{"id":60587,"date":"2013-03-29T17:26:30","date_gmt":"2013-03-29T17:26:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/03\/29\/a-pergunta-de-deus\/"},"modified":"2013-03-29T17:26:30","modified_gmt":"2013-03-29T17:26:30","slug":"a-pergunta-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-pergunta-de-deus\/","title":{"rendered":"A pergunta de Deus"},"content":{"rendered":"<p>Homilia na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor do Arcebispo de Braga <!--more--> <\/p>\n<p><strong>Experi&ecirc;ncia humana<\/strong><\/p>\n<p>1. Aproveitando o facto de o nosso Santo Padre provir da &aacute;rea das ci&ecirc;ncias, gostaria de iniciar esta reflex&atilde;o com a partilha de um fen&oacute;meno cient&iacute;fico. Existe na F&iacute;sica um fen&oacute;meno chamado arco el&eacute;ctrico ou arco voltaico, que, composto por dois condutores de electricidade, um de p&oacute;lo positivo e outro de p&oacute;lo negativo, uma vez colocados a uma dist&acirc;ncia aproximada, em certas e particulares condi&ccedil;&otilde;es ambientais, libertam uma das luzes mais intensas que se conhece na natureza.<\/p>\n<p><strong>Liturgia da Palavra<\/strong><\/p>\n<p>2. Ora, algo parecido acontece em cada liturgia da Palavra, mas hoje de um modo muito mais luminoso. O fen&oacute;meno &eacute; simples: consiste na aproxima&ccedil;&atilde;o de um texto do Antigo Testamento e de um texto do Novo Testamento, mais concretamente, entre a profecia do Servo de Jav&eacute; do Livro de Isa&iacute;as, na primeira leitura, e o acontecimento da Paix&atilde;o de Cristo, no evangelho de S. Jo&atilde;o. [1] Juntando estes dois textos, conseguimos destapar o sentido, a l&oacute;gica e a finalidade do plano messi&acirc;nico de Deus: produzir uma intensa luz libertadora sobre a humanidade.<\/p>\n<p>Assim sendo, ap&oacute;s tr&ecirc;s longos anos a pregar a liberdade, a justi&ccedil;a e a paz, Jesus recebeu como factura precisamente o contr&aacute;rio: foi julgado em p&uacute;blico, despojado das suas vestes, coroado de espinhos, insultado, escarnecido, cuspido, espancado, esbofeteado, chicoteado, humilhado, flagelado e crucificado&hellip; tudo isto por ter desafiado o paradigma socio-religioso da sua &eacute;poca. [2]<\/p>\n<p>Diante desse cen&aacute;rio, Jesus opta por um blackout, pois, no dizer do poeta Paul Claudel, &ldquo;as grandes verdades s&oacute; se comunicam atrav&eacute;s do sil&ecirc;ncio&rdquo;. De facto, Cristo venceu a viol&ecirc;ncia daquele sistema social, n&atilde;o porque lhe respondeu com uma viol&ecirc;ncia maior, mas porque silenciosamente a suportou, mostrando toda a injusti&ccedil;a e inutilidade que ela encerra. [3]<\/p>\n<p>Mas no meio desta pedagogia do sil&ecirc;ncio [4], e persentindo o grito da morte, h&aacute; uma pergunta perturbadora que Jesus faz: &ldquo;Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?&rdquo;<\/p>\n<p><strong>An&aacute;lise social<\/strong><\/p>\n<p>3. Passados 2000 anos, neste tempo em que andamos bombardeados com a palavra crise, a pergunta repete-se agora com mais intensidade, mas com uma diferen&ccedil;a substancial: a pergunta altera-se do &ldquo;onde estava Deus?&rdquo; ao &ldquo;onde estamos n&oacute;s?&rdquo;, ou seja: do &ldquo;porque &eacute; que Deus nos abandona e permite as desgra&ccedil;as na nossa vida?&rdquo; ao &ldquo;porque &eacute; que n&oacute;s consentimos que tantos seres humanos continuem a ser v&iacute;timas da mis&eacute;ria social, da viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica, da escravatura laboral, do abandono familiar, do legalismo da morte, da corrup&ccedil;&atilde;o judicial, das mortes inocentes na estrada, das mentiras dos astr&oacute;logos, do desemprego, de uma classe pol&iacute;tica incompetente e do monop&oacute;lio dos bancos?&rdquo;<\/p>\n<p>Preocupa-me o n&uacute;mero de suic&iacute;dios que aumentam diariamente em Espanha, no &acirc;mbito das penhoras mobili&aacute;rias, e que em breve este drama poder&aacute; chegar ao nosso pa&iacute;s; as depress&otilde;es dos jovens portugueses que se fecham nos seus quartos por causa do desemprego; e as fam&iacute;lias cujo frigor&iacute;fico se vai esvaziando. Os pol&iacute;ticos, por seu turno, refugiam-se em quest&otilde;es sem sentido do verdadeiro bem comum; o sistema banc&aacute;rio, depois de ter imposto a tirania de consumos desnecess&aacute;rios para atingirem metas lucrativas, hoje condicionam o cr&eacute;dito justo &agrave;s jovens fam&iacute;lias portuguesas, com taxas abusivas que dificultam o acesso a uma qualidade de vida com dignidade. [5]<\/p>\n<p><strong>Desafios Pastorais<\/strong><\/p>\n<p>4. Por tudo isto, olhando agora para a cruz de Cristo, esta informa-nos que Deus, afinal, identifica-se com as v&iacute;timas e n&atilde;o com os infractores! Na verdade, Jesus &eacute; o aut&ecirc;ntico libertador do povo, porque concede cr&eacute;dito (aten&ccedil;&atilde;o) aos mais pobres, defende o ideal da fraternidade, pagou a nossa d&iacute;vida com a sua morte e oferece a melhor taxa de juro de sempre: a vida eterna.<\/p>\n<p>Por isso, &eacute; urgente difundir aquela frase de Bento XVI, na enc&iacute;clica Spe Salvi: &ldquo;um mundo sem Deus &eacute; um mundo sem esperan&ccedil;a!&rdquo; Mesmo que j&aacute; o tenhamos rejeitado\/esquecido\/ignorado, Deus n&atilde;o desiste de nos procurar e de nos oferecer o seu amor! [6] Diante das nossas dores e sofrimentos humanos, a sua compaix&atilde;o confere um outro sentido &agrave; nossa exist&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>A prop&oacute;sito, neste momento gostaria de recordar mais um dos rostos de f&eacute; da nossa Arquidiocese: a Beata Alexandrina de Balasar. Ela que, passando um momento de grande sofrimento, afirmou piedosamente: &laquo;Os meus sofrimentos continuam a ser cada vez mais, mas mesmo assim eu n&atilde;o temo, porque sei que o meu querido Jesus sofre comigo!&raquo; [7] Pode ser incompreens&iacute;vel esta verdade, mas Jesus partilha os nossos sofrimentos: Ele est&aacute; ao nosso lado! Nunca estamos s&oacute;s! A aceita&ccedil;&atilde;o da sua presen&ccedil;a nos dramas da vida pode tornar-se a certeza da Sua omnipot&ecirc;ncia como coragem e for&ccedil;a para nunca desesperarmos.<\/p>\n<p>Aceitemos, ent&atilde;o, as palavras do Papa Francisco: Tamb&eacute;m hoje, perante tantos peda&ccedil;os de c&eacute;u cinzento, h&aacute; necessidade de ver a luz da esperan&ccedil;a e de darmos n&oacute;s mesmos esperan&ccedil;a.&raquo;<\/p>\n<p>5. Para terminar, dentro de momentos vamo-nos arrepiar com a intensidade e emotividade musical dos &ldquo;Improp&eacute;rios&rdquo;, da autoria de Tom&aacute;s Luis de Victoria. Um texto lit&uacute;rgico que come&ccedil;a com uma pergunta que Deus dirige ao seu povo, dizendo: &ldquo;Meu povo, que mal te fiz eu?&rdquo;<\/p>\n<p>Ora, e neste dif&iacute;cil status social que vivemos, onde muitas vezes deixamos de acreditar no mundo, nos economistas, nos outros, no futuro, na Igreja e em Deus, e onde at&eacute; corremos o risco de deixar de acreditar em n&oacute;s pr&oacute;prios, apesar de tudo, Jesus hoje, do alto da Cruz, ilumina-nos e d&aacute;-nos a certeza de que, mesmo assim, Deus n&atilde;o deixa de acreditar em n&oacute;s e nas nossas capacidades para edificar um mundo diferente!<\/p>\n<p><em>D. Jorge Ortiga, A.P.<br \/>S&eacute; Catedral de Braga, 29 de Mar&ccedil;o de 2013.<\/em><\/p>\n<p>[1] Raniero Cantalamessa, P&aacute;scoa. Uma passagem para aquilo que n&atilde;o passa, 75.<\/p>\n<p>[2] Cf. D. Jorge Ortiga, O curriculum de Cristo. Homilia na Celebra&ccedil;&atilde;o da Paix&atilde;o do Senhor &ndash; 2012.<\/p>\n<p>[3] Raniero Cantalamessa, P&aacute;scoa. Uma passagem para aquilo que n&atilde;o passa, 81.<\/p>\n<p>[4] Jos&eacute; Tolentino Mendon&ccedil;a, Nenhum caminho ser&aacute; longo, 216.<\/p>\n<p>[5] Cf. &laquo;Revista S&aacute;bado&raquo;, Os bastidores da opera&ccedil;&atilde;o 15, 14 de Mar&ccedil;o de 2013, 60-61.<\/p>\n<p>[6] Cf. D. Jorge Ortiga, Megafone Pascal. Mensagem para as Visita Pascal &#8211; 2013.<\/p>\n<p>[7] Alexandrina de Balasar, Cartas ao Padre Mariano Pinho, 20\/12\/1934.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Homilia na celebra\u00e7\u00e3o da Paix\u00e3o do Senhor do Arcebispo de Braga<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[103,120,172,187,246,274,312],"class_list":["post-60587","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-alexandrina-de-balasar","tag-bento-xvi","tag-diocese-de-braga","tag-diocese-do-porto","tag-liturgia","tag-papa-francisco","tag-snec"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60587","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60587"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60587\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60587"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60587"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60587"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}