{"id":58124,"date":"2012-09-18T13:03:30","date_gmt":"2012-09-18T13:03:30","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/09\/18\/que-pensava-um-jovem\/"},"modified":"2012-09-18T13:03:30","modified_gmt":"2012-09-18T13:03:30","slug":"que-pensava-um-jovem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/que-pensava-um-jovem\/","title":{"rendered":"Que pensava um jovem?"},"content":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Victor Adrag\u00e3o <!--more--> <\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"left\">Nasci e cresci sob o pontificado de Pio XII. &Agrave; dist&acirc;ncia e sem os canais de televis&atilde;o que nos trazem o mundo para dentro de casa, a Igreja e o Papado surgiam como a imagem do imobilismo sereno, de que o &ldquo;Pastor Ang&eacute;lico&rdquo; era o guardi&atilde;o.<\/p>\n<p>Tinha 13 anos quando Jo&atilde;o XXIII foi eleito e 15 quando anunciou a realiza&ccedil;&atilde;o de um Conc&iacute;lio. Trento e a Contra-Reforma preenchiam, na minha cabe&ccedil;a de estudante, o espa&ccedil;o sem&acirc;ntico correspondente a essa &aacute;rea vocabular. Foi por isso com alguma surpresa e muita curiosidade que comecei a seguir as not&iacute;cias que iam aparecendo e as conversas dos mais velhos.<\/p>\n<p>Confesso que estranhei o facto de o Papa ter pedido ora&ccedil;&otilde;es a toda a Igreja pelo seu &ldquo;aggiornamento&rdquo; &ndash; palavra nova que come&ccedil;ou a circular nos meios cat&oacute;licos. Mas estava longe de imaginar a que &acirc;mbitos essa renova&ccedil;&atilde;o se poderia estender e em que aspetos isso me afetaria.<\/p>\n<p>Pouco a pouco, tr&ecirc;s vias foram tornando-se n&iacute;tidas e concentrando as minhas expectativas: a reforma lit&uacute;rgica, o papel dos leigos na Igreja e as rela&ccedil;&otilde;es com os crist&atilde;os n&atilde;o-cat&oacute;licos. Eram &aacute;reas que me interessavam por corresponderem a situa&ccedil;&otilde;es de algum mal estar na minha vida crist&atilde;. A incompreens&atilde;o do latim criava situa&ccedil;&otilde;es quase rid&iacute;culas de participa&ccedil;&atilde;o em missas &ldquo;a dobrar&rdquo;, em que o celebrante, de costas para o povo, proferia umas ora&ccedil;&otilde;es em l&iacute;ngua estranha e algu&eacute;m, na estante, lia outras coisas para que todos percebessem, tornando-se o foco das aten&ccedil;&otilde;es. O lugar fortemente hierarquizado que o clero ocupava deixava-nos, a n&oacute;s, simples leigos, numa posi&ccedil;&atilde;o de menoridade constante, que um ou outro sacerdote minorava, embora tal atitude me parecesse sempre mais de condescend&ecirc;ncia do que de respeito pelo nosso papel. Por fim, a forma agressiva como eram tratados os protestantes irritava-me, acabando por invejar a sua atitude coerente e quase pronta para o mart&iacute;rio, contrastando com o ar instalado dos cat&oacute;licos.<\/p>\n<p>Estas perspetivas alargaram-se muito quando, em 1962, comecei a frequentar o Semin&aacute;rio de Olivais, onde se cruzavam, de forma vis&iacute;vel, os anseios por uma renova&ccedil;&atilde;o bem ousada e os receios de uma derrapagem para ravinas insuspeit&aacute;veis. As conversas no corredor e na quinta, as leituras de peritos conciliares, como Congar, Danielou, Rahner, que nos chegavam em franc&ecirc;s ou em alguma tradu&ccedil;&atilde;o visivelmente clandestina, foram-me abrindo para outras quest&otilde;es, mais teol&oacute;gicas e sociais, como a estrutura da Igreja e a sua presen&ccedil;a no mundo &ndash; que haviam de vir at&eacute; n&oacute;s nas constitui&ccedil;&otilde;es &ldquo;Lumen Gentium&rdquo; e &ldquo;Gaudium et Spes&rdquo;.<\/p>\n<p>Era, pois, com grande expectativa que acompanhava as not&iacute;cias vindas de Roma, sempre filtradas pela imprensa nacional ou pelos guardi&atilde;es da paz institucional. Recordo-me que organiz&aacute;mos um jornal interno, meio secreto, constru&iacute;do a partir da audi&ccedil;&atilde;o da R&aacute;dio Vaticano, que corria pelos quartos e nos ia informando sobre o que se passava em S. Pedro. Recordo-me, com emo&ccedil;&atilde;o, de uma ocasi&atilde;o em que as opini&otilde;es dentro do Semin&aacute;rio se dividiam quase em confronto e nos chegou uma palavra do nosso Patriarca, citando S. Paulo a Tim&oacute;teo e dizendo: &ldquo;A Palavra de Deus n&atilde;o pode ser acorrentada&rdquo;.<\/p>\n<p>E assim vivi, na excita&ccedil;&atilde;o dos meus verdes anos, aqueles tempos memor&aacute;veis, que sabia &uacute;nicos na minha vida. No pico do entusiasmo, meti-me no comboio a caminho de Roma e consegui assistir a uma sess&atilde;o do Conc&iacute;lio &ndash; feito espantoso para quem tinha 20 anos acabados de fazer!<\/p>\n<p>Quando os primeiros documentos come&ccedil;aram a surgir, era eu estudante da Universidade de Lisboa. Devorei a constitui&ccedil;&atilde;o &ldquo;Sacrosanctum Concilium&rdquo;, a primeira a aparecer e que, curiosamente, respondia aos meus mais antigos anseios. E n&atilde;o deixou de ser interessante espiar a forma como ela era recebida nos meios que eu frequentava: curiosidade, j&uacute;bilo, susto, quase p&acirc;nico&hellip;<\/p>\n<p>Mas o que continuava a alimentar as nossas expectativas, minhas e de alguns amigos com quem discutia estas coisas, era o famoso &ldquo;esquema 13&rdquo;, o documento que falaria das rela&ccedil;&otilde;es entre a Igreja e o mundo. Sopravam em Portugal ventos de mudan&ccedil;a e os cat&oacute;licos perguntavam-se o que podiam\/deviam fazer perante um Estado que lhes aparecia como injusto, distante dos direitos do povo, amea&ccedil;ador de liberdades, repressor de opini&otilde;es divergentes. Que iria dizer a Igreja institucional? Como se articularia o documento que faltava sair com a defini&ccedil;&atilde;o de &ldquo;Povo de Deus&rdquo; que a Lumen Gentium tinha proposto um ano antes?<\/p>\n<p>Finalmente, saiu a Gaudium et Spes. Para quem esperava receitas de aplica&ccedil;&atilde;o f&aacute;cil e imediata, foi uma desilus&atilde;o. Os que come&ccedil;aram a &ldquo;abrir a arca&rdquo; e a tirar de l&aacute; &ldquo;coisas velhas e novas&rdquo; encontraram um tesouro que ainda hoje n&atilde;o est&aacute; completamente explorado. Mas isso &eacute; outra conversa&hellip;<\/p>\n<p><em>Jos&eacute; Victor Adrag&atilde;o<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Victor Adrag\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[],"class_list":["post-58124","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58124","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=58124"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/58124\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=58124"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=58124"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=58124"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}