{"id":60489,"date":"2013-03-22T13:00:44","date_gmt":"2013-03-22T13:00:44","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/03\/22\/novo-papa-ja-definiu-uma-identidade-de-igreja\/"},"modified":"2013-03-22T13:00:44","modified_gmt":"2013-03-22T13:00:44","slug":"novo-papa-ja-definiu-uma-identidade-de-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/novo-papa-ja-definiu-uma-identidade-de-igreja\/","title":{"rendered":"Novo Papa j\u00e1 definiu uma \u00abidentidade\u00bb de Igreja"},"content":{"rendered":"<p>Isabel Varanda, docente de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, comenta as mensagens iniciais do pontificado de Francisco <!--more--> <\/p>\n<p><em>Ag&ecirc;ncia Ecclesia (AE) &ndash; Que leitura retira da mensagem inaugural do pontificado do Papa Francisco, concretamente na necessidade que ele apontou para que todo o poder exercido seja encarado como um servi&ccedil;o aos outros, sobretudo na rela&ccedil;&atilde;o com os mais pobres e desprotegidos?<\/em><\/p>\n<p><em>Isabel Varanda (IV) &#8211;<\/em> O posicionamento do Papa Francisco n&atilde;o &eacute; in&eacute;dito, a Igreja de Jesus Cristo sempre anunciou o seu poder como um minist&eacute;rio que, de certo modo, significa na sua raiz estar ao servi&ccedil;o, exercer um servi&ccedil;o fundamental e total.<\/p>\n<p>O que &eacute; original &eacute; o facto de o Papa frisar bem este aspeto atrav&eacute;s das suas palavras, das poucas palavras que at&eacute; agora dirigiu ao mundo e &agrave; Igreja, &agrave; Igreja de Roma em particular, e tamb&eacute;m atrav&eacute;s da sua postura f&iacute;sica, do seu comportamento como pessoa junto dos outros.<\/p>\n<p>Sendo um Papa da Am&eacute;rica Latina e tendo crescido num contexto em que se desenvolveram teologias da liberta&ccedil;&atilde;o, a partir de facto das situa&ccedil;&otilde;es deplor&aacute;veis em que milh&otilde;es de seres humanos viveram ao longo do s&eacute;culo XX e continuam a viver, ele poder&aacute; representar aqui uma reviravolta bastante significativa.<\/p>\n<p>Pode haver outras leituras, quase pol&iacute;ticas, mas eu ousaria situar-me mais no contexto do reconhecimento de que a Igreja de Jesus Cristo e o Evangelho t&ecirc;m um poder de universaliza&ccedil;&atilde;o espantoso, e &eacute; isso que faz tamb&eacute;m com que me reconhe&ccedil;a crist&atilde;.<\/p>\n<p>Ser&aacute; tamb&eacute;m certamente um enriquecimento profundo partirmos &agrave; escuta das mensagens positivas e menos positivas que nos chegam de outros quadrantes do mundo.<\/p>\n<p>Tenho a sensa&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o faltariam exemplos para o ilustrar, que muitas vezes os cat&oacute;licos s&atilde;o testemunhas de uma Igreja irreconhec&iacute;vel, que dificilmente identificam com o Evangelho, em muitos contextos.<\/p>\n<p>Nesse sentido, supostamente em consenso com o que tem sido a sua vida pastoral, enquanto cardeal e arcebispo de Buenos Aires, o Papa Francisco tem tido uma postura incarnada na realidade, assumindo, vivendo, partilhando, verbos muito importantes que j&aacute; transmitiu explicitamente aos cat&oacute;licos e que fazem parte da sua ess&ecirc;ncia como Pastor e como homem, uma presen&ccedil;a fraterna, solid&aacute;ria, respons&aacute;vel, cuidadosa.<\/p>\n<p>O discurso do Papa procura recentrar-nos num &oacute;rg&atilde;o vital que est&aacute; ligado &agrave; dignidade de todas as criaturas de Deus e ao direito a uma vida boa, que n&atilde;o &eacute; necessariamente uma boa vida, e neste aspeto o Papa incarna na sua pr&oacute;pria pessoa a preocupa&ccedil;&atilde;o com os vulner&aacute;veis, com os mais fr&aacute;geis, diante dos quais Marguerite Yourcenar dizia que dev&iacute;amos ajoelhar como diante de um altar.<\/p>\n<p>Creio que &eacute; essa a postura do Papa Francisco, ajoelhar diante do fr&aacute;gil, do doente, do an&oacute;nimo, do idoso, do desprezado, do mal-amado, como se estiv&eacute;ssemos em territ&oacute;rio sagrado. Essa postura do Papa &eacute; essencial, mas recorda-nos uma postura evang&eacute;lica, um pouco na linha do Papa em&eacute;rito Bento XVI.<\/p>\n<p>Na sua enc&iacute;clica <em>Caritas in Veritate<\/em>, &eacute; poss&iacute;vel encontrar uma continuidade certamente com o novo Papa, a partir de um desafio &agrave; encarna&ccedil;&atilde;o do evangelho de Jesus Cristo, na terra, na realidade, nas alegrias e sofrimentos do mundo.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; um rutura relativamente a pontificados anteriores, quer de Bento XVI quer tamb&eacute;m de Jo&atilde;o Paulo II, mas h&aacute; uma complementaridade interessant&iacute;ssima que s&oacute; o futuro ir&aacute; explicitar.<\/p>\n<p>Jo&atilde;o Paulo II come&ccedil;ou o seu pontificado e as suas primeiras palavras oficiais foram no sentido das pessoas n&atilde;o terem medo de Jesus Cristo, Bento XVI, de algum modo, em outros contextos, passou a mesma mensagem, para que as pessoas n&atilde;o tivessem medo de ser crist&atilde;s, n&atilde;o tivessem medo do Evangelho.<\/p>\n<p>Na sua homilia de ter&ccedil;a-feira, o Papa Francisco disse o mesmo, n&atilde;o de forma t&atilde;o exortativa, mas quase como um conforto, que as pessoas n&atilde;o devem ter medo da bondade ou mesmo da ternura.<\/p>\n<p>Isto &eacute; espantoso, porque marca aqui um tom de afabilidade, de emo&ccedil;&atilde;o, convida a libertarmo-nos da aridez e de uma legisla&ccedil;&atilde;o fria e dura, mostra a inten&ccedil;&atilde;o de evangelizar o poder no sentido n&atilde;o de um poder frio, caustico, insens&iacute;vel, mas de um poder caloroso, af&aacute;vel, humano.<\/p>\n<p>A ternura, o afeto, &eacute; o la&ccedil;o que liga todas as criaturas, nas diferentes concretiza&ccedil;&otilde;es do exerc&iacute;cio do poder, do servi&ccedil;o ao mundo e &agrave; Igreja, &eacute; aquele que de facto mantem coesa uma sociedade, mantem coeso o mundo.<\/p>\n<p>Nesse sentido, creio que est&atilde;o anunciados alguns tons do pontificado do Papa Francisco, n&atilde;o ousaria dizer que o seu discurso na missa inaugural &eacute; um discurso que comporta um programa para o seu governo, seria talvez um pouco for&ccedil;ado dizer isso, mas o tom do seu pontificado est&aacute; definitivamente marcado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; De que forma &eacute; que esse tom pode ter eco no meio de uma sociedade onde as lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas e econ&oacute;micas s&atilde;o muitas vezes acusadas de serem desumanas, e de uma Igreja Cat&oacute;lica que vive tempos conturbados?<\/em><\/p>\n<p><em>IV &#8211; <\/em>N&oacute;s precisamos de ter confian&ccedil;a nos poderes que governam o mundo. &Eacute; certo que em muitos contextos, e concretamente na situa&ccedil;&atilde;o que a Europa atravessa, com a crise e os problemas grav&iacute;ssimos da sociedade portuguesa, n&oacute;s colocamos em causa todas as estruturas que nos governam, a credibilidade de todo esse sistema.<\/p>\n<p>Mas eu ainda queria acreditar na boa-f&eacute; daqueles que nos governam, n&atilde;o partir do pressuposto de que os governos n&atilde;o t&ecirc;m em vista o bem comum e que s&atilde;o perversos por ess&ecirc;ncia e natureza.<\/p>\n<p>Acredito que em muitos contextos, os &oacute;rg&atilde;os de poder fazem o melhor que sabem, simplesmente aquilo que sabem &eacute; t&atilde;o pouco, &eacute; t&atilde;o redutor, que fica muito aqu&eacute;m da satisfa&ccedil;&atilde;o do que &eacute; essencial para reencontrar o equil&iacute;brio de uma sociedade saud&aacute;vel, pac&iacute;fica, onde h&aacute; desenvolvimento sustent&aacute;vel e onde as pessoas, nas suas diversas concretiza&ccedil;&otilde;es, se vejam reconhecidas na sua dignidade e no seu direito a uma vida boa.<\/p>\n<p>H&aacute; uma car&ecirc;ncia, um d&eacute;fice muito grande na educa&ccedil;&atilde;o integral das nossas elites culturais, politicas, governantes, que se reflete depois nas suas presta&ccedil;&otilde;es ao servi&ccedil;o das pessoas.<\/p>\n<p>Nesse sentido, ousaria dizer que a Igreja tem um papel decisivo, fundamental, na evangeliza&ccedil;&atilde;o dos poderes civis, pol&iacute;ticos, em geral, mas tamb&eacute;m dos poderes da Igreja.<\/p>\n<p>Creio que &eacute; por isso que o Papa insiste no facto do poder ser miss&atilde;o, ser servi&ccedil;o, e um servi&ccedil;o que vai at&eacute; &agrave; Cruz.<\/p>\n<p>N&atilde;o podemos associar esse sentido de ir at&eacute; &agrave; Cruz no sentido de um certo dolorismo, recuperando alguns fantasmas que, de algum modo, marcam o nosso universo teol&oacute;gico e pastoral.<\/p>\n<p>O Papa fala de uma s&iacute;ntese luminosa da Cruz, no sentido de um servi&ccedil;o que pode levar a dar a vida pelo outro ou pelos ideais que defendemos, &eacute; essa a mensagem que dirige a todos os poderes do mundo, que os governos sejam iluminados por esta disposi&ccedil;&atilde;o fundamental de dar a pr&oacute;pria vida, se for necess&aacute;rio, pelos outros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>AE &ndash; E quanto &agrave; Igreja, que o Papa Francisco recebeu envolta em diversos problemas, como os casos de pedofilia e ass&eacute;dio sexual praticados por membros do clero ou as alegadas lutas de poder dentro da C&uacute;ria Romana?<\/em><\/p>\n<p><em>IV &#8211;<\/em> O Papa est&aacute; tamb&eacute;m a falar para dentro da Igreja, naquilo em que ela, na sua visibilidade institucional tem de poder, porque o tem, nas suas estruturas vis&iacute;veis, no sentido de uma purifica&ccedil;&atilde;o progressiva, de um recentramento naquilo que &eacute; essencial, que &eacute; o Evangelho de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Encontramos aqui outro fio condutor interessante, porque o Papa Bento XVI, num texto que escreveu em 1970 ainda como cardeal Joseph Ratzinger, falava da Igreja do futuro e dizia que ela deveria ser mais interiorizada.<\/p>\n<p>Na obra intitulada &ldquo;F&eacute; e futuro&rdquo;, ele dizia tamb&eacute;m que era preciso uma Igreja que n&atilde;o suspirasse por um mandato pol&iacute;tico, e o Papa Francisco referiu claramente nas suas &uacute;ltimas interven&ccedil;&otilde;es que a Igreja de Jesus Cristo n&atilde;o &eacute; uma organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental, &eacute; uma Igreja de sedu&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o de proselitismo, e vai chamando a aten&ccedil;&atilde;o para aspetos essenciais.<\/p>\n<p>Ratzinger defendia que a Igreja deveria tornar-se numa Igreja dos pobres, dos pequenos, pois s&oacute; assim &eacute; que ela poderia aparecer ao mundo como portadora de esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>Dizia ainda que era necess&aacute;rio que a Igreja se limpasse, se purificasse, cortasse aquilo que ao longo dos s&eacute;culos se foi associando &agrave; Igreja mas que n&atilde;o lhe pertence.<\/p>\n<p>Pegando numa met&aacute;fora que foi buscar a Miguel &Acirc;ngelo, Joseph Ratzinger sublinhou a import&acirc;ncia de que, tal como um escultor, a Igreja talhasse a sua forma, se libertasse das esc&oacute;rias que foram aderindo &agrave; sua superf&iacute;cie, os andaimes que se foram construindo &agrave; volta da Igreja e que n&atilde;o permitem, de algum modo, aceder ao cora&ccedil;&atilde;o da Igreja.<\/p>\n<p>O Papa Bento XVI falava na purifica&ccedil;&atilde;o da Igreja, para que se fizesse emergir a sua forma mais nobre, ou seja, aquilo que a Igreja tem de precioso, a sua ess&ecirc;ncia, e creio que reencontramos esse programa com o Papa Francisco.<\/p>\n<p>N&atilde;o sabemos se ser&aacute; um longo pontificado, mas j&aacute; est&aacute; definida uma identidade, embora ainda tenhamos de esperar como &eacute; que o Papa Francisco vai lidar com a produ&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica, com a reflex&atilde;o teol&oacute;gica, na mensagem e no est&iacute;mulo para uma reflex&atilde;o mais sistem&aacute;tica.<\/p>\n<p>N&atilde;o me repugna a ideia de que eventualmente o Papa Francisco possa convocar, em algum momento do seu pontificado, n&atilde;o um conc&iacute;lio do Vaticano mas um conc&iacute;lio ecum&eacute;nico para clarificar e iluminar a identidade da Igreja de Jesus Cristo, que no tempo presente pode ser talvez considerada um pouco confusa, de certo modo promiscua.<\/p>\n<p>Poderia haver inova&ccedil;&otilde;es importantes, que representassem o mundo na sua globalidade, a Igreja de Jesus Cristo espalhada pelo mundo inteiro.<\/p>\n<p>Estamos a comemorar 50 anos do Conc&iacute;lio Vaticano II e as mudan&ccedil;as no mundo, no nosso modo de viver, s&atilde;o t&atilde;o dr&aacute;sticas e levantam tantas quest&otilde;es in&eacute;ditas que um conc&iacute;lio ecum&eacute;nico permitiria refor&ccedil;ar as grandes intui&ccedil;&otilde;es que o Vaticano II deu e por outro lado acertar o ritmo da Igreja com o passo do mundo.<\/p>\n<p>Haveria assim uma clareza, um di&aacute;logo, uma abertura de todo o mundo reunido em conc&iacute;lio para pensar e repensar a Igreja, o mundo, o poder em geral e o poder em Igreja.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Isabel Varanda, docente de Teologia da Universidade Cat\u00f3lica 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