{"id":58390,"date":"2012-10-09T11:54:00","date_gmt":"2012-10-09T11:54:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/10\/09\/um-novo-concilio-seria-um-perigo\/"},"modified":"2012-10-09T11:54:00","modified_gmt":"2012-10-09T11:54:00","slug":"um-novo-concilio-seria-um-perigo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/um-novo-concilio-seria-um-perigo\/","title":{"rendered":"Um novo Conc\u00edlio seria um perigo"},"content":{"rendered":"<p>A visibilidade crescente de quem \u201csempre esteve contra tudo\u201d no Vaticano II, a nova evangeliza\u00e7\u00e3o, o Ano da F\u00e9 e os problemas em Portugal e na Europa analisados por D. Jos\u00e9 Policarpo  <!--more--> <\/p>\n<p>D. Jos&eacute; Policarpo considera que a tend&ecirc;ncia representada pelos bispos que, no Vaticano II estiveram &ldquo;sempre contra tudo&rdquo; &eacute; mais vis&iacute;vel. Em entrevista &agrave; ag&ecirc;ncia ECCCLESIA, o cardeal-patriarca de Lisboa analisa as surpresas e novidades do Conc&iacute;lio, h&aacute; 50 anos, os processos de rece&ccedil;&atilde;o, que hoje acontecem em ambiente de nova evangeliza&ccedil;&atilde;o. Sobre esse projeto refere que corre o risco de &ldquo;ser integrado &ldquo;na estrutura&rdquo;. E analisa o sistema econ&oacute;mico-financeiro que determina por vezes solu&ccedil;&otilde;es &uacute;nicas para os pa&iacute;ses da Uni&atilde;o Europeia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-style: italic;\">Ecclesia &#8211; Tinha sido ordenado h&aacute; um ano, quando o Conc&iacute;lio come&ccedil;ou. Como viveu esses tempos?<\/span><\/p>\n<p><em>D. Jos&eacute; Policarpo<\/em> &ndash; O Conc&iacute;lio foi um acontecimento empolgante, que mobilizou a Igreja toda. N&oacute;s, que &eacute;ramos jovens, vibr&aacute;mos muito com o Conc&iacute;lio.<\/p>\n<p>Foi uma surpresa! Jo&atilde;o XXIII surpreendeu toda a gente.<\/p>\n<p>A primeira sess&atilde;o foi muito dif&iacute;cil. Sentiu-se um confronto entre a expectativa gerada no mundo, que era de renova&ccedil;&atilde;o da Igreja, e o trabalho das comiss&otilde;es que prepararam o Conc&iacute;lio. Nesse trabalho, entre 1959 e 62, retomaram um velho dinamismo &ndash; esse nunca tinha morrido &ndash; de retomar o Conc&iacute;lio Vaticano I.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Alguns pontificados anteriores tentaram-no&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Sim, todos eles&hellip; Pio XII chegou a ter uma comiss&atilde;o nomeada para retomar os trabalhos do Conc&iacute;lio Vaticano I.<\/p>\n<p>O Vaticano I foi interrompido pelas vicissitudes militares da reunifica&ccedil;&atilde;o italiana: estava a decorrer quando Roma foi conquistada, tendo os padres de sair &agrave; pressa para os seus pa&iacute;ses. Estavam a discutir um documento sobre a Igreja, tendo s&oacute; aprovado a infalibilidade do Papa. E acabou por nunca ser encerrado.<\/p>\n<p>Havia a ideia que era preciso retomar o Conc&iacute;lio Vaticano I, o que acabou por influenciar os documentos elaborados pelas comiss&otilde;es preparat&oacute;rias do Conc&iacute;lio Vaticano II.<\/p>\n<p>Na primeira sess&atilde;o verificou-se o confronto entre a expectativa de que os bispos de todo o mundo eram portadores &ndash; tirando um pequenino grupo que sempre reagiu at&eacute; ao fim &ndash; e essa documenta&ccedil;&atilde;o que lhes foi entregue.<\/p>\n<p>Por isso a dificuldade da primeira sess&atilde;o. Os bispos come&ccedil;am por rejeitar o primeiro documento que lhes foi apresentado, que retomava as condena&ccedil;&otilde;es, sobretudo contra o modernismo, dizendo que o Conc&iacute;lio n&atilde;o se reunia para condenar, mas para anunciar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; E a&iacute; est&aacute; uma novidade deste Conc&iacute;lio?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Esta &eacute; uma surpresa, mais do que uma novidade. &Eacute; uma primeira manifesta&ccedil;&atilde;o de que o esp&iacute;rito do Conc&iacute;lio vai ser outro.<\/p>\n<p>A grande novidade do Vaticano II est&aacute; no facto de, ao contr&aacute;rio de todos os anteriores conc&iacute;lios, n&atilde;o se reunir para esclarecer pontos de doutrina e defini-la dogmaticamente.<\/p>\n<p>Por isso, na primeira sess&atilde;o, os padres conciliares rejeitaram os mais de duzentos documentos preparat&oacute;rios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A C&uacute;ria Romana estaria a pensar que os padres conciliares votassem esses documentos preparat&oacute;rios, encerrando o Conc&iacute;lio rapidamente?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; N&atilde;o sei, em termos de C&uacute;ria Romana. Nessa altura conhec&iacute;a-a mal. O que h&aacute; &eacute; um confronto entre a burocracia mesmo teol&oacute;gica e a expectativa conciliar.<\/p>\n<p>Com a rejei&ccedil;&atilde;o de todos os textos preparat&oacute;rios, fica-se no vazio&hellip;<\/p>\n<p>H&aacute; duas interven&ccedil;&otilde;es no &uacute;ltimo dia da primeira sess&atilde;o, 4 de dezembro de 1962, que saud&aacute;mos nessa altura com muito entusiasmo: uma do cardeal Montini, que suceder&aacute; ao Papa Jo&atilde;o XXIII, e outra do cardeal Suenens, arcebispo de Bruxelas.<\/p>\n<p>A primeira &eacute; do cardeal Suenens. Disse que o Conc&iacute;lio deve responder a uma pergunta: &ldquo;Igreja que dizes de ti mesma para anunciar ao mundo o Evangelho?&rdquo;. O cardeal Montini diz que a Igreja s&oacute; pode responder a esta quest&atilde;o se se reencontrar com Jesus Cristo e a tradi&ccedil;&atilde;o que vem desde a &eacute;poca apost&oacute;lica.<\/p>\n<p>S&atilde;o estas duas interven&ccedil;&otilde;es que determinam a nova prepara&ccedil;&atilde;o dos documentos a debater pelo Conc&iacute;lio, reduzindo-os primeiro a 17 e depois a 13 textos (a Gaudium et Spes durante muito tempo n&atilde;o teve t&iacute;tulo, chamando-se Esquema XIII, o que originou, por exemplo um nome para um programa do padre Ant&oacute;nio Rego na comunica&ccedil;&atilde;o social). A perspetiva deste esquema era essa mesma: Igreja que pensas de ti mesma e que renova&ccedil;&atilde;o precisas de fazer para seres enviada ao mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Esse Esquema XIII, como outros documentos, eram resultado de debates alargados, em Roma e noutras cidades, como em Zurich. Trata-se de uma nova metodologia para pensar a doutrina cat&oacute;lica?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Essa &eacute; por certo a dimens&atilde;o que teve no Vaticano II uma amplitude muito maior em rela&ccedil;&atilde;o a outros conc&iacute;lios: o entusiasmo e a participa&ccedil;&atilde;o das igrejas de todo o mundo, e mesmo de fora da Igreja, no que acontecia em Roma. Deve-se, entre outros elementos, ao n&uacute;mero dos padres conciliares (no Vaticano II est&atilde;o mais de 2000 bispos presentes, enquando os anteriores n&atilde;o tinham reunido mais do que algumas centenas), o que &eacute; um sinal da universalidade e da expans&atilde;o da Igreja pelo dinamismo mission&aacute;rio em todo o mundo. Por outro lado, o Conc&iacute;lio beneficia dos modernos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, fazendo com que tudo o que se passava em Roma se soubesse no dia seguinte em todo o mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O facto de n&atilde;o ser um Conc&iacute;lio para decretar dogmas ou condenar heresias constitui uma for&ccedil;a ou uma fraqueza do Vaticano II?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; &Eacute; uma for&ccedil;a.<\/p>\n<p>A exatid&atilde;o doutrinal n&atilde;o est&aacute; exclu&iacute;da. No esfor&ccedil;o de pensar a Igreja, o Conc&iacute;lio est&aacute; a fazer doutrina. Simplesmente n&atilde;o est&aacute; a definir dogmas.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; nenhuma defini&ccedil;&atilde;o dogm&aacute;tica no Conc&iacute;lio Vaticano II. H&aacute; novidades doutrinais (como &eacute; o caso da compreens&atilde;o do episcopado, confusa e com v&aacute;rias correntes at&eacute; essa ocasi&atilde;o, a&iacute; assumida como a plenitude do sacerd&oacute;cio apost&oacute;lico).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Essa natureza do Conc&iacute;lio n&atilde;o gerou ambiguidades na posterior rece&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; O Conc&iacute;lio gerou uma euforia. Houve pessoas que pensaram que o Conc&iacute;lio ia mudar tudo. E as coisas que queriam mudar mudaram-nas dizendo que era o Conc&iacute;lio que permitia.<\/p>\n<p>Houve muita euforia conciliar que n&atilde;o tem nada a ver com a solidez da mensagem conciliar. Houve e continua a haver&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O Papa Bento XVI, num discurso &agrave; C&uacute;ria Romana em 2005, rejeita a rutura e afirma a continuidade que o Conc&iacute;lio ter&aacute; constitu&iacute;do em rela&ccedil;&atilde;o aos tempos anteriores, na Igreja. &Eacute; de facto, de continuidade que se trata?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; O Conc&iacute;lio &eacute; um acontecimento marcante. Em termos de Hist&oacute;ria da Humanidade &eacute; o maior acontecimento do s&eacute;c. XX.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Em termos culturais?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Em termos de acontecimento, que inclui aspetos culturais, pessoais&hellip; &Eacute; um grande acontecimento.<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio assume francamente os dois aspetos: continuidade e um tempo novo. N&atilde;o se pode falar em rutura. Na Igreja s&oacute; existe rutura com o pecado.<\/p>\n<p>A continuidade tem uma caracter&iacute;stica interessante, no Vaticano II: n&atilde;o se trata de uma continuidade com o ontem, mas com o antes de ontem. O modelo de Igreja que inspira a compreens&atilde;o da Igreja do Vaticano II &eacute; a dos primeiros mil anos de hist&oacute;ria, da &eacute;poca apost&oacute;lica e patr&iacute;stica, esquecida e relativizada desde a escol&aacute;stica (caraterizada pela racionalidade da teologia e do pensar a f&eacute; e pelo confronto com a reforma protestante, um acontecimento traumatizante para a Europa que mobilizou as tomadas de posi&ccedil;&atilde;o do magist&eacute;rio durante 200 anos, na contrareforma). Tinha-se perdido muito essa beleza e serenidade da compreens&atilde;o apost&oacute;lica da Igreja.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso ter em conta que o Conc&iacute;lio acontece na continuidade de grandes movimentos que tinham nascido na Igreja nos finais do s&eacute;c. XIX e in&iacute;cio do s&eacute;c. XX. Um deles &eacute; certamente teol&oacute;gico e da renova&ccedil;&atilde;o eclesiol&oacute;gica, pela escola alem&atilde; e por grandes nomes, que o ser&atilde;o tamb&eacute;m do Conc&iacute;lio Vaticano II &#8211; como Henri de Lubac, Yves Congar, Karl Rahner, padre Chenu &#8211; que tinham feito um movimento teol&oacute;gico de recupera&ccedil;&atilde;o da imagem da Igreja da &eacute;poca apost&oacute;lica e patr&iacute;stica.<\/p>\n<p>Por exemplo, o padre Congar tem um livro dos anos 30 sobre o laicado. &Eacute; um grande tema que vai ser recuperado. Como as &ldquo;Medita&ccedil;&otilde;es sobre a Igreja&rdquo; do padre Lubac.<\/p>\n<p>Este movimento teol&oacute;gico vai ter uma influ&ecirc;ncia muito grande. S&atilde;o homens fazedores do Vaticano II, que eram vistos como progressistas, como te&oacute;logos perigosos. O Cardeal Cerejeira, por exemplo, n&atilde;o gostava nada que l&ecirc;ssemos o padre Congar (uma vez disse-me: &ldquo;sei que andas a ler esse franc&ecirc;s&hellip;!&rdquo;).<\/p>\n<p>Outro movimento que tem uma import&acirc;ncia muito grande &eacute; o movimento lit&uacute;rgico, desde os anos 20. O D. Ant&oacute;nio Coelho, beneditino, ou o monsenhor Pereira dos Reis, s&atilde;o alguns nomes que foram chaves nesse movimento. Esse movimento lit&uacute;rgico origina, por exemplo o vern&aacute;culo na liturgia, ainda antes do Conc&iacute;lio, ou a reforma da vig&iacute;lia pascal, nos anos 53 ou 54.<\/p>\n<p>Ou ainda o movimento mission&aacute;rio, no primeiro quartel do s&eacute;c. XX, que oferece um entusiasmo mission&aacute;rio&#8230;<\/p>\n<p>S&atilde;o movimentos que se v&atilde;o repercutir na grande assembleia que &eacute; o Conc&iacute;lio Vaticano II.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O conceito de Igreja como povo de Deus ser&aacute; a grande novidade do Conc&iacute;lio? E da&iacute; j&aacute; se tiraram todas as ila&ccedil;&otilde;es?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; N&atilde;o s&oacute; essa&hellip; O aspeto mais relevante &eacute; a identifica&ccedil;&atilde;o da Igreja com Cristo. A constitui&ccedil;&atilde;o Lumen Gentium come&ccedil;a por dizer que a luz de Cristo deve refletir-se no rosto da Igreja.<\/p>\n<p>O Conc&iacute;lio &eacute; todo cristoc&ecirc;ntrico. Por vezes pensa-se que &eacute; sobretudo eclesiol&oacute;gico, que tem a Igreja como assunto, mas n&atilde;o.<\/p>\n<p>A primeira manifesta&ccedil;&atilde;o da compreens&atilde;o da Igreja &eacute; a sua identifica&ccedil;&atilde;o com Cristo. Ela &eacute; o corpo de Cristo.<\/p>\n<p>Por outro lado, o Conc&iacute;lio retoma a compreens&atilde;o, relativizada na eclesiologia anterior, da unidade entre o Antigo e o Novo Testamento. Depois de se afirmar claramente a rela&ccedil;&atilde;o fundamental com Jesus Cristo, o Conc&iacute;lio diz que &ldquo;a Igreja &eacute; o novo Povo de Deus&rdquo;. Trata-se de um passo muito importante, ainda n&atilde;o completamente dado porque &eacute; muito dif&iacute;cil ultrapassar a vis&atilde;o clerical da Igreja para a considerar uma assembleia de todos os crist&atilde;os. Tamb&eacute;m na responsabilidade. A esse Povo de Deus &eacute; dito que participa de todos os dons do minist&eacute;rio do pr&oacute;prio Cristo: &eacute; um povo sacerdotal, de profetas, real.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Porque n&atilde;o est&aacute; ainda dado esse passo?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; A rece&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio deu passos enormes, mas n&atilde;o se deram os passos completos. &Eacute; ainda reduzido o grupo do laicado que assumiu a dignidade e a responsabilidade de ser membro do povo sacerdotal, com todos os direitos e deveres. Por outro lado, a visibilidade do clero n&atilde;o se equaciona de novo rapidamente: &eacute; um consagrado, est&aacute; a tempo inteiro ao servi&ccedil;o da Igreja, &eacute; ele que preside&hellip; Passar desta conce&ccedil;&atilde;o &agrave; consci&ecirc;ncia de que o sacerdote preside em nome de Cristo, mas &eacute; a Igreja que celebra, que ele tem uma responsabilidade particular na evangeliza&ccedil;&atilde;o, mas &eacute; a Igreja que evangeliza, leva tempo&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; No processo de rece&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio, como deve a Igreja ser coerente com a sua natureza sobrenatural &#8211; &eacute; Igreja de Cristo &#8211; e estar permanentemente em di&aacute;logo com o mundo?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Isso s&oacute; se compreende tendo em conta uma parte que normalmente n&atilde;o se fala do Conc&iacute;lio vaticano II: essa nova rela&ccedil;&atilde;o da Igreja com a humanidade sup&otilde;e uma realidade ao mesmo tempo muito misteriosa e muito real: Cristo ao fazer-se homem marcou todos os homens. E h&aacute; uma semente do verbo, como lhe chama santo Ireneu, no cora&ccedil;&atilde;o de cada homem. H&aacute; uma unidade da humanidade profunda e pr&eacute;via entre a Igreja e a humanidade, que d&aacute; &agrave; Igreja o horizonte para a sua rela&ccedil;&atilde;o com a humanidade. Ela n&atilde;o se relaciona com gente completamente estranha, mas marcada pelo facto de Deus se ter feito homem.<\/p>\n<p>Devido a esta unidade, a Igreja afirma que nada do que &eacute; humano lhe &eacute; estranho. Por isso a Igreja pode, nesta consci&ecirc;ncia de uma humanidade constru&iacute;da n&atilde;o por ela mas pelo Verbo Encarnado, olhar a hist&oacute;ria da humanidade positivamente, com esperan&ccedil;a.<\/p>\n<p>E o Conc&iacute;lio vai ao ponto de dizer que, neste olhar positivo e tendo em conta a ancestralidade cristoc&ecirc;ntrica que h&aacute; entre a Igreja e o mundo, ela pode descobrir sinais da presen&ccedil;a do Reino de Deus (os tais &ldquo;sinais dos tempos&rdquo;).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nova evangeliza&ccedil;&atilde;o e rece&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio Vaticano II<\/strong><\/p>\n<p><em>E &ndash; Que relev&acirc;ncia deve ter esse olhar da Igreja, concretamente nos dias de hoje?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; O Papa Bento XVI, na &ldquo;Porta da F&eacute;&rdquo; (a Carta Apost&oacute;lica onde proclama o Ano da F&eacute;) reafirma a atualidade do Conc&iacute;lio. E ainda bem que o fez, porque h&aacute; vozes a pedir um Conc&iacute;lio Vaticano III, outros a achar que o Conc&iacute;lio est&aacute; ultrapassado. E usa uma express&atilde;o que responde a essa quest&atilde;o: o Conc&iacute;lio pode ser para o s&eacute;c. XXI a b&uacute;ssola segura de orienta&ccedil;&atilde;o da vida da Igreja desde que lido e compreendido &agrave; luz de uma s&atilde; hermen&ecirc;utica (o que significa ter em conta o destinat&aacute;rio no an&uacute;ncio da mensagem). Esse &eacute; talvez o desafio maior com que a Igreja se confronta na atual rece&ccedil;&atilde;o e an&uacute;ncio da mensagem do Conc&iacute;lio que &eacute;, a meu ver, ainda mais atual do que h&aacute; 50 anos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &#8211; Mas o di&aacute;logo com o mundo n&atilde;o &eacute; hoje diferente? N&atilde;o h&aacute; problemas novos?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; H&aacute;! Os problemas agravaram-se. A globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; talvez o elemento mais significativo da mudan&ccedil;a nestes &uacute;ltimos 50 anos. O mundo hoje &eacute; todo uma aldeia. E por causa da comunica&ccedil;&atilde;o, estamos mais sens&iacute;veis a ela. Mas a globaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; mais grave do que isso: &eacute; a transposi&ccedil;&atilde;o universal de problemas e vis&otilde;es erradas e verdadeiras. E ainda n&atilde;o se definiram, a n&iacute;vel mundial, objetivos para a humanidade pelos quais todos lutem (h&aacute; de ser uma pr&oacute;xima etapa).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Na recente assembleia de bispos da CCEE, onde participou, afirmou-se que a maior epidemia da Europa &eacute; o desespero, a falta de esperan&ccedil;a. Como se anuncia o Conc&iacute;lio neste ambiente?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; A rece&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio tem de ser sempre feita em chave positiva: conhecer a realidade para saber como anunciar. O Papa Bento XVI, ao falar da necessidade de uma s&atilde; hermen&ecirc;utica deu-nos a chave: f&eacute; e nova evangeliza&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>H&aacute; hoje uma grande coincid&ecirc;ncia com os motivos que levaram &agrave; convoca&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio: Jo&atilde;o XXIII, de regresso &agrave; Europa, desconhece o continente e, para saber como anunciar o Evangelho a um mundo que mudou, decide convocar um Conc&iacute;lio; Jo&atilde;o Paulo II, quando fala da nova evangleliza&ccedil;&atilde;o diz que n&atilde;o se trata de uma reevangeliza&ccedil;&atilde;o, retomando m&eacute;todos e esfor&ccedil;os, antes um novo ardor da f&eacute;, pelo acolhimento da Palavra de Deus e do mist&eacute;rio de Cristo, e a ousadia de caminhos novos. E a&iacute; temos muitas dificuldades, porque as diferentes sugest&otilde;es correm seriamente o risco de serem integradas na estrutura&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Ter&aacute; sido isso que aconteceu nas iniciativas onde Lisboa j&aacute; esteve envolvida, tanto no Congresso Internacional para a Nova Evangeliza&ccedil;&atilde;o como na Miss&atilde;o Metr&oacute;poles?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &#8211; N&atilde;o tenhas d&uacute;vidas&hellip; Deixa sempre um certo resultado que s&oacute; Deus conhece no cora&ccedil;&atilde;o das pessoas. Mas dou um exemplo mais claro: no princ&iacute;pio a nova evangeliza&ccedil;&atilde;o provocou entusiasmo, mas hoje j&aacute; est&aacute; &ldquo;aprisionada&rdquo; pela estrutura. Hoje n&atilde;o h&aacute; secretariado, quer em Roma, quer nas dioceses que n&atilde;o sinta necessidade de ter um &ldquo;capitulozinho&rdquo; sobre a nova evangeliza&ccedil;&atilde;o. Ser&aacute; isso? N&atilde;o &eacute;!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Ent&atilde;o ser&aacute; o qu&ecirc;?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; &Eacute; preciso estar garantido um novo ardor da f&eacute;, que sup&otilde;e escuta da Palavra de Deus, da voz da Igreja e da celebra&ccedil;&atilde;o sincera da P&aacute;scoa de Jesus. E n&atilde;o acert&aacute;mos ainda com os novos caminhos.<\/p>\n<p>Outro exemplo: o cardeal Ravasi, presidente do Conselho Pontif&iacute;cio para a Cultura, teve a ideia brilhante de incluir um setor nesse departamento a que chamou o &ldquo;&Aacute;trio dos Gentios&rdquo; (uma designa&ccedil;&atilde;o do Templo de Jerusal&eacute;m, reservada para a ora&ccedil;&atilde;o dos que n&atilde;o eram judeus). &Eacute; uma ideia bonita! Os caminhos novos n&atilde;o estar&atilde;o, no entanto, na organiza&ccedil;&atilde;o de grandes encontros como o que vai acontecer no Norte, no contexto das capitais europeias da juventude e da cultura. N&atilde;o significa que n&atilde;o seja v&aacute;lido, mas poderia chamar-se outra coisa: um simp&oacute;sio, um congresso&hellip;<\/p>\n<p>O &aacute;trio dos gentios significa encontrar maneira de entrar em di&aacute;logo com as pessoas que est&atilde;o fora da Igreja, mas com inquieta&ccedil;&otilde;es no cora&ccedil;&atilde;o, precisando de espa&ccedil;os mais simples para partilhar. O que n&atilde;o pode acontecer em estrutura eclesi&aacute;stica e clerical.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; H&aacute; quem afirme que tanto esta iniciativa do &ldquo;&Aacute;trio dos Gentios&rdquo; como outras mais diretamente relacionadas com a nova evangeliza&ccedil;&atilde;o d&atilde;o antes resposta &agrave;quele grupo de pessoas que o &uacute;ltimo Inqu&eacute;rito sobre as identidades religiosas em Portugal denominou &ldquo;crentes sem religi&atilde;o&rdquo;.<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; N&atilde;o necessariamente. Jo&atilde;o Paulo II lan&ccedil;a-a no contexto da Am&eacute;rica Latina. Se eu a reduzo a um cap&iacute;tulo sistem&aacute;tico da estrutura eclesi&aacute;stica atual, eu mato o conceito &agrave; partida, n&atilde;o aproveitando a provoca&ccedil;&atilde;o que inclu&iacute;a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Ser&aacute; que se descobre a novidade dessa express&atilde;o num s&iacute;nodo?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; S&atilde;o momentos importantes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; N&atilde;o seria mais importante descobrir essa novidade em dinamismo sinodal permanente que envolvesse todos os crentes?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; O S&iacute;nodo tem uma dimens&atilde;o de universalidade not&oacute;ria e &eacute; importante para reconduzir &agrave; unidade os diferentes desafios e sensibilidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Os S&iacute;nodos ser&atilde;o os Conc&iacute;lios dos tempos atuais, com abordagens tem&aacute;ticas ou por regi&otilde;es?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; N&atilde;o. Eu acho que outro Conc&iacute;lio seria um perigo. O Vaticano II n&atilde;o est&aacute; recebido suficientemente para marcar o ritmo desse Conc&iacute;lio.<\/p>\n<p>Nunca desapareceu completamente da Igreja um grupo pequeno de bispos do Vaticano II que estiveram sempre contra tudo, n&atilde;o assinaram documentos, alguns provocaram ruturas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; E um novo Conc&iacute;lio poderia dar mais relevo a esse grupo?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; N&atilde;o sei imaginar. Mas essa tend&ecirc;ncia est&aacute; hoje com mais visibilidade do que h&aacute; 30 anos. Curiosamente, as vozes que falam de um III Conc&iacute;lio t&ecirc;m dois sentidos: uns acham que &eacute; preciso ir muito mais longe nas mudan&ccedil;as da Igreja (ordenar as mulheres, deixar os padres casar&hellip;); a outra tend&ecirc;ncia quer rever o Vaticano II, tendo a coragem de dizer que se foi longe de mais. Isso &eacute; um perigo! O grande desafio da Igreja &eacute; continuar a fazer a rece&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio Vaticano II, na fidelidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Problema em Portugal &eacute; maior do que as dificuldades econ&oacute;micas<\/strong><\/p>\n<p><em>E &ndash; Que an&aacute;lise faz sobre os tempos atuais, os tempos em que se procura fazer a rece&ccedil;&atilde;o do Conc&iacute;lio? Que Portugal somos, como estamos a ser governados e a receber as diretrizes da Europa e do poder financeiro?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Acho que estamos a julgar e a reagir a uma situa&ccedil;&atilde;o muito s&eacute;ria, de destino e de verdade fundamental do nosso povo e da Europa, a partir da &ldquo;comich&atilde;o&rdquo; que nos fazem as dificuldades econ&oacute;micas do presente. N&atilde;o somos redut&iacute;veis a isso!<\/p>\n<p>O problema de Portugal e o problema da Europa &eacute; mais fundo do que isso: &eacute; um problema de compreens&atilde;o da pessoa humana, &eacute; uma dial&eacute;tica cr&iacute;tica e clara das ideologias que t&ecirc;m marcado a cultura contempor&acirc;nea e que passam todos os dias nas leis que nos fazem e na comunica&ccedil;&atilde;o social como se fossem verdades adquiridas para o bem da humanidade. E n&atilde;o s&atilde;o!<\/p>\n<p>O que a nossa civiliza&ccedil;&atilde;o est&aacute; a adulterar &eacute; o conceito de homem e de comunidade humana.<\/p>\n<p>Estas crises s&atilde;o fruto de um erro e de uma incapacidade, primeiro da Uni&atilde;o Europeia e depois da humanidade. A Uni&atilde;o Europeia nasce para responder &agrave; destrui&ccedil;&atilde;o da Guerra. O mais urgente naquela altura, pela motiva&ccedil;&atilde;o do Plano Marshall e pelas necessidades de uma Europa destru&iacute;da, &eacute; a reconstru&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica e at&eacute; f&iacute;sica da Europa. Mas os fundadores da Uni&atilde;o t&ecirc;m consci&ecirc;ncia de que se n&atilde;o se constr&oacute;i uma cultura nova, isso n&atilde;o &eacute; suficiente (e de Robert Schumann a c&eacute;lebre frase &ldquo;A Europa ou ser&aacute; cultural ou n&atilde;o ser&aacute;&rdquo;).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A Europa &eacute; predominantemente econ&oacute;mica e financeira?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; 99,9%&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; E isso &eacute; um erro?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; &Eacute;. Criaram-se modelos de vida e expectativas no povo que levaram a gastos desnecess&aacute;rios para se ser equilibrado e feliz!<\/p>\n<p>Eu ainda sou do tempo em que o valor da moeda era decidido pelo padr&atilde;o ouro e em que as finan&ccedil;as estavam completamente ao servi&ccedil;o da economia, sendo necess&aacute;rio investir e produzir para ter lucro. Hoje, o valor da moeda &eacute; um dos principais problemas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O Euro foi uma precipita&ccedil;&atilde;o?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; O Euro surgiu porque antes se tomou a op&ccedil;&atilde;o de o valor da moeda deixar de ser o padr&atilde;o ouro para ser a sa&uacute;de da economia (um pa&iacute;s com uma economia sadia tem uma moeda forte; com uma economia fraca tem uma moeda fraca).<\/p>\n<p>Quando se fez esta mudan&ccedil;a &ndash; que ningu&eacute;m deu por ela &ndash; a Uni&atilde;o Europeia, por ter por principal plano a converg&ecirc;ncia econ&oacute;mica, precisou de uma moeda. Durante anos, at&eacute; se chegar &agrave; moeda f&iacute;sica que hoje existe, havia uma moeda de refer&ecirc;ncia, o ECU, que era o reflexo da verdade ou inverdade das diversas moedas.<\/p>\n<p>O Euro nasce do facto do valor das moedas ser a sa&uacute;de da economia, num espa&ccedil;o que quer ter a economia convergente e coordenada, imposs&iacute;vel com as moedas mais diversificadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Como reagir a essa circunst&acirc;ncia e &agrave;s diretrizes financeiras da Uni&atilde;o Europeia?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; O momento que alguns pa&iacute;ses est&atilde;o a viver, entre os quais o nosso, s&atilde;o fruto de um otimismo ing&eacute;nuo! Quando a finan&ccedil;a e a economia se separaram e o mundo financeiro passou a ser uma fonte de lucro sem produ&ccedil;&atilde;o econ&oacute;mica, que se decide por computador, provocou em muitos pa&iacute;ses projetos ut&oacute;picos de bem-estar, com consequ&ecirc;ncias nas fam&iacute;lias que se endividaram, nas empresas (mesmo assim foram as que melhor souberam reagir) e nos investimentos p&uacute;blicos. E com consequ&ecirc;ncias ainda mais gravosas pelo aproveitamento da facilidade da movimenta&ccedil;&atilde;o do dinheiro para outros fins que n&atilde;o o bem comum. Perdeu-se muito a no&ccedil;&atilde;o do bem comum.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A corrup&ccedil;&atilde;o&hellip;<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Mais do que isso. Trata-se de um ego&iacute;smo individualista de quem abandonou os crit&eacute;rios &eacute;ticos da honestidade e n&atilde;o hesita em se aproveitar dessa facilidade da circula&ccedil;&atilde;o de dinheiro. Isso originou endividamentos p&uacute;blicos que num determinado momento s&atilde;o incontrol&aacute;veis.<\/p>\n<p>Agora, o Governo est&aacute; sob fogo! Mas os respons&aacute;veis somos todos n&oacute;s.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; E n&atilde;o tem alternativas?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Eu n&atilde;o me sei pronunciar. S&atilde;o aspetos muito t&eacute;cnicos&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A ditadura do d&eacute;fice &eacute; incontorn&aacute;vel?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; &Eacute;. Estamos inseridos num sistema econ&oacute;mico-financeiro liberal. &Eacute; um facto. Chamem-lhe capitalismo, economia liberal ou neoliberal. Dos sistemas conhecidos na humanidade &eacute; o que mais respeita uma liberdade fundamental, que &eacute; a liberdade econ&oacute;mica e o direito de propriedade. Mas tem defeitos.<\/p>\n<p>Espero que em plano Europeu e mundial, esta crise gere uma reflex&atilde;o sobre o pr&oacute;prio sistema econ&oacute;mico em que estamos inseridos.<\/p>\n<p>Para a maior parte dos problemas que estamos a enfrentar, h&aacute; uma solu&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o duas. A arte do Governo &eacute; aplic&aacute;-la com sabedoria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A Comiss&atilde;o Nacional Justi&ccedil;a e Paz, no recente documento &ldquo;Os n&uacute;meros e as pessoas&rdquo;, condena precisamente esse determinismo. N&atilde;o h&aacute; alternativas?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Para algumas sim. Para a d&iacute;vida p&uacute;blica, por exemplo, creio que n&atilde;o h&aacute; alternativa.<\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute; alternativa, isto &eacute;: a aplica&ccedil;&atilde;o das medidas ao concreto da vida de cada pa&iacute;s pode ser diferente.<\/p>\n<p>Assumindo que honestamente n&atilde;o me sinto capaz de me pronunciar e n&atilde;o o devo fazer como bispo, desejaria muito que, na busca das solu&ccedil;&otilde;es, mesmo que s&oacute; uma, quando aplicada com sabedoria, se poupassem mais os que mais sofrem.<\/p>\n<p>Diante desta hecatombe de problemas que esta situa&ccedil;&atilde;o gerou, a Igreja reagiu n&atilde;o com discursos mas com a&ccedil;&atilde;o, com a aten&ccedil;&atilde;o &agrave; pessoa concreta, ao pr&oacute;ximo, ao problema real da fam&iacute;lia que ficou atingida. Hoje j&aacute; ningu&eacute;m fala sobre o contributo da Igreja. N&atilde;o faz mal. Mas o que me d&aacute; mais alegria &eacute; que a Igreja enquanto tal n&atilde;o entrou na balb&uacute;rdia de cr&iacute;ticas, coment&aacute;rios e solu&ccedil;&otilde;es, mas atuando, estando atenta aos problemas reais das pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O que deseja para Portugal, para a Igreja Cat&oacute;lica em Portugal?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Solidariedade na caridade. Se formos solid&aacute;rios, n&oacute;s os portugueses temos possibilidades de resolver os problemas que os nossos irm&atilde;os est&atilde;o a passar. N&atilde;o as grandes quest&otilde;es econ&oacute;micas, porque isso n&atilde;o nos compete. Mas no terreno: &eacute; preciso aprender a partilhar, a ser solid&aacute;rio, a olhar para o irm&atilde;o com o cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Gostava muito que os portugueses n&atilde;o se deixassem manipular pelas diferentes correntes que tentam&hellip; Tudo o que est&aacute; a acontecer das manifesta&ccedil;&otilde;es, greves: n&atilde;o resolvem nada! Temos de adquirir uma serenidade que &eacute; fruto da esperan&ccedil;a. Isso &eacute; poss&iacute;vel! Portugal passou &eacute;pocas muito mais dif&iacute;ceis do que esta (basta pensar no que foi a &uacute;ltima Guerra).<\/p>\n<p>Cada portugu&ecirc;s, seja ele quem for, n&atilde;o se pode considerar apenas benefici&aacute;rio da ajuda do Governo e dos outros. Tem de ser protagonista da solu&ccedil;&atilde;o. Se todos formos solid&aacute;rios, o momento dif&iacute;cil que Portugal atravessa &ndash; que o &eacute; para muitos, mas n&atilde;o para todos &ndash; pode trazer um rosto novo &agrave; nossa conviv&ecirc;ncia.<\/p>\n<p>O que me preocupa mais &eacute; que todas as pessoas tenham a dignidade que merecem e que o tempo que vivemos exige. Mas n&atilde;o sejam ambiciosos. Que se contentem com o necess&aacute;rio e com o que &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>E que sejamos uma fraternidade. O mais grave disto tudo &eacute; que se est&aacute; a destruir o sentido de comunidade nacional.<\/p>\n<p><strong>&nbsp;<\/strong><\/p>\n<p><strong>Sucess&atilde;o e Ano da F&eacute;<\/strong><\/p>\n<p><em>E &ndash; Que oportunidade espera que o Ano da F&eacute; constitua para o Patriarcado de Lisboa?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Ele inspira todo o programa de pastoral.<\/p>\n<p>No &uacute;ltimo conselho de vig&aacute;rios apresent&aacute;mos uma s&iacute;ntese de todas as iniciativas que j&aacute; est&atilde;o no terreno para o Ano da F&eacute;. Muitas s&atilde;o da Santa S&eacute;, apresentadas no site que criou para esse fim, outras s&atilde;o nossas, locais. Estamos neste momento a lan&ccedil;&aacute;-las.<\/p>\n<p>O grande desafio deste ano &eacute; aprofundar a f&eacute;, viver a f&eacute;.<\/p>\n<p>O Santo Padre foi muito feliz ao dizer-nos que a f&eacute; &eacute; uma &ldquo;porta&rdquo;, porque nos abre para um caminho dif&iacute;cil, uma esp&eacute;cie de peregrina&ccedil;&atilde;o dolorosa. N&atilde;o se trata apenas de uma atitude intelectual, mas de uma mudan&ccedil;a de vida.<\/p>\n<p>Depois, interessa valorizar os conte&uacute;dos da f&eacute; (est&atilde;o pobres no povo de Deus). O Catecismo da Igreja Cat&oacute;lica &eacute; o grande instrumento, assim como o Youcat, para os jovens.<\/p>\n<p>Quando eu digo &ldquo;eu creio&rdquo;, o que &eacute; que isso significa? Tomo isso a s&eacute;rio?<\/p>\n<p>O Santo Padre sugeriu que, na ora&ccedil;&atilde;o pessoal, as pessoas rezem o credo, e n&atilde;o s&oacute; a Ave-maria.&nbsp;<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, a &ldquo;Porta da F&eacute;&rdquo; sugere tamb&eacute;m que esta f&eacute; &eacute; a f&eacute; de um povo, a f&eacute; da Igreja. Tem uma longa tradi&ccedil;&atilde;o. Isso relativiza o que na nossa &eacute;poca, marcada pelos individualismos, pode ser preocupante: dizer &ldquo;eu acredito como acho que tenho de acreditar&rdquo;.<\/p>\n<p>A f&eacute; &eacute; um dinamismo de renova&ccedil;&atilde;o pessoal da vida &#8211; a isso chama-se voca&ccedil;&atilde;o &agrave; santidade &#8211; e &eacute; um desafio de an&uacute;ncio, de ser testemunha. Os grandes crentes foram sempre testemunhas, n&atilde;o da f&eacute; pessoal, mas da f&eacute; da Igreja.<\/p>\n<p>Nesta &eacute;poca, depois da p&oacute;s-modernidade, de criatividade individualista, gostaria de acentuar que cada um de n&oacute;s n&atilde;o tem a sua f&eacute;. Pertence a um povo, tem a f&eacute; da Igreja. Depois o an&uacute;ncio: ter f&eacute; &eacute; empenhar-se no an&uacute;ncio.<\/p>\n<p>Vamos ver se conseguimos fazer uma esp&eacute;cie de peregrina&ccedil;&atilde;o, ao longo deste ano, em que a f&eacute; seja mais conscientemente vivida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A n&iacute;vel nacional, na Confer&ecirc;ncia Episcopal a que preside, este ano ser&aacute; de continuidade do projeto &ldquo;Repensar a Pastoral da Igreja em Portugal&rdquo;? Em que ponto est&aacute;?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Ainda n&atilde;o est&aacute; em &ldquo;ponto-morto&rdquo;, mas quase&#8230; &Eacute; muito dif&iacute;cil. As igrejas s&atilde;o muito diferentes, de Norte a Sul, e n&atilde;o sei se estamos preparados para assumir uma &uacute;nica concretiza&ccedil;&atilde;o desse tipo, a n&iacute;vel nacional. Mas n&atilde;o est&aacute; morto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; O dossier est&aacute; em aberto?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Sim. Em princ&iacute;pio ir&aacute; para a pr&oacute;xima Assembleia Plen&aacute;ria, e espera que eu o analise.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; Pessoalmente, no trabalho na diocese e na Confer&ecirc;ncia Episcopal, continua o pressuposto que comunicou em 2011, no dia da Igreja Diocesana, de que o Papa lhe pediu para estar mais dois anos?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; Sim, termina no pr&oacute;ximo dia 26 de fevereiro. O resto o Santo Padre dir&aacute;, estou nas m&atilde;os dele. Gra&ccedil;as a Deus tenho sa&uacute;de, tenho um amor muito grande a esta igreja, mas n&atilde;o farei nada para qualquer solu&ccedil;&atilde;o pessoal. Eu n&atilde;o sou uma pessoa, sou membro de uma igreja que, neste momento mal ou bem, tem as suas estruturas e os seus ritmos. E n&atilde;o escondo que tamb&eacute;m me atrai um tempo mais silencioso, sem ter de dar entrevistas&hellip;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E &ndash; A organiza&ccedil;&atilde;o da pastoral n&atilde;o est&aacute; condicionada por esses tempos?<\/em><\/p>\n<p><em>DJP<\/em> &ndash; N&atilde;o. Eu tenho dito aos &oacute;rg&atilde;os de pastoral: isso n&atilde;o &eacute; um problema, &eacute; um pormenor. A Igreja ter&aacute; sempre um bispo diocesano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>PR<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A visibilidade crescente de quem \u201csempre esteve contra tudo\u201d no Vaticano II, a nova evangeliza\u00e7\u00e3o, o Ano da F\u00e9 e os problemas em Portugal e na Europa analisados por D. 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