{"id":59357,"date":"2012-12-18T10:43:20","date_gmt":"2012-12-18T10:43:20","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/12\/18\/a-infancia-de-jesus-2\/"},"modified":"2012-12-18T10:43:20","modified_gmt":"2012-12-18T10:43:20","slug":"a-infancia-de-jesus-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-infancia-de-jesus-2\/","title":{"rendered":"A inf\u00e2ncia de Jesus"},"content":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, biblista,Professor da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa <!--more--> <\/p>\n<p>Devendo ser uma breve apresenta&ccedil;&atilde;o do livro, s&oacute; sublinho aspetos mais emergentes.<\/p>\n<p>Como &eacute; seu apan&aacute;gio, o Papa escreve com eleg&acirc;ncia e l&ecirc;-se com agrado. Desejando &ldquo;dialogar com os textos&rdquo;, fundamenta a sua medita&ccedil;&atilde;o na exegese, procurando a &ldquo;caracteriza&ccedil;&atilde;o liter&aacute;ria&rdquo; e a sua contextualiza&ccedil;&atilde;o na hist&oacute;ria e na geografia (pp. 19-22.77-79&#8230;). Demarcando-se expressamente de &ldquo;categorizados representantes da exegese moderna&rdquo;, tende para considerar hist&oacute;rico o que essa exegese n&atilde;o consideraria tal. Se perguntamos sobre o g&eacute;nero de linguagem que se encontra em Lc 1-2 e Mt 1-2, responde que &ldquo;se procurou compreender a caracteriza&ccedil;&atilde;o dos cap&iacute;tulos Lc 1-2 a partir de um g&eacute;nero liter&aacute;rio hebraico antigo, designando-os &laquo;midraxe hag&aacute;dico&raquo;, isto &eacute;, uma interpreta&ccedil;&atilde;o da Sagrada Escritura atrav&eacute;s de narra&ccedil;&otilde;es. A semelhan&ccedil;a liter&aacute;ria &eacute; ineg&aacute;vel; e todavia &eacute; claro que a narrativa de Lucas da inf&acirc;ncia n&atilde;o se situa no antigo juda&iacute;smo, mas no cristianismo primitivo. Trata-se de algo mais&hellip; Aqui narra-se uma hist&oacute;ria que traz a interpreta&ccedil;&atilde;o sobre a antiga Escritura&hellip; Resumindo, Mateus e Lucas queriam n&atilde;o tanto narrar &laquo;hist&oacute;rias&raquo;, mas escrever hist&oacute;ria: hist&oacute;ria real, sucedida, embora certamente interpretada e compreendida com base na Palavra de Deus&rdquo; (pp. 20-21).<\/p>\n<p>Quanto ao &ldquo;nascimento virginal de Jesus&rdquo;: &ldquo;n&atilde;o tem verdadeiros paralelos&rdquo; na &ldquo;hist&oacute;ria das religi&otilde;es, nas narrativas sobre a gera&ccedil;&atilde;o e o nascimento dos fara&oacute;s eg&iacute;pcios&rdquo;. &ldquo;As narra&ccedil;&otilde;es em Mateus e Lucas n&atilde;o s&atilde;o formas desenvolvidas de mitos&hellip; Est&atilde;o solidamente colocadas na tradi&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica&hellip;&rdquo; (pp. 47-49).<\/p>\n<p>O mais n&iacute;tido distanciamento manifesta-o sobre o local do nascimento de Jesus. Segundo a exegese, a &ldquo;afirma&ccedil;&atilde;o de que Jesus nasceu em Bel&eacute;m seria teol&oacute;gica e n&atilde;o hist&oacute;rica: na realidade, Jesus teria nascido em Nazar&eacute;&rdquo;. Para o Papa, &ldquo;se nos ativermos &agrave;s fontes, fica claro que Jesus nasceu em Bel&eacute;m&rdquo; (pp. 58-59).<\/p>\n<p>Realmente, o nascimento hist&oacute;rico de Jesus pedia medita&ccedil;&atilde;o &agrave; luz de Deus. A vida, a mensagem e o mist&eacute;rio da sua obra libertadora na morte e ressurrei&ccedil;&atilde;o projetava luz sobre ele. Pelo facto de Mateus e Lucas o terem iluminado com temas, imagens, figuras (conce&ccedil;&atilde;o e nascimento de personagens) do Antigo Testamento, a exegese hodierna constata que essa busca de sentido &uacute;ltimo coincide com as t&eacute;cnicas judaicas do midr&aacute;&scaron;, que o judeu Mateus e Lucas conheciam bem e eram praticadas &ldquo;no cristianismo primitivo&rdquo;, como &eacute; reconhecido pelo documento da Comiss&atilde;o B&iacute;blica Pontif&iacute;cia (O povo judeu e as suas Sagradas Escrituras na B&iacute;blia crist&atilde;, n&ordm; 15), prefaciado pelo Sr. Card. J. Ratzinger, seu presidente:<\/p>\n<p>Entre os evangelhos, o de Mateus &eacute; o que mormente d&aacute; provas de familiaridade com as t&eacute;cnicas judaicas de utiliza&ccedil;&atilde;o da Escritura&#8230; Utiliza, mais do que os outros, os procedimentos do midrash narrativo nas suas narra&ccedil;&otilde;es (evangelho da inf&acirc;ncia&hellip;).<\/p>\n<p>O midr&aacute;&scaron; n&atilde;o &eacute; &ldquo;lenda piedosa&rdquo;, nem mito. &Eacute; medita&ccedil;&atilde;o espiritual iluminadora: faz interagir o presente factual (realidades hist&oacute;ricas, geografia objetiva, nascimento, nomes de pessoas conhecidas, Jesus, Maria e Jos&eacute;&hellip;) com a hist&oacute;ria sagrada narrada no Antigo Testamento, canteira aonde os escritores do Novo Testamento foram buscar [midr&aacute;&scaron;] pedrinhas para constru&iacute;rem o novo mosaico, hist&oacute;rico e teol&oacute;gico: a inf&acirc;ncia hist&oacute;rica de Jesus interpretada teologicamente. No midr&aacute;&scaron; n&atilde;o est&aacute; em causa a hist&oacute;ria e a &laquo;hist&oacute;ria da salva&ccedil;&atilde;o&raquo; mas a factualidade do narrado. O &ldquo;algo mais&rdquo; da releitura crist&atilde; relativamente &agrave; judaica &ndash; porque a Realidade a iluminar &eacute; diferente &ndash; cabe plenamente na categoria midr&aacute;&scaron;. &Eacute; revelador e exprime o Mist&eacute;rio, sem ser indispens&aacute;vel ter sucedido objetivamente nos pormenores, como as par&aacute;bolas de Jesus.<\/p>\n<p>A comunica&ccedil;&atilde;o social chamou a aten&ccedil;&atilde;o para o facto de o livro &laquo;admitir que o burro e a vaca s&atilde;o constru&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica; ou seja, no Novo Testamento nada indica que houvesse animais a adorar o menino; a declara&ccedil;&atilde;o foi recebida com surpresa, numa altura em que milh&otilde;es de pessoas come&ccedil;am a fazer o pres&eacute;pio&raquo;. Contudo, o Papa diz em linha com a exegese: &ldquo;No evangelho n&atilde;o se fala de animais; mas a medita&ccedil;&atilde;o guiada pela f&eacute;, lendo o Antigo e o Novo Testamento correlacionados, n&atilde;o tardou a preencher esta lacuna, reportando-se a Is 1,3: &laquo;o boi conhece o seu dono e o jumento o est&aacute;bulo do seu senhor; mas Israel, meu povo, nada entende&raquo;&rdquo;.<\/p>\n<p>Esta tradi&ccedil;&atilde;o &eacute; referida no evangelho ap&oacute;crifo Pseudo-Mateus (s&eacute;c. VI), que cita ainda Habacuc 3,2 (segundo os Setenta: &ldquo;entre dois seres vivos&hellip; ser&aacute;s conhecido&rdquo;); fazia assim lindo midr&aacute;&scaron; narrativo sobre o nascimento de Jesus, iluminado com esses textos sagrados. Mas j&aacute; est&aacute; documentada no s&eacute;c. IV. O Papa remata: &ldquo;nenhuma representa&ccedil;&atilde;o do pres&eacute;pio prescindir&aacute; do boi e do jumento&rdquo; (pp. 61-62). A tradi&ccedil;&atilde;o da gruta (igualmente ausente dos evangelhos can&oacute;nicos) aparece no Protoevangelho de Tiago, in&iacute;cio do s&eacute;c. III, e noutros ap&oacute;crifos.<\/p>\n<p>&Eacute; daqui em diante um livro de refer&ecirc;ncia para meditar os relatos da inf&acirc;ncia de Jesus, n&atilde;o s&oacute; pela emin&ecirc;ncia do autor &ndash; nunca um Papa se agigantou escrevendo sobre estas narrativas evang&eacute;licas! &ndash; mas tamb&eacute;m pela profundidade do conte&uacute;do antropol&oacute;gico e espiritual de muitas p&aacute;ginas. De facto, dos dois momentos hermen&ecirc;uticos requeridos por Bento XVI e pelo magist&eacute;rio eclesial na leitura do texto b&iacute;blico &ndash; que queria dizer no seu contexto hist&oacute;rico, cultural, liter&aacute;rio e religioso, e que quer dizer a mim e a n&oacute;s hoje? (p. 7 e Verbum Domini, 31.34.42.97) &ndash; o Papa distingue-se no segundo. Tem medita&ccedil;&otilde;es elevadas que nos falam vivamente.<\/p>\n<p>Oportuno presente nesta quadra do Natal para sintonizar com as v&aacute;rias celebra&ccedil;&otilde;es!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Armindo Vaz, biblista,<br \/>Professor da Universidade<br \/>Cat&oacute;lica Portuguesa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Armindo Vaz, biblista,Professor da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[120,295,267],"class_list":["post-59357","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59357","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=59357"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/59357\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=59357"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=59357"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=59357"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}