{"id":58121,"date":"2012-09-18T12:52:01","date_gmt":"2012-09-18T12:52:01","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/09\/18\/memorias-pessoais-das-expectativas-do-concilio-vaticano-ii\/"},"modified":"2012-09-18T12:52:01","modified_gmt":"2012-09-18T12:52:01","slug":"memorias-pessoais-das-expectativas-do-concilio-vaticano-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/memorias-pessoais-das-expectativas-do-concilio-vaticano-ii\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3rias pessoais das expectativas do Concilio Vaticano II"},"content":{"rendered":"<p>Aires Gameiro, Irm\u00e3os de S. Jo\u00e3o de Deus <!--more--> <\/p>\n<div style=\"text-align: left;\">Estudava em Roma por 1956-1961: greves frequentes, guerra fria, levantamento anticomunista na Hungria. Religiosos, seminaristas, monsenhores e bispos mantinham os h&aacute;bitos talares, faixas e &ldquo;capelos&rdquo;. Pio XII inspirava confian&ccedil;a nos &nbsp;discursos aos m&eacute;dicos e nas audi&ecirc;ncias de cadeira gestat&oacute;ria. Circulavam hist&oacute;rias&nbsp; da resist&ecirc;ncia&nbsp; antinazi, de&nbsp; judeus pseudodoentes&nbsp; nos hospitais e do massacre nazi nas Fossas Ardeatinas. E outras de&nbsp; comunistas infiltrados em semin&aacute;rios e&nbsp; conventos, at&eacute; os Focolares seriam infiltrados e&nbsp; os Jesuitas anti-Opus Dei. Em confer&ecirc;ncias de mission&aacute;rios expulsos da China descreviam-se as lavagens ao c&eacute;rebro&nbsp; sofridos.&nbsp;<\/div>\n<p>Em 9 de outubro de 1958&nbsp; Pio XII morre em Castelo Gandolfo onde com milhares homenageei o seu corpo, e&nbsp; em Roma participei no cortejo funer&aacute;rio a p&eacute; desde Latr&atilde;o ao Vaticano. Fiz v&aacute;rias corridas &agrave; Pra&ccedil;a de S. Pedro at&eacute; &agrave; 11&ordf; vota&ccedil;&atilde;o e elei&ccedil;&atilde;o de Jo&atilde;o XIII a 28 de outubro. E em 25 de janeiro vibrei com a surpresa do an&uacute;ncio do&nbsp; Conc&iacute;lio e do S&iacute;nodo Romano, eventos&nbsp; contrastantes entre si.<\/p>\n<p>As expectativas sobre o Conc&iacute;lio&nbsp; subiam ao rubro. Ouviam-se alvitres de que padres e religiosos (sic) casariam, e acabariam h&aacute;bitos talares, coro,&nbsp; algumas ora&ccedil;&otilde;es e suspeitas de amea&ccedil;as comunistas. Haveria mais autenticidade. Alguns professores&nbsp; passavam do latim para o italiano, de&nbsp;&nbsp; manuais&nbsp; tradicionais&nbsp; de moral para&nbsp; La Loi du Christ de Bernard Haering, como fez o meu Professor, Mons Ferdinando Lambruschini. Surgiam nomes para as comiss&otilde;es preconciliares, Ann&iacute;bal Bugnini, meu professor, para a de liturgia&#8230; Repetia-se: aux sources! (&agrave;s fontes), esgrimido mais fidelidade e menos tradi&ccedil;&otilde;es seculares.<\/p>\n<p>O esvaziar dos grandes semin&aacute;rios e col&eacute;gios nacionais romanos de religiosos suscitava expectativas de mais voca&ccedil;&otilde;es na Igreja. O regresso ao esp&iacute;rito genu&iacute;no dos fundadores e aos Padres da Igreja e maior abertura &agrave; modernidade iria facilitar tudo e travar o abandono. O lema de Jo&atilde;o XXIII de buscar o que une antes de buscar o que separa, fazia crescer nalguns a expectativa de que protestantes, ortodoxos, comunistas, fi&eacute;is de f&eacute; cat&oacute;lica, vida laical e consagrada seria tudo igual. Relativismo?&nbsp;<\/p>\n<p>J&aacute; em Portugal em fun&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o o meu entusiasmo e expectativas cresciam ao rubro, quase em transe inocente, por 1963-65 no curso de psicologia no ISPA. Com a Constitui&ccedil;&atilde;o da Sagrada Liturgia em discuss&atilde;o e outros documentos anunciados as expectativas eram de que haveria mais participa&ccedil;&atilde;o, menos triunfalismo, mais realiza&ccedil;&atilde;o pessoal e autenticidade, mais fraternidade, igualdade; obedi&ecirc;ncia dialogada, pobreza sem mis&eacute;ria e castidade sem constrangimentos asc&eacute;ticos de teor masoquista. Voltar ao esp&iacute;rito dos fundadores com aggiornamento e renova&ccedil;&atilde;o de praticamente todas as &aacute;reas da vida da Igreja e da vida religiosa dava espectativas altas&#8230;O passado era quase t&aacute;bua rasa.<\/p>\n<p>Esperava-se muito do uso do vern&aacute;culo na liturgia, do altar voltado ao povo, do sacr&aacute;rio tirado do centro ou do padre de costas para ele, de igrejas sem genuflex&oacute;rios e sem adora&ccedil;&atilde;o ao SS. Sacramento. Jesus agora estava ao nosso n&iacute;vel, amigos, quase iguais. A fraternidade sem express&otilde;es de honra e sem lugares de presid&ecirc;ncia, de autoridade e preced&ecirc;ncia nos conventos &#8211; renovaria tudo. As mudan&ccedil;as democratizantes com autenticidade e mais esp&iacute;rito evang&eacute;lico refundariam os institutos, antes do risco de acabarem. As novas constitui&ccedil;&otilde;es ad experimentum iam ajudar&nbsp; a encher&nbsp; os noviciados e as&nbsp; igrejas. Entretanto os religiosos sentiam um desconforto sub-rept&iacute;cio com a <em>Lumen Gentium<\/em> e a <em>Perfectae Caritatis<\/em>. A LG punha a santidade ao alcance dos leigos e a PC mantinha&nbsp; a vida consagrada&nbsp; com perda do seu monop&oacute;lio&nbsp; de &ldquo;perfei&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Se os leigos podiam associar a santidade no mundo e as tarefas temporais (mundanas?), os consagrados ficavam a perder. Apesar das muitas a&ccedil;&otilde;es de forma&ccedil;&atilde;o, este mal-estar n&atilde;o era superado. No final dos anos sessenta deu-se a debandada. A apregoada autorrealiza&ccedil;&atilde;o psicol&oacute;gica, conceito amb&iacute;guo &agrave; luz da f&eacute;, misturou-se com as ideias loucas de Sarte, Marcuse, do maio de 68 e tantas outras, dos anos 1968-1975 e com os valores da liberdade quase absoluta e as livres escolhas. E foi levando &agrave; busca desenfreada de sucesso mundano, &agrave; autoidolatria, secularismo, relativismo, hedonismo egoc&ecirc;ntrico e consumismo. Estes ismos exacerbados poderiam ser ultrapassados com o ativismo apost&oacute;lico? As expectativas conciliares de centrar a vida de f&eacute; no seguimento radical de amor e servi&ccedil;o a Jesus Cristo v&atilde;o continuar presentes neste Ano da F&eacute; &ldquo;em nome de Deus antes e acima de tudo&rdquo; e confiando s&oacute; em Jesus Cristo (S. Jo&atilde;o de Deus).<\/p>\n<p><em>Aires Gameiro, Irm&atilde;os de S. Jo&atilde;o de Deus<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aires Gameiro, Irm\u00e3os de S. 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