a, tem que juntar o Verbo e a palavra. O Verbo \u00e9 a verdade interior a comunicar atrav\u00e9s da beleza da palavra. Nenhuma beleza formal do discurso esconde o vazio da mensagem, a ligeireza da superficialidade ou a trai\u00e7\u00e3o da mentira. 6. O contributo do advogado para a ordem jur\u00eddica internacional. At\u00e9 aqui situ\u00e1mos a miss\u00e3o do advogado quase exclusivamente no \u00e2mbito das suas rela\u00e7\u00f5es com o seu cliente ou constituinte. Mas h\u00e1 uma fun\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria importante, quer em plano nacional, quer internacional, para o qual o contributo dos advogados, pode ser relevante: o aperfei\u00e7oamento da ordem jur\u00eddica, quer no que \u00e0 administra\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a diz respeito, quer no estabelecer uma ordem jur\u00eddica internacional, de respeito pelos direito humanos e de promo\u00e7\u00e3o de valores que promovam a justi\u00e7a e levem \u00e0 paz. E neste \u00e2mbito ganha particular relev\u00e2ncia o contributo, n\u00e3o apenas dos advogados individualmente, mas das associa\u00e7\u00f5es de advogados. \u00c9 ali\u00e1s a essas que se dirigem os discursos do Papa que tenho vindo a citar. \u00c0 Uni\u00e3o Internacional dos Advogados, Paulo VI depois de ter sublinhado o esfor\u00e7o na busca da verdade e da constru\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, acrescenta: \u201cQuanto mais este ideal se concretizar em factos, mais progredir\u00e3o, assim o esperamos, o sentido do direito, o respeito pelos outros, a compreens\u00e3o e a conc\u00f3rdia entre os homens e os povos. E a este respeito not\u00e1mos, com interesse, os projectos de novos estatutos da vossa Uni\u00e3o e a preocupa\u00e7\u00e3o que tendes de contribuir para o estabelecimento de uma ordem jur\u00eddica internacional fundada sobre o princ\u00edpio da justi\u00e7a entre as na\u00e7\u00f5es, pelo direito e para a paz. \u00c9 um excelente prop\u00f3sito para cuja realiza\u00e7\u00e3o a Igreja se esfor\u00e7a, por seu lado, para dar o contributo que lhe \u00e9 poss\u00edvel\u201d[10]. E a um grupo de advogados japoneses o Papa diz: \u201cTendes uma tarefa verdadeiramente urgente para a manuten\u00e7\u00e3o da harmonia entre os indiv\u00edduos, os grupos e as na\u00e7\u00f5es: trata-se da defesa dos direitos humanos. Estamos certos do vosso respeito por esses direitos, e esperamos que possais contribuir para implementar o respeito por esses direitos em todos os n\u00edveis da sociedade\u201d[11]. Todos estamos conscientes de que esta \u00e9 uma batalha nunca definitivamente vencida. Parece mesmo que o momento presente da cena internacional anuncia um retrocesso neste respeito pelos direitos humanos e pela dignidade da pessoa humana. Trata-se, sem d\u00favida, do progresso e do aperfei\u00e7oamento da ordem jur\u00eddica internacional; mas trata-se, tamb\u00e9m, de contribuir para uma cultura em que a pessoa humana ocupe o lugar central que lhe compete. E em ambas as frentes o vosso contributo pode ser importante para que em todas as lutas, o vencedor seja sempre o homem, na sua dignidade. V\u00f3s fazeis a ponte entre os cidad\u00e3os e as estruturas do Estado democr\u00e1tico, e sendo homens de Leis, tendes de ser homens e mulheres de cultura, profundamente empenhados numa muta\u00e7\u00e3o cultural de onde possa emergir uma cultura da justi\u00e7a e da paz. V\u00f3s tendes um contributo espec\u00edfico a dar a esta cultura do direito, pilar central de uma cultura de justi\u00e7a: a s\u00edntese expont\u00e2nea que a vossa voca\u00e7\u00e3o proporciona entre a ci\u00eancia jur\u00eddica e a realidade humana, onde a ci\u00eancia precisa da sabedoria para brilhar com todo o seu esplendor. \u00c9 uma honra para a vossa profiss\u00e3o contar advogados entre os grandes defensores da justi\u00e7a e da dignidade humana, sobretudo em sistemas e culturas onde essa ordem \u00e9 dificultada ou contraditada. Alguns n\u00e3o hesitam em sofrer pessoalmente nessa luta por uma nova ordem da justi\u00e7a e da dignidade. 7. Isto leva-me a tocar o \u00faltimo aspecto desta breve e incompleta vis\u00e3o da Igreja sobre a dignidade e a import\u00e2ncia da vossa profiss\u00e3o: as suas exig\u00eancias \u00e9ticas. Quem est\u00e1 ao servi\u00e7o da dignidade e defesa da pessoa humana, promovendo a verdade e a justi\u00e7a, tem de se deixar guiar por objectivos de moralidade e princ\u00edpios \u00e9ticos que marcam as verdadeiras balizas de qualquer luta. Ou\u00e7amos mais uma vez Paulo VI: \u201cO talento n\u00e3o pode ser uma qualidade suficiente para uma profiss\u00e3o que exige continuamente a firme e honesta tutela do justo e do verdadeiro. Se a justi\u00e7a \u201comnium est domina et regina virtutum\u201d, como j\u00e1 a concebeu a sabedoria pag\u00e3 (cita C\u00edcero), a vossa actividade dever\u00e1 ser caracterizada por um ass\u00edduo e vigilante compromisso moral e dever\u00e1 inspirar-se continuamente naqueles princ\u00edpios \u00e9ticos, que encontram na ordem objectiva da lei divina, natural e positiva, mas tamb\u00e9m na consci\u00eancia subjectiva, a sua consist\u00eancia o que confere \u00e0 norma jur\u00eddica, para al\u00e9m da sua \u201cratio iuris\u201d, a sua estabilidade e o seu valor social\u201d[12]. Toda a exig\u00eancia \u00e9tica promove o respeito pela dignidade da pessoa humana e a promo\u00e7\u00e3o de uma ordem social digna do homem; toda a ordem moral interpela e conduz ao servi\u00e7o e ao amor. \u00c9 isso que levou o Santo Padre a dizer-vos que \u201csois, n\u00e3o apenas servidores da verdade e da justi\u00e7a, mas tamb\u00e9m homens da bondade, da compreens\u00e3o e da miseric\u00f3rdia, de modo a que o vosso servi\u00e7o se transforme e se eleve sempre mais, fazendo da vossa vida, o testemunho da benevol\u00eancia e da pr\u00f3pria justi\u00e7a de Deus\u201d[13]. Esta \u00faltima afirma\u00e7\u00e3o indica-nos que a exig\u00eancia \u00e9tica de t\u00e3o nobre miss\u00e3o \u00e9 o princ\u00edpio inspirador de uma convers\u00e3o cont\u00ednua. Ser advogado pode ser um ideal.  \u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca   &#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8211;   [1] Doc. Catholique Intern. (1965), p. 978  [2] Paulo VI, Insegnamenti, vol. VIII, p. 911  [3] Paulo VI, Doc. Cath. Intern. pp. 978-979  [4] Paulo VI, Insegnamenti, vol. VIII, pp. 913  [5] Ibidem, p. 912  [6] Paulo VI, Doc. Cath. Intern., p. 979  [7] Paulo VI, Insegnamenti, vol. VIII, p. 912  [8] Ibidem  [9] Paulo VI, Doc. Cath. Intern., p. 979  [10] Ibidem, p. 980  [11] Paulo VI, Insegnamenti, vol. X, p. 660  [12] Ibidem, vol. VIII, p. 912  [13] Ibidem, p. 913 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia de D. Jos\u00e9 Policarpo, no Conselho Distrital da Ordem dos Advogados.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[295,161,168,189],"class_list":["post-6168","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-biblia","tag-d-jose-policarpo","tag-diocese-da-guarda","tag-direitos-humanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6168","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=6168"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/6168\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=6168"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=6168"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=6168"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}