{"id":59478,"date":"2013-01-02T11:42:19","date_gmt":"2013-01-02T11:42:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2013\/01\/02\/homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-de-santa-maria-mae-de-deus\/"},"modified":"2013-01-02T11:42:19","modified_gmt":"2013-01-02T11:42:19","slug":"homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-de-santa-maria-mae-de-deus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-do-bispo-de-coimbra-na-solenidade-de-santa-maria-mae-de-deus\/","title":{"rendered":"Homilia do bispo de Coimbra na Solenidade de Santa Maria, M\u00e3e de Deus"},"content":{"rendered":"<p>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os!<\/p>\n<p>Iniciamos o ano de 2013 com a comemora&ccedil;&atilde;o do Dia Mundial da Paz, na solenidade lit&uacute;rgica de Santa Maria, M&atilde;e de Deus.<\/p>\n<p>A nossa aten&ccedil;&atilde;o centra-se na realidade da paz que desejamos para todos, nos entraves que ela encontra em n&oacute;s e nos caminhos que temos de percorrer para a alcan&ccedil;ar, enquanto condi&ccedil;&atilde;o indispens&aacute;vel para a nossa realiza&ccedil;&atilde;o humana.<\/p>\n<p>Ao falarmos de paz referimo-nos a uma realidade interior, &agrave; harmonia existente no cora&ccedil;&atilde;o humano, que o faz sentir-se bem consigo mesmo e com Deus; referimo-nos tamb&eacute;m a uma realidade exterior, a uma harmonia existente na rela&ccedil;&atilde;o entre as pessoas, entre as institui&ccedil;&otilde;es e os estados. Nada do que &eacute; humano escapa ao conte&uacute;do da palavra paz, como sugeria o Livro dos N&uacute;meros ao citar a ora&ccedil;&atilde;o de Mois&eacute;s, que pede a Deus a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o, a prote&ccedil;&atilde;o, um rosto resplandecente e favor&aacute;vel e a paz como corol&aacute;rio de tudo. Quando esta harmonia supera a divis&atilde;o, o ego&iacute;smo e a viol&ecirc;ncia, somos pessoas felizes; caso contr&aacute;rio, tornamo-nos infelizes, agressivos e violentos, tanto &agrave; escala das rela&ccedil;&otilde;es interpessoais e familiares, como &agrave; escala das rela&ccedil;&otilde;es sociais, laborais, nacionais e internacionais.<\/p>\n<p>Diariamente nos deparamos com uma sociedade agressiva, intolerante, escrava de interesses particulares e onde uma parte &eacute; v&iacute;tima da outra parte. Os grandes dramas experimentados pela nossa sociedade atual s&atilde;o fruto da aus&ecirc;ncia de uma cultura de paz: a pobreza e a fome; as agress&otilde;es &agrave; vida humana nascente, doente e idosa; as divis&otilde;es familiares e a viol&ecirc;ncia dom&eacute;stica; a inseguran&ccedil;a, o uso da for&ccedil;a e o roubo; as mais variadas desordens sociais. Conclu&iacute;mos que toda a humanidade &eacute; v&iacute;tima de si mesma e da sua incapacidade de construir uma paz duradoira, pois n&atilde;o pode haver uma parte que esteja bem quando outra est&aacute; mal, uma vez que o ser humano foi feito para viver em paz, pessoalmente e na comunidade.<\/p>\n<p>Na sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, o Papa reafirma esta &ldquo;voca&ccedil;&atilde;o natural da humanidade &agrave; paz&rdquo; e diz: &ldquo;em cada pessoa, o desejo de paz &eacute; uma aspira&ccedil;&atilde;o essencial e coincide, de certo modo, com o anelo por uma vida humana plena, feliz e bem sucedida. Por outras palavras, o desejo de paz corresponde a um princ&iacute;pio moral fundamental, ou seja, ao dever-direito de um desenvolvimento integral, social, comunit&aacute;rio, e isto faz parte dos des&iacute;gnios que Deus tem para o homem. Na verdade, o homem &eacute; feito para a paz, que &eacute; dom de Deus&rdquo;.<\/p>\n<p>Os grandes entraves que a constru&ccedil;&atilde;o da paz encontra s&atilde;o sobretudo de car&aacute;ter pessoal, radicam no cora&ccedil;&atilde;o, vazio de valores autenticamente humanos ou cheio de contra valores. As amea&ccedil;as &agrave; paz n&atilde;o nascem espontaneamente das estruturas da sociedade, como se de realidades aut&oacute;nomas se tratasse; s&atilde;o fruto das op&ccedil;&otilde;es livres das pessoas: em primeiro lugar, daqueles que det&ecirc;m na sociedade a autoridade e o poder de decis&atilde;o, tanto ao n&iacute;vel social, como pol&iacute;tico ou econ&oacute;mico; em segundo lugar, daqueles que, n&atilde;o ocupando pap&eacute;is de grande relevo no tecido social, decidem diariamente no &acirc;mbito da vida familiar, laboral, social, conduzidos pela cultura dominante, marcada pela busca exclusiva do bem individual e pelo desprezo do bem comum. H&aacute; uma responsabilidade individual que n&atilde;o pode ser esquecida, apesar de as pessoas serem frequentemente escravas das estruturas do poder, das m&aacute;quinas partid&aacute;rias, dos l&oacute;bis, da opini&atilde;o comum ou das ideologias.<\/p>\n<p>Assistimos hoje a muitas tentativas de constru&ccedil;&atilde;o da paz, que est&atilde;o, &agrave; partida votadas ao fracasso. Se n&atilde;o t&ecirc;m em conta acima de tudo a pessoa humana, e o respeito por todas as suas dimens&otilde;es, a come&ccedil;ar pela sua vida integral, n&atilde;o correspondem a uma s&eacute;ria procura da paz. &Eacute; o que acontece na sociedade ocidental e inclusivamente na sociedade portuguesa, quando se absolutiza a economia e as finan&ccedil;as esquecendo os pobres cada vez em maior quantidade; quando os resultados num&eacute;ricos a alcan&ccedil;ar contam mais do que as pessoas; quando se afirma defender a vida e se desenvolve uma cultura de morte; quando se perde a perspetiva do bem comum em favor dos interesses particulares.<\/p>\n<p>Na sua mensagem para este dia, o Papa aponta como caminho de constru&ccedil;&atilde;o da paz, o desenvolvimento de um novo modelo de economia, assente no &ldquo;princ&iacute;pio da gratuidade como express&atilde;o de fraternidade e da l&oacute;gica do dom&rdquo;, e contrapondo-se assim ao modelo que prevaleceu nas &uacute;ltimas d&eacute;cadas, que &ldquo;apostava na busca da maximiza&ccedil;&atilde;o do lucro e do consumo, numa &oacute;tica individualista e ego&iacute;sta que pretendia avaliar as pessoas apenas pela sua capacidade de dar resposta &agrave;s exig&ecirc;ncias da competitividade&rdquo;. Depois acentua a necessidade de &ldquo;cultivar a paix&atilde;o pelo bem comum da fam&iacute;lia e pela justi&ccedil;a social, bem como o empenho por uma v&aacute;lida educa&ccedil;&atilde;o social&rdquo;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A liturgia deste primeiro dia do ano recorda-nos que a paz n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel sem a b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o de Deus que acolhemos pela f&eacute;, e sem a a&ccedil;&atilde;o humana, que realizamos com a nossa intelig&ecirc;ncia e vontade.<\/p>\n<p>A b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o de Deus manifestou-se na vinda de Seu Filho Jesus Cristo, que contemplamos no pres&eacute;pio, em carne humana. Nada nem ningu&eacute;m podia estabelecer mais profundos la&ccedil;os de fraternidade do que o pr&oacute;prio Filho Unig&eacute;nito de Deus, que nos torna filhos de Deus e irm&atilde;os uns dos outros. Nada tem maior for&ccedil;a no processo de constru&ccedil;&atilde;o da paz do que os la&ccedil;os de fraternidade existentes entre todos n&oacute;s, que podemos clamar <em>Abb&aacute;<\/em>, Pai, dirigindo-nos a Deus, e <em>meu irm&atilde;o<\/em> e <em>minha irm&atilde;<\/em>, dirigindo-nos a cada homem e a cada mulher.<\/p>\n<p>O melhor modelo de dedica&ccedil;&atilde;o na constru&ccedil;&atilde;o da paz encontramo-lo em Jesus Cristo, o Pr&iacute;ncipe da Paz. Ele veio ao nosso encontro pelo amor que nos tem e procura-nos porque nos quer contar entre o n&uacute;mero dos filhos de Deus e dos seus irm&atilde;os, a viver em paz e harmonia. Ele diz-nos que a &uacute;nica a&ccedil;&atilde;o humana verdadeiramente construtora de paz &eacute; aquela que est&aacute; marcada pelo amor gratuito em que cada pessoa &eacute; um dom para a outra pessoa, tal como Cristo &eacute; um dom total para todos n&oacute;s.<\/p>\n<p>Aprendamos, por isso, com Jesus Cristo, o Amor vivo no seio de Maria, no pres&eacute;pio, na Igreja e na nossa vida, a&nbsp; construir a paz no cora&ccedil;&atilde;o, na fam&iacute;lia e na sociedade. Demos ao mundo a f&eacute; crist&atilde; e os seus valores da verdade, do amor e da justi&ccedil;a, pois esse &eacute; o nosso contributo para a constru&ccedil;&atilde;o da paz. Proclamemos ao mundo que, na conflu&ecirc;ncia do dom de Deus com a a&ccedil;&atilde;o humana se encontra a paz como harmonia integral da pessoa e da sociedade, realiza&ccedil;&atilde;o da voca&ccedil;&atilde;o do Homem, filho de Deus e irm&atilde;o de todos.<\/p>\n<p>Que Santa Maria, M&atilde;e de Deus e Rainha da Paz, nos proteja neste novo ano, que desejamos que seja de progresso e de paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Coimbra, 1 de janeiro de 2013<\/p>\n<p><em>D. Virg&iacute;lio do Nascimento Antunes, bispo de Coimbra<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Car&iacute;ssimos irm&atilde;os! Iniciamos o ano de 2013 com a comemora&ccedil;&atilde;o do Dia Mundial da Paz, na solenidade lit&uacute;rgica de Santa Maria, M&atilde;e de Deus. 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