{"id":57972,"date":"2012-09-07T10:19:00","date_gmt":"2012-09-07T10:19:00","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/09\/07\/conferencia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-7-o-simposio-do-clero\/"},"modified":"2012-09-07T10:19:00","modified_gmt":"2012-09-07T10:19:00","slug":"conferencia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-7-o-simposio-do-clero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/conferencia-do-cardeal-patriarca-de-lisboa-no-7-o-simposio-do-clero\/","title":{"rendered":"Confer\u00eancia do cardeal-patriarca de Lisboa no 7.\u00ba Simp\u00f3sio do Clero"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<strong>&ldquo;O Padre, peregrino da F&eacute;&rdquo;<\/strong><em>&nbsp;<\/em><\/p>\n<p>1. A vida de f&eacute;, vista como peregrina&ccedil;&atilde;o, tem grande tradi&ccedil;&atilde;o na linguagem crist&atilde;. O que define a peregrina&ccedil;&atilde;o &eacute; a atra&ccedil;&atilde;o por um ponto de chegada que se deseja como s&iacute;ntese &uacute;ltima da vida. Mas para se sentir atra&iacute;do por esse ponto de chegada, sup&otilde;e um ponto de partida, o presente, onde encontramos j&aacute; a not&iacute;cia desse fim definitivo. S&oacute; essa experi&ecirc;ncia presente faz desejar e d&aacute; for&ccedil;a para a caminhada do peregrino. Na vis&atilde;o b&iacute;blica da vida a protologia e a escatologia tocam-se e encontram-se.<\/p>\n<p>Entre a harmonia com Deus em que o homem foi criado, &#8220;&agrave; imagem e semelhan&ccedil;a&#8221;, quebrada com o pecado, e a plenitude eterna da comunh&atilde;o com Deus, h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o: um in&iacute;cio que anseia pela sua plenitude. A f&eacute; &eacute; a atitude que Deus planta no cora&ccedil;&atilde;o do homem para que, em etapa de reden&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o perca a not&iacute;cia de ser &#8220;imagem de Deus&#8221; e n&atilde;o esmore&ccedil;a no ardor do desejo de voltar a estar na intimidade com Deus. A f&eacute; n&atilde;o tem a harmonia do estado original nem a plenitude do estado definitivo. Ela &eacute; a atitude poss&iacute;vel do peregrino, do homem redimido do pecado mas ainda em busca da felicidade definitiva. Ela &eacute; fruto da reden&ccedil;&atilde;o, obra de Deus em n&oacute;s, como o foi a imagem de Deus com que fomos criados. O Evangelista S&atilde;o Jo&atilde;o di-lo claramente, pondo na boca de Jesus: &#8220;A obra de Deus &eacute; esta: crer n&#8217;Aquele que Ele enviou&#8221; (Jo. 6,29). Nunca conseguiremos ser peregrinos da f&eacute; se n&atilde;o tivermos sempre presente que acreditar em Jesus Cristo &eacute; obra de Deus em n&oacute;s.<\/p>\n<p>Porque a f&eacute; nos restitui o anseio da harmonia com Deus ela &eacute; o princ&iacute;pio da reden&ccedil;&atilde;o, d&aacute; sentido &agrave; vida, &eacute; fonte de seguran&ccedil;a no nosso caminhar. No hebraico antigo a palavra que traduzimos por acreditar significa sentir-se seguro, encontrar aquela firmeza que nos permite confiar. E a fonte dessa seguran&ccedil;a &eacute; percebermos que Deus nos ama, n&atilde;o nos abandonou. &Eacute; por isso que a Palavra com que Deus nos manifesta o seu amor e o seu des&iacute;gnio da salva&ccedil;&atilde;o &eacute; o in&iacute;cio da f&eacute;: acreditar &eacute; confiar, tomar a s&eacute;rio essa Palavra. Ela acompanha-nos durante toda a peregrina&ccedil;&atilde;o. Escut&aacute;-Ia sempre ajuda-nos a n&atilde;o desistir, permite-nos avan&ccedil;ar. Quando essa Palavra se revelou em Jesus Cristo, j&aacute; n&atilde;o &eacute; s&oacute; o que Ele nos diz, mas tudo o que Ele &eacute; para n&oacute;s, que se torna motivo dessa seguran&ccedil;a. S&atilde;o Jo&atilde;o tem raz&atilde;o: a grande obra de Deus em n&oacute;s &eacute; levar-nos a acreditar em Jesus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A f&eacute; &eacute; a porta por onde se entra na vida <\/strong><\/p>\n<p>2. Bento XVI proclamou um Ano da F&eacute;, para comemorar o quinquag&eacute;simo anivers&aacute;rio da abertura do Conc&iacute;lio Vaticano II. Ao olharmos a nossa vida de sacerdotes como uma peregrina&ccedil;&atilde;o de f&eacute;, temos de o fazer tomando a s&eacute;rio este Ano da F&eacute;.<\/p>\n<p>O Santo Padre apresenta a f&eacute; como uma porta &#8220;que introduz na vida de comunh&atilde;o com Deus e permite a entrada na sua Igreja&#8221;. &Eacute; uma porta sempre aberta para n&oacute;s &#8220;a atravessar aquela porta implica embrenhar-se num caminho que dura a vida inteira&#8221; (n.&ordm; 1). &#8220;&Eacute; preciso redescobrir o caminho da f&eacute; para fazer brilhar, com evid&ecirc;ncia sempre maior, a alegria e o renovado entusiasmo do encontro com Cristo&#8221; (n.&ordm; 2).<\/p>\n<p>No nosso caso de sacerdotes este encontro com Cristo &eacute; muito profundo: al&eacute;m de chamados a participar da sua vida nova, &#8220;na gra&ccedil;a batismal, Ele associou-nos ao seu minist&eacute;rio de amor &agrave; Igreja. Em cada ato do nosso minist&eacute;rio, h&aacute; um encontro de amor, atrav&eacute;s de n&oacute;s, Cristo ama a Igreja. Ecoa em n&oacute;s aquela Palavra que lembra aos homens que Deus os ama, que n&atilde;o desistiu deles. No nosso minist&eacute;rio descobrimo-nos a caminho, peregrinos da P&aacute;tria definitiva, n&atilde;o isoladamente, mas com a Igreja, o Povo do Senhor. Ou&ccedil;amos o Papa Bento XVI: &#8220;A Igreja no seu conjunto, e os Pastores nela, como Cristo devem p&ocirc;r-se a caminho para conduzir os homens fora do deserto, para lugares da vida, da amizade com o Filho de Deus, para Aquele que d&aacute; a vida, a vida em plenitude&#8221; (n.&ordm; 2).<\/p>\n<p>A f&eacute; n&atilde;o &eacute;, apenas, uma atitude da intelig&ecirc;ncia, &eacute; um projeto de vida, uma exig&ecirc;ncia de santidade. &Eacute; esse o longo caminho da nossa peregrina&ccedil;&atilde;o, por onde se entra pela f&eacute;. Dessa aventura de vida nova, o pr&oacute;prio Cristo afirmou: &#8220;Eu sou a Porta&#8221; e &#8220;Eu sou o Caminho&#8221;, para uma vida que &eacute; Ele pr&oacute;prio: &#8220;Eu sou a Vida&#8221;. H&aacute;, assim, uma afinidade &iacute;ntima entre a f&eacute; e Jesus Cristo. A caminhada da f&eacute; &eacute; feita com Jesus Cristo, vivendo como Ele vive e como quer que vivamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma peregrina&ccedil;&atilde;o com Jesus Cristo <\/strong><\/p>\n<p>3. No nosso caso de sacerdotes, esta peregrina&ccedil;&atilde;o envolve a nossa vida e o nosso minist&eacute;rio. No batismo escolhemo-lo a Ele como itiner&aacute;rio de vida; na ordena&ccedil;&atilde;o foi Ele que nos escolheu para fazermos com Ele a sua caminhada com a Igreja, como Pastor, sacerdote e redentor. Ele continua a fazer o caminho da miss&atilde;o que o Pai lhe confiou, at&eacute; ao dia em que entregue ao Pai a humanidade transformada. Quer faze-lo connosco e atrav&eacute;s de n&oacute;s. A nossa peregrina&ccedil;&atilde;o pessoal &eacute; indeslig&aacute;vel desta participa&ccedil;&atilde;o no minist&eacute;rio de Jesus Cristo. Ele quer que a sua fidelidade se exprima na nossa fidelidade. Por isso Ele deseja de n&oacute;s nada menos que uma identifica&ccedil;&atilde;o com Ele, no amor ao Pai, no amor &agrave; Igreja, na paix&atilde;o pela miss&atilde;o de salvar o mundo, numa maneira de viver digna de oferecer ao Pai, com Ele, o sacrif&iacute;cio da reden&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Esta identifica&ccedil;&atilde;o com Cristo &eacute; uma longa caminhada, que n&atilde;o se limita &agrave; vida terrena, mas nos abre para a eternidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Uma peregrina&ccedil;&atilde;o com a Igreja <\/strong><\/p>\n<p>4. Ao escolher-nos e consagrar-nos, Ele deu-nos &agrave; Igreja e quer que sejamos dignos de continuar a ser oferecidos em cada dia da nossa vida. Se a nossa uni&atilde;o a Cristo &eacute; a nossa surpresa e o nosso mist&eacute;rio, a Igreja &eacute; a nossa for&ccedil;a, o caminho certo para o nosso peregrinar. Peregrinos da f&eacute;, somo-lo da <strong>f&eacute; da Igreja <\/strong>e n&atilde;o da nossa f&eacute; pessoal, concebida &agrave; nossa maneira. Esta &eacute; a for&ccedil;a do crist&atilde;o e, de modo particular, de n&oacute;s sacerdotes: a nossa f&eacute; pessoal &eacute; a f&eacute; da Igreja. Na liturgia da confirma&ccedil;&atilde;o, depois da profiss&atilde;o de f&eacute; daqueles que se preparam para receber o Esp&iacute;rito Santo, o Bispo exclama: &#8220;esta &eacute; a nossa f&eacute;, esta &eacute; a f&eacute; da Igreja que nos gloriamos de professar&#8221;.<\/p>\n<p>Este &eacute; um dos aspetos mais apaixonantes da nossa peregrina&ccedil;&atilde;o. Sem negar as vicissitudes do tempo e da hist&oacute;ria, professarmos a mesma f&eacute; dos Ap&oacute;stolos de Jesus, expressa em nome dos doze pelo Ap&oacute;stolo Pedro. Quando alguns disc&iacute;pulos deixam de acreditar em Jesus e O abandonam, o Senhor pergunta aos doze: &#8220;Tamb&eacute;m v&oacute;s quereis ir embora?&#8221; E Sim&atilde;o Pedro responde-lhe: &#8220;Para quem iremos Senhor? Tu tens Palavras de vida eterna. N&oacute;s acreditamos e sabemos que Tu &eacute;s o Santo de Deus&#8221; (Jo 6,69). A Igreja, Povo do Senhor, &eacute; o verdadeiro sujeito da f&eacute;. Nela, os indiv&iacute;duos e os grupos podem afastar-se; mas o pr&oacute;prio Senhor vigia pela autenticidade do seu Povo, que Ele ama como Esposo. Por esta f&eacute; muitos derramaram o seu sangue, outros procuraram corajosamente exprimir na sua vida esta f&eacute; recebida dos Ap&oacute;stolos. Estes nossos irm&atilde;os na f&eacute; pertencem ainda a este mesmo povo crente, a sua fidelidade formou uma s&oacute;lida tradi&ccedil;&atilde;o, que &eacute; ainda hoje um crit&eacute;rio aferidor da autenticidade da f&eacute; da Igreja.<\/p>\n<p>&#8220;Pela f&eacute;, Maria acolheu a palavra do Anjo e acreditou no an&uacute;ncio de que seria M&atilde;e de Deus na obedi&ecirc;ncia da sua dedica&ccedil;&atilde;o (cf. Lc 1,38). Ao visitar Isabel, elevou o seu c&acirc;ntico de louvor ao Alt&iacute;ssimo pelas maravilhas que realizava em quantos a Ele se confiavam (cf. Lc 1,46-55). Com alegria e trepida&ccedil;&atilde;o, deu &agrave; luz o seu Filho Unig&eacute;nito, mantendo intacta a sua virgindade (cf. Lc 2,6-7). Confiando em Jos&eacute;, seu Esposo, levou Jesus para o Egito a fim de O salvar da persegui&ccedil;&atilde;o de Herodes (cf. Mt 2,13-15). Com a mesma f&eacute;, seguiu o Senhor na sua prega&ccedil;&atilde;o e permaneceu a seu lado mesmo no G&oacute;lgota (cf. Jo 19,25-27). Com f&eacute;, Maria saboreou os frutos da ressurrei&ccedil;&atilde;o de Jesus e, conservando no cora&ccedil;&atilde;o a mem&oacute;ria de tudo (cf. Lc 2,19.51), transmitiu-a aos Doze reunidos com Ela no Cen&aacute;culo para receberem o Esp&iacute;rito Santo (cf. Act 1,14; 2,1-4).<\/p>\n<p>Pela f&eacute;, os Ap&oacute;stolos deixaram tudo para seguir o Mestre (cf. Mc 10,28). Acreditaram nas palavras com que Ele anunciava o Reino de Deus presente e realizado na sua Pessoa (cf. Lc 11,20). Viveram em comunh&atilde;o de vida com Jesus, que os instru&iacute;a com a sua doutrina, deixando-Ihes uma nova regra de vida pela qual haveriam de ser reconhecidos como seus disc&iacute;pulos depois da morte d&#8217;Ele (cf. Jo 13,34-35). Pela f&eacute;, foram pelo mundo inteiro, obedecendo ao mandato de levar o Evangelho a toda a criatura (cf. Mc 16,15) e, sem temor algum, anunciaram a todos a alegria da ressurrei&ccedil;&atilde;o, de que foram fi&eacute;is testemunhas.<\/p>\n<p>Pela f&eacute;, os disc&iacute;pulos formaram a primeira comunidade reunida &agrave; volta do ensino dos Ap&oacute;stolos, na ora&ccedil;&atilde;o, na celebra&ccedil;&atilde;o da Eucaristia, pondo em comum aquilo que possu&iacute;am para acudir &agrave;s necessidades dos irm&atilde;os (cf. Act 2,42-47).<\/p>\n<p>Pela f&eacute;, os m&aacute;rtires deram a sua vida para testemunhar a verdade do Evangelho que os transformara, tornando-os capazes de chegar at&eacute; ao dom maior do amor com o perd&atilde;o dos seus pr&oacute;prios perseguidores.<\/p>\n<p>Pela f&eacute;, homens e mulheres consagraram a sua vida a Cristo, deixando tudo para viver em simplicidade evang&eacute;lica a obedi&ecirc;ncia, a pobreza e a castidade, sinais concretos de quem aguarda o Senhor, que n&atilde;o tarda a vir. Pela f&eacute;, muitos crist&atilde;os se fizeram promotores de uma a&ccedil;&atilde;o em prol da justi&ccedil;a, para tornar palp&aacute;vel a Palavra do Senhor, que veio anunciar a liberta&ccedil;&atilde;o da opress&atilde;o e um ano de gra&ccedil;a para todos (cf. Lc 4,18-19).<\/p>\n<p>Pela f&eacute;, no decurso dos s&eacute;culos, homens e mulheres de todas as idades, cujo nome est&aacute; escrito no Livro da vida (cf. Ap 7,9; 13,8), confessaram a beleza de seguir o Senhor Jesus nos lugares onde eram chamados a dar testemunho do seu ser crist&atilde;o: na fam&iacute;lia, na profiss&atilde;o, na vida p&uacute;blica, no exerc&iacute;cio dos carismas e minist&eacute;rios a que foram chamados.<\/p>\n<p>Pela f&eacute;, vivemos tamb&eacute;m n&oacute;s, reconhecendo o Senhor Jesus vivo e presente na nossa vida e na hist&oacute;ria&#8221; (n&ordm;13).<\/p>\n<p>Se o sacerdote no exerc&iacute;cio do seu minist&eacute;rio relativizar esta f&eacute; da Igreja e, ao sabor dos tempos, das teologias e correntes de opini&atilde;o, optar por uma maneira pessoal de acreditar, ele torna-se um &#8220;funcion&aacute;rio do sagrado&#8221;, deixa de ser pastor deste Povo que professa a f&eacute; dos Ap&oacute;stolos. A pr&oacute;pria Igreja, Povo crente, exige de n&oacute;s essa fidelidade e ajuda-nos nela. Quantas vezes no di&aacute;logo pastoral com os crentes sa&iacute;mos fortalecidos nesta fidelidade &agrave; f&eacute; da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Peregrinos da verdade <\/strong><\/p>\n<p>5. O que &eacute; a verdade, perguntou Pilatos a Jesus. Mas se ele O tivesse ouvido e acreditasse n&#8217;Ele, j&aacute; sabia a resposta: &#8220;Eu sou a verdade&#8221;, tinha dito Jesus. Ser a Porta, o Caminho e a Verdade s&atilde;o sin&oacute;nimos no ensinamento de Jesus.<\/p>\n<p>O problema da verdade &eacute; uma aventura apaixonante na hist&oacute;ria da humanidade. Religi&otilde;es, filosofias, correntes culturais, procuram influenciar as pessoas na busca da verdade. Ligada &agrave; sabedoria na tradi&ccedil;&atilde;o b&iacute;blica, tornou-se prisioneira da l&oacute;gica racional, apan&aacute;gio da ci&ecirc;ncia, assunto de opini&atilde;o. Sobretudo hoje, com os poderosos meios de comunica&ccedil;&atilde;o, tornou-se individual, relativizou a dimens&atilde;o comunit&aacute;ria de verdade de um Povo.<\/p>\n<p>Ser peregrino da f&eacute; &eacute;, necessariamente, ser peregrino da verdade. O sacerdote, no seu minist&eacute;rio, &eacute; ministro da verdade da Igreja, aquela que brota como luz que resplandece, da f&eacute; da Igreja. &Eacute; esta que ele tem de buscar em cada circunst&acirc;ncia e em cada tempo. Ele tem como minist&eacute;rio propor essa verdade, conduzir o Povo de Deus na compreens&atilde;o da vida &agrave; luz dessa verdade. As suas fontes t&ecirc;m de ser as da pr&oacute;pria Igreja: a Palavra de Deus, o Magist&eacute;rio aut&ecirc;ntico, a fidelidade &agrave; Tradi&ccedil;&atilde;o. &Eacute; preocupante saber de sacerdotes que, acerca de aspetos vitais, ousam dizer: a Igreja pensa que, mas eu penso de outro modo. Quantos ensinamentos s&atilde;o proferidos por sacerdotes, sobretudo na orienta&ccedil;&atilde;o pastoral dos fi&eacute;is, afastando-se da verdade da Igreja, expressa no seu Magist&eacute;rio aut&ecirc;ntico. Hoje, mais do que nunca, ser peregrino da verdade sup&otilde;e fidelidade e convers&atilde;o cont&iacute;nua.<\/p>\n<p>Refiro, a t&iacute;tulo de exemplo, com tristeza e preocupa&ccedil;&atilde;o, as correntes atuais de reinterpreta&ccedil;&atilde;o do Magist&eacute;rio do Conc&iacute;lio Vaticano II. Aconselho-vos a reler os documentos conciliares acerca do minist&eacute;rio sacerdotal, sobretudo a &#8220;Lumen Gentium&#8221; e a &#8220;Presbiterorum Ordinis&#8221;. E tomemos a s&eacute;rio a afirma&ccedil;&atilde;o de Bento XVI na &#8220;Porta da F&eacute;&#8221;: &#8220;Pareceu-me que fazer coincidir o in&iacute;cio do Ano da F&eacute; com o cinquenten&aacute;rio da abertura do Conc&iacute;lio Vaticano II poderia ser uma ocasi&atilde;o prop&iacute;cia para compreender que os textos deixados em heran&ccedil;a pelos Padres Conciliares, segundo as palavras do Beato Jo&atilde;o Paulo II, &laquo;n&atilde;o perdem o seu valor nem a sua beleza. &Eacute; necess&aacute;rio faz&ecirc;-los ler de forma tal que possam ser conhecidos e assimilados como textos qualificados e normativos do Magist&eacute;rio, no &acirc;mbito da Tradi&ccedil;&atilde;o da Igreja. Sinto hoje ainda mais intensamente o dever de indicar o Conc&iacute;lio como a grande gra&ccedil;a de que beneficiou a Igreja no s&eacute;culo XX: nele se encontra uma b&uacute;ssola segura para nos orientar no caminho do s&eacute;culo que come&ccedil;a&raquo;. Quero aqui repetir com veem&ecirc;ncia as palavras que disse a prop&oacute;sito do Conc&iacute;lio poucos meses depois da minha elei&ccedil;&atilde;o para Sucessor de Pedro: &laquo;Se o lermos e recebermos guiados por uma justa hermen&ecirc;utica, o Conc&iacute;lio pode ser e tornar-se cada vez mais uma grande for&ccedil;a para a renova&ccedil;&atilde;o sempre necess&aacute;ria da Igreja&#8221; (n.&ordm; 5).<\/p>\n<p>Esta confirmada atualidade do Conc&iacute;lio torna desvios da verdade todas as suas leituras que n&atilde;o sejam motivadas por uma s&atilde; hermen&ecirc;utica. O Conc&iacute;lio Vaticano II e o vasto Magist&eacute;rio dos Papas s&atilde;o a b&uacute;ssola indispens&aacute;vel nesta nossa peregrina&ccedil;&atilde;o da verdade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Peregrinos da caridade <\/strong><\/p>\n<p>6. A peregrina&ccedil;&atilde;o da f&eacute; conduz-nos &agrave; caridade, ainda sem a luminosidade do amor definitivo, mas com a generosidade firme de quem acredita, isto &eacute;, de quem deseja e se sente a caminho do amor. Na ora&ccedil;&atilde;o eucar&iacute;stica rezamos: &#8220;Lembrai-vos Senhor da Vossa Igreja&#8230; tornai-a perfeita na caridade&#8221;. &Eacute; o mesmo que pedir, &#8220;torna-a perfeita na f&eacute;&#8221;. &Eacute; algo que devemos procurar nesta peregrina&ccedil;&atilde;o, fazer dos nossos atos de f&eacute;, atos de amor, express&otilde;es da caridade. Dizer &#8220;eu amo&#8221; sempre que digo &#8220;eu creio&#8221;.<\/p>\n<p>O Santo Padre afirma: &#8220;A f&eacute; sem caridade n&atilde;o d&aacute; fruto, e a caridade sem f&eacute; seria um sentimento constantemente &agrave; merc&ecirc; da d&uacute;vida. F&eacute; e caridade reclamam-se mutuamente, de tal modo que uma consente &agrave; outra de realizar o seu caminho&#8221; (n.&ordm; 14).<\/p>\n<p>A caridade &eacute; sempre experi&ecirc;ncia de Deus, participa&ccedil;&atilde;o no pr&oacute;prio amor de Deus. Este texto foi escrito no dia de Santo Agostinho e, por isso, n&atilde;o resisto a cit&aacute;-lo: &#8220;Oh eterna verdade, verdadeira caridade e cara eternidade! V&oacute;s sois o meu Deus; por V&oacute;s suspiro dia e noite&#8221;.<\/p>\n<p>A busca da caridade envolve toda a vida do sacerdote: o amor pastoral por aqueles que lhe foram confiados; o fazer comunh&atilde;o, com a Igreja, Povo de Deus, com os outros sacerdotes, com o seu Bispo, a solicitude pelos pobres e pelos doentes, etc. &Eacute; preciso interiorizar que a peregrina&ccedil;&atilde;o da f&eacute; e a da caridade, s&atilde;o uma &uacute;nica caminhada. Aprofundar a f&eacute; &eacute; abrir-se &agrave; caridade. Volto a citar Bento XVI, na &#8220;Porta da F&eacute;&#8221;: &#8220;J&aacute; no termo da sua vida, o ap&oacute;stolo Paulo pede ao disc&iacute;pulo Tim&oacute;teo que &laquo;procure a f&eacute;&raquo; (cf. 2Tm 2,22) com a mesma const&acirc;ncia de quando era novo (cf. 2Tm 3,15). Sintamos este convite dirigido a cada um de n&oacute;s, para que ningu&eacute;m se torne indolente na f&eacute;. Esta &eacute; companheira de vida, que permite perceber, com um olhar sempre novo, as maravilhas que Deus realiza por n&oacute;s. Sol&iacute;cita a identificar os sinais dos tempos no hoje da hist&oacute;ria, a f&eacute; obriga cada um de n&oacute;s a tornar-se sinal vivo da presen&ccedil;a do Ressuscitado no mundo. Aquilo de que o mundo tem hoje particular necessidade &eacute; o testemunho cred&iacute;vel de quantos, iluminados na mente e no cora&ccedil;&atilde;o pela Palavra do Senhor, s&atilde;o capazes de abrir o cora&ccedil;&atilde;o e a mente de muitos outros ao desejo de Deus e da vida verdadeira, aquela que n&atilde;o tem fim.<\/p>\n<p>Que &laquo;a Palavra do Senhor avance e seja glorificada&raquo; (2Ts 3,1)! Possa este Ano da F&eacute; tornar cada vez mais firme a rela&ccedil;&atilde;o com Cristo Senhor, dado que s&oacute; n&#8217;Ele temos a certeza para olhar o futuro e a garantia dum amor aut&ecirc;ntico e duradouro. As seguintes palavras do Ap&oacute;stolo Pedro lan&ccedil;am um &uacute;ltimo jorro de luz sobre a f&eacute;: &laquo;&Eacute; por isso que exultais de alegria, se bem que, por algum tempo, tenhais de andar aflitos por diversas prova&ccedil;&otilde;es; deste modo, a qualidade genu&iacute;na da vossa f&eacute; &#8211; muito mais preciosa do que o ouro perec&iacute;vel, por certo tamb&eacute;m provado pelo fogo &#8211; ser&aacute; achada digna de louvor, de gl&oacute;ria e de honra, na altura da manifesta&ccedil;&atilde;o de Jesus Cristo. Sem O terdes visto, v&oacute;s O amais; sem O ver ainda, credes n&#8217;Ele e vos alegrais com uma alegria indescrit&iacute;vel e irradiante, alcan&ccedil;ando assim a meta da vossa f&eacute;: a salva&ccedil;&atilde;o das almas&raquo; (1 Ped 1,6-9). A vida dos crist&atilde;os conhece a experi&ecirc;ncia da alegria e a do sofrimento. Quantos Santos viveram na solid&atilde;o! Quantos crentes, mesmo em nossos dias, provados pelo sil&ecirc;ncio de Deus, cuja voz consoladora queriam ouvir! As provas da vida, ao mesmo tempo que permitem compreender o mist&eacute;rio da Cruz e participar nos sofrimentos de Cristo (cf. CI 1,24), s&atilde;o prel&uacute;dio da alegria e da esperan&ccedil;a a que a f&eacute; conduz: &laquo;Quando sou fraco, ent&atilde;o &eacute; que sou forte&raquo; (2 Cor 12,10). Com firme certeza, acreditamos que o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte. Com esta confian&ccedil;a segura, confiamo-nos a Ele: Ele, presente no meio de n&oacute;s, vence o poder do maligno (cf. Lc 11,20); e a Igreja, comunidade vis&iacute;vel da sua miseric&oacute;rdia, permanece n&#8217;Ele como sinal da reconcilia&ccedil;&atilde;o definitiva com o Pai.<\/p>\n<p>&Agrave; M&atilde;e de Deus, proclamada &laquo;feliz porque acreditou&raquo; (cf. Lc 1, 45), confiamos este tempo de gra&ccedil;a&#8221; (n&ordm;15).<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>7. A peregrina&ccedil;&atilde;o da f&eacute; e da caridade definem a nossa busca da santidade e esta resume a qualidade da vida nova, em Cristo e com Cristo. A santidade do sacerdote &eacute; importante para a fecundidade do seu minist&eacute;rio. H&aacute; uma sintonia, ao n&iacute;vel do ser, entre a santidade da a&ccedil;&atilde;o de Cristo, exercida atrav&eacute;s de n&oacute;s, e a nossa vida vivida em busca da santidade. &Eacute; verdade que o nosso pecado n&atilde;o anula a efic&aacute;cia do nosso minist&eacute;rio, mas a santidade de vida do sacerdote ajuda aqueles a quem se dirige a a&ccedil;&atilde;o sagrada a abrirem-se mais profundamente &agrave; a&ccedil;&atilde;o de Deus.<\/p>\n<p>Essa &eacute; a raz&atilde;o pela qual, na tradi&ccedil;&atilde;o latina s&oacute; se ordenaram aqueles que tinham feito a op&ccedil;&atilde;o pelos conselhos evang&eacute;licos: a obedi&ecirc;ncia, como consagra&ccedil;&atilde;o da nossa vontade &agrave; vontade salv&iacute;fica de Cristo, perene na Igreja atrav&eacute;s do minist&eacute;rio apost&oacute;lico; a pobreza, como ren&uacute;ncia a fazer dos bens materiais um fim em si mesmos, dando prioridade absoluta aos dinamismos da salva&ccedil;&atilde;o; a castidade, consagrada no celibato, como experi&ecirc;ncia viva da prioridade absoluta na realiza&ccedil;&atilde;o da nossa voca&ccedil;&atilde;o de amor ao amor de Cristo pela sua Igreja. N&atilde;o h&aacute; agora espa&ccedil;o para falar da viv&ecirc;ncia destes conselhos evang&eacute;licos na vida do sacerdote. Mas em todos eles h&aacute; uma longa peregrina&ccedil;&atilde;o, a percorrer com a humildade de quem sabe que s&oacute; com as suas for&ccedil;as n&atilde;o ser&aacute; testemunha do objeto da nossa esperan&ccedil;a: viver desde j&aacute; ao ritmo dos &#8220;novos c&eacute;us e da nova terra&#8221;.<\/p>\n<p>F&aacute;tima, 7 de setembro de 2012<\/p>\n<p><em>D. Jos&eacute; Policarpo<\/em><em>, cardeal-patriarca de Lisboa<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&ldquo;O Padre, peregrino da F&eacute;&rdquo;&nbsp; 1. A vida de f&eacute;, vista como peregrina&ccedil;&atilde;o, tem grande tradi&ccedil;&atilde;o na linguagem crist&atilde;. O que define a peregrina&ccedil;&atilde;o &eacute; a atra&ccedil;&atilde;o por um ponto de chegada que se deseja como s&iacute;ntese &uacute;ltima da vida. Mas para se sentir atra&iacute;do por esse ponto de chegada, sup&otilde;e um ponto de partida, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[120,168,246],"class_list":["post-57972","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-bento-xvi","tag-diocese-da-guarda","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57972","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=57972"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/57972\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=57972"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=57972"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=57972"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}