{"id":58209,"date":"2012-09-25T10:37:02","date_gmt":"2012-09-25T10:37:02","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/09\/25\/o-que-e-a-fe\/"},"modified":"2012-09-25T10:37:02","modified_gmt":"2012-09-25T10:37:02","slug":"o-que-e-a-fe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-que-e-a-fe\/","title":{"rendered":"O que \u00e9 a F\u00e9?"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Manuel Duque, diretor-adjunto da Faculdade de Teologia, UCP-Braga <!--more--> <\/p>\n<p>A primeira e mais b&aacute;sica resposta &agrave; pergunta do t&iacute;tulo poder&aacute;, sem d&uacute;vida, ser formulada do seguinte modo: a f&eacute; &eacute; uma determinada atitude dos humanos. Como tal, &eacute; bem come&ccedil;ar por uma descri&ccedil;&atilde;o breve das carater&iacute;sticas dessa atitude, que ali&aacute;s s&atilde;o partilhadas por todos os tipos de f&eacute;, religiosa ou n&atilde;o, crist&atilde; ou n&atilde;o.<\/p>\n<p>A atitude humana que melhor pode descrever a atitude de f&eacute; &eacute; a da confian&ccedil;a. Ter f&eacute; &eacute;, no sentido mais b&aacute;sico, confiar em algo ou algu&eacute;m diferente de n&oacute;s mesmos. Assim, op&otilde;em-se-lhe duas atitudes: a da desconfian&ccedil;a total, que levaria, em muitos casos, ao desespero; ou a da autoconfian&ccedil;a total, ou seja, a da confian&ccedil;a apenas em n&oacute;s mesmos. Portanto, a f&eacute; pressup&otilde;e capacidade de confiar e capacidade de confiar noutros.<\/p>\n<p>A confian&ccedil;a noutros implica, ao mesmo tempo, a capacidade de receber algo, reconhecendo que n&atilde;o podemos conquistar e produzir tudo o que somos e temos por n&oacute;s mesmos. Porque quem confia em algu&eacute;m mais do que em si mesmo, sabe que h&aacute; dimens&otilde;es da vida que s&oacute; esse algu&eacute;m, em quem se confia, pode dar.<\/p>\n<p>O caso mais gritante &eacute; o do beb&eacute;, que confia na sua m&atilde;e ou no seu pai, relativamente a tudo o que tem a ver com a sua exist&ecirc;ncia. N&atilde;o considera, ainda &ndash; como acontecer&aacute; depois com muitos adultos &ndash; que &eacute; autossuficiente e que merece, pelo seu trabalho, aquilo que tem. O que tem e o que &eacute;, sente-o como d&aacute;diva permanente dos pais e confia nessa d&aacute;diva, despreocupadamente.<\/p>\n<p>A atitude do beb&eacute; aproxima-nos de um n&iacute;vel de f&eacute; importante: o que se relaciona com o fundamento da nossa exist&ecirc;ncia, seja quanto &agrave; sua origem seja quanto ao seu futuro. Porque n&atilde;o somos n&oacute;s que nos damos a n&oacute;s mesmos nem que garantimos o nosso pr&oacute;prio futuro. Assim sendo, ou desesperamos desconfiadamente da nossa exist&ecirc;ncia, perante o perigo de deixar de ser, ou confiamos numa d&aacute;diva permanente do ser. Esse ser&aacute; o n&iacute;vel mais profundo da f&eacute;, relativamente ao sentido primeiro e &uacute;ltimo da exist&ecirc;ncia de cada um, que &eacute; acolhido como uma d&aacute;diva milagrosa e imerecida. Ter f&eacute; &eacute; acolher a exist&ecirc;ncia como d&aacute;diva gratuita de outro.<\/p>\n<p>Mas, a este n&iacute;vel, esse Outro em que se confia &eacute; ainda muito indefinido. &Eacute; apenas o pr&oacute;prio mist&eacute;rio de sermos &ndash; alguns diriam, &laquo;por acaso&raquo;. Aceitar que h&aacute; um Deus pessoal que nos origina e nos quer na vida, dando-nos gratuitamente essa vida, para que a aceitemos, mesmo quando &eacute; dura e parece n&atilde;o fazer sentido &ndash; isso &eacute; j&aacute; uma modalidade religiosa ou teol&oacute;gica da confian&ccedil;a. A f&eacute;, ent&atilde;o, torna-se f&eacute; teol&oacute;gica. Mas o Deus que nos d&aacute; a n&oacute;s mesmos &eacute;, ainda, uma entidade muito vaga.<\/p>\n<p>Aceitar que esse Deus, que d&aacute; a vida e nos d&aacute; para a vida, vive connosco, se revela e nos liberta da morte em Jesus Cristo, &eacute; confiar de modo crist&atilde;o. Ter f&eacute; crist&atilde; &eacute;, portanto, aceitar que Deus, em Jesus Cristo, nos d&aacute; a vida, para al&eacute;m da morte e para al&eacute;m de todas a nossas capacidades de a conquistar. Isso permite uma atitude de confian&ccedil;a que abre &agrave; esperan&ccedil;a, para al&eacute;m de todo o absurdo aparente. E, ao mesmo tempo, implica o conhecimento de que o &uacute;nico caminho dessa esperan&ccedil;a &eacute; a caridade, como d&aacute;diva da vida ao outro. Ou seja, a f&eacute; crist&atilde; est&aacute; sempre ligada &agrave;s outras duas virtudes teologais, pois s&oacute; assim o dinamismo do acolhimento da vida dada por Deus &eacute; poss&iacute;vel.<\/p>\n<p>A confian&ccedil;a fundamental que determina a atitude de f&eacute; do crist&atilde;o implica, ao mesmo tempo, a confiss&atilde;o convicta de um conjunto de afirma&ccedil;&otilde;es sobre Deus e sobre os humanos, a que chamamos Credo ou s&iacute;mbolo da f&eacute;. Nessas afirma&ccedil;&otilde;es condensa-se a descri&ccedil;&atilde;o da nossa confian&ccedil;a e dos seus motivos. Por isso, a confiss&atilde;o expl&iacute;cita de f&eacute; &eacute; imprescind&iacute;vel &agrave; atitude crente, mesmo que a sua formula&ccedil;&atilde;o lingu&iacute;stica deva tudo &aacute;s linguagens humanas. E essa confiss&atilde;o, assim como a atitude correspondente, vive-se num leque de rela&ccedil;&otilde;es comunit&aacute;rias, que nos ligam aos outros crentes, do nosso tempo e de outras gera&ccedil;&otilde;es, assim como aos pr&oacute;prios n&atilde;o-crentes. Ou seja, n&atilde;o h&aacute; f&eacute; crist&atilde; se n&atilde;o for inserida num dinamismo comunit&aacute;rio e numa tradi&ccedil;&atilde;o. Se assim n&atilde;o fosse, a f&eacute; seria puro sentimento individual e subjetivo, de iniciativa pr&oacute;pria e para auto realiza&ccedil;&atilde;o pessoal. Mas, ao assim ser, negava-se a si mesma, pois negava a b&aacute;sica atitude de confian&ccedil;a no outro, mais do que em si mesmo.<\/p>\n<p><em>Jo&atilde;o Manuel Duque, Diretor Adjunto Faculdade de Teologia, UCP-Braga<\/em><em><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Manuel Duque, diretor-adjunto da Faculdade de Teologia, UCP-Braga<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[172,321],"class_list":["post-58209","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-diocese-de-braga","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58209","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58209"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58209\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58209"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58209"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58209"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}