{"id":58166,"date":"2012-09-20T17:24:15","date_gmt":"2012-09-20T17:24:15","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/09\/20\/os-numeros-e-as-pessoas-nota-da-comissao-nacional-justica-e-paz\/"},"modified":"2012-09-20T17:24:15","modified_gmt":"2012-09-20T17:24:15","slug":"os-numeros-e-as-pessoas-nota-da-comissao-nacional-justica-e-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/os-numeros-e-as-pessoas-nota-da-comissao-nacional-justica-e-paz\/","title":{"rendered":"\u00abOs N\u00fameros e as pessoas\u00bb &#8211; Nota da Comiss\u00e3o Nacional Justi\u00e7a e Paz"},"content":{"rendered":"<p>OS N&Uacute;MEROS E AS PESSOAS<\/p>\n<p>1. Em 17 do corrente m&ecirc;s de Setembro, o Conselho Permanente da Confer&ecirc;ncia Episcopal Portuguesa publicou uma Nota sobre a &#8220;Miss&atilde;o da Igreja num pa&iacute;s em crise&#8221;.<\/p>\n<p>A Comiss&atilde;o Nacional Justi&ccedil;a e Paz deseja, antes do mais, sublinhar a relev&acirc;ncia desse texto, que reflete a voz autorizada e oportuna da Igreja Portuguesa sobre a situa&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s.<\/p>\n<p>&nbsp;2. O in&iacute;cio do novo ano de atividades ocorreu sob o peso esmagador das not&iacute;cias da 5&ordf; avalia&ccedil;&atilde;o da Troika, e suas repercuss&otilde;es sobre a economia e as condi&ccedil;&otilde;es de vida dos portugueses. De modo geral, as medidas anunciadas situam-se &agrave; sombra dos compromissos assumidos pelo pa&iacute;s junto das institui&ccedil;&otilde;es credoras, com a agravante de tudo apontar para um ano de 2013 mais austero, contrariamente aos an&uacute;ncios anteriores do Governo. A t&oacute;nica de cr&iacute;tica generalizada dos coment&aacute;rios transmitidos pelos media &eacute; in&eacute;dita, expressiva e preocupante.<\/p>\n<p>&nbsp;3. N&atilde;o &eacute; inten&ccedil;&atilde;o da Comiss&atilde;o Nacional Justi&ccedil;a e Paz participar,  com este comunicado, no debate sobre aspetos econ&oacute;micos e financeiros discut&iacute;veis da situa&ccedil;&atilde;o. A Comiss&atilde;o reconhece a import&acirc;ncia da an&aacute;lise quantitativa, sobretudo quando reflete ou denuncia aspetos humanos ou sociais, e por isso mesmo n&atilde;o desvaloriza os efeitos positivos que podem advir da revis&atilde;o dos d&eacute;fices p&uacute;blicos a respeitar em 2012, 2013 e 2014, bem como a decis&atilde;o do BCE respeitante ao financiamento das d&iacute;vidas soberanas.<\/p>\n<p>&nbsp;4. Pelo que respeita &agrave;s not&iacute;cias veiculadas pelo Governo quanto &agrave; 5&ordf; avalia&ccedil;&atilde;o da Troika, a primeira nota que ressalta &eacute; a de um discurso determinista e fatalista, do &laquo;caminho &uacute;nico&raquo; e do &laquo;n&atilde;o h&aacute; outra via&raquo;, quando o mais verdadeiro e humilde seria o de dizer &laquo;eu n&atilde;o conhe&ccedil;o outro caminho&raquo;, ou &laquo;eu n&atilde;o sou capaz de seguir outra orienta&ccedil;&atilde;o&raquo;. E note-se que algumas das vias alternativas foram fechadas pelo pr&oacute;prio Governo, atrav&eacute;s da total aceita&ccedil;&atilde;o dos ditames da Troika, com p&uacute;blica declara&ccedil;&atilde;o de concord&acirc;ncia. S&oacute; aqui, reconhecendo aos credores o direito de ditar, em nome de uma &laquo;credibilidade externa&raquo;, amputou o pa&iacute;s de uns quantos graus de liberdade. Esqueceu-se que os credores n&atilde;o s&atilde;o um grupo qualquer de agiotas, mas institui&ccedil;&otilde;es internacionais de que Portugal &eacute; membro, com deveres e direitos. Pelo menos neste contexto, seria exig&iacute;vel um comportamento civilizado, justo e solid&aacute;rio entre todas as partes.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, o Governo tentou perceber a situa&ccedil;&atilde;o do pa&iacute;s sem nada exigir da Europa. Quando tantas vozes nacionais e internacionais autorizadas reclamavam uma atitude adequada por parte da Europa, tudo quanto vimos foi um gesto de submiss&atilde;o aos governantes de pa&iacute;ses mais poderosos, que bem depressa esqueceram  a sua pr&oacute;pria hist&oacute;ria no contexto europeu da segunda metade do s&eacute;culo XX, e n&atilde;o perderiam em investigar sobre os verdadeiros ganhadores da Uni&atilde;o Europeia e da Zona Euro, desde que uma e outra existem. Ali&aacute;s, respeitados ex-dirigentes daqueles pa&iacute;ses t&ecirc;m dado sinais claros de cr&iacute;tica &agrave; linha pol&iacute;tica dominante.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, o Governo mostra-se crente num pensamento econ&oacute;mico que o falhan&ccedil;o do d&eacute;fice or&ccedil;amental do corrente ano deveria, no m&iacute;nimo, levar a considerar como discut&iacute;vel. Porque se insiste em continuar a aplic&aacute;-lo, como base, no or&ccedil;amento de Estado para 2013? As profundas altera&ccedil;&otilde;es das previs&otilde;es para 2013 deveriam ser mais do que suficientes para considerar seriamente outros rumos poss&iacute;veis.<\/p>\n<p>Em quarto lugar, o Governo nunca foi capaz de demonstrar que os sacrif&iacute;cios exigidos aos portugueses estavam distribu&iacute;dos com equidade. Apesar de frases sonantes nesse sentido, a pol&iacute;tica p&uacute;blica n&atilde;o tem combatido eficazmente as disparidades na distribui&ccedil;&atilde;o do rendimento e outras formas de desigualdade na sociedade portuguesa, havendo mesmo ind&iacute;cios de agravamento destas desigualdades nos &uacute;ltimos anos. S&oacute; agora se ouviu o an&uacute;ncio de que seriam sujeitos a impostos novos alguns tipos de bens e de rendimentos de capital. O contraste entre o pormenor das medidas que atingem os rendimentos do trabalho e o car&aacute;cter vago e brando de algumas que ir&atilde;o afetar, no futuro, a riqueza e os rendimentos de capital &eacute; significativo.<\/p>\n<p>O desn&iacute;vel das condi&ccedil;&otilde;es de vida sofrido pelas pessoas e fam&iacute;lias por for&ccedil;a da crise e das pol&iacute;ticas p&uacute;blicas revela um quadro socioecon&oacute;mico gritantemente desigual. Enquanto a uns falta p&atilde;o, casa, &aacute;gua e luz, outros mant&ecirc;m um n&iacute;vel de vida praticamente igual, se n&atilde;o mais elevado, do que aquele que tinham antes da crise. Est&aacute; aqui um crit&eacute;rio fundamental de equidade: n&atilde;o basta proporcionalidade no que se retira (por via fiscal ou outra); tamb&eacute;m &eacute; preciso que exista equidade no que resta depois disso (rendimento dispon&iacute;vel). Esta &eacute; a medida em que as pessoas e as fam&iacute;lias s&atilde;o afetadas pela crise e medidas conexas. Isto aplica-se n&atilde;o apenas aos rendimentos do capital, mas tamb&eacute;m a certos estratos de rendimentos do trabalho, como s&atilde;o os de alguns dirigentes de empresas.<\/p>\n<p>Em quinto lugar, as medidas destinadas a acorrer ao desemprego &mdash; &#8220;o maior flagelo social do pa&iacute;s&#8221;, nas palavras do Ministro de Estado e das Finan&ccedil;as &mdash; ser&atilde;o pouco eficazes perante a gravidade do problema. As rea&ccedil;&otilde;es de espanto dos respons&aacute;veis governamentais e dos membros da Troika face ao agravamento deste fen&oacute;meno denotam uma preocupante desadequa&ccedil;&atilde;o do seu pensamento econ&oacute;mico &agrave; realidade econ&oacute;mica do pa&iacute;s. Exige-se de quem governa, agora como sempre, mais aten&ccedil;&atilde;o &agrave; realidade e menos enfeudamento a ideias pr&eacute;-concebidas.<\/p>\n<p>Sexto, os apoiantes do Governo t&ecirc;m tentado ilustrar o &laquo;sucesso&raquo; da governa&ccedil;&atilde;o explicando que os objetivos da despesa foram conseguidos e s&oacute; os da receita n&atilde;o, argumentando que s&oacute; os primeiros dependem do Governo e os &uacute;ltimos n&atilde;o. A CNJP sente a obriga&ccedil;&atilde;o de denunciar a desonestidade intelectual desta argumenta&ccedil;&atilde;o. Seria grave que o Governo abandonasse o &ecirc;xito das medidas destinadas a aumentar as receitas p&uacute;blicas ao simples acaso. O mesmo se diga, se bem que por raz&otilde;es diversas, da declara&ccedil;&atilde;o de um membro da Troika, no sentido de que o programa a que o pa&iacute;s est&aacute; sujeito &eacute; um programa do Governo portugu&ecirc;s, como se a Troika n&atilde;o tivesse tido imposi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>S&eacute;timo, verifica-se que o Estado de Direito vai-se enfraquecendo: a garantia dos direitos dos cidad&atilde;os vai-se fragilizando, nomeadamente no que se refere &agrave; parte contratual contributiva da Seguran&ccedil;a Social (valor das pens&otilde;es da reforma, por exemplo), e ao valor dos sal&aacute;rios contratados. As altera&ccedil;&otilde;es das condi&ccedil;&otilde;es contratuais por decis&atilde;o unilateral prejudica o sentimento de estabilidade e seguran&ccedil;a que qualquer Estado de Direito deve garantir aos cidad&atilde;os.<\/p>\n<p>Oitavo, ao afirmar que &#8220;At&eacute; agora protegemos o nosso modo de vida, em geral, e, em particular, os mais pobres, mais vulner&aacute;veis e mais desfavorecidos destes riscos catastr&oacute;ficos (de bancarrota)&#8221;, o Governo revela desconhecer a realidade do pa&iacute;s. Ocorre perguntar a que pa&iacute;s se referia o Ministro da Finan&ccedil;as quando pronunciou aquelas palavras. Bastar&aacute; interrogar os servi&ccedil;os sociais, p&uacute;blicos e<\/p>\n<p>privados, para concluir que &#8220;o nosso modo de vida, em geral, e, em particular, os mais pobres, mais vulner&aacute;veis e mais desfavorecidos&#8221; est&aacute; desprotegido. As institui&ccedil;&otilde;es de solidariedade, nomeadamente as relacionadas com a Igreja Cat&oacute;lica, v&ecirc;m testemunhando essa situa&ccedil;&atilde;o de desprote&ccedil;&atilde;o e o seu persistente agravamento.<\/p>\n<p>A CNJP tem consci&ecirc;ncia de que a pol&iacute;tica anunciada para 2013 carece ainda de discuss&atilde;o e aprova&ccedil;&atilde;o, designadamente na Concerta&ccedil;&atilde;o Social, na Assembleia da Rep&uacute;blica e pelo Presidente da Rep&uacute;blica, e, eventualmente, pelo exame do Tribunal Constitucional. A CNJP espera que ao longo do processo se possam modificar os aspetos mais gravosos do quadro apresentado.<\/p>\n<p>5. A preocupa&ccedil;&atilde;o da CNJP &eacute;, antes mais, de natureza &eacute;tica. Por isso, n&atilde;o pode subestimar as graves responsabilidades dos poderes p&uacute;blicos, de modo particular no que respeita &agrave; equidade e aos direitos b&aacute;sicos de subsist&ecirc;ncia e emprego. Mas n&atilde;o deve ignorar, igualmente, que as responsabilidades de cada um, cidad&atilde;o e cidad&atilde;, de cada grupo e de cada empresa n&atilde;o se restringem apenas ao que seja exigido pelo Estado.<\/p>\n<p>Numa situa&ccedil;&atilde;o t&atilde;o grave como esta, que muitos portugueses e portuguesas atravessam, imp&otilde;e-se que, para al&eacute;m do que se situa no &acirc;mbito da compet&ecirc;ncia dos poderes p&uacute;blicos, cada um responda positivamente &agrave; sua pr&oacute;pria consci&ecirc;ncia, em mat&eacute;ria de justi&ccedil;a e de solidariedade.<\/p>\n<p>A gravidade da situa&ccedil;&atilde;o reclama urg&ecirc;ncia na a&ccedil;&atilde;o, mas, como sublinham os nossos Bispos, importa reconhecer que &#8220;A supera&ccedil;&atilde;o da crise sup&otilde;e [tamb&eacute;m] uma renova&ccedil;&atilde;o cultural&#8221;. Tal renova&ccedil;&atilde;o requer uma revisita&ccedil;&atilde;o de alguns valores fundamentais, geralmente reconhecidos pela nossa sociedade, mas cuja densidade se foi perdendo com o passar do tempo: a dignidade da pessoa humana, enquanto ser individual e social; o reconhecimento de que a liberdade exige as condi&ccedil;&otilde;es existenciais para o seu exerc&iacute;cio; o sentido do bem comum como dimens&atilde;o indispens&aacute;vel da realiza&ccedil;&atilde;o pessoal. Pelo que respeita, em particular, aos crist&atilde;os, lembramos o exemplo de Jesus Cristo, que &#8220;veio, n&atilde;o para ser servido, mas para servir&#8221; (Mt. 20, 28).<\/p>\n<p><strong>Lisboa, 19 de Setembro de 2012<\/strong><\/p>\n<p><strong>COMISS&Atilde;O NACIONAL JUSTI&Ccedil;A E PAZ<\/strong><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>OS N&Uacute;MEROS E AS PESSOAS 1. 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