{"id":58958,"date":"2012-11-17T15:12:00","date_gmt":"2012-11-17T15:12:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/11\/17\/conferencia-de-d-jose-policarpo-nas-jornadas-liturgia-arte-e-arquitetura-nos-50-anos-do-concilio-vaticano-ii\/"},"modified":"2012-11-17T15:12:00","modified_gmt":"2012-11-17T15:12:00","slug":"conferencia-de-d-jose-policarpo-nas-jornadas-liturgia-arte-e-arquitetura-nos-50-anos-do-concilio-vaticano-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-de-d-jose-policarpo-nas-jornadas-liturgia-arte-e-arquitetura-nos-50-anos-do-concilio-vaticano-ii\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia de D. Jos\u00e9 Policarpo nas Jornadas \u00abLiturgia, Arte e Arquitetura\u00bb nos 50 anos do Conc\u00edlio Vaticano II"},"content":{"rendered":"<p><strong>&laquo;A atualidade do Conc&iacute;lio Vaticano <\/strong><strong>II&raquo;<\/strong><\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Beleza e Transcend&ecirc;ncia<\/strong><\/p>\n<p>1. O homem busca espontaneamente o belo, como busca o amor. A beleza &eacute;, em si mesma, uma express&atilde;o da transcend&ecirc;ncia do homem, e de Deus, o transcendente. A beleza abre o cora&ccedil;&atilde;o humano para o infinito, convida-o a abrir o esp&iacute;rito para um horizonte de vida onde, se o atingir, ele encontrar&aacute; a plenitude da vida. A beleza &eacute; sempre, na experi&ecirc;ncia humana, uma not&iacute;cia de Deus. Nada fecha tanto o homem &agrave; busca de Deus como a ren&uacute;ncia &agrave; beleza.<\/p>\n<p>Compreende-se, pois, que a religi&atilde;o seja um lugar privilegiado da busca da beleza, expressa na criatividade humana, sobretudo nos templos, mas no interior do homem como experi&ecirc;ncia de harmonia, de paz, de amor: a beleza torna-se experi&ecirc;ncia de contempla&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>2. Estamos a celebrar 50 anos do Conc&iacute;lio Vaticano II. Gostaria de, no in&iacute;cio desta minha interven&ccedil;&atilde;o, vos citar uma passagem da &ldquo;Mensagem do Conc&iacute;lio a todos os Homens&rdquo;, na parte dirigida aos artistas:<\/p>\n<p>&ldquo;E agora a v&oacute;s os artistas, que estais possu&iacute;dos da beleza e trabalhais para ela: poetas e homens das letras, pintores, escultores, arquitetos, m&uacute;sicos, homens do teatro e cineastas&hellip; a todos v&oacute;s a Igreja do Conc&iacute;lio diz pela nossa voz: se sois amigos da verdadeira arte, sois nossos amigos! A Igreja fez, h&aacute; muito tempo, alian&ccedil;a convosco. V&oacute;s edificastes e decorastes os seus templos, celebrastes os seus dogmas, enriquecestes a sua liturgia. Ajudastes a traduzir a sua mensagem divina na linguagem das formas e das figuras, a tornar sens&iacute;vel o mundo invis&iacute;vel.<\/p>\n<p>Hoje, como ontem, a Igreja precisa de v&oacute;s e volta-se para v&oacute;s; diz-vos pela nossa v&oacute;s: n&atilde;o deixeis quebrar uma das mais fecundas alian&ccedil;as. N&atilde;o recuseis p&ocirc;r o vosso talento ao servi&ccedil;o da verdade divina. N&atilde;o fecheis o vosso esp&iacute;rito ao sopro do Esp&iacute;rito Santo.<\/p>\n<p>Este mundo em que vivemos precisa da beleza para n&atilde;o so&ccedil;obrar no desespero. A beleza, como a verdade, &eacute; que traz alegria ao cora&ccedil;&atilde;o dos homens, &eacute; este fruto precioso que resiste &agrave; usura do tempo, que une as gera&ccedil;&otilde;es e as faz comungar na admira&ccedil;&atilde;o. E isto atrav&eacute;s das vossas m&atilde;os&hellip; Que essas m&atilde;os sejam puras e desinteressadas. Recordai-vos que sois os guardi&otilde;es da beleza no mundo. Que isso vos leve a libertar-vos de gostos ef&eacute;meros e sem valor verdadeiro, a libertar-vos da busca de express&otilde;es estranhas e doentias.<\/p>\n<p>Sede sempre e em toda a parte dignos do vosso ideal, e sereis dignos da Igreja que, pela nossa voz, vos dirige hoje a sua mensagem de amizade, de sauda&ccedil;&atilde;o, de gra&ccedil;a e de b&ecirc;n&ccedil;&atilde;o&rdquo;.<\/p>\n<p>Impressiona a atualidade desta Mensagem, aprovada h&aacute; 50 anos, pelos Padres Conciliares. Ela abre-nos &agrave; atualidade, 50 anos depois, da vis&atilde;o de Igreja dos Padres Conciliares. A Igreja quer ser o lugar da beleza e, por isso, considera os artistas seus aliados naturais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A beleza, sacramento do mist&eacute;rio<\/strong><\/p>\n<p>3. &Eacute; espec&iacute;fico da Igreja viver e celebrar no tempo, no seio da realidade humana, o mist&eacute;rio, de Deus e do homem &agrave; luz de Deus, em Jesus Cristo. A arte &eacute;, entre as realidades humanas, aquela que mais espontaneamente abre ao mist&eacute;rio, vivido e celebrado pela Igreja. Citemos agora a primeira Constitui&ccedil;&atilde;o Conciliar: &ldquo;Entre as mais nobres atividades do esp&iacute;rito humano contam-se justamente as belas artes, mas sobretudo a arte religiosa e, de modo especial, aquela que &eacute; a sua plenitude, a arte sacra. Por natureza elas procuram exprimir nas obras humanas a beleza infinita de Deus e consagram-se de tal maneira a aumentar o seu louvor e a sua gl&oacute;ria, que n&atilde;o t&ecirc;m outro objetivo que n&atilde;o seja o contribuir o mais poss&iacute;vel para voltar as almas humanas para Deus&rdquo; (SC. n&ordm; 122).<\/p>\n<p>&Eacute; sobretudo na liturgia, em que a Igreja celebra o mist&eacute;rio, que a arte e a beleza s&atilde;o chamadas a essa fun&ccedil;&atilde;o de media&ccedil;&atilde;o sacramental. Tudo o que contribui para a celebra&ccedil;&atilde;o da f&eacute;, da comunidade reunida como povo sacerdotal, espa&ccedil;os, imagens, objetos lit&uacute;rgicos, devem ser belos e garantir a harmonia com a comunidade orante, &ldquo;para significar e simbolizar as realidades celestes (&hellip;) a Igreja velou sempre, com um zelo especial, para garantir que o material sagrado contribu&iacute;sse, de maneira digna, para o brilho do culto, admitindo todavia, quer nos materiais usados, quer nas formas ou na decora&ccedil;&atilde;o, as mudan&ccedil;as introduzidas ao longo dos tempos pelo progresso das t&eacute;cnicas&rdquo; (SC. n&ordm; 122).<\/p>\n<p>Portanto, nesta busca da beleza para a celebra&ccedil;&atilde;o do mist&eacute;rio, a Igreja n&atilde;o tem um estilo pr&oacute;prio. &Eacute; da sua natureza procurar a harmonia da sua realidade espiritual com a cultura, a sensibilidade pr&oacute;pria de cada tempo. S&atilde;o as escolas culturais e art&iacute;sticas que s&atilde;o chamadas a colaborar com a Igreja, garantindo &agrave; express&atilde;o do mist&eacute;rio a beleza que ele requer. Isso n&atilde;o significa que a Igreja possa aprovar e aceitar todas as cria&ccedil;&otilde;es da arte. O Conc&iacute;lio afirma: &ldquo;A Igreja comportou-se sempre como juiz das belas artes, discernindo entre as obras dos artistas aquelas que se harmonizam com a f&eacute;, a piedade e as leis tradicionais da religi&atilde;o, e que seriam suscet&iacute;veis de um uso sagrado&rdquo; (SC. n&ordm; 122).<\/p>\n<p>O tema desta confer&ecirc;ncia leva-nos a centrar esta converg&ecirc;ncia entre a arte e a express&atilde;o da Igreja na celebra&ccedil;&atilde;o dos mist&eacute;rio crist&atilde;os, no templo, isto &eacute;, no espa&ccedil;o sagrado onde a assembleia se re&uacute;ne para celebrar os mist&eacute;rios da f&eacute;, tendo em conta que a conce&ccedil;&atilde;o do espa&ccedil;o tem de ser dinamicamente aberta &agrave; atualidade da celebra&ccedil;&atilde;o da f&eacute;. A obra art&iacute;stica &eacute; express&atilde;o da beleza e esta &eacute; atual, tem a marca do presente aberto para a eternidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>O mist&eacute;rio do Templo<\/strong><\/p>\n<p>4. Construir uma Igreja significa, na linguagem comum, edificar um templo crist&atilde;o. Isso sup&otilde;e uma compreens&atilde;o da conce&ccedil;&atilde;o de templo na teologia crist&atilde;. Na hist&oacute;ria das religi&otilde;es, o templo &eacute; a morada de Deus no meio dos homens. No caso de Israel Deus n&atilde;o facilita a constru&ccedil;&atilde;o de um templo material, pois o que Ele quer &eacute; habitar no seu povo, deseja que esse Povo, seu escolhido, seja, no meio dos outros povos, o lugar onde Ele habita.<\/p>\n<p>No Novo Testamento esse desejo de Deus vai realizar-se. Ele n&atilde;o quer habitar num templo de pedra, mas no cora&ccedil;&atilde;o dos homens, no Povo escolhido e santificado por Cristo, Deus feito Homem. &Eacute; Ele o templo desejado por Deus para habitar. No epis&oacute;dio da purifica&ccedil;&atilde;o do Templo, Jesus afirma: &ldquo;arrasai este Templo e Eu o levantarei em tr&ecirc;s dias&rdquo;. S&atilde;o Jo&atilde;o explica que Jesus falava do templo do Seu corpo (Jo. 2,19-21). Cristo &eacute; o novo e definitivo Templo. A Igreja identifica-se com Cristo, &eacute; o corpo de Cristo. Ela &eacute; o novo Povo do Senhor, o verdadeiro Templo que Deus sempre desejou. Nela como Povo e em cada um dos seus membros, Deus habita.<\/p>\n<p>S&atilde;o Paulo explicita-o na 1&ordf; Carta aos Cor&iacute;ntios: &ldquo;N&atilde;o sabeis que sois Templo de Deus e que o Esp&iacute;rito de Deus habita em v&oacute;s? Se algu&eacute;m destr&oacute;i o Templo de Deus, Deus o destruir&aacute;. Pois o Templo de Deus &eacute; santo e v&oacute;s sois esse Templo&rdquo; (1Cor. 3,16-17).<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio prop&otilde;e esta no&ccedil;&atilde;o de Templo: &ldquo;O Esp&iacute;rito habita na Igreja e no cora&ccedil;&atilde;o dos fi&eacute;is como num templo, neles Ele reza e atesta a sua condi&ccedil;&atilde;o de filhos de Deus por ado&ccedil;&atilde;o&rdquo; (LG. n&ordm; 4).<\/p>\n<p>Este novo Templo onde Deus habita, a sua Igreja, &eacute; Ele pr&oacute;prio que a constr&oacute;i como foi Ele que, envolvendo a Virgem Maria na Sua sombra, gerou no seu seio o Verbo de Deus feito Homem. O Conc&iacute;lio afirma que &ldquo;a Igreja &eacute; a constru&ccedil;&atilde;o de Deus. O pr&oacute;prio Senhor se comparou &agrave; pedra rejeitada pelos construtores e se tornou pedra angular&rdquo; (LG. n&ordm; 6).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>5. A constru&ccedil;&atilde;o de um &ldquo;templo&rdquo; de pedra tem de se inserir no ritmo da constru&ccedil;&atilde;o deste templo vivo, que &eacute; a Igreja. Tudo nele deve contribuir para as express&otilde;es espirituais da constru&ccedil;&atilde;o da Igreja viva, o verdadeiro Templo onde Deus habita e age. H&aacute; uma transcend&ecirc;ncia que tem de se exprimir na pedra: a sua harmonia tem de ser express&atilde;o da harmonia da a&ccedil;&atilde;o salv&iacute;fica de Deus, Trindade Sant&iacute;ssima.<\/p>\n<p>A qualidade da Igreja, Templo do Deus Vivo, n&atilde;o se esgota na Sua presen&ccedil;a no templo material. Mas esta est&aacute; no centro, porque a Igreja &eacute;, antes de mais, assembleia convocada, Povo de Deus reunido para celebrar os mist&eacute;rios da salva&ccedil;&atilde;o. E nada no templo material deve agredir a atitude espiritual dessa assembleia reunida. &Eacute; a&iacute; que a Igreja celebra a Eucaristia e os outros sacramentos; &eacute; a&iacute; que adora Cristo ressuscitado realmente presente na Reserva Eucar&iacute;stica; &eacute; a&iacute; que, individualmente se busca o encontro pessoal com Cristo vivo e, por Ele, com o Pai; &eacute; a&iacute; o lugar privilegiado para escutar a Palavra de Deus. A harmonia e a beleza do edif&iacute;cio material deve ser ambiente prop&iacute;cio para todas estas express&otilde;es de um povo crente, Igreja viva, Templo do Deus vivo.<\/p>\n<p>Isto sup&otilde;e que aqueles que imaginam e projetam o templo de pedra, tenham, na sua f&eacute;, uma compreens&atilde;o da realidade da Igreja viva. Ali&aacute;s deveria ser sempre em equipa, de que fa&ccedil;am parte os arquitetos, outros artistas, te&oacute;logos e liturgistas, que se deveria projetar uma Igreja. Os crit&eacute;rios, a inspirar o resultado final, t&ecirc;m de ser consent&acirc;neos com o ritmo da Igreja viva.<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio afirma mesmo que &eacute; preciso dar prioridade &agrave; beleza sobre a suntuosidade (cf. SC. n&ordm; 124); a simplicidade &eacute;, tantas vezes, mais consent&acirc;nea com a beleza. &Eacute; por isso que o Conc&iacute;lio n&atilde;o hesita em afirmar que a fun&ccedil;&atilde;o do artista &eacute; um <strong>minist&eacute;rio<\/strong>, isto &eacute;, um servi&ccedil;o para a edifica&ccedil;&atilde;o da Igreja viva (cf. SC. n&ordm; 122).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A arte e o tempo<\/strong><\/p>\n<p>6. Na celebra&ccedil;&atilde;o dos seus mist&eacute;rios a Igreja, ao longo de 2000 anos, realiza uma s&iacute;ntese maravilhosa entre a perenidade da sua f&eacute; e a sua express&atilde;o temporal. A arte religiosa &eacute; um elemento importante na forma&ccedil;&atilde;o da Tradi&ccedil;&atilde;o. Merece a pena citar aqui um texto da Constitui&ccedil;&atilde;o &ldquo;Sacrosanctum Concilium&rdquo;: &ldquo;A Igreja nunca considerou nenhum estilo art&iacute;stico como coisa pr&oacute;pria, mas, segundo o car&aacute;cter e as condi&ccedil;&otilde;es dos povos, segundo as necessidades dos diversos ritos, a Igreja aceitou os g&eacute;neros de cada &eacute;poca, produzindo ao longo dos s&eacute;culos um tesouro art&iacute;stico que &eacute; preciso preservar cuidadosamente. Que a arte da nossa &eacute;poca e a de todos os povos e na&ccedil;&otilde;es tenha, tamb&eacute;m, na Igreja, a liberdade para se exprimir, desde que sirva os edif&iacute;cios e os ritos sagrados com o respeito e a honra que lhe s&atilde;o devidos; assim juntar&aacute; a sua voz a esse admir&aacute;vel concerto de gl&oacute;ria que homens grandes cantaram em honra da f&eacute; cat&oacute;lica ao longo dos s&eacute;culos passados&rdquo; (SC. n&ordm; 123).<\/p>\n<p>Nesta harmonia entre o perene e o temporal, nesta polifonia de estilos, de escolas art&iacute;sticas, de dimens&otilde;es pr&oacute;prias do tempo presente, a arte sacra garante o di&aacute;logo da Igreja com a cultura e a rela&ccedil;&atilde;o do que &eacute; pr&oacute;prio de cada tempo com o car&aacute;cter imut&aacute;vel da f&eacute; da Igreja. Para valorizar elementos da atualidade cultural n&atilde;o pode agredir a perenidade do mist&eacute;rio. &Eacute; por isso que a Igreja viva ainda se sente hoje bem a celebrar e a rezar em templos rom&acirc;nicos, g&oacute;ticos ou barrocos. Compete &agrave; liturgia viva realizar a s&iacute;ntese entre esses estilos do passado e a atualidade da f&eacute; da Igreja.<\/p>\n<p>H&aacute; um aspeto desta s&iacute;ntese entre perenidade e temporalidade da f&eacute; da Igreja que gostaria de referir, porque o considero particularmente significativo para a arquitetura religiosa. Ao longo dos s&eacute;culos verific&aacute;mos que dimens&otilde;es do mist&eacute;rio da Igreja, particularmente vivas na espiritualidade do tempo, se exprimiram na arquitetura religiosa. Assim a centralidade do minist&eacute;rio apost&oacute;lico e a import&acirc;ncia dada ao minist&eacute;rio do Bispo, exprimem-se na Bas&iacute;lica romana e no rom&acirc;nico; a dimens&atilde;o escatol&oacute;gica da Igreja, que se concebe como um povo peregrino a caminho da P&aacute;tria Celeste, exprime-se no g&oacute;tico em que as Igrejas s&atilde;o &ldquo;orientadas&rdquo; e a assembleia lit&uacute;rgica se concebe como um povo a caminho do &ldquo;oriente&rdquo;, isto &eacute;, da &uacute;ltima vinda de Cristo, levando &agrave; sua frente o Bispo ou o presb&iacute;tero seu representante; a adora&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica marca o estilo barroco, etc.<\/p>\n<p>Podemos dizer que uma dimens&atilde;o particularmente afirmada da experi&ecirc;ncia espiritual da Igreja se exprime na arquitetura religiosa. Nesse sentido podemos dizer que o Conc&iacute;lio Vaticano II, longamente preparado pelo movimento lit&uacute;rgico, com a sua vis&atilde;o de Igreja, gerou um estilo pr&oacute;prio de arquitetura religiosa. O principal elemento da eclesiologia do Vaticano II a influenciar a arquitetura religiosa &eacute; a dimens&atilde;o comunit&aacute;ria da Igreja. Esta &eacute; vista como comunidade de todos os fi&eacute;is, um povo sacerdotal. A principal express&atilde;o desta comunidade eclesial &eacute; a celebra&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica. Todo o espa&ccedil;o lit&uacute;rgico &eacute; concebido em ordem a esta comunidade reunida, na pluralidade dos seus carismas e minist&eacute;rios. As consequ&ecirc;ncias arquitet&oacute;nicas mais imediatas foram a coloca&ccedil;&atilde;o do Altar, o relevo dado &agrave; mesa da Palavra, a converg&ecirc;ncia da assembleia para o Altar, a uni&atilde;o, numa mesma assembleia celebrativa, dos fi&eacute;is e dos servidores do Altar, presb&iacute;teros, di&aacute;conos, ac&oacute;litos.<\/p>\n<p>A assembleia lit&uacute;rgica &eacute; presidida pelo Bispo ou um presb&iacute;tero, e a cadeira da Presid&ecirc;ncia tem desafiado as solu&ccedil;&otilde;es arquitet&oacute;nicas.<\/p>\n<p>Um elemento a exigir consci&ecirc;ncia teol&oacute;gico-lit&uacute;rgica por parte dos arquitetos &eacute; o lugar da Reserva Eucar&iacute;stica, que na Igreja Cat&oacute;lica &eacute; desafio de adora&ccedil;&atilde;o permanente e de ora&ccedil;&atilde;o pessoal. O Sacr&aacute;rio tem de ocupar um lugar que lhe d&ecirc;, fora da celebra&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica, centralidade de converg&ecirc;ncia de todo o espa&ccedil;o sagrado. A adora&ccedil;&atilde;o pessoal &eacute;, tamb&eacute;m, uma express&atilde;o de toda a Igreja orante e adorante. Nem todas as solu&ccedil;&otilde;es encontradas nas novas Igrejas s&atilde;o satisfat&oacute;rias.<\/p>\n<p>Um outro elemento sempre a exigir uma solu&ccedil;&atilde;o que respeite a compreens&atilde;o da Igreja, &eacute; o Batist&eacute;rio. Duas linhas teol&oacute;gicas influenciaram a arquitetura: a rela&ccedil;&atilde;o entre Batismo e Eucaristia, que levou a colocar o Batist&eacute;rio em rela&ccedil;&atilde;o direta com o Altar, e a vis&atilde;o do Batismo como sacramento de entrada na Igreja, retomando a tradi&ccedil;&atilde;o de colocar o Batist&eacute;rio &agrave; entrada da Igreja. Nessa solu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se pode perder de vista a rela&ccedil;&atilde;o do Batismo com a Eucaristia. As duas solu&ccedil;&otilde;es podem convergir numa equilibrada integra&ccedil;&atilde;o do Batist&eacute;rio com a assembleia do Povo de Deus.<\/p>\n<p>Um outro sacramento exigir&aacute;, &agrave; luz do magist&eacute;rio recente, criatividade arquitet&oacute;nica: o sacramento da Penit&ecirc;ncia ou Reconcilia&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Outras vis&otilde;es socioculturais da Igreja, explicitadas por uma certa teologia, acabaram por ter influ&ecirc;ncia na arquitetura e t&ecirc;m a ver com a inser&ccedil;&atilde;o do edif&iacute;cio da Igreja no conjunto da cidade e da realidade humana. A Igreja que se apaga como edif&iacute;cio sagrado e se esconde no r&eacute;s-do-ch&atilde;o de um pr&eacute;dio, ou o espa&ccedil;o do templo que serve para outras atividades da comunidade humana, sendo polivalente na sua utiliza&ccedil;&atilde;o. As solu&ccedil;&otilde;es encontradas n&atilde;o satisfazem e voltou-se a admitir que a Igreja deve ser, na sua inser&ccedil;&atilde;o na Cidade, um sinal f&iacute;sico do sagrado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. Nesta mesma linha da influ&ecirc;ncia das vis&otilde;es da Igreja na arquitectura religiosa, est&aacute;-se a assistir a um outro fen&oacute;meno: as vis&otilde;es de Igreja de certos movimentos em concreto a quererem influenciar arquiect&oacute;nicamente o Templo que &eacute; de toda a comunidade. Uma vis&atilde;o de Igreja, para se exprimir &nbsp;publicamente na arquitectura, tem de ser a vis&atilde;o oficial da Igreja, confirmada pelo Magist&eacute;rio. E o Bispo &eacute; o &uacute;ltimo guardi&atilde;o desta autenticidade eclesiol&oacute;gica. Para isso deve garantir servi&ccedil;os de qualidade que promovam a autenticidade da arquitectura religiosa e pro&iacute;bam os desvios e as falsas solu&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Ali&aacute;s, esta criatividade em ordem a uma arquitectura religiosa que se insira dinamicamente no verdadeiro Templo do Deus vivo, exige forma&ccedil;&atilde;o permanente de arquitectos e outros artistas e do clero (cf. SC. nn. 127, 129). Sup&otilde;e que todo o Povo de Deus tenha uma consci&ecirc;ncia clara do mist&eacute;rio da Igreja a que pertencem. Quantas vezes, uma vis&atilde;o pietista dos fi&eacute;is, acaba por influenciar solu&ccedil;&otilde;es arquitect&oacute;nicas fr&aacute;geis ou mesmo erradas. A harmonia da beleza tem a sua fonte na harmonia da f&eacute;, confessada e vivida.<\/p>\n<p>Lisboa, 16 de novembro de 2012<\/p>\n<p><em>D. Jos&eacute; Policarpo, cardeal-patriarca de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&laquo;A atualidade do Conc&iacute;lio Vaticano II&raquo; &nbsp; Beleza e Transcend&ecirc;ncia 1. O homem busca espontaneamente o belo, como busca o amor. A beleza &eacute;, em si mesma, uma express&atilde;o da transcend&ecirc;ncia do homem, e de Deus, o transcendente. A beleza abre o cora&ccedil;&atilde;o humano para o infinito, convida-o a abrir o esp&iacute;rito para um horizonte [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[119,144,161,187,199,246,294],"class_list":["post-58958","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-arte-sacra","tag-concilio-vaticano-ii","tag-d-jose-policarpo","tag-diocese-do-porto","tag-espiritualidade","tag-liturgia","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58958","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58958"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58958\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58958"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58958"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58958"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}