{"id":60590,"date":"2013-03-29T18:26:22","date_gmt":"2013-03-29T18:26:22","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/03\/29\/porque-a-verdade-da-cruz-e-a-verdade-do-mundo\/"},"modified":"2013-03-29T18:26:22","modified_gmt":"2013-03-29T18:26:22","slug":"porque-a-verdade-da-cruz-e-a-verdade-do-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/porque-a-verdade-da-cruz-e-a-verdade-do-mundo\/","title":{"rendered":"Porque a verdade da cruz \u00e9 a verdade do mundo"},"content":{"rendered":"<p>Homilia na Paix\u00e3o do Senhor de D. Manuel Clemente <!--more--> <\/p>\n<p>&laquo;Disse-Lhe Pilatos: &ldquo;Ent&atilde;o, tu &eacute;s rei?&rdquo;. Jesus respondeu-lhe: &ldquo;&Eacute; como dizes: sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que &eacute; da verdade escuta a minha voz&rdquo;. Disse-Lhe Pilatos: &ldquo;Que &eacute; a verdade?&rdquo;&raquo;<\/p>\n<p>Irm&atilde;os e amigos, nesta hora que vivemos e celebramos, tais palavras entre Pilatos e Jesus, trazem-nos o fundamental do que nos explica aqui. Nelas podemos encontrar a raz&atilde;o de, dois mil&eacute;nios depois, a narra&ccedil;&atilde;o evang&eacute;lica se manter t&atilde;o viva e incisiva, traduzindo em tantas l&iacute;nguas do mundo o essencial do que o mundo h&aacute; de saber.<\/p>\n<p>Para Pilatos, a quest&atilde;o seria meramente pol&iacute;tica, sen&atilde;o policial, coisa de ordem p&uacute;blica e seguran&ccedil;a romana. Um &ldquo;rei&rdquo; em Israel podia fazer concorr&ecirc;ncia a Roma, inadmiss&iacute;vel concorr&ecirc;ncia. Para mais, a fam&iacute;lia de Herodes j&aacute; era realeza local que bastasse e at&eacute; onde o imperador permitisse, ou seja, pouco ou nada.<\/p>\n<p>Pilatos podia j&aacute; ter ouvido falar da esperan&ccedil;a messi&acirc;nica, e que, de tempos a tempos, apareciam candidatos ao t&iacute;tulo. Nada que Roma n&atilde;o pudesse dominar, mas sempre um inc&oacute;modo a evitar. Por isso quis saber se Jesus se considerava &ldquo;rei&rdquo;.<\/p>\n<p>O que decerto n&atilde;o esperava o governador romano era a resposta de Jesus, remetendo-lhe a pergunta confirmada: &laquo;&Eacute; como dizes: sou rei&raquo;. At&eacute; porque o esclarecimento continuava: &laquo;Para isso nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que &eacute; da verdade escuta a minha voz&raquo;.<\/p>\n<p>A subst&acirc;ncia do reino de Jesus &eacute; a verdade que encerra, n&atilde;o precisando doutra justifica&ccedil;&atilde;o, apologia ou ajuda. Vale por si, aut&ecirc;ntica. A subst&acirc;ncia do imp&eacute;rio de Roma era alguma, sobretudo na ordem pol&iacute;tica, militar e jur&iacute;dica. Mas sempre pelo sistema, menos pelos imperantes, ainda que arvorados em deuses. Verdade &agrave; parte, nenhum hesitaria em impor a sua vontade. E Pilatos era, na circunst&acirc;ncia, o rosto fugaz dessa mesma imposi&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>N&atilde;o estamos aqui por sua causa, muito pelo contr&aacute;rio. Ou melhor, estamos pelo contraste entre uma pseudo-verdade exterior e imposta e a verdade l&iacute;mpida e aut&ecirc;ntica com que Jesus respondia ali.<\/p>\n<p>Esta sim, atrai-nos h&aacute; s&eacute;culos, como atrair&aacute; por outros tantos e enquanto o mundo for mundo. Cada um de n&oacute;s confirma, precisamente ao estar aqui, a defini&ccedil;&atilde;o que Jesus d&aacute; do seu reino, t&atilde;o incisiva e simples como isto: &laquo;Todo aquele que &eacute; da verdade escuta a minha voz&raquo;.<\/p>\n<p>Escut&aacute;mo-la n&oacute;s, entre tantas vozes e mais forte que elas todas. For&ccedil;a do reino de Cristo, for&ccedil;a da convic&ccedil;&atilde;o que induz. N&atilde;o o trocar&iacute;amos por nada, como Ele n&atilde;o nos trocou por coisa alguma. E dessa coincid&ecirc;ncia de entregas brota e rebrilha a verdade de Jesus.<\/p>\n<p>Quando Pilatos abreviou o di&aacute;logo, com aquele &laquo;Que &eacute; a verdade?&raquo;, que displicentemente lhe saiu, manifestou o que era e ainda mais o que desistia de ser e de saber. Deixava assim de encontrar, pois quem n&atilde;o procura n&atilde;o encontra; e quem algo encontra, mas deixa de procurar, rapidamente perde o que encontrou.<\/p>\n<p>Da parte de Jesus a resposta &eacute; total, assim sendo a defini&ccedil;&atilde;o de verdade: &laquo;Todo aquele que &eacute; da verdade escuta a minha voz&raquo;. Deduz-se que a verdade n&atilde;o &eacute; propriamente um objeto, mesmo que se possa objetivar aqui e ali, como que assinalando alguma consist&ecirc;ncia j&aacute;. A nossa pr&oacute;pria consist&ecirc;ncia, quando permitimos que a de Jesus nos fortale&ccedil;a e transforme.<\/p>\n<p>Jesus n&atilde;o mencionava uma verdade que lhe fosse estranha, mas em si pr&oacute;prio oferecia a verdade de tudo, na liga&ccedil;&atilde;o que mantinha com Deus, connosco e com as coisas.<\/p>\n<p>Creio ser por isso que os Evangelhos n&atilde;o abundam em defini&ccedil;&otilde;es essencialistas de Deus e da verdade divina. Surpreendem-nos, isso sim, com os reiterados convites de Jesus a que o sigamos, o olhemos bem, o escutemos melhor, o imitemos na pr&aacute;tica. Integra-nos na sua vida, mais do que lhe define os contornos, que ali&aacute;s se alargam sempre, mais e mais.<\/p>\n<p>Aos primeiros disc&iacute;pulos n&atilde;o dirigiu grandes explica&ccedil;&otilde;es, mas sim fortes convites: A dois que lhe perguntavam onde &ldquo;morava&rdquo; &ndash; maneira judaica de traduzir um &ldquo;como te defines&rdquo;, mais hel&eacute;nico &#8211; retorquiu pura e simplesmente: &laquo;Vinde e vereis!&raquo; (Jo 1, 38-39). A outros dois, que lan&ccedil;avam as redes ao mar, disse-lhes sem mais: &laquo;Vinde comigo e eu farei de v&oacute;s pescadores de homens!&raquo; (Mt 4, 19). Estes e outros foram, aprenderam e ensinaram a verdade de Jesus, como a escutamos hoje.<\/p>\n<p>Nem sempre encontrou igual correspond&ecirc;ncia. Ao jovem rico, que ali&aacute;s manifestara algum interesse em alcan&ccedil;ar a &ldquo;vida eterna&rdquo;, Jesus prop&ocirc;s: &laquo;Se queres ser perfeito, vai, vende o que tens, d&aacute; o dinheiro aos pobres e ter&aacute;s um tesouro no C&eacute;u; depois, vem e segue-me&raquo;. Mas a rea&ccedil;&atilde;o foi negativa: &laquo;Ao ouvir isto, o jovem retirou-se contristado, porque possu&iacute;a muitos bens&raquo; (Mt 19, 21-22). Ficou-lhe a verdade por cumprir.<\/p>\n<p>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os e irm&atilde;s: J&aacute; de seguida, ser-nos-&aacute; apresentada a cruz do Senhor, &uacute;nico sinal que a Igreja contempla neste dia, representa&ccedil;&atilde;o perfeita da sua pr&oacute;pria verdade, enquanto vida entregue, por n&oacute;s e para n&oacute;s. E caminharemos para ela, incluindo-nos no imenso cortejo que pelo mundo fora se abeira da Paix&atilde;o do Senhor.<\/p>\n<p>Vede o contraste com a atitude de Pilatos: A Jesus, j&aacute; maltratado, que lhe dava testemunho da verdade, respondeu daquele modo, afastado e desistente. Dois mil&eacute;nios depois, correspondemos n&oacute;s com a nossa vinda aqui, pois naquela vida entregue reconhecemos a verdade de um Deus que nos procura, qual pastor que &laquo;tendo perdido uma ovelha, vai &agrave; procura dela at&eacute; a encontrar&raquo; (cf. Lc 15, 4).<\/p>\n<p>Encontrou-nos na cruz do mundo &ndash; deste nosso mundo t&atilde;o dilacerado por agud&iacute;ssimos conflitos, exteriores e interiores a todos e cada um &ndash; e nela mesma nos acompanhou e acompanha, nos salvou e salva.<\/p>\n<p>&Eacute; esta a verdade que Pilatos n&atilde;o quis aprender, mas n&oacute;s sim. Sendo verdade vivida, teremos de a aprofundar constantemente na cruz continuada onde igualmente se oferece, nas exist&ecirc;ncias pobres e sofridas de tantas pessoas em que Jesus nos espera.<\/p>\n<p>Por isso, celebrar a Paix&atilde;o &eacute; o p&oacute;rtico indispens&aacute;vel da P&aacute;scoa, da P&aacute;scoa de todos os dias, em tempo verdadeiramente pascal e muito al&eacute;m do calend&aacute;rio lit&uacute;rgico. A celebra&ccedil;&atilde;o da Paix&atilde;o do Senhor espera-nos depois nas nossas casas, naqueles de quem nos aproximarmos ou nos procurem, em tudo o que precise de ser salvo pela verdade da Cruz, que tanto adoramos como transportamos, por n&oacute;s e pelos outros.<\/p>\n<p>A verdade da cruz &eacute; a verdade do mundo, que s&oacute; nela se salva e resplandece.<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente<br \/>S&eacute; do Porto, 29 de mar&ccedil;o de 2013<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia na Paix\u00e3o do Senhor de D. Manuel Clemente<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[187],"class_list":["post-60590","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-do-porto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60590"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60590\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}