{"id":59806,"date":"2013-01-30T13:03:18","date_gmt":"2013-01-30T13:03:18","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/01\/30\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-abertura-do-ano-judicial-2\/"},"modified":"2013-01-30T13:03:18","modified_gmt":"2013-01-30T13:03:18","slug":"homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-abertura-do-ano-judicial-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-na-missa-de-abertura-do-ano-judicial-2\/","title":{"rendered":"Homilia do cardeal-patriarca de Lisboa na Missa de Abertura do Ano Judicial"},"content":{"rendered":"<p><strong>&ldquo;Justi&ccedil;a e Justifica&ccedil;&atilde;o&rdquo;<\/strong><\/p>\n<p>1. O Santo Padre Bento XVI convidou toda a Igreja a celebrar, na f&eacute; e com f&eacute;, os 50 anos da Abertura do Conc&iacute;lio Ecum&eacute;nico Vaticano II e a redescobri-lo como &ldquo;b&uacute;ssola segura&rdquo; a orientar a Igreja neste in&iacute;cio de um novo mil&eacute;nio. A justi&ccedil;a &eacute; um tema maior do Magist&eacute;rio do Conc&iacute;lio. Marcado pelo conceito b&iacute;blico de justi&ccedil;a, a sua compreens&atilde;o inspira uma antropologia, o sentido profundo da miss&atilde;o da Igreja no mundo contempor&acirc;neo, como agente decisivo na transforma&ccedil;&atilde;o da sociedade assente sobre a justi&ccedil;a. Pareceu-me, pois, apropriado, nesta celebra&ccedil;&atilde;o por ocasi&atilde;o da Abertura do Ano Judicial, ter como pano de fundo alguns pontos do Magist&eacute;rio Conciliar sobre a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Como pano de fundo est&aacute; sempre a compreens&atilde;o b&iacute;blica da Justi&ccedil;a, que &eacute; atributo divino comunicado ao homem para que ele atinja a sua perfei&ccedil;&atilde;o. &ldquo;O homem foi constitu&iacute;do, por Deus, num estado de justi&ccedil;a&rdquo; (1). Essa situa&ccedil;&atilde;o original do homem foi alterada pelo exerc&iacute;cio da liberdade, numa n&atilde;o obedi&ecirc;ncia ao dom da justi&ccedil;a, recebido por Deus. Por isso, a partir desse momento, na atitude de Deus para com o homem, a justi&ccedil;a &eacute; insepar&aacute;vel da miseric&oacute;rdia (2).<\/p>\n<p>Na estrutura religiosa de Israel a ades&atilde;o do homem &agrave; justi&ccedil;a de Deus exprime-se no cumprimento da Lei de Deus. A f&eacute; de Israel nasce da escuta da Palavra de Deus e esta &eacute; sempre revela&ccedil;&atilde;o do des&iacute;gnio de Deus, &eacute; mandamento porque revela a vontade de Deus acerca do comportamento dos homens e &eacute; promessa, porque anuncia um tempo novo em que triunfar&aacute; definitivamente a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>Praticar a Justi&ccedil;a &eacute;, para o crente de Israel, cumprir todos os preceitos do Senhor. O que faz isso &eacute; chamado justo. Mas os que n&atilde;o cumprem, os pecadores, n&atilde;o ficam exclu&iacute;dos da justi&ccedil;a, que &eacute; insepar&aacute;vel da miseric&oacute;rdia.<\/p>\n<p>Uma certa dicotomia vai surgindo entre a justi&ccedil;a como cumprimento fiel da Lei,e a justi&ccedil;a recebida como miseric&oacute;rdia, que recria o homem e o conduz a uma vida na justi&ccedil;a, que j&aacute; n&atilde;o se identifica com o pleno cumprimento da Lei. Essa a&ccedil;&atilde;o criadora da miseric&oacute;rdia chama-se &ldquo;Justifica&ccedil;&atilde;o&rdquo;, que &eacute; sin&oacute;nimo de salva&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Este acesso &agrave; Justi&ccedil;a, atrav&eacute;s da miseric&oacute;rdia, liga a Justi&ccedil;a ao amor de Deus pelos homens, cuja express&atilde;o m&aacute;xima ser&aacute; Jesus Cristo. A f&eacute; n&rsquo;Ele, &eacute; abandono &agrave; vida que nos anuncia e comunica, torna-se decisiva para a justifica&ccedil;&atilde;o e relativiza, ainda mais, o conceito de justi&ccedil;a baseado no cumprimento da Lei. No cristianismo quem faz essa rutura radical &eacute; o Ap&oacute;stolo S&atilde;o Paulo. Ouvimos no trecho da sua Carta aos Romanos. A justi&ccedil;a porque ansiamos n&atilde;o &eacute; fruto do cumprimento da Lei, mas do total abandono &agrave; f&eacute; em Jesus Cristo, porque Ele &eacute; &ldquo;justi&ccedil;a de Deus&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>3. Esta afirma&ccedil;&atilde;o clara de que Cristo &eacute; justi&ccedil;a de Deus, significa que s&oacute; participando na realidade de Jesus Cristo o homem ser&aacute; justo. Justi&ccedil;a de Deus, Ele &eacute; tamb&eacute;m a justi&ccedil;a do homem. O conceito de justi&ccedil;a fica definitivamente ligado ao conceito de plenitude humana. Trata-se de construir o homem novo, participando em Cristo, o Homem por antonom&aacute;sia. E os tra&ccedil;os da vida desse Homem perfeito, s&atilde;o a uni&atilde;o a Deus Seu Pai, o amor por todos os homens seus irm&atilde;os, a quem se uniu ao fazer-se Homem e por quem deu a vida, a defesa da verdade, um sentido de fam&iacute;lia humana como comunidade, participando da comunh&atilde;o divina entre Pessoas, iguais e distintas.<\/p>\n<p>Esta linguagem de S&atilde;o Paulo corresponde ao conceito de &ldquo;Reino de Deus&rdquo; na prega&ccedil;&atilde;o de Jesus. Repondo a justi&ccedil;a no cora&ccedil;&atilde;o do homem, a humanidade vai-se transformando, aproximando-se do desejo de Deus quando criou o homem. Este &ldquo;Reino de Deus&rdquo; &eacute;, no realismo da hist&oacute;ria depois de Cristo, o Reinado de Jesus Cristo, em cuja constru&ccedil;&atilde;o todos os crist&atilde;os est&atilde;o empenhados, mesmo sofrendo por amor da Justi&ccedil;a. O pr&oacute;prio Jesus o anunciou: &ldquo;S&atilde;o bem-aventurados os que sofrem por causa da justi&ccedil;a, porque deles &eacute; o Reino dos C&eacute;us&rdquo; (Mt. 5,10). E o Conc&iacute;lio lembra este Reinado de Cristo: &ldquo;O Seu Reino &eacute; um reino de verdade e de vida, reino de santidade e de gra&ccedil;a, reino de justi&ccedil;a, de amor e de paz, reino em que a pr&oacute;pria cria&ccedil;&atilde;o ser&aacute; libertada da escravid&atilde;o da corrup&ccedil;&atilde;o para conhecer a gloriosa liberdade dos filhos de Deus&rdquo; (Rom. 8,21) [3].<\/p>\n<p>N&atilde;o admira, pois, que a beleza da justi&ccedil;a de que fala o Magist&eacute;rio Conciliar, d&ecirc; prioridade ao respeito e cultivo da dignidade da pessoa humana, &agrave; beleza do homem como Deus a deseja, &agrave; voca&ccedil;&atilde;o comunit&aacute;ria do homem que o leva a p&ocirc;r o bem-comum &agrave; frente dos interesses individuais, a uma busca incans&aacute;vel da verdade. Constr&oacute;i-se a justi&ccedil;a edificando uma humanidade nova.<\/p>\n<p>A justi&ccedil;a, esta busca da dignidade do homem, tem de inspirar e estar na base de todas as estruturas da comunidade: a pol&iacute;tica (4), e todas as outras institui&ccedil;&otilde;es (5), a busca da paz. Tamb&eacute;m as leis e os sistemas judiciais s&atilde;o chamados a serem elementos construtores desta nova humanidade constru&iacute;da sobre a justi&ccedil;a.<\/p>\n<p>4. O Conc&iacute;lio n&atilde;o esquece que esta transforma&ccedil;&atilde;o da humanidade &eacute; lenta, se realiza na hist&oacute;ria dos homens, mas s&oacute; encontrar&aacute; a sua perfei&ccedil;&atilde;o na eternidade, nos &ldquo;novos c&eacute;us e na nova terra&rdquo;.<\/p>\n<p>Na <strong>Gaudium et Spes<\/strong>, sobre a miss&atilde;o da Igreja no mundo contempor&acirc;neo, o Conc&iacute;lio afirma: &ldquo;Ignoramos o tempo em que a terra e a humanidade atingir&atilde;o a sua plenitude, e n&atilde;o sabemos o modo como se transformar&aacute; o universo. A figura deste mundo deformada pelo pecado, passa, mas tomamos conhecimento de que Deus prepara uma nova morada e uma nova terra, onde reina a justi&ccedil;a, e cuja felicidade cumular&aacute; e superar&aacute; todos os desejos de paz que se levantam no cora&ccedil;&atilde;o do homem&rdquo; (6).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. Somos todos chamados a lutar por esta constru&ccedil;&atilde;o de uma humanidade justa. Isso tem de ser feito com esperan&ccedil;a, fortalecidos pela coragem e atra&iacute;dos pela plenitude prometida. Mas s&oacute; com Deus, no Seu Filho Jesus Cristo, ganharemos esta batalha.<\/p>\n<p>S&eacute; Patriarcal, 30 de janeiro de 2013<\/p>\n<p><em>D. Jos&eacute; Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa<\/em><\/p>\n<p>NOTAS:<\/p>\n<p>1 &#8211; Gaudium et Spes (GS), n&ordm; 13<\/p>\n<p>2 &#8211; Dei Verbum, n&ordm; 15<\/p>\n<p>3 &#8211; Lumen Gentium (LG), n&ordm; 36<\/p>\n<p>4 &#8211; cf. GS, n&ordm; 73<\/p>\n<p>5 &#8211; cf. LG, n&ordm; 36<\/p>\n<p>6 &#8211; GS, n&ordm; 39<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&ldquo;Justi&ccedil;a e Justifica&ccedil;&atilde;o&rdquo; 1. O Santo Padre Bento XVI convidou toda a Igreja a celebrar, na f&eacute; e com f&eacute;, os 50 anos da Abertura do Conc&iacute;lio Ecum&eacute;nico Vaticano II e a redescobri-lo como &ldquo;b&uacute;ssola segura&rdquo; a orientar a Igreja neste in&iacute;cio de um novo mil&eacute;nio. 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