{"id":60589,"date":"2013-03-29T14:19:00","date_gmt":"2013-03-29T14:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/03\/29\/rendamo-nos-de-vez-a-humildade-de-deus\/"},"modified":"2013-03-29T14:19:00","modified_gmt":"2013-03-29T14:19:00","slug":"rendamo-nos-de-vez-a-humildade-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/rendamo-nos-de-vez-a-humildade-de-deus\/","title":{"rendered":"\u00abRendamo-nos de vez \u00e0 humildade de Deus\u00bb"},"content":{"rendered":"<p>Homilia da Missa da Ceia do Senhor do bispo do Porto <!--more--> <\/p>\n<p>Ouvimos na primeira leitura, tirada do livro do &Ecirc;xodo, esta ordem de Deus ao seu povo, prestes a libert&aacute;-lo do cativeiro eg&iacute;pcio: &laquo;Procure cada qual um cordeiro por fam&iacute;lia [&hellip;]. Recolher&atilde;o o seu sangue, que ser&aacute; espalhado nos dois umbrais e na padieira da porta das casas em que o comerem. [&hellip;] Quando o comerdes, tereis os rins cingidos, sand&aacute;lias nos p&eacute;s e cajado na m&atilde;o. Comereis a toda a pressa: &eacute; a P&aacute;scoa do Senhor. Nessa mesma noite, passarei pela terra do Egito [&hellip;]. Ao ver o sangue, passarei adiante, e n&atilde;o sereis atingidos pelo flagelo exterminador [&hellip;]. Esse dia ser&aacute; para v&oacute;s uma data memor&aacute;vel&raquo;.<\/p>\n<p>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os, aqui reunidos na Missa da Ceia do Senhor, inaugurando o tr&iacute;duo pascal de 2013: Como acabei de referir, trata-se de 2013, o que nos transporta ao s&eacute;culo XXI crist&atilde;o, somado aos doze ou treze em que fora o tempo de Mois&eacute;s e a primeira P&aacute;scoa referida&hellip; &Eacute; caso para justamente nos interrogarmos sobre o porqu&ecirc; desta leitura, feita agora e no diferent&iacute;ssimo contexto em que vivemos.<\/p>\n<p>A resposta come&ccedil;a a ser dada pela nossa presen&ccedil;a aqui. O texto lido e ouvido, fala-nos certamente da liberta&ccedil;&atilde;o do Egito. Mas a mem&oacute;ria guardada pelos nossos antepassados do primeiro testamento, &eacute; base indispens&aacute;vel para a que ganh&aacute;mos em Cristo, &laquo;Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo&raquo;.<\/p>\n<p>Indispens&aacute;vel, sim, requerendo medita&ccedil;&atilde;o mais compassada. Retomemos os pontos essenciais: um povo submetido a opress&atilde;o; Deus, que n&atilde;o o queria assim e suscitara em Mois&eacute;s a coopera&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel para libertar os seus irm&atilde;os; um Egito que n&atilde;o os queria deixar partir; um cordeiro que se devia comer em fam&iacute;lia e cujo sangue assinalaria as suas casas, resguardando-os quando o Senhor passasse; e tudo com urg&ecirc;ncia e grande pressa, porque de partir se tratava.<\/p>\n<p>Quando o Senhor passasse&hellip; Esta passagem definiu a P&aacute;scoa, antiga ou nova. Passagem de Deus, que tomar&aacute; em Cristo a &uacute;ltima express&atilde;o e figura &#8211; mas &eacute; sempre sua a P&aacute;scoa, e ser&aacute; nossa a liberta&ccedil;&atilde;o de quantos &ldquo;Egitos&rdquo; nos cativarem. E nem faltar&aacute; o &ldquo;sangue&rdquo;, sinal da vida que nos protege.<\/p>\n<p>Iniciemos ent&atilde;o o tr&iacute;duo sagrado com id&ecirc;ntica expectativa e igual prem&ecirc;ncia, pois &eacute; de urgente liberta&ccedil;&atilde;o que se trata. N&atilde;o cumprimos exteriormente um ritual, antes nos cumprimos nele, permitindo que as palavras e os gestos nesta Santa Missa repetidos nos impregnem profundamente o cora&ccedil;&atilde;o com um poder t&atilde;o salvador como o que tirou o povo daquele cativeiro antigo.<\/p>\n<p>Urg&ecirc;ncia, disse, porque a P&aacute;scoa n&atilde;o se atrasa, e muito menos o Senhor que passa e espera ver nas nossas casas, isto &eacute;, nas nossas vidas, o sinal vis&iacute;vel de que nos dispomos realmente a partir.<\/p>\n<p>Creio que partilhareis comigo a convic&ccedil;&atilde;o de que a P&aacute;scoa do mundo &ndash; deste mundo nosso, t&atilde;o carregado e sofrido como est&aacute; em tantos, longe ou perto &ndash; demora ainda e demasiadamente demora, porque atrasamos a partida, aquela sa&iacute;da de muitos cativeiros onde por vezes parecemos acomodar-nos.<\/p>\n<p>N&atilde;o nos faltam repetidos &ldquo;Mois&eacute;s&rdquo;, que da parte de Deus nos garantam os &ecirc;xodos, as sa&iacute;das poss&iacute;veis. N&atilde;o nos faltam s&eacute;culos e s&eacute;culos dos dois testamentos, a demonstrar que quem parte encontra caminho, na disposi&ccedil;&atilde;o mais firme para seguir em frente. E, no entanto, entre agora cada um de n&oacute;s na casa do seu cora&ccedil;&atilde;o e veja se est&aacute; pronto, realmente pronto e decidido, a sair de quanto o prende e espiritualmente limita. N&atilde;o tanto pelas suas for&ccedil;as, mas primeiramente porque Deus o quer e inteiramente porque Deus o pode. Deus passa e n&oacute;s partiremos com Ele.<\/p>\n<p>No momento atual que vivemos e sofremos, por n&oacute;s ou pelos outros, repetem-nos sucessivamente a pergunta sobre o que afinal fazemos enquanto Igreja e como respondemos &agrave; famigerada &ldquo;crise&rdquo;. Creio que a resposta s&oacute; pode ser uma, como ali&aacute;s &eacute; dada por tantas vidas de facto convertidas: h&aacute; muita gente que, por se dispor realmente a sair de cativeiros v&aacute;rios e ego&iacute;smos m&uacute;ltiplos, confia mais em Deus do que em conjeturas sobre o que pode ou n&atilde;o pode, teme ou n&atilde;o teme, e avan&ccedil;a, solidariamente avan&ccedil;a, como &ldquo;povo&rdquo; avan&ccedil;a, ainda que os desertos sejam longos e o horizonte apenas se entreveja.<\/p>\n<p>Na P&aacute;scoa de 2013, nesta catedral e em todas as fam&iacute;lias e comunidades crist&atilde;s, n&oacute;s somos e s&oacute; podemos ser, um povo disposto a partir &ndash; n&atilde;o como emigrantes geogr&aacute;ficos mas como gente convertida a um Deus que nos faz estar ainda mais aqui, em doa&ccedil;&atilde;o e servi&ccedil;o.<\/p>\n<p>Como disc&iacute;pulos de Cristo, ouvimos o trecho de Paulo aos cor&iacute;ntios, no primeiro resumo da tradi&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica: &laquo;Eu recebi do Senhor o que tamb&eacute;m vos transmiti: o Senhor Jesus, na noite em que ia ser entregue, tomou o p&atilde;o e, dando gra&ccedil;as, partiu-o e disse: &ldquo;Isto &eacute; o meu Corpo, entregue por v&oacute;s. [&hellip;] Este c&aacute;lice &eacute; a nova alian&ccedil;a no meu Sangue. Todas as vezes que o beberdes, fazei-o em mem&oacute;ria de Mim&rdquo;.<\/p>\n<p>Isto dissera Jesus naquela &uacute;ltima ceia em que resumira o significado de toda a sua vida entre n&oacute;s e por n&oacute;s entregue. Da sua P&aacute;scoa afinal, como tamb&eacute;m ouvimos, no Evangelho que se seguiu, come&ccedil;ando assim: &laquo;Antes da festa da P&aacute;scoa, sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai, Ele, que amara os seus que estavam no mundo, amou-os at&eacute; ao fim&hellip;&rdquo;.<\/p>\n<p>&#8211; Que sabemos n&oacute;s ent&atilde;o e enquanto crist&atilde;os sabemos e professamos? Sabemos que, em Jesus, temos o Cordeiro que nos alimenta e salva, como alimento para o caminho e sinal protetor; sabemos que nele &eacute; o pr&oacute;prio Deus que passa e que, com ele sempre, tamb&eacute;m n&oacute;s passamos deste mundo para o Pai, numa filia&ccedil;&atilde;o finalmente cumprida, que nos realiza inteiramente a n&oacute;s e igualmente liberta o mundo, fazendo respirar a cria&ccedil;&atilde;o inteira.<\/p>\n<p>Tamb&eacute;m isto nos disse Paulo, noutra das suas cartas, divisando o horizonte imenso duma P&aacute;scoa cumprida, em n&oacute;s e no mundo, ou, por n&oacute;s, no mundo: &laquo;V&oacute;s n&atilde;o recebestes um Esp&iacute;rito que vos escravize e volte a encher-vos de medo; mas recebestes um Esp&iacute;rito que faz de v&oacute;s filhos adotivos. &Eacute; por Ele que clamamos: Abb&aacute;, &oacute; Pai! [&hellip;] At&eacute; a cria&ccedil;&atilde;o se encontra em expectativa ansiosa, aguardando a revela&ccedil;&atilde;o dos filhos de Deus&raquo; (Rm 8, 15.19).<\/p>\n<p>Em tudo &eacute; sempre e s&oacute; de P&aacute;scoa que se trata, passando com Cristo para o Pai e reencontrando no cora&ccedil;&atilde;o de Deus a liberta&ccedil;&atilde;o definitiva de quanto nos ret&eacute;m e escraviza, em cora&ccedil;&otilde;es fechados por ego&iacute;smos e medos que sufocam tristemente o mundo.<\/p>\n<p>N&atilde;o ficamos por enunciados gerais ou ideias abstratas. O Evangelho n&atilde;o podia ser mais concreto e impressivo, no gesto de Cristo, Filho de Deus na terra: &laquo;Levantou-se, da mesa, tirou o manto e tomou uma toalha, que p&ocirc;s &agrave; cintura. Depois, deitou &aacute;gua numa bacia e come&ccedil;ou a lavar os p&eacute;s aos disc&iacute;pulos&raquo;.<\/p>\n<p>Absolutamente assim e nada menos do que isto, car&iacute;ssimos irm&atilde;os em tr&iacute;duo. Iniciando a celebra&ccedil;&atilde;o pascal, que hoje e sempre nos urge uma convers&atilde;o aut&ecirc;ntica, temos de vencer a compreens&iacute;vel hesita&ccedil;&atilde;o de Pedro e deixar-nos servir por um Deus humilde, que nos olha de baixo para cima, para nos lavar os p&eacute;s&hellip;<\/p>\n<p>Compreens&iacute;vel hesita&ccedil;&atilde;o de Pedro, demorada compreens&atilde;o nossa, de como &eacute; o Deus de Jesus Cristo, pedindo que O deixemos servir-nos. Na verdade, insistimos em reter Deus na grande altura, como se O dispens&aacute;ssemos da vida &ldquo;c&aacute; em baixo&rdquo;. E isto, mais para a determinarmos n&oacute;s e ao nosso modo, do que por Lhe respeitarmos a indesment&iacute;vel transcend&ecirc;ncia. E talvez porque aceit&aacute;-Lo assim, como Jesus insiste que aceitemos, implica valorizar a extrema simplicidade das coisas como lugar onde Deus nos procura; implica servi-Lo humildemente nos outros, em quem sempre se apresenta e nos espera. &ndash; Custa tanto aceitar um Deus que se ajoelha e nos quer lavar os p&eacute;s!<\/p>\n<p>E, no entanto, &eacute; assim. Acompanhamos hoje a institui&ccedil;&atilde;o da Eucaristia e do sacerd&oacute;cio da nova alian&ccedil;a. E nem uma nem outro significam grandezas que ofusquem: p&atilde;o e vinho consagrados, para serem o pr&oacute;prio Deus oferecido; um pequeno grupo de disc&iacute;pulos, consagrados tamb&eacute;m, para que a mem&oacute;ria daquela oferta n&atilde;o se extinga mais na terra.<\/p>\n<p>Aceitemos a Deus, que em Jesus se entrega em simplicidade tamanha. Partamos como os hebreus daquela noite, com o essencial do que somos e havemos de oferecer, se urgentemente partirmos. Rendamo-nos de vez &agrave; evid&ecirc;ncia crist&atilde; das coisas, &agrave; exigente humildade de Deus.<\/p>\n<p>Para n&atilde;o esquecermos, e realmente cumprirmos, o que a seguir nos ordenou Jesus, nosso Cordeiro e Pastor: &laquo;Se Eu vos lavei os p&eacute;s, tamb&eacute;m v&oacute;s deveis lavar os p&eacute;s uns aos outros. Dei-vos o exemplo, para que, assim como Eu o fiz, v&oacute;s fa&ccedil;ais tamb&eacute;m&raquo;.<\/p>\n<p><em>D. Manuel Clemente<br \/><\/em><em>S&eacute; do Porto, 28 de mar&ccedil;o de 2013<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia da Missa da Ceia do Senhor do bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,187],"class_list":["post-60589","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60589","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60589"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60589\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60589"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60589"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60589"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}