{"id":57327,"date":"2012-07-10T12:26:55","date_gmt":"2012-07-10T12:26:55","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2012\/07\/10\/silencio-e-oracao\/"},"modified":"2012-07-10T12:26:55","modified_gmt":"2012-07-10T12:26:55","slug":"silencio-e-oracao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/silencio-e-oracao\/","title":{"rendered":"Sil\u00eancio e ora\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Fr. Enzo Bianchi, prior da Comunidade Mon\u00e1stica de Bose, It\u00e1lia <!--more--> <\/p>\n<p>A tradi&ccedil;&atilde;o espiritual e asc&eacute;tica sempre reconheceu a essencialidade do sil&ecirc;ncio para um verdadeiro caminho espiritual e de ora&ccedil;&atilde;o. &ldquo;A ora&ccedil;&atilde;o tem como pai o sil&ecirc;ncio e como m&atilde;e a solid&atilde;o&rdquo;, disse um grande homem espiritual. S&oacute; o sil&ecirc;ncio, de facto, torna poss&iacute;vel a escuta, isto &eacute;, o acolhimento em si n&atilde;o s&oacute; da Palavra, mas tamb&eacute;m da presen&ccedil;a daquele que fala. Assim, o sil&ecirc;ncio abre o crist&atilde;o &agrave; experi&ecirc;ncia da inabita&ccedil;&atilde;o de Deus: o Deus que procuramos seguindo na f&eacute; Cristo ressuscitado, &eacute; o Deus que n&atilde;o &eacute; estranho a n&oacute;s mas habita em n&oacute;s. Diz Jesus no quarto Evangelho: &ldquo;Se algu&eacute;m me tem amor, h&aacute; de guardar a minha palavra; e o meu Pai o amar&aacute;, e n&oacute;s viremos a ele e nele faremos morada&rdquo; (Jo 14,23). O sil&ecirc;ncio &eacute; linguagem de amor, de profundidade, de presen&ccedil;a do outro.<\/p>\n<p>Infelizmente, hoje o sil&ecirc;ncio &eacute; raro, &eacute; a coisa que mais falta ao homem moderno, assoberbado por murm&uacute;rios, bombardeado por mensagens sonoras e visuais, derrubado da sua interioridade, quase ca&iacute;do longe dela.<\/p>\n<p>&Eacute; preciso confessar: temos necessidade do sil&ecirc;ncio! Temos necessidade dele de um ponto de vista puramente antropol&oacute;gico, porque o homem, que &eacute; um ser de rela&ccedil;&atilde;o, comunica de modo equilibrado e significativo apenas gra&ccedil;as &agrave; rela&ccedil;&atilde;o harm&oacute;nica entre palavra e sil&ecirc;ncio. Contudo, temos necessidade de sil&ecirc;ncio tamb&eacute;m do ponto de vista espiritual, como alimento prim&aacute;rio da nossa ora&ccedil;&atilde;o e da vida interior. Para o cristianismo o sil&ecirc;ncio &eacute; uma dimens&atilde;o n&atilde;o apenas antropol&oacute;gica, mas teol&oacute;gica: sozinho no monte Horeb, o profeta Elias ouviu primeiro um vento impetuoso, depois um terramoto, em seguida um fogo e por fim o &ldquo;murm&uacute;rio de uma brisa suave&rdquo; (1 Re 19,12). Ao ouvir esta &uacute;ltima, Elias cobriu o rosto com um manto e colocou-se na presen&ccedil;a de Deus. Deus torna-se presente a Elias no sil&ecirc;ncio, um sil&ecirc;ncio eloquente. A revela&ccedil;&atilde;o do Deus b&iacute;blico n&atilde;o passa s&oacute; pela palavra, mas acontece tamb&eacute;m no sil&ecirc;ncio.<\/p>\n<p>In&aacute;cio de Antioquia diz que Cristo &eacute; &ldquo;a Palavra que procede do sil&ecirc;ncio&rdquo;. O Deus que se revela no sil&ecirc;ncio e na palavra exige a escuta do homem e para a escuta &eacute; essencial o sil&ecirc;ncio. N&atilde;o se trata, por certo, de abster-se simplesmente de falar, mas do sil&ecirc;ncio interior, aquela dimens&atilde;o que nos devolve a n&oacute;s pr&oacute;prios, que nos coloca sobre o plano do ser, diante do essencial. &ldquo;No sil&ecirc;ncio est&aacute; inserido um maravilhoso poder de observa&ccedil;&atilde;o, de clarifica&ccedil;&atilde;o, de concentra&ccedil;&atilde;o sobre as coisas essenciais&rdquo; (Dietrich Bonhoeffer). &Eacute; do sil&ecirc;ncio que pode nascer uma palavra aguda, penetrante, comunicativa, sensata, luminosa, ousaria mesmo dizer terap&ecirc;utica, capaz de consolar. O sil&ecirc;ncio &eacute; o guardi&atilde;o da interioridade.<\/p>\n<p>&Eacute; verdade que se trata de um sil&ecirc;ncio definido t&atilde;o negativamente como sobriedade e disciplina no falar, at&eacute; chegar &agrave; absten&ccedil;&atilde;o das palavras, mas que passa deste primeiro momento para uma dimens&atilde;o interior, isto &eacute;, o fazer calar os pensamentos, as imagens, as revoltas, os ju&iacute;zos, os murm&uacute;rios que nascem no cora&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>De facto, &eacute; &ldquo;do interior do cora&ccedil;&atilde;o dos homens que saem os maus pensamentos&rdquo; (Mc 7,21). &Eacute; dif&iacute;cil o sil&ecirc;ncio interior, aquele que se joga no cora&ccedil;&atilde;o, lugar de luta espiritual, mas este sil&ecirc;ncio profundo gera caridade, aten&ccedil;&atilde;o, acolhimento, empatia diante do outro.<\/p>\n<p>Sim, o sil&ecirc;ncio escava no mais profundo de n&oacute;s um espa&ccedil;o para fazer habitar o Outro, para deixar permanecer na sua Palavra, para radicar em n&oacute;s o amor pelo Senhor; ao mesmo tempo, em liga&ccedil;&atilde;o a isto, disp&otilde;e-nos &agrave; escuta inteligente, &agrave; palavra medida, ao discernimento do cora&ccedil;&atilde;o do outro, daquilo que o queima no seu &iacute;ntimo e que est&aacute; encerrado no sil&ecirc;ncio do qual nascem as suas palavras. O sil&ecirc;ncio, ent&atilde;o aquele sil&ecirc;ncio, suscita em n&oacute;s a caridade, o amor pelo irm&atilde;o e, por consequ&ecirc;ncia, a capacidade de intercess&atilde;o, de ora&ccedil;&atilde;o pelo outro, bem como a a&ccedil;&atilde;o de gra&ccedil;as pelo encontro que aconteceu. Assim o duplo mandamento do amor de Deus e do pr&oacute;ximo &eacute; cumprido por quem sabe guardar o sil&ecirc;ncio. Por isso, Bas&iacute;lio p&ocirc;de dizer: &ldquo;O silencioso torna-se fonte de gra&ccedil;a para quem escuta&rdquo;. Neste ponto, pode repetir-se, sem receio de cair em mera ret&oacute;rica, a afirma&ccedil;&atilde;o de E. Rostand: &ldquo;O sil&ecirc;ncio &eacute; o canto mais perfeito, a ora&ccedil;&atilde;o mais alta&rdquo;. Ao conduzir &agrave; escuta de Deus e ao amor pelo irm&atilde;o, &agrave; caridade aut&ecirc;ntica, isto &eacute;, &agrave; vida em Cristo (e n&atilde;o a um vazio interior gen&eacute;rico e est&eacute;ril), o sil&ecirc;ncio &eacute; ora&ccedil;&atilde;o verdadeiramente crist&atilde; e agrad&aacute;vel a Deus. &Eacute; este o sil&ecirc;ncio que chega a n&oacute;s de uma longa hist&oacute;ria espiritual, &eacute; o sil&ecirc;ncio procurado e praticado pelos hesicastas para obter a unifica&ccedil;&atilde;o do cora&ccedil;&atilde;o, &eacute; o sil&ecirc;ncio da tradi&ccedil;&atilde;o mon&aacute;stica finalizado no acolhimento em si da palavra de Deus, &eacute; o sil&ecirc;ncio da ora&ccedil;&atilde;o de adora&ccedil;&atilde;o da presen&ccedil;a de Deus, &eacute; o sil&ecirc;ncio caro aos m&iacute;sticos de qualquer tradi&ccedil;&atilde;o religiosa e, acima de tudo, &eacute; o sil&ecirc;ncio do qual &eacute; rica a linguagem po&eacute;tica, &eacute; o sil&ecirc;ncio que constitui a pr&oacute;pria mat&eacute;ria da m&uacute;sica, &eacute; o sil&ecirc;ncio essencial a qualquer ato comunicativo.<\/p>\n<p>O sil&ecirc;ncio, acontecimento de profundidade e de unifica&ccedil;&atilde;o, torna eloquente o corpo, conduzindo-nos a habitar o nosso corpo, a habitar a nossa vida interior, guiando-nos ao habitare secum t&atilde;o precioso para a tradi&ccedil;&atilde;o mon&aacute;stica. O corpo habitado pelo sil&ecirc;ncio torna-se revela&ccedil;&atilde;o da pessoa. O cristianismo contempla Jesus como Palavra feita carne, mas tamb&eacute;m como sil&ecirc;ncio de Deus: os evangelhos mostram um Jesus que, quanto mais se adentra na paix&atilde;o, cada vez mais se cala, entra no sil&ecirc;ncio, como cordeiro sem voz, como aquele que, conhecendo a verdade, sabendo o indiz&iacute;vel fundo da realidade, n&atilde;o pode nem quer trair o inef&aacute;vel com a palavra, mas guarda-o com o sil&ecirc;ncio. Jesus que &ldquo;n&atilde;o abre a sua boca&rdquo; mostra o sil&ecirc;ncio como aquilo que &eacute; verdadeiramente forte, faz do seu sil&ecirc;ncio um ato, uma a&ccedil;&atilde;o. E precisamente por isso poder&aacute; fazer tamb&eacute;m da sua morte um ato, um gesto de um vivente, para que seja claro que por tr&aacute;s da palavra e do sil&ecirc;ncio, aquilo que &eacute; verdadeiramente salv&iacute;fico &eacute; o amor que vivifica um e outro.<\/p>\n<p><em>Fr. Enzo Bianchi,<br \/>prior da Comunidade Mon&aacute;stica&nbsp;de Bose, It&aacute;lia<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fr. 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