{"id":58992,"date":"2012-11-21T06:01:00","date_gmt":"2012-11-21T06:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/11\/21\/a-infancia-de-jesus\/"},"modified":"2012-11-21T06:01:00","modified_gmt":"2012-11-21T06:01:00","slug":"a-infancia-de-jesus","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-infancia-de-jesus\/","title":{"rendered":"A inf\u00e2ncia de Jesus"},"content":{"rendered":"<p>Excertos do novo livro de Joseph Ratzinger-Bento XVI <!--more--> <\/p>\n<p>(&hellip;) Resumindo, Mateus e Lucas &ndash; cada um &agrave; sua maneira &ndash; queriam n&atilde;o tanto narrar &laquo;hist&oacute;rias&raquo;, mas escrever hist&oacute;ria: hist&oacute;ria real, sucedida, embora certamente interpretada e compreendida com base na Palavra de Deus. Isto significa tamb&eacute;m que n&atilde;o havia a inten&ccedil;&atilde;o de narrar de modo completo, mas de escrever aquilo que, &agrave; luz da Palavra e para a comunidade nascente da f&eacute;, se revelava importante. As narrativas da inf&acirc;ncia s&atilde;o hist&oacute;ria interpretada e, a partir da interpreta&ccedil;&atilde;o, escrita e condensada.<\/p>\n<p align=\"left\">Entre a palavra de Deus e a hist&oacute;ria interpretadora h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca: a Palavra de Deus ensina que os eventos cont&ecirc;m &laquo;hist&oacute;ria da salva&ccedil;&atilde;o&raquo;, que diz respeito a todos. Mas os pr&oacute;prios eventos desvendam, por sua vez, a Palavra de Deus e levam a reconhecer a realidade concreta que se esconde nos diversos textos.<\/p>\n<p>H&aacute; de facto, no Antigo Testamento, palavras que permanecem ainda, por assim dizer, sem titular. Por exemplo, neste contexto, Marius Reiser chama a aten&ccedil;&atilde;o para <em>Isa&iacute;as<\/em> 53. O texto podia aplicar-se a mais do que uma pessoa &ndash; por exemplo, a Jeremias &ndash;, mas o verdadeiro protagonista dos textos ainda se faz esperar. S&oacute; quando Ele aparece &eacute; que a Palavra adquire o seu significado pleno.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(&hellip;) N&oacute;s, crist&atilde;os, sabemos e professamos com gratid&atilde;o: Sim! Deus realizou a sua promessa. O reino do Filho de David, Jesus, estende-se &laquo;de mar a mar&raquo;, de continente a continente, dum s&eacute;culo ao outro.<\/p>\n<p align=\"left\">Naturalmente permanece sempre verdadeira tamb&eacute;m a frase que Jesus disse a Pilatos: &laquo;O meu reino n&atilde;o &eacute; de c&aacute;&raquo; (<em>Jo<\/em> 18, 36). &Agrave;s vezes, no curso da hist&oacute;ria, os poderosos deste mundo colocam-no sob a sua al&ccedil;ada, mas &eacute; precisamente ent&atilde;o que ele corre perigo: querem ligar o seu poder ao poder de Jesus, e precisamente assim deformam o seu reino, tornando-se uma amea&ccedil;a para ele. Ou ent&atilde;o &eacute; sujeito a uma persistente persegui&ccedil;&atilde;o pelos dominadores que n&atilde;o toleram nenhum outro reino e desejam eliminar o rei sem poder, mas cujo poder misterioso temem.<\/p>\n<p align=\"left\">Mas &laquo;o seu reino n&atilde;o ter&aacute; fim&raquo;: este reino diverso n&atilde;o est&aacute; constru&iacute;do sobre um poder mundano, mas funda-se apenas na f&eacute; e no amor. &Eacute; a grande for&ccedil;a da esperan&ccedil;a, no meio dum mundo que parece, com muita frequ&ecirc;ncia, estar abandonado por Deus. O reino do Filho de David, Jesus, n&atilde;o conhece fim, porque nele reina o pr&oacute;prio Deus, nele o Reino de Deus entra neste mundo. A promessa que Gabriel transmitiu &agrave; Virgem Maria &eacute; verdadeira; e realiza-se sem cessar.<\/p>\n<p align=\"left\">&nbsp;<\/p>\n<p align=\"left\">(&hellip;) Eu n&atilde;o vejo como se possa aduzir, em apoio de tal teoria [nascimento de Jesus em Nazar&eacute;, ndr], fontes verdadeiras. De facto, a prop&oacute;sito do nascimento de Jesus, n&atilde;o temos outras fontes al&eacute;m das narrativas da inf&acirc;ncia de Mateus e Lucas. V&ecirc;-se que os dois dependem de representantes de tradi&ccedil;&otilde;es muito diferentes; s&atilde;o influenciados por perspetivas teol&oacute;gicas diferentes, e inclusive as suas informa&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas divergem parcialmente.<\/p>\n<p align=\"left\">Parece que Mateus desconhecia que tanto Jos&eacute; como Maria habitavam inicialmente em Nazar&eacute;. Por isso, quando voltam do Egito, a inten&ccedil;&atilde;o primeira de Jos&eacute; &eacute; ir para Bel&eacute;m, e s&oacute; a not&iacute;cia de que na Judeia reina um filho de Herodes &eacute; que o induz a retirar-se para a Galileia. Ao passo que, para Lucas, &eacute; claro, desde o in&iacute;cio, que a Sagrada Fam&iacute;lia, depois dos acontecimentos do nascimento, voltou para Nazar&eacute;. As duas linhas diversas de tradi&ccedil;&atilde;o concordam na informa&ccedil;&atilde;o de que o local do nascimento de Jesus era Bel&eacute;m. Se nos ativermos &agrave;s fontes, fica claro que Jesus nasceu em Bel&eacute;m e cresceu em Nazar&eacute;.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>(&hellip;) No final deste longo cap&iacute;tulo [Os Magos do Oriente e a fuga para o Egito], levanta-se a quest&atilde;o de saber como se deve entender tudo isto. Trata-se verdadeiramente de hist&oacute;ria que aconteceu ou &eacute; apenas uma medita&ccedil;&atilde;o teol&oacute;gica expressa sob a forma de hist&oacute;rias? A este respeito, Jean Dani&eacute;lou observa com raz&atilde;o: &laquo;Ao contr&aacute;rio da narrativa da anuncia&ccedil;&atilde;o [a Maria], a adora&ccedil;&atilde;o dos magos n&atilde;o toca nenhum aspeto essencial da f&eacute;. Poderia ser uma cria&ccedil;&atilde;o de Mateus, inspirada por uma ideia teol&oacute;gica; em tal caso, nada cairia por terra&raquo; (<em>Les &Eacute;vangiles de l&rsquo;Enfance<\/em>, p. 105). Mas o pr&oacute;prio Dani&eacute;lou chega &agrave; convic&ccedil;&atilde;o de que se trata de acontecimentos hist&oacute;ricos cujo significado foi teologicamente interpretado pela comunidade judaico-crist&atilde; e por Mateus.<\/p>\n<p align=\"left\">Pura e simplesmente, posso dizer: esta &eacute; tamb&eacute;m a minha convic&ccedil;&atilde;o. Entretanto, na avalia&ccedil;&atilde;o da historicidade, &eacute; preciso constatar que, ao longo dos &uacute;ltimos cinquenta anos, se verificou uma mudan&ccedil;a de opini&atilde;o, que n&atilde;o se baseia em novos conhecimentos hist&oacute;ricos, mas numa atitude diversa frente &agrave; Sagrada Escritura e &agrave; mensagem crist&atilde; no seu todo. Enquanto Gerhard Delling, no quarto volume de <em>Theologisches W&ouml;rterbuch zum Neuen Testament<\/em> (1942), considerava a historicidade da narrativa dos magos ainda garantida de maneira convincente pela investiga&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica (cf. p. 362, nota 11), agora mesmo exegetas de clara orienta&ccedil;&atilde;o eclesial, como Ernst Nellessen ou Rudolf Pesch, s&atilde;o contr&aacute;rios &agrave; historicidade ou pelo menos deixam em aberto essa quest&atilde;o.<\/p>\n<p align=\"left\">Perante esta situa&ccedil;&atilde;o, &eacute; digna de aten&ccedil;&atilde;o a tomada de posi&ccedil;&atilde;o, cuidadosamente ponderada, de Klaus Berger, no seu coment&aacute;rio de 2011 a todo o Novo Testamento: &laquo;Mesmo no caso de um &uacute;nico testemunho [&hellip;], &eacute; preciso supor &ndash; at&eacute; prova em contr&aacute;rio &ndash; que os evangelistas n&atilde;o t&ecirc;m a inten&ccedil;&atilde;o de enganar os seus leitores, mas querem contar factos hist&oacute;ricos [&hellip;]. Contestar por mera suspeita a historicidade desta narrativa ultrapassa toda a compet&ecirc;ncia imagin&aacute;vel de historiadores&raquo; que se possa imaginar (p. 20).<\/p>\n<p align=\"left\">N&atilde;o posso deixar de concordar com esta afirma&ccedil;&atilde;o. Os dois cap&iacute;tulos da narrativa da inf&acirc;ncia em Mateus n&atilde;o s&atilde;o uma medita&ccedil;&atilde;o expressa sob a forma de hist&oacute;rias, antes pelo contr&aacute;rio: Mateus narra-nos verdadeira hist&oacute;ria, que foi meditada e interpretada teologicamente, e assim ajuda-nos a compreender mais profundamente o mist&eacute;rio de Jesus.<\/p>\n<p align=\"left\">&nbsp;<\/p>\n<p align=\"left\">(&hellip;) Tamb&eacute;m &eacute; importante aquilo que Lucas diz acerca do crescimento de Jesus n&atilde;o s&oacute; em idade, mas tamb&eacute;m em sabedoria. Por um lado, na resposta de Jesus com 12 anos, tornou-se evidente que Ele conhece o Pai &ndash; Deus &ndash; a partir de dentro. S&oacute; Ele <em>conhece<\/em> Deus, e n&atilde;o atrav&eacute;s de pessoas humanas que d&atilde;o testemunho d&rsquo;Ele &ndash; reconhece-O em Si mesmo. Como Filho, encontra-Se diretamente com o Pai; vive na sua presen&ccedil;a; v&ecirc;-O. Jo&atilde;o diz que Ele &eacute; o Unig&eacute;nito, que &laquo;est&aacute; no seio do Pai&raquo; e, por isso, pode revel&aacute;-l&rsquo;O (<em>Jo<\/em> 1, 18). &Eacute; precisamente isto que se torna evidente na resposta daquele adolescente de 12 anos: Jesus est&aacute; com o Pai, v&ecirc; as coisas e os homens na sua luz.<\/p>\n<p align=\"left\">No entanto, &eacute; verdade tamb&eacute;m que a sua sabedoria <em>cresce<\/em>. Enquanto homem, Jesus n&atilde;o vive numa omnisci&ecirc;ncia abstrata, mas est&aacute; enraizado numa hist&oacute;ria concreta, num lugar e num tempo, nas v&aacute;rias fases da vida humana, e de tudo isto toma forma concreta o seu saber. Manifesta-se aqui, de modo muito claro, que Ele pensou e aprendeu de maneira humana.<\/p>\n<p align=\"left\">Concretamente, torna-se evidente que Jesus &eacute; verdadeiro homem e verdadeiro Deus, como exprime a f&eacute; da Igreja. A profunda liga&ccedil;&atilde;o entre ambas as dimens&otilde;es, em &uacute;ltima an&aacute;lise, n&atilde;o podemos defini-la; permanece um mist&eacute;rio e, todavia, manifesta-se de forma muito concreta na breve narra&ccedil;&atilde;o sobre Jesus aos 12 anos; uma narra&ccedil;&atilde;o que desta maneira abre, ao mesmo tempo, a porta para o conjunto da sua figura que depois nos &eacute; narrada pelos Evangelhos.<\/p>\n<p align=\"left\"><em>Bento XVI, &laquo;Jesus de Nazar&eacute; &ndash; A inf&acirc;ncia de Jesus&raquo; (Princ&iacute;pia Editora, 2012).<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Excertos do novo livro de Joseph Ratzinger-Bento XVI<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,295],"class_list":["post-58992","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-biblia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58992","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58992"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58992\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58992"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58992"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58992"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}