{"id":60639,"date":"2013-04-03T16:15:21","date_gmt":"2013-04-03T16:15:21","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/04\/03\/vieira-global\/"},"modified":"2013-04-03T16:15:21","modified_gmt":"2013-04-03T16:15:21","slug":"vieira-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/vieira-global\/","title":{"rendered":"Vieira Global"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Franco, investigador <!--more--> <\/p>\n<p>O Padre Ant&oacute;nio Vieira tem sido, nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, alvo de um renovado interesse da parte de estudiosos de v&aacute;rias &aacute;reas disciplinares, que v&ecirc;m engrossando, em Portugal, no Brasil e em universidades de outros pa&iacute;ses onde se ensina e investiga a l&iacute;ngua portuguesa, aquilo que podemos designar o pequeno ex&eacute;rcito de especialistas vieirinos.<\/p>\n<p>A realiza&ccedil;&atilde;o, no espa&ccedil;o de uma d&eacute;cada, de dois centen&aacute;rios de Vieira muito comemorados, os 300 anos da morte em 1997 e os 400 anos do nascimento em 2008, tiraram definitivamente este autor de um certa secundariza&ccedil;&atilde;o de que tinha sido objeto durante os &uacute;ltimos s&eacute;culos da sua rece&ccedil;&atilde;o, v&iacute;tima de pol&eacute;micas e leituras ideologicamente condicionadas.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m o facto de nunca se ter publicado a obra de Vieira na sua totalidade e a falta de oferta editorial da grande parte dos seus escritos t&ecirc;m dificultado os estudos vieirinos em perspectiva mais abrangente e de modo a motivar an&aacute;lises de conjunto fundadas no seu legado escrito.<\/p>\n<p>Apesar desta limita&ccedil;&atilde;o que projetos recentes est&atilde;o a tentar colmatar, diversos estudos inovadores entretanto realizados t&ecirc;m sido de grande import&acirc;ncia para a recupera&ccedil;&atilde;o e valoriza&ccedil;&atilde;o do patrim&oacute;nio imaterial que constitui a obra de Viera para al&eacute;m da muito revisitada e estudada paren&eacute;tica. Na verdade, Vieira ficou mais conhecido e foi acima de tudo celebrado pela sua orat&oacute;ria, tanto nas retumbantes prega&ccedil;&otilde;es que fez nas tribunas barrocas do seu tempo, como no legado escrito que deixou atrav&eacute;s dos seus serm&otilde;es escritos. Tendo elevado atrav&eacute;s do verbo falado e escrito a l&iacute;ngua portuguesa a um aperfei&ccedil;oamento nunca visto no plano da prosa, de tal modo que muitos escritores modernos e contempor&acirc;neos lhe reconheceram m&eacute;rito inigual&aacute;vel de afinamento da l&iacute;ngua e de inspira&ccedil;&atilde;o para a escrita em portugu&ecirc;s, n&atilde;o s&atilde;o menos relevantes&nbsp; as suas preocupa&ccedil;&otilde;es e interven&ccedil;&otilde;es em favor da reforma da sociedade, da pol&iacute;tica e da economia portuguesa, come&ccedil;ando pela mentalidade vigente obstrutiva de progressos novos, necess&aacute;rios e urgentes.<\/p>\n<p>Os diagn&oacute;sticos cr&iacute;ticos que operou e as propostas reformistas que apresentou, apesar de n&atilde;o terem encontrado no seu tempo grande aceita&ccedil;&atilde;o nem resultados, mantiveram-se v&aacute;lidas nos s&eacute;culos seguintes, vindo a ser lembradas por figuras como D. Lu&iacute;s da Cunha no s&eacute;culo XVIII e concretizadas por pol&iacute;ticos como o Marqu&ecirc;s de Pombal, apesar de n&atilde;o lhe reconhecer a paternidade devido ao preconceito antijesu&iacute;tico que passou a guiar toda a pol&iacute;tica pombalina desde o Terramoto de Lisboa de 1755.<\/p>\n<p>Vieira afrontou criticamente a sociedade do tempo com uma ousadia pouco vulgar. P&ocirc;s em causa uma sociedade de privil&eacute;gios e de regalias heredit&aacute;rias, defendendo que a &ldquo;verdadeira fidalguia est&aacute; na a&ccedil;&atilde;o&rdquo;; considerou pouco crist&atilde; uma sociedade que segregava e diferenciava os crist&atilde;os-novos dos crist&atilde;o-velhos e apoiava um tribunal religioso, ou seja, a Inquisi&ccedil;&atilde;o que perseguia e matava; advogou o regresso dos hebreus expulsos, elite que tinha contribu&iacute;do para erguer o Portugal universal dos descobrimentos; imaginou e anunciou um mundo novo a que chamou Quinto Imp&eacute;rio, onde caberiam judeus, &iacute;ndios e outros povos, ra&ccedil;as e culturas com uma vis&atilde;o integradora que antecipa ide&aacute;rios do ecumenismo religioso contempor&acirc;neo; criticou os excessos dos colonos brancos no uso da m&atilde;o de obra esclavagista no Brasil e apresentou propostas de legisla&ccedil;&atilde;o que minorasse esta chaga do projeto colonial portugu&ecirc;s, defendendo a dignidade os escravos como seres humanos de pleno direito.<\/p>\n<p>Vieira foi um mission&aacute;rio, um cr&iacute;tico social, um homem de di&aacute;logo enquanto diplomata, um reformista pol&iacute;tico e um anunciador de uma utopia de um mundo melhor como solu&ccedil;&atilde;o global para os problemas graves do mundo do seu tempo. No entanto, como profeta de um mundo melhor, projetando transforma&ccedil;&otilde;es importantes na humanidade futura, n&atilde;o deixou de ter os p&eacute;s assentes na terra e revelar-se um grande estratega pol&iacute;tico e social. Os seus aparentes del&iacute;rios ut&oacute;picos, em nome dos quais acusado e incompreendido, como bem aponto Eduardo Louren&ccedil;o tinham mais um sentido de refor&ccedil;o, de &ldquo;sobrecompensa&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica&rdquo; do &acirc;nimo coletivo do povo portugu&ecirc;s do que seriam sonhos distra&iacute;dos da realidade.<\/p>\n<p>No terreno movedi&ccedil;o da milit&acirc;ncia pol&iacute;tica onde se quis empenhar ao servi&ccedil;o do seu rei e do seu reino revelou vis&atilde;o, m&eacute;rito e posi&ccedil;&otilde;es corajosas, mas tamb&eacute;m a&iacute; experimentou o drama das contradi&ccedil;&otilde;es e multiplicou os inimigos que lhe seria implac&aacute;veis.<\/p>\n<p>Vieira revelou-se, ao longo da sua dedica&ccedil;&atilde;o ao servi&ccedil;o de Portugal e do Rei Restaurador D. Jo&atilde;o IV, um homem com grande sentido de realismo pol&iacute;tico. Um das suas grandes preocupa&ccedil;&otilde;es abundantemente expressas nos seus escritos era precisamente a angaria&ccedil;&atilde;o e multiplica&ccedil;&atilde;o de recursos materiais para garantir o sucesso do independ&ecirc;ncia de Portugal reconquistada a Espanha, assim como a recupera&ccedil;&atilde;o e afirma&ccedil;&atilde;o do seu&nbsp; imp&eacute;rio colonial contra as ambi&ccedil;&otilde;es imperialistas das novas pot&ecirc;ncias europeias emergentes, particularmente a holandesa.<\/p>\n<p>As interven&ccedil;&otilde;es, as propostas, os projetos e pareceres do Pregador de D. Jo&atilde;o IV, o mais famoso jesu&iacute;ta portugu&ecirc;s do s&eacute;culo XVII a quem Fernando Pessoa chamou de &ldquo;Imperador da L&iacute;ngua Portuguesa&rdquo;, t&ecirc;m implica&ccedil;&otilde;es e conte&uacute;do pol&iacute;ticos e econ&oacute;micos que merecem estudo no contexto do Portugal, do Brasil e do mundo do seu tempo.<\/p>\n<p>Este ano, o leitor amante da cultura, da cria&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria, da ci&ecirc;ncia e da beleza come&ccedil;ar&aacute; a&nbsp; dispor, finalmente, da obra toda de um dos maiores e mais proficientes oradores e escritores da L&iacute;ngua Portuguesa de todos os tempos. O C&iacute;rculo de Leitores e a Universidade de Lisboa est&atilde;o a disponibilizar para o grande p&uacute;bico os escritos totais daquele que inspirou Fernando Pessoa a considerar que &ldquo;a minha p&aacute;tria &eacute; a l&iacute;ngua portuguesa&rdquo;.<\/p>\n<p><em>Jos&eacute; Eduardo Franco<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Eduardo Franco, investigador<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[122,191,192],"class_list":["post-60639","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-brasil","tag-economia","tag-ecumenismo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60639","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60639"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60639\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60639"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60639"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60639"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}