{"id":60643,"date":"2013-04-04T11:16:23","date_gmt":"2013-04-04T11:16:23","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/04\/04\/antonio-vieira-obra-completa-chega-aos-leitores\/"},"modified":"2013-04-04T11:16:23","modified_gmt":"2013-04-04T11:16:23","slug":"antonio-vieira-obra-completa-chega-aos-leitores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/antonio-vieira-obra-completa-chega-aos-leitores\/","title":{"rendered":"Ant\u00f3nio Vieira: Obra Completa chega aos leitores"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Franco, historiador e um dos coordenadores da edi\u00e7\u00e3o, aponta a atualidade dos escritos do sacerdote jesu\u00edta do s\u00e9culo XVII <!--more--> <\/p>\n<p>&laquo;Vieira global&raquo; &eacute; o projeto que, depois de 15 tentativas em 150 anos, publica a Obra completa do padre Ant&oacute;nio Vieira. S&atilde;o 30 livros que at&eacute; 2014 n&atilde;o querem deixar esquecer o jesu&iacute;ta que no s&eacute;culo XVII sonhou Portugal e a sua rela&ccedil;&atilde;o com a Europa e o mundo e n&atilde;o teve medo de enfrentar a sociedade, a realeza e a Igreja.<\/p>\n<p>Jos&eacute; Eduardo Franco, historiador e um dos coordenadores da edi&ccedil;&atilde;o, com Pedro Calafate, aponta a atualidade dos escritos do padre Ant&oacute;nio Vieira que nos dias hoje n&atilde;o teria medo de ir para a rua cantar a m&uacute;sica &laquo;Gr&acirc;ndola Vila Morena&raquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia (AE) &#8211; A publica&ccedil;&atilde;o da obra completa do padre Ant&oacute;nio Vieira &eacute; apresentada no contexto dos 405 anos de nascimento, mas n&atilde;o podemos passar ao lado da situa&ccedil;&atilde;o que Portugal atravessa. Podemos entender alguns recados de Vieira para a sociedade que vivemos?<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jos&eacute; Eduardo Franco (JEF) &#8211; Sem d&uacute;vida. Vieira tem muito a dizer ao nosso Portugal e &agrave; sociedade portuguesa. Ele &eacute; um autor anticrise, um homem que acreditou e fez acreditar que Portugal &eacute; poss&iacute;vel, que valia a pena e que o esfor&ccedil;o e dedica&ccedil;&atilde;o dos portugueses e da p&aacute;tria seria recompensado numa altura tamb&eacute;m de severa crise, mais at&eacute; da crise que vivemos porque n&atilde;o havia na altura as condi&ccedil;&otilde;es que encontramos hoje.<\/p>\n<p>&Eacute; um autor que na sua escrita mostrou uma grande preocupa&ccedil;&atilde;o social. Criticou fortemente as estruturas de corrup&ccedil;&atilde;o, a in&eacute;rcia e a falta de empreendedorismo pol&iacute;tico e social, a forma como se escolhiam os cargos para o governo. Ele tem uma frase interessant&iacute;ssima onde dizia que o problema da nossa corte e do nosso rei &eacute; que procura homens grandes para o governo em casas grandes e muitas vezes os homens grandes est&atilde;o em casas pequenas. Outra frase diz que a verdadeira fidalguia est&aacute; na a&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Vieira falava em m&eacute;rito por compet&ecirc;ncia e n&atilde;o por heran&ccedil;a para o exerc&iacute;cio de cargos pol&iacute;ticos, garantindo a qualidade dos dirigentes. Ao mesmo tempo criticou fortemente as desigualdades sociais, as formas de opress&atilde;o, a escravatura. Chegou inclusivamente a ser amea&ccedil;ado de morte por ter afrontado os coloniais e criticado a forma pouco crist&atilde; e desumana dos que garantiam o sustento de Portugal. Ele chegou a comparar as chagas de Cristo aos maltratos que a massa grande de escravos sofria. &Eacute; uma forma de dignifica&ccedil;&atilde;o e igualdade entre todos os homens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Falar da atualidade de Vieira &eacute; por isso redundante&#8230; <\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; Sem d&uacute;vida. O padre Ant&oacute;nio Vieira com o seu pensamento e cr&iacute;tica social ajuda a criar em Portugal uma consci&ecirc;ncia percursora do que ser&atilde;o no s&eacute;culo XVIII os direitos humanos. A cr&iacute;tica &agrave; escravatura, &agrave; discrimina&ccedil;&atilde;o dos judeus, entre crist&atilde;os novos e crist&atilde;os velhos, a cr&iacute;tica a todos os sistemas de desigualdade e opress&atilde;o s&atilde;o exemplos disso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Olhando para o que fomos, segundo os relatos de Vieira, e para o que somos, a sociedade portuguesa est&aacute; preparada para a democratiza&ccedil;&atilde;o dos seus escritos?<\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; Com esta publica&ccedil;&atilde;o pretendemos democratizar Vieira. Defendemos que os bens culturais n&atilde;o devem ser reservados &agrave;s elites mas devem estar acess&iacute;veis para todos. Vieira deve ser lido e saboreado. Por isso estamos a preparar uma obra atualizada, pass&iacute;vel de ser lida pelo grande p&uacute;blico com notas explicativas para ajudar na sua compreens&atilde;o.<\/p>\n<p>A fome de cultura &eacute; a raiz de todas as fomes e um pa&iacute;s menos culto &eacute; um pa&iacute;s mais fr&aacute;gil e mais manipul&aacute;vel que estar&aacute; menos preparado espiritualmente e intelectualmente para enfrentar os desafios futuros e projetar a vida.<\/p>\n<p>A cultura &eacute; um bem essencial apesar de muitos assim n&atilde;o entenderem. Portugal tem um patrim&oacute;nio cultural extraordin&aacute;rio que muitas vezes &eacute; ignorado e desconsiderado. As institui&ccedil;&otilde;es acad&eacute;micas e culturais em geral t&ecirc;m o dever de oferecer cultura &agrave;s pessoas e estas devem criar uma consci&ecirc;ncia nova e perceber que precisam de aceder aos bens culturais, sabore&aacute;-los, conhec&ecirc;-los e interioriza-los para que se possam desenvolver. N&atilde;o se mede o desenvolvimento de um povo pelas autoestradas ou telem&oacute;veis. Se percorrermos a Europa, nos grandes pa&iacute;ses as pessoas leem no metro, as bibliotecas est&atilde;o cheias&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Tamb&eacute;m est&atilde;o abertas para al&eacute;m dos hor&aacute;rios normais de expediente&hellip;<\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; Apostam fortemente na cultura porque os seus governantes consideram-na importante. A longo prazo &eacute; um bem que pode ser lucrativo.<\/p>\n<p>Em Portugal existe este terr&iacute;vel problema que &eacute; tornar a cultura o parente pobre do or&ccedil;amento de Estado e em tempo de crise &eacute; o parente miser&aacute;vel.<\/p>\n<p>Editar esta obra &eacute; chamar a aten&ccedil;&atilde;o e sensibilizar os nossos governantes e as pessoas em geral para a import&acirc;ncia da cultura e nas suas diferentes express&otilde;es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; O Padre Ant&oacute;nio Vieira cantaria hoje a m&uacute;sica &laquo;Gr&acirc;ndola Vila Morena&raquo;?<\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; Nos tempos complexos em que vivemos de grave crise, de uma desorienta&ccedil;&atilde;o governativa, de incerteza sobre o futuro, o padre Ant&oacute;nio Vieira teria uma forte interven&ccedil;&atilde;o e seria um cr&iacute;tico severo de muitas pr&aacute;ticas que correm e s&atilde;o inaceit&aacute;veis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; N&atilde;o s&oacute; as cr&iacute;ticas ao Estado, mas tamb&eacute;m &agrave; Igreja&hellip;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>JEF &#8211; Os serm&otilde;es do Vieira n&atilde;o poupavam ningu&eacute;m. Ele entendia que devia denunciar e criticar o que estava mal. Tanto criticou bispos e Papas, como reis e pr&iacute;ncipes e na sua cara, sem receio.<\/p>\n<p>Os grandes homens e her&oacute;is sempre tiveram um estatuto prof&eacute;tico de denunciar o que estava mal e apontar caminhos de renova&ccedil;&atilde;o. Ele f&ecirc;-lo ao Estado, &agrave; Igreja e &agrave; sociedade. Por isso a sua voz foi prof&eacute;tica no seu tempo e ainda o &eacute;. Por estes motivos Vieira &eacute; considerado por pessoas de v&aacute;rios quadrantes com uma extraordin&aacute;ria e bomb&aacute;stica atualidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Que plano t&ecirc;m para a edi&ccedil;&atilde;o da Obra Completa?<\/em><\/p>\n<p>JEF &ndash; A obra completa vai dividir-se em quatro tomos &ndash; cada tomo corresponde a um g&eacute;nero liter&aacute;rio: Epistolografia, Paren&eacute;tica (onde se incluem os Serm&otilde;es), Prof&eacute;tica (os escritos sobre o futuro de Portugal, da Europa e do Mundo), Varia (cartas e pareceres e onde se inclui uma parte menos conhecida de Vieira que &eacute; a poesia e o teatro).<\/p>\n<p>A edi&ccedil;&atilde;o vai ser feita em conjuntos de tr&ecirc;s volumes a cada dois meses. Nos primeiros tr&ecirc;s quisemos publicar a Cl&aacute;vis que v&aacute;rias vezes teve tentativas de publica&ccedil;&atilde;o, tanto no Brasil como em Portugal, mas por alguma raz&atilde;o nunca se publicava.<\/p>\n<p>H&aacute; partes do Vieira que estavam mesmo embargadas e que agora publicamos na totalidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Foram mais de meia d&uacute;zia de tentativas para publicar a obra de Vieira&hellip; <\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; Desde 1851 registei mais de 15 tentativas. H&aacute; v&aacute;rios projetos come&ccedil;ados quer por iniciativas de acad&eacute;micos, de editores ou institui&ccedil;&otilde;es de natureza v&aacute;ria em Portugal, no Brasil, na Alemanha, na Holanda, em It&aacute;lia, no M&eacute;xico e tamb&eacute;m nos Estados Unidos da Am&eacute;rica onde h&aacute; grupos de estudiosos do padre Ant&oacute;nio Vieira.<\/p>\n<p>Na Europa entende-se. Holanda, Fran&ccedil;a e It&aacute;lia foram pa&iacute;ses que Vieira visitou diplomaticamente e onde estabeleceu rela&ccedil;&otilde;es. Existem tamb&eacute;m estudiosos da l&iacute;ngua e cultura portuguesa que ao debru&ccedil;arem-se pela &eacute;poca moderna encontraram a figura de Vieira e ele &eacute; um gigante &ndash; quando o encontramos n&atilde;o podemos passar por cima.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Porque &eacute; que desta vez se vai terminar a publica&ccedil;&atilde;o da obra?<\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; A obra do padre Ant&oacute;nio Vieira &eacute; colossal. Muitos autores escreveram, mas ele, um autor do s&eacute;culo XVII, teve fortuna de a sua obra ter sobrevivido a terramotos, a inc&ecirc;ndios ou a naufr&aacute;gios.<\/p>\n<p>Encontrava-se manuscrita em condi&ccedil;&otilde;es dif&iacute;ceis e muito dispersa em bibliotecas e arquivos. &nbsp;Por isso constitu&iacute;mos uma equipa luso brasileira com grandes especialistas formados em ci&ecirc;ncias liter&aacute;rias, paleografia, latim, hist&oacute;ria, teologia, filosofia, direito. Para al&eacute;m de uma equipa de especialistas &eacute; tamb&eacute;m preciso uma equipa permanente de investigadores &ndash; temos trabalhado com quase 20 investigadores &ndash; que sabem latim e paleografia, disciplinas n&atilde;o muito abundantes nas nossas universidades e que est&atilde;o a trabalhar a tempo inteiro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Uma equipa mais portuguesa ou mais brasileira?<\/em><\/p>\n<p>&Eacute; mais portuguesa porque a iniciativa desta vez foi portuguesa. A lideran&ccedil;a e o conceito da obra &eacute; toda portuguesa, naturalmente que em di&aacute;logo com os convidados brasileiros que integram a equipa.<\/p>\n<p>O padre Ant&oacute;nio Vieira teve a sorte de criar em torno da sua obra aquilo que eu chamo um pequeno ex&eacute;rcito de especialistas de v&aacute;rias &aacute;reas, n&atilde;o s&oacute; admiradores como de estudiosos. Desde os anos 60 muitas teses e estudos acad&eacute;micos e livros foram produzidos e neste momento n&atilde;o faltam especialistas. &Eacute; preciso &eacute; congreg&aacute;-los, p&ocirc;-los a dialogar e que aceitem trabalhar em equipa.<\/p>\n<p>Num di&aacute;logo longo, que se estendeu por v&aacute;rios anos, conseguimos unir essa equipa. Mas faltava um financiamento consistente para que, de forma planificada, estabelec&ecirc;ssemos um calend&aacute;rio que nos permitisse publicar em tempo &uacute;til. Faltava um terceiro elemento: uma editora que se abalan&ccedil;asse a publicar a obra toda. N&atilde;o &eacute; f&aacute;cil num ano de crise como o nosso editar a obra completa do padre Ant&oacute;nio Vieira apesar de ser um imperador da l&iacute;ngua portuguesa.<\/p>\n<p>Desde 2000 que ando com este projeto e s&oacute; no final de 2011\/2012 &eacute; que se criaram condi&ccedil;&otilde;es. Come&ccedil;&aacute;mos com poucos apoios, migalhas, e no final do ano passado eu pensei que o projeto ca&iacute;sse por terra. Mas a Santa Casa da Miseric&oacute;rdia de Lisboa, atrav&eacute;s do provedor Pedro Santana Lopes, foi sens&iacute;vel ao projeto e percebeu que para se fazer de forma total era necess&aacute;rio um financiamento suficiente. Da&iacute; que foi prometido um financiamento faseado &agrave; medida que formos fazendo o projeto e a apresenta&ccedil;&atilde;o de resultados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Quando &eacute; que preveem ter o projeto conclu&iacute;do?<\/em><\/p>\n<p>O projeto intitula-se &laquo;Vieira global&raquo; e tem tr&ecirc;s fases. O financiamento que est&aacute; prometido garante a equipa de investiga&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o chega para pagar aos especialistas.<\/p>\n<p>At&eacute; ao final de 2014 publicaremos os 30 volumes, ou seja, a totalidade da obra o que do ponto de vista da hist&oacute;ria da edi&ccedil;&atilde;o em Portugal ser&aacute; o maior projeto desta natureza. &Eacute; colossal fazer isto mas estamos empenhados.<\/p>\n<p>Na segunda fase vamos preparar um dicion&aacute;rio multim&eacute;dia impresso e on line dirigido &agrave;s escolas e universidades para que o seu pensamento e a sua obra e continuar a formar o escrever e falar bem portugu&ecirc;s. Na terceira fase pretendemos construir uma seleta, de 300 a 400 p&aacute;ginas dos melhores textos de Vieira e public&aacute;-los em dez l&iacute;nguas &ndash; desde o mandarim, ao ingl&ecirc;s, italiano, russo, espanhol, alem&atilde;o. H&aacute; tradutores, falta o financiamento.<\/p>\n<p>Queremos internacionalizar o que de melhor temos na nossa cultura e literatura. Os lus&oacute;fonos s&atilde;o diligentes em importar o que os pensadores e escritores fazem l&aacute; fora mas somos relaxados em exportar o que &eacute; nosso. Se temos uma literatura que &eacute; muito admirada por quem estuda a l&iacute;ngua portuguesa e se fosse traduzido tamb&eacute;m poderia ser admirado por aqueles que nem a nossa l&iacute;ngua conhecem.<\/p>\n<p>O objetivo &eacute; exportar o melhor pensamento e a melhor literatura produzida no s&eacute;culo XVII.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; H&aacute; leitores no Portugal e no Brasil para a obra do padre Ant&oacute;nio Vieira?<\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; Sem d&uacute;vida. Vai haver uma primeira edi&ccedil;&atilde;o de 10 mil exemplares da cole&ccedil;&atilde;o dos 30 volumes. Eu estudo o Vieira desde 1994. Publiquei quatro livros e percebi que todas as publica&ccedil;&otilde;es, sejam livros ou ensaios, suscitam sempre interesse.<\/p>\n<p>Vieira n&atilde;o &eacute; um autor f&aacute;cil mas as pessoas t&ecirc;m ideia de que &eacute; um grande autor. O primeiro a reconhecer foi Fernando Pessoa, mas Saramago disse que na sua cabeceira tinha Vieira e que esporadicamente gostava de o ler para se banhar e inspirar na sua escrita.<\/p>\n<p>O que &eacute; extraordin&aacute;rio no padre Ant&oacute;nio Vieira, para al&eacute;m de escritor not&aacute;vel, foi o facto de ter elevado a l&iacute;ngua portuguesa a uma perfei&ccedil;&atilde;o nunca antes vista. Muitos escritores lus&oacute;fonos do s&eacute;culo XX afirmam Vieira como uma escola de arte de bem dizer e escrever portugu&ecirc;s. Por isso acredito que n&atilde;o s&oacute; do ponto de vista da escrita da l&iacute;ngua, ele tem um pensamento de grande atualidade.<\/p>\n<p>Vieira &eacute; uma figura anticrise e por isso &eacute; interessante publicar o padre Ant&oacute;nio Vieira em altura de crise. Ele viveu num tempo e teve uma interven&ccedil;&atilde;o poderosa no contexto da restaura&ccedil;&atilde;o portuguesa. Ele &eacute; uma figura sedutora e extraordin&aacute;ria daquele tempo.<\/p>\n<p>N&atilde;o faltavam pregadores naquele tempo povoado de ordens religiosas onde qualquer um queria ter o estatuto mais elevado e ser pregador do rei. Vieira prega e encanta, mas n&atilde;o se fica no seu estatuto. Revela-se empreendedor e apoio o rei e o Estado quando Portugal se debateu com as sucessivas invas&otilde;es de Espanha e com as tentativas da chamada pot&ecirc;ncias emergentes de ficar com o imp&eacute;rio ultramarino.<\/p>\n<p>Vieira atrav&eacute;s da sua palavra e dos projetos de reforma econ&oacute;mica e social, das suas viagens a Fran&ccedil;a e Holanda tenta estabelecer alian&ccedil;as e fazer vingar o reconhecimento de Portugal, trazendo ideias novas das viagens que faz pela Europa.<\/p>\n<p>&Eacute; um homem que interv&eacute;m e prop&otilde;e reformas importantes e tenta, mesmo atrav&eacute;s dos seus projetos ut&oacute;picos para Portugal e para o mundo, refor&ccedil;ar a vontade coletiva acreditando e fazendo acreditar que Portugal era poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Essas carater&iacute;sticas est&atilde;o presentes em toda a escrita de Vieira ou a poesia e o teatro, facetas menos conhecidas, revelam outras tend&ecirc;ncias?<\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; O pensamento ut&oacute;pico e o projeto de cidadania no futuro que Vieira apresentou nas suas obras idealizando um mundo novo, uma Europa nova, uma cristandade unida onde Portugal seria o l&iacute;der desse mundo novo est&aacute; presente em toda a obra, no entanto ela est&aacute; mais presente no que &eacute; o g&eacute;nero liter&aacute;rio prof&eacute;tico, apesar de presentes nos serm&otilde;es e nas cartas.<\/p>\n<p>Na cole&ccedil;&atilde;o temos aquilo que eu considero ser a obra menos conhecida de Vieira e desconhecida para muitos especialistas que s&atilde;o a produ&ccedil;&atilde;o po&eacute;tica e dramat&uacute;rgica que se encontrava dispersa e manuscrita. Assim fechamos de forma perfeita o ramalhete.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; E h&aacute; a certeza de que n&atilde;o haver&aacute; outros manuscritos de Vieira?<\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; Como dizemos na introdu&ccedil;&atilde;o geral, esta obra ser&aacute; completa at&eacute; ao momento em que o investigador encontrar um documento novo, certificado com o selo de Vieira que n&atilde;o se encontre nesta obra.<\/p>\n<p>Mas isso acontece com todas as obras. N&oacute;s publicamo-la como completa fazendo o que costumamos fazer: percorrendo as bibliotecas, arquivos onde suspeitamos que h&aacute; escritos de Vieira ou atribu&iacute;dos a ele. Contact&aacute;mos investigadores, t&iacute;nhamos muitos estudos feitos com ind&iacute;cios para fazer um mapa de investiga&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Podemos dizer que o que vamos publicar &eacute; o que sabemos que existe do Vieira. Sabemos que h&aacute; dois ou tr&ecirc;s manuscritos que escreveu, um estudo exeg&eacute;tico sobre o C&acirc;ntico dos C&acirc;nticos, uma arte de pregar. Muitos estudiosos j&aacute; procuraram esses escritos no s&eacute;culo XIX mas acredita-se que essas obras se perderam.<\/p>\n<p>O padre Ant&oacute;nio Vieira &eacute; um s&iacute;mbolo da cultura luso-brasileira, n&atilde;o s&oacute; portuguesa.<\/p>\n<p>Por isso &eacute; significativo que a equipa seja luso-brasileira. Eu considero que Vieira &eacute; uma figura ponte entre Portugal e o Brasil, pois nos dois pa&iacute;ses ele &eacute; uma figura fundante da nossa literatura. Por isso nos aproxima e une a hist&oacute;ria das culturas e do melhor pensamento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &#8211; Como especialista nos escritos do padre Ant&oacute;nio Vieira, qual a vertente dele que mais aprecia?<\/em><\/p>\n<p>JEF &#8211; Entre estudiosos h&aacute; uma anedota que diz que Vieira &eacute; como a cacha&ccedil;a: quando se olha para ele pela primeira vez, como na escola, diz-se &laquo;que horror, chato e pesado&raquo;. De facto &eacute; pesado, mas depois de entrar ganha-se gosto e n&atilde;o se deixa mais porque ficamos viciados.<\/p>\n<p>Eu gosto de Vieira no seu todo. Comecei por fazer uma tese acad&eacute;mica sobre o pensamento ut&oacute;pico e de facto sou fascinado porque ele pensou um mundo novo e projetou o mundo com uma vis&atilde;o extraordin&aacute;ria &ndash; um mundo ecum&eacute;nico, fraterno, onde os direitos humanos seriam praticados. Ele foi o percursor de uma consci&ecirc;ncia dos direitos humanos que o s&eacute;culo XVIII viria a consagrar.<\/p>\n<p>Foi pelos serm&otilde;es que ele ficou conhecido mas o pr&oacute;prio Vieira considerava a obra prof&eacute;tica a sua obra magna. Ele pensou Portugal e a sua rela&ccedil;&atilde;o com a Europa e com o mundo e numa humanidade nova, a cidadania do futuro. Nos escritos prof&eacute;ticos o padre Ant&oacute;nio Vieira abra&ccedil;a a humanidade toda e aqui revela-se um pensador universal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A entrevista ao historiador Jos&eacute; Eduardo Franco foi realizada em parceria com o jornal Di&aacute;rio de Not&iacute;cias.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Franco, historiador e um dos coordenadores da edi\u00e7\u00e3o, aponta a atualidade dos escritos do sacerdote jesu\u00edta do s\u00e9culo XVII<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[122,189,203],"class_list":["post-60643","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-entrevistas","tag-brasil","tag-direitos-humanos","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60643","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60643"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60643\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60643"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60643"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60643"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}